O inferno, como ele é possível
Eu negaria minha fé a quem me dissesse que a prece dos infelizes sem culpa não há Deus que a ouça e atenda. Se há!...
Num dia de junho de 1735, ao sexto mês de professa, sóror Josefa da Cruz, depois de três semanas de aturada hemoptise, amanheceu com uns espasmos convulsos, chamando pelas filhas, que a rodeavam, e ela não via. Acudiram as freiras, e ordenou a prioresa que fosse chamado confessor e médico. Avisaram o padre Brás, síndico do convento. Estava ele rezando as contas, e voltou o rosto da pessoa que lhe levou o aviso, para atar um pater noster interrompido no fiat voluntas tua. Três vezes repetiu com seráfico arrobamento o fiat voluntas tua--«faça-se a tua vontade»--e de si para si entendeu que aquele seu despego em tamanho transe, ao anunciarem-lhe que sua mulher estava em trabalhos de morte, era igual ao de muitos lances de natureza idêntica, e santo estoicismo, contados no Flos-Sanctorum, e Vita patrum.
Concluído o último mistério do rosário, aspergiu-se de água benta, e foi caminho do convento, resmuneando o salmo:... Amplius lava me ab iniquitate meã: et a pecado meo munda me. Quoniam iniquitatem meam ego agnosco... etc.
Ao avizinhar-se da cela da enferma o síndico, disse a prelada:
--Irmã Josefa, aqui está o nosso padre síndico Brás Luís.
Sóror Josefa não velou o rosto, porque já não entendera o aviso da prioresa.
Brás Luís deu de olhos fitos na sua companheira de quinze anos. Ressumou-lhe ao rosto um suor frio, cambaleou, e amparou-se à ombreira da porta.
Depois, tornou em si; invocou a força dos santos, compôs o semblante, acercou-se do catre da moribunda, e balbuciou:
--Sóror Josefa da Cruz!
A enferma estremeceu, despregou as pálpebras, circunvagou as pupilas esgazeadas, e retraiu-as logo, como se a face do padre lhe fulminasse faíscas de raio aos olhos.
--Os aprestos para a extrema-unção--disse o síndico.
--Venha o capelão ministrar-lha--ajuntou a prioresa.
--Não, nossa madre: serei eu--disse o padre Brás.
Acorreram os aprestos, enquanto Brás Luís desceu à igreja a envergar uma cota com estola roxa. Deu sinal o sino, ajuntaram-se as freiras acolitas, uma com a cruz, outras com velas, outra com a caldeirinha, e muitas cantando alternadamente os versos do salmo Miserere mei Deus. Entrou à cela o padre, precedido da cruz e da caldeira. A prioresa observou que as unções deviam ser feitas com presteza, omitindo-se as cerimônias usadas quando não há receio de que o enfermo expire antes de ungir-se. Principiou o padre a ungir-lhe os olhos; e logo notaram que os dedos lhe tremiam convulsivamente. Esteve com a mão suspensa, esperando que o tremor aquietasse. Desfitou os olhos da face da moribunda, e viu as cinco filhas ajoelhadas em carreira com os círios empunhados, e os rostos caídos sobre os seios. Contemplou-as com olhar embaciado de lágrimas, e na boca um sorriso triste, que poderia ser qualquer coisa do usual sorrir dos santos, e também poderia ser a expressão vulgar da insânia. Esta equivoca expressão, porém, sumiu-se, e as lágrimas saltaram a quatro. Depois, foi um conflito aquele para ser visto dos que apenas conhecem alguns milhares de flagelos nesta vida! Caiu em joelhos, pegou das mãos ambas da enferma, e exclamou:
--Leva-me contigo, leva-me contigo, ó santa, ó mártir!
As cinco meninas levantaram um alarido de gemidos, e romperam por entre as freiras a cobrirem com os braços a moribunda... a morta.
Brás Luís arquejava encostado ao leito. Não ousavam pôr-lhe as freiras as suas mãos para o retraírem de ali; mas, todas a um tempo, lhe pediam que oferecesse a Deus, em benefício da alma de Sóror Josefa, as angústias por que tão santa e heroicamente quisera passar e ser provado.
O padre levantou-se de ímpeto, olhou em torno de si, e disse:
--E que me dá Deus? Sim! que me dá Deus?
As freiras contemplaram-se estarrecidas e frias de religioso medo.
--Pois então!--prosseguiu ele com trejeitos de louco e semblante descomposto--pois então, não houve um raio de graça para esta santa mulher! não seria divina justiça que ela achasse aqui as alegrias de uma consciência pura, de um coração sem mancha! Por fim... é certo que eu te matei minha inocente vítima?
E, dizendo, acurvou-se sobre o cadáver, beijou-lhe os olhos sofregamente e cobriu-lhe a testa de lágrimas.
Era isto já uma vertigem, que terminou pelo delíquio.
