O faro das bestas-feras
Por espaço de quatro anos se gozou Heitor Dias das doces reminiscências de infância, sem querer saber de estudos nem do destino. Os pais não o incitavam a empregar seu tempo em letras que lhe abrissem carreira de glória. Fechada sabiam eles que ela estava aos hebreus, salvo a das ciências; folgariam de o ver luzir entre os famigerados Zacutos; mas muito mais se compraziam de o ter entre si a recado de toda a suspeita de inimigos e do perigo de se relacionar com imprudentes amigos.
Decorridos, porém, quatro anos, em 1703, Heitor Dias da Paz pediu ao pai que o deixasse ir estudar medicina a Coimbra, porque lhe era já pesada a ociosidade e desvalia de sua vida. Francisco de Moraes, confiado na discrição do moço, concedeu-lhe licença. Heitor pediu que o deixasse levar com ele o seu irmãozinho Brás Luís, para, desde os dez anos, o ir encaminhando nos estudos conducentes à carreira da medicina. A generosa lembrança foi aplaudida pelos velhos, e o pequeno agradeceu-a com lágrimas de alegria.
Do pupilo ou, segundo as presunções do vulgo de Coimbra, filho do doutor Abreu, já ninguém se lembrava quando, corridos cinco anos, lá voltou. Heitor a ninguém disse de quem fosse aquele menino. Apresentava-o como órfão pobrinho, cuja educação ele tomara a seu cargo. O pequeno já também mal se recordava dos seus benfeitores, e quando falava de algum deles, chamando-lhes pai ou mãe, o filho de Francisco de Moraes recomendava-lhe que a pessoas estranhas não dissesse nada do pouco de que ainda se lembrava.
Heitor entrou no primeiro ano da faculdade em artes, depois de ter sido examinado em humanidades. Neste exame, em coisas de gramatica, ciência que então reunia muitas especies hoje distintas, o hebreu de Vila Flor, mais descuidada que intencionalmente, defendeu proposições que destoaram asperrimamente nas orelhas ortodoxas dos examinadores. Sem embargo, deram-no como apto, reservando mentalmente o espiarem-lhe os atos com a vigilância própria de quem quer salvar uma alma em risco de perder-se.
Brás Luís entrou no colégio de S. Paulo a estudar latinidade com precoce e admirável entendimento. Causou certo assombro nos frades que liam no colégio a ignorância do moço em doutrina cristã, interrogaram-no minudenciosamente sobre o viver da família que o educara. Brás respondia que os seus benfeitores rezavam, e ele também rezava por um livrinho de orações. Apresentaram-lhe diversos livros de piedade para que de entre eles escolhesse o da sua reza. O pequeno sentiu um bate no coração, compreendeu instantaneamente o perigoso daquele interrogatório, e saiu-se bem do aperto, indicando o catecismo de fr. Bartolomeu dos Mártires. Poucos dias volvidos, Brás Luís papagueava toda a doutrina, dando a entender que apenas lhe fora necessário recordar o que sabia desde a primeira infância. Esta esperteza não enganou os mestres. Os primeiros fios da teia entraram logo em urdidura; e já as inquietas consciências dos frades não levavam as noites de um sono.
No entanto, Heitor levou a cabo, com muita aplicação e extremado engenho o seu primeiro ano. Foi a férias, levou consigo Brás Luís, e contou ao pai a inquirição porque passara o menino sobre o catecismo cristão. Francisco de Moraes agourou mal deste exame, e pediu ao filho que, em vez de voltar a Coimbra, se passasse a Holanda. Heitor Dias engenhou razões para combater os sustos do pai, e voltou ao segundo ano de medicina, levando Brás ao segundo ano de latim.
Os de S. Paulo repetiram o inquérito com ardilosos rodeios. Brás, já cabalmente instruído, cortava-lhes as voltas com respostas por demasia atiladas; de modo que deu força às suspeitas, mostrando estar apercebido para destruí-las.
