Catadupas Calendário · Capítulo 16 de 31
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Catadupas

NA SOMBRA DA MONTANHA

CATADUPAS

A' Maria Eugenia Celso

Agua de onde provens?

De que mysterioso seio?

Fonte — dize porque de ti, como de um cantaro,

jorra a água da pedra!...

E em borbotoes, do alto desta montanha,

se precipita e rola e em pororoca espouca!...

E desce!...

E cae,

rolando em gorgolões, de lagedo em lagedo,

de degrau em degrau,

de penedo em penedo,

na repolida espalda, salto em salto...

corre, borrifa, aljofra

e a prata fluida das espumas embate!

E logo — e novamente vem!

E corre — e se accelera — e rola!

Ganha o abysmo e se esboroa,

chia, reboa e rue, sussurra, ulula e canta.

nas escarpadas pedras da garganta,

partindo os seus crystaes de espelho em fragmentos,

ergue aos cimos a voz altisonante e rouca!

Ah! Eu creio que has de ser, Fonte, como a fonte do olhar —

de onde o pranto provem,

a lágrima dimana

e no soluço canta,

através do gemido rouco da garganta,

na exaltação da dor,

no pungir da saudade!

E porque não has de ser — Agua — a lágrima da Terra?

E porque não hei de ser, também, neste momento, um poeta?

Si eu entendo o soffrer,

a poesia e a dor vibrando em tuas entranhas

nas cascatas branquissimas que choram

dos olhos dos grotoes, as orbitas sombrias

da petrea e escalavrada face das montanhas!

Agua,

has de ter por força um genetriz mysterio!

A tua lágrima e dor — a tua voz um grito

como os uivos dos ventos lúgubres, que aterram

e enchem de agouro o coração da noite!

Agua!

da noite que se recama em soes no estellar das nebulosas

para chorar, também como tu, no Infinito,

as lágrimas de Deus, na luz branca dos astros.

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