A piedosa eloquência do frade
O leitor, que veio tarde a este mundo para poder gozar o espetáculo de um auto da fé, pode ser que não faça cabal juízo da peça chamada o discurso da festa, e entenda que vem aqui oportuno o ensejo de se lhe dar alguma notícia do sermão de 1706, por ser ele do ascético e sapientíssimo autor da Águia do Empíreo. Pode ser que ainda a muitos curiosos destas cristãs leituras o sermão de fr. Francisco de Santa Maria seja desconhecido, por que é já raríssimo. A meu ver, a maior parte da edição arrebataram-na da terra os anjos, como coisa do céu! Dos exemplares que escaparam tenho eu um, que é a minha vaidade de bibliômano e a minha edificação de devoto.
O pregador, no exórdio, propõe-se demonstrar três pontos: primeiro, que o Messias veio; segundo, que o Messias é homem e juntamente Deus; terceiro, que o Messias, homem e Deus, é Jesus de Nazaré, crucificado por aqueles, ou pelos antepassados dos judeus que estão presentes. Depois do que, implora a intercessão da sacratíssima Virgem, e começa.
Eis aqui um lanço que nos move a favor do geral da congregação dos Evangelistas:
«Convosco falo, ó infelizes filhos de Israel, e tomo para testemunha a Deus todo poderoso, que não é o meu intento insultar-vos, ou afrontar-vos em coisa alguma, nem tenho ou levo outro fim nesta ação, mais que a maior glória de Deus, a defensa da verdade, o triunfo da fé, o remédio da vossa cegueira, a salvação da vossa alma; e, se acaso com a força do dizer, proferir alguma palavra que vos ofenda, desde aqui vos peço perdão dela pelas entranhas da misericórdia do verdadeiro e altíssimo Deus.»
Heitor Dias da Paz levantou de sobre as pinturas diabólicas do sambenito os olhos serenos ao rosto do padre Francisco de Santa Maria. Esteve-se quedo alguns segundos naquela contemplação, e sorriu-se, a tempo que o orador, compungido em fervores de caridade, balbuciava aquelas expressões, que o leitor pio leu comovido.
Varias pessoas honestas, que viram o sorriso do hebreu, disseram umas às outras:
--Veremos à tardinha se o marrano se ri na fogueira...
O orador, no entanto, ia prosseguindo na demonstração dos seus três pontos, que foi completíssima, sem deixar brecha à mais especiosa contestação.
Heitor, a cada conclusão triunfante do padre, sorria; e, por pouco não desfechava uma casquinada provavelmente sandia, quando o orador, repulsando a pecha de idolatras com que os hebreus malsinam os católicos, argumentou desta sorte: «E como é possível que, sendo nós idolatras há tantos séculos, e sendo vós há tantos séculos cultores do verdadeiro Deus; sobre vós há tantos séculos que chovam os castigos, e sobre nós os favores? Sobre vós os castigos! Bem o vedes, pois vos vedes há tantos séculos sem pátria, sem honra, sem rei, sem patriarcas, sem profetas, sem capitães, sem juízes, sem sacerdotes, sem templo, sem altar, sem sacrifício, sem liberdade. Nós os cristãos tudo isto temos. Pois que? favorece Deus tanto aos idolatras, e castiga tão rigorosamente aos fieis?»
O impulso de riso do judeu, a meu ver, procedeu da respeitável ignorância do padre quanto às regalias de que os sectários de Mafoma se estavam saboreando em porção do mundo sublunar muito mais larga e comprida que a porção alumiada pelo cristianismo. Quereria, talvez, o israelita, sem embargo de se lhe estarem alcatroando as achas da fogueira, perguntar ao loio se os maometanos, apesar da bruteza e crassa estupidez de sua fé, eram menos felizes terrealmente falando que os nazarenos. Ora, como o gozo de questionar lhe seria amordaçado, se ele abrisse a boca indignada, o judeu desafogou-se naquele rir parvamente herético. O caso, porém, não fez levemente titubar o impassível pregador.
