Parecia cristão na morte!
Vinte dias depois, correu nas aldeias circumpostas a Verdimilho, que o velho da ermida estava enfermo.
Abalaram os pobres dos seus cardenhos, e entraram quantos cabiam na cabana do ancião. Os ricos também foram com os seus capelães, com os seus padres adscritos à gleba das missas de réquiem, com que mercavam barato o paraíso aos seus ascendentes.
O ancião viu uns e outros. Ergueu a cabeça e disse:
--Que entrem somente os pobres. O espetáculo de um moribundo não convida.
Os pobres, pois, ajoelharam em duas alas, defronte da parede a que se encostava uma barra de bancos, e cada um dizia em silêncio as suas orações.
A porta da cabana estava de par em par aberta. O sol da tarde doirava a poeira do interior. A fita luminosa, que ia inclinada em cintilas alumiar a fronte do enfermo, vinha com direção oblíqua e coada por uma abertura do colmo. Os pobres viam naquele raio de pó lúcido coisa misteriosa de boníssimo agouro para a alma do doente.
Apareceu então no limiar da porta um sacerdote, que a gente daquelas aldeias venerava como médico do corpo e do espírito. Era o padre Brás Luís de Abreu.
E como ele entrasse, o povo, que enchia a casinha, saiu, cuidando que o velho da ermida ia confessar-se.
A só com o sacerdote, disse o hebreu com penosa pronuncia:
--Agora é que são as despedidas, amigo. Vieste a tempo, Brás, filho adotivo de minha mulher, que há vinte anos me espera. Debaixo do meu travesseiro está um papel escrito de meu pulso; na arca em que te sentas, está o que eu tenho de meu. Cumprirás as minhas disposições...
--E a sua alma?...--atalhou o padre.--É tempo ainda. Salve-se, homem de bem! salve-se...
--Se sou homem de bem, estou salvo--murmurou o judeu.
--Receba com fé os sacramentos da Santa Madre Igreja.
--Cerimônias pagãs... A vida do espírito vai começar. Receba a natureza em seu seio a porção imaterial do meu ser. Descanse em perpetua paz este motor interno, que recebia as lançadas da adversidade, a influencia do mal, que os homens geraram. Acabo sem remorsos, sem ódios e sem esperanças. Acabo, é o que eu sei deveras. Vou desenganar-me, se errei. Agora, filho, deixa entrar a minha família. São esses pobrinhos que saíram. Abre-lhes as portas: quero vê-los até à última.
Brás abriu a porta, os pobres entraram e o padre ficou entre eles.
O vigário perguntou ao médico e suposto confessor se era tempo de virem os santos óleos.
--Mais tarde, disse Brás Luís, esperando que o moribundo caído na apatia da extrema hora, insensivelmente recebesse as unções e assim enganasse a devoção daquele povo. Piedosa impostura, santa fraude, que levava em vista salvar os créditos do padre visitante, e abonar as virtudes do homem que os pobres começavam a beatificar.
Por volta das onze horas, cresceram os trabalhos dos paroxismos. À meia-noite, descaiu o moribundo em letargia. A respiração era quase imperceptível. Saiu o sacerdote a pedir a extrema-unção, sem impedimento de saber que a boa e sã teologia não dava já nada por aquela alma, embora o agonizante fosse sacramentado.
Quando o vigário, espertado do primeiro sono, chegou, estremunhado e carrancudo, com a âmbula à porta da cabana, o padre Brás ajoelhara à cabeceira do moribundo, em adoração ao Santíssimo Sacramento. Sondou o pulso do velho da ermida, e disse:
--Expirou agora.
Os pobres cessaram de cantar o Bendito, e levantaram um grande choro, entrando todos a beijar a mão do cadáver.
Se este acabamento de homem, transviado da religião verdadeira e das falsas, não fosse referido em romance, poderia alguém supor que pode uma pessoa morrer como justo, sem ser absolutamente religioso. Bom é que mortes assim se não divulguem em livros graves.
As disposições do filósofo são fáceis de antever. Os seus herdeiros eram aqueles pobres que choravam, e outros que pediam enxerga e remédios na santa casa da misericórdia de Aveiro, e também os peregrinos que se acolhiam à albergaria confinante da igreja de S. Brás.
Pois com tantos legados de espírito cristianíssimo ninguém acreditava que fosse sincero cristão um sujeito que entre tantas disposições não aplicou missas por sua alma, nem sequer trezentas! O clero estava escandalizado!
Folgavam tão somente os pobres,--e tanto folgavam que nem já choravam a perda do benfeitor.