Foi chamado o capelão e alguns frades vizinhos de Santo Antônio. Levaram de ali o padre para acomodarem logo os escrúpulos das freiras escandalizadas. Ia sem acordo, nos braços dos antoninos. As filhas viram-no ir sem lástima. Estavam em volta da barra de sua mãe. Aquele homem fazia-lhes terror, senão ódio. Poderia ser que ele tivesse por si a corte celestial; mas neste mundo não havia alma que o pranteasse. Propriamente os frades incriminavam-no de pusilânime e vacilante na reforma de vida. As freiras--santo nome de Deus!--davam como perdida a alma daquela que morrera sem confissão; e, porque eram santas, foram em coro exorar ao Senhor que não pesasse na sua balança sem o contrapeso da misericórdia, as palavras blasfemas do padre síndico.
Brás Luís, quando cobrou sentimento, achou-se na sua pobre alcova, com dois frades à cabeceira. Escutou-os. O que eles diziam eram coisas formidáveis sobre o inferno sem fim. Estigmatizavam-lhe a fraqueza, a impenitência, a temeridade de se aproximar da religiosa moribunda, se não ia santamente disposto a dar um exemplo de desprendimento dos afetos que havia renunciado no ato da sua sagração a Deus.
O padre pediu perdão do escândalo, e rogou que o deixassem só para examinar sua consciência.
Deixaram-no os frades e foram-se ao seu convento, de onde tinham saído em jejum.
Brás Luís de Abreu sofria tanto, que duvidava do poder da oração ou não sabia orar. Punha os olhos na face do Cristo, e logo os descia como aterrado do pensamento sacrílego que a intercadências lhe agonizava a alma.
Aquela religiosidade, que, horas antes, parecia robusta e sentida como a dos mártires, estava a desfazer-se miseravelmente na incerteza, no desprezo, na negação das mais santas coisas do cristianismo! Ali se estava vendo o que em verdade é o homem, e quanto são morredoiras as fantasias do espírito arrancado às leis da humanidade, quando a mão da desgraça descarrega a maça de bronze no peito que tem dentro sangue e fibras. O grande edifício daquele selvagem ascetismo estava a derruir-se. O coração de quarenta e três anos dava pulos como para espedaçar o arnês apertado com arcos de ferro debaixo do hábito franciscano. A imagem de Francisco Luís perpassava-lhe execrandíssima por diante dos olhos, cravados num revolutear de visões extravagantes que o assediavam, à volta do cadáver daquela mulher assassinada sem culpa nem fé para aceitar de boamente uma tão grande quanto imerecida penitência.
Fez-se em volta dele a solidão dos grandes desgraçados, que já nem sequer podem captar a benevolência dos grandes hipócritas, nem a estima dos ferventes devotos. Os mais virtuosos frades fugiam dele, desde que do convento de S. Bernardino saíram pioradas em blasfêmia as frases do síndico ao pé do corpo ainda quente de sua mulher. Além de isto, entraram em averiguações os mais escrupulosos sobre os fatos antecedentes à resolução de entrar aquela mulher na religião e ele no sacerdócio. O prior dos antoninos esquadrinhou em Lisboa no secreto gabinete da nunciatura, e vingou descobrir que o rompimento fora sequência de um casamento incestuoso.
Calou o frade a infanda notícia, por caridade; apenas a revelou a metade dos seus conventuais; e estes, por caridade também, disseram-na à outra metade, sentindo não ter mais a quem a revelassem.
Por isso, à volta dele se fez a solidão dos grandes desgraçados.
Entregaram-lhe os dois filhos, que estudavam humanidades no convento, para que ele lhes desse destino. O padre levou-os para si, e desde esse momento principiou a sentir quebrarem-se os aguilhões que o cravejavam e atiravam impenitente à sepultura.
Cogitou em mudar-se com eles para algum ermo, onde lhe ignorassem o nome e os infortúnios. Mas ali, ao pé da sepultura de Josefa, estavam as cinco filhas, que ele, se pudesse, tiraria do convento. Era aloucada fantasia semelhante intento. Aquelas meninas estavam perdidas para ele e para Deus; porque já não podiam amar o algoz de sua mãe; e, diante do poder do Altíssimo, apenas podiam tremer de medo, medo sem amor. Nem pai, nem Deus!
E deste modo, com a alma assim vazia, sem embrião de esperança em algum recôncavo dela, não há vida.
A mais velha das meninas, Ana Maria, sobreviveu dois meses a sua mãe, e acabou em frenesis, não obstante os exorcismos com que valentes demonífugos de todos os conventos de Aveiro lhe medicavam a alma. Expirou com reputação de precíta aquela gentil criatura com dezoito anos incompletos, a mansíssima menina que seus pais quatro anos antes denominavam, à conta da sua índole branda e sujeita, a pomba da família, o exemplo angélico de suas irmãs.
Quando o padre Brás recebeu a nova da morte de sua filha, quisera a Providência que ao lado dele estivesse um peito que lhe desse amparo.
Francisco Luís de Abreu, naqueles dias, descera dos arrabaldes de Bragança, onde fora despedir-se do seu amigo José de Barredo, e passara por Aveiro, onde conjecturava encontrar ditoso e embevecido nas delícias do céu o sacerdote de Jesus.