Ia discorrendo o padre Francisco pelas provas dos milagres; e veio ao ponto de asseverar que Deus não obrara milagre algum em confirmação da lei de Moisés. De isto a prova mais insinuante que o douto pregador desfechou dos lábios inspirados está no seguinte argumento:
«Todos, ou quase todos os anos vão muitos de vós ao patíbulo, e sendo diante dos nossos olhos pasto à voracidade do fogo, nunca se viu em algum de vós algum prodígio. Que é isto? Assim deixa Deus a verdade escurecida e humilhada?... Agora já o fogo vos não tem respeito? Já a chama lavra em vós como em madeira seca?»
Heitor Dias não sorriu então: caiu-lhe mortalmente angustiado o rosto para sobre o peito. As palavras do sacerdote de Cristo levaram-lhe às carnes o calefrio horrendo das dores que o aguardavam para o fim daquele dia: como que sentiu as línguas de fogo a tocarem-lhe o peito, e a sufocação da fumarada da fogueira.
Demonstrados os três pontos da oração com quanta lucidez se esperava de tão conspícuo sujeito, o autor do Céu aberto na terra apostrofou primeiro os confessos, depois os relapsos, e por derradeiro o único profitente que era Heitor.
Aos confessos dava os emboras, e pedia-lhes pelas entranhas de Nosso Senhor que perseverassem.
Aos relapsos disse: «É verdade que já não podeis livrar a vida temporal; mas é certo que podeis assegurar a eterna... Morrer é natural: morrer afrontosa e violentamente é desgraça; mas sobre tudo isto, salvar a alma, é a maior ventura. Oh, que felizes sois, digo outra vez, se sabeis emendar com os acertos da morte os desconcertos da vida, e se vos dispondes com verdadeira fé e verdadeira contrição para a última hora!»
Que bom homem aquele! O garrote e a fogueira eram indispensáveis à caridade e misericórdia do Senhor; mas que montava isso? Morrer é natureza; morrer em colchão flácido ou em cama de brasas vivas é uma e a mesma coisa: é natureza; mas o importante ali para o caso já não era o ir-se um homem deste mundo ao outro por efeito de um feroz homicídio: a questão era segurar a vida eternal, e essa estava arranjada, logo que os relapsos, à última hora, se entendessem com Deus uno e trino.
Em seguida, padre Francisco de Santa Maria pôs os olhos sobre o confitente Heitor Dias da Paz, e exclamou, tanto ou quanto comovido:
«E vós, que neste tremendo cadafalso sois o réu do maior delito, olhai que em vós nesse infeliz estado se verifica com propriedade lastimosa o que dizem as palavras do meu tema: De malo ad malum egressi sunt. Saireis de seres condenado no juízo dos homens, e entrareis a ser condenado no juízo de Deus. Saireis da morte temporal e entrareis na eterna. Saireis de um fogo que brevemente acaba, e entrareis em outro fogo, que para sempre dura. Oh filho da minha alma, é possível que assim vos deixeis guiar só da vossa imaginação, e vos ateis tão fortemente à vossa teima em um negócio da tanta importância? Tão pouco vai em salvar ou condenar para sempre? Quero crer de vós que em qualquer negócio desta vida não havíeis de obrar sem conselho, sem reflexão, sem madureza; e em um negócio, em que vai a vida eterna, assim vos resolveis, assim vos precipitais? Nos pontos da medicina (que estudáveis) é sem dúvida que havíeis de estar pelo que vos diziam vossos mestres. Pois, se nos pontos de medicina, vos guiáveis pelo que vos diziam os doutores médicos, nos pontos da fé porque vos não guiais pelos doutores teólogos, que tantas vezes e com tanto zelo e espírito se empenharam em vos reduzir ao caminho da verdade?
