Crepúsculo interior
O INVERNO
CREPUSCULO INTERIOR
Accendes o abajour "pervenche" e illuminas a escada.
Rebrilham os teus gobelins e as tuas rendas de Bruges,
E' tarde!... (E que tarde de inverno!...)
Um beijo!... Apenas um! E deixo-te!...
E lá fora
como peza esconder a glória de um momento,
na cambraia de um lenço — o teu único beijo
e que em minha bocca ficou numa estrella de "rouge"
E' forçoso esquecer o adeus si o teu jovial carinho
apaga do coração todo o horror da partida!...
Bem quizera voltar pelo prazer supremo,
de renovar, indefinidamente,
a mesma despedida.
E aqui fora este frio!
E o mar e o céu em laivos de ouro e rosa...
E vem dos astros o esplendor das joias
reflectir-se nos verdes da salsuge!...
Mas que importa este céu?...
Si elle não vale a glória
de um lenço que se aperta
escondendo a lembrança
de uma alma de mulher na relíquia de um beijo
que é a saudade a brilhar numa estrella de "rouge"!