Rendeira Calendário · Capítulo 26 de 31
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Rendeira

RENDEIRA

A Consuelo Pinheiro

Maos de nortista

feitas de flor e de romas.

Pequenas,

pequeninas mãos gentis, cheias de afago,

e que traduzem pela cor morena

do mel mais roseo o perfumoso bago.

Eil-as, inda uma vez, graceis, junto a almofada,

rendas tecendo e os bilros meneando,

trocando um, trocando outro,

num sonoro ruflar de castanholas!

Eil-as inda uma vez — tecendo a renda,

renda tao leve que fluctua ao vento...

Como eu as vejo no meu pensamento,

urdindo a trama delicada,

prende

de um noivado de fadas e de sonhos...

Tecei! Tecei! de lado a lado.

E na linha que vae e na linha que vem,

na laçada, no ponto, no entremeio,

bordae a graça que esses dedos tem...

... E qual de todos nos, sorrindo a adolescencia,

num dia azul, a alma a surprehender,

não sentiu junto a si as mãos da rendeira encantada,

para os sonhos da vida e as illusoes tecer?...

Tece feliz rendeirazinha!

e na linha que vae e na linha que vem —

Maos de mulher, mãos de nortista,

deixae a graça que esses dedos tem...

Que um dia —

quando ja fores bem velhinha,

— mãos de benção, rezando em ladainha

teu rosario de mágoa e de saudade:

as tuas rendas, as tuas lindas rendas, ja esgargadas,

como os sonhos perdidos pelo além —

não mais hao de lembrar de tuas mãos pequenas

o encanto e a graça que esses dedos tem.

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