Rendeira
RENDEIRA
A Consuelo Pinheiro
Maos de nortista
feitas de flor e de romas.
Pequenas,
pequeninas mãos gentis, cheias de afago,
e que traduzem pela cor morena
do mel mais roseo o perfumoso bago.
Eil-as, inda uma vez, graceis, junto a almofada,
rendas tecendo e os bilros meneando,
trocando um, trocando outro,
num sonoro ruflar de castanholas!
Eil-as inda uma vez — tecendo a renda,
renda tao leve que fluctua ao vento...
Como eu as vejo no meu pensamento,
urdindo a trama delicada,
prende
de um noivado de fadas e de sonhos...
Tecei! Tecei! de lado a lado.
E na linha que vae e na linha que vem,
na laçada, no ponto, no entremeio,
bordae a graça que esses dedos tem...
... E qual de todos nos, sorrindo a adolescencia,
num dia azul, a alma a surprehender,
não sentiu junto a si as mãos da rendeira encantada,
para os sonhos da vida e as illusoes tecer?...
Tece feliz rendeirazinha!
e na linha que vae e na linha que vem —
Maos de mulher, mãos de nortista,
deixae a graça que esses dedos tem...
Que um dia —
quando ja fores bem velhinha,
— mãos de benção, rezando em ladainha
teu rosario de mágoa e de saudade:
as tuas rendas, as tuas lindas rendas, ja esgargadas,
como os sonhos perdidos pelo além —
não mais hao de lembrar de tuas mãos pequenas
o encanto e a graça que esses dedos tem.