Rosa negra
ROSA NEGRA
"BAHIANA QUITANDEIRA"
(Versos á "Maria dos Doces")
Este poema que focaliza um dos typos mais
tradicionaes do Brasil, tem sua historia authen-
tica através de uma vida de mulher que foi "Ba-
hiana de Doces" e a mais abnegada de todas as
"Mães Pretas."
Negra! -
Rosto de ebano e azeviche,
lenço amarrado em ponta
sobre os cabellos quasi a branquejar
Mil pulseiras de contas e um fetiche
entre os seios e as rendas da camisa
junto às figas suspensas do collar!...
Negra!
Tinha as faces de ebano e azeviche
mas uns olhos de benção e de luar!...
Quanta vez,
na minha meninice —
que encanto tinha para mim —
vel-a soprando a brasa ao fogareiro,
saias rodadas,
sandalinhas curtas,
com os seus coraes bizarros, rebrilhando
à luz da vela do seu taboleiro,
de bolinhos de arroz e macacheira,
de cocadinhas e de gergelim..."
Encostada ao portal nos dias de festa,
ou á beira da calçada,
a "Bahiana", em seu banquinho, alegre e descuidada,
passava (e em volta a ella a meninada)
horas sem fim!...
Negra! —
E aquelle rosto de ebano e azeviche,
com o seu cabello quasi a branquejar —
— era — e com ella o taboleiro —
como um fetiche para o meu olhar...
Tudo passa com a vida?...
Ha porém
sempre coisas que ficam e que ninguém esquece,
Ninguém!...
Negra!
E aquella face de ebano e azeviche
em minha lembrança
que é o meu cinema espiritual,
passa —
Perdeu-se ao tempo o taboleiro...
Resta somente o seu fetiche
junto aos seios de seda e noite escura —
— uma carinha, rosea e nascitura
a sonhar!
E a minh'alma que é velha e é criança
vae sorvendo um a um, com essa lembrança,
aquelles favos bons,
doces,
tao doces
dos seus olhos de benção e de luar!