Rosa negra Calendário · Capítulo 28 de 31
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Rosa negra

ROSA NEGRA

"BAHIANA QUITANDEIRA"

(Versos á "Maria dos Doces")

Este poema que focaliza um dos typos mais

tradicionaes do Brasil, tem sua historia authen-

tica através de uma vida de mulher que foi "Ba-

hiana de Doces" e a mais abnegada de todas as

"Mães Pretas."

Negra! -

Rosto de ebano e azeviche,

lenço amarrado em ponta

sobre os cabellos quasi a branquejar

Mil pulseiras de contas e um fetiche

entre os seios e as rendas da camisa

junto às figas suspensas do collar!...

Negra!

Tinha as faces de ebano e azeviche

mas uns olhos de benção e de luar!...

Quanta vez,

na minha meninice —

que encanto tinha para mim —

vel-a soprando a brasa ao fogareiro,

saias rodadas,

sandalinhas curtas,

com os seus coraes bizarros, rebrilhando

à luz da vela do seu taboleiro,

de bolinhos de arroz e macacheira,

de cocadinhas e de gergelim..."

Encostada ao portal nos dias de festa,

ou á beira da calçada,

a "Bahiana", em seu banquinho, alegre e descuidada,

passava (e em volta a ella a meninada)

horas sem fim!...

Negra! —

E aquelle rosto de ebano e azeviche,

com o seu cabello quasi a branquejar —

— era — e com ella o taboleiro —

como um fetiche para o meu olhar...

Tudo passa com a vida?...

Ha porém

sempre coisas que ficam e que ninguém esquece,

Ninguém!...

Negra!

E aquella face de ebano e azeviche

em minha lembrança

que é o meu cinema espiritual,

passa —

Perdeu-se ao tempo o taboleiro...

Resta somente o seu fetiche

junto aos seios de seda e noite escura —

— uma carinha, rosea e nascitura

a sonhar!

E a minh'alma que é velha e é criança

vae sorvendo um a um, com essa lembrança,

aquelles favos bons,

doces,

tao doces

dos seus olhos de benção e de luar!

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