A este tempo sobejamente sabia o conselho da inquisição que os cristãos novos de Vila Flor, se não eram sinceros judeus, também não eram sinceros católicos. Qualquer das coisas, no entender dos teólogos, era igual à outra como afrontamento à verdadeira religião.
Heitor Dias da Paz andava espreitado. Seus condiscípulos propriamente o provocavam a questões teológicas, das quais ele se desembaraçava, dando-se como ignorante de subtilezas e aceitando os dogmas sem discussão. O conceito dos espiões de sua consciência não melhorava por isso; quando muito, concediam-lhe a boa qualidade de judeu discreto.
Assim correu o segundo ano da sua formatura, sem acontecimento que o precatasse contra alguma violência.
Voltou Heitor ao terceiro ano, com o coração retalhado de saudades de sua mãe que ficava morta. Levou consigo para Coimbra o pai que se queria deixar morrer na alcova de onde lhe levaram o cadáver da esposa. A convivência do filho deu-lhe alma, e esperança de peito onde inclinar a cabeça na velhice. Não obstante, a saudade levou-o às portas da morte.
Aquela ida do velho a Coimbra foi desgraça para Heitor. Francisco de Moraes, em risco de vida resistira a receber os sacramentos, porque o seu morrer, sem ritual de religião alguma, queria ele que fosse um como adormecer inclinado ao respaldo da cadeira. Estrondeou o escândalo nas abobadas dos conventos. Heitor, com o rosto coberto de lágrimas, quando sua alma estava a mendigar palavras de consolação, porque via ali o pai moribundo, tinha de explicar às cataduras severas dos frades e vizinhos a turvação de seu pai, e a, por isso, involuntária privação de sacramentos. Redarguido nas satisfações que dava, replicou talvez com descomedimento, quando já seu pai se tinha passado a Vila Flor. Da réplica, provavelmente, foi lavrada ata no gabinete do procurador fiscal do santo ofício. O certo foi que, vinte dias depois, Heitor Duarte da Paz, ao entrar nos gerais da universidade, foi acercado de três familiares, que o conduziram ao cárcere da inquisição.
Bendita a mão da Providência, que já tinha fechadas as pálpebras da mãe daquele moço!
Brás Luís, conquanto desde o momento em que o seu protetor foi preso ficasse privado de recursos para continuar como pensionário em S. Paulo, não foi despedido. Os frades paulistanos consideravam-no ótimo estudante, e alma nova para se deixar fecundar em proveito da santa religião. Além de que o órfão, esquecido do nome de seus pais, senão enjeitado deles, não tinha culpa miníma do hebraísmo de quem o protegia. Neste mesmo parecer assentaram os frades dominicanos: honra lhes seja. E, portanto, Brás Luís conservou-se no colégio a expensas da casa, sem licença do reitor[4], e por largo tempo ignorante do destino de seu benfeitor, até que, no fim daquele ano de 1704, os mestres lhe disseram que Heitor Dias da Paz se estava purificando de pecados gravíssimos, para remédio dos quais lhe acudira a vigilância misericordiosa do santo tribunal da inquisição.
Brás chorou muito, e caiu febril na cama. O chorar e o adoecer do moço mereceu compaixão dos mestres, que o consolaram com esperanças seguras de que o seu protetor havia de sair limpo e absolto de entre as mãos dos filhos de S. Domingos.
Recobrou o estudante saúde, a tempo que Heitor Dias da Paz era transferido à inquisição de Lisboa, por motivos mais ou menos extraordinários, que não vingamos averiguar. O que a toda luz evidenciamos é que o hebreu esteve preso desde 10 de janeiro de 1704 até 12 de setembro de 1706.
E como saiu ele do cárcere? Absolto? Penitenciado? As feras das cavernas da santa casa esfacelaram-lhe as carnes? Deixaram-lhe ao menos o coração com algum sangue, aquele coração de vinte e oito anos, para ainda se restaurar de encontro ao seio reparador de uma esposa, que o anjo dos desamparados lhe houvesse entreluzido nas trevas da sua masmorra de seiscentos dias e seiscentas noites?