«Dizei-me de que mestres aprendestes essa lei que seguis já tão antiquada e esquecida no mundo? Sem dúvida de dois homens ignorantes, que talvez nunca abriram a escritura, e talvez não saibam a língua latina, e muito menos a hebraica. Não o tomeis por injúria--ajuntou o orador, certamente improvisando, como visse um gesto de repugnância desdenhosa e despeitosa no aspecto do confitente--não o tomeis por injúria...; porque, fundado nas vossas mesmas escrituras, afirmo que na vossa nação falta há muitos séculos, por justo castigo de Deus, o dom da sabedoria, e dominam as trevas da ignorância.»[8]
Estende-se difusamente o padre, catequizando o judeu, com a mira posta em resgatar-lhe a alma, que o corpo esse já não há eloquência nem perdão divino ou humano que possa salvá-lo do fogo. Finalmente, remata a apóstrofe nestas branduras:
«Ora filho do meu coração, convertere, convertere ad Dominum Deum tuum.
Convertei-vos para o vosso Deus, convertei-vos para o vosso Senhor, que, abertos os braços, e com o coração aberto, vos espera para vos meter nele como amigo, se do coração vos converteis a ele. Dai este gosto ao céu, dai este gosto à terra, dai este gosto aos coros angélicos e dai este gosto aos espíritos bem aventurados, dai este gosto a todo este numerosíssimo e luzidíssimo auditório, que todo deseja com muitas veras a vossa vida e a vossa salvação. Na vossa mão tendes a vida e a morte, a salvação e a condenação: vede o que escolheis. E, se todavia persistis na vossa teima, e na vossa contumácia, da parte de Deus vos digo, que dentro em breve tempo aparecereis diante do mesmo Deus em juízo, do qual, sem desculpa do vosso erro, saireis condenado para o fogo eterno.»
E com pouco mais terminou o monumental discurso, de que ficou muitíssimo agradado o senhor rei D. Pedro II, e seus filhos; e bem assim o eminentíssimo senhor cardeal D. Miguel Ângelo Conti, arcebispo de Garzo, e núncio apostólico nestes reinos, ao qual o padre Francisco dedicou o seu sermão impresso.
D. Pedro II não mais saboreou outro sermão idêntico; porque, três meses e sete dias depois daquela esplêndida ovação da santa igreja, morreu.
O padre Francisco de Santa Maria, conquanto só passados sete anos fosse coroar-se ao capitólio dos anjos, como piamente cremos que foi, também não voltou a regalar o público nos autos da fé.
* * * * *
Cheguemo-nos ao assunto. Os relaxados à justiça secular foram conduzidos a uma das salas da santa casa, em que estava junta a relação para os sentenciar.
A sentença de Heitor Dias da Paz, e dos outros já estava lavrada, embora fingissem lavrá-la depois de um banal interrogatório. Com ela na mão, perguntou o presidente ao judeu, ajoelhado:[9]
--Sois o relaxado Heitor Dias da Paz?
--Sou.
--De onde sois?
--De Vila Flor.
--Credes--tornou o presidente--na Santíssima Trindade, Padre, Filho, Espírito Santo, três pessoas e um só Deus verdadeiro?
--Não creio.
E levantou-se sem que o presidente lho ordenasse.
O escrivão, que estivera autoando a sentença, ergueu-se e disse ao condenado:
--Ajoelhe para ouvir ler a sentença.
--Ouvi-la-ei em pé--respondeu Heitor.
--Leia--disse o presidente ao escrivão.
O escrivão leu o seguinte:
«Acordam em relação, etc. Vista a sentença junta dos inquisidores, ordinário, e deputados da inquisição, e como por ela se mostra o réu preso, Heitor Dias da Paz ser herege apóstata da nossa santa fé católica convencido no crime de judaísmo, e por tal relaxado à justiça secular, e sendo perguntado neste senado persistir no seu erro, e declarar que não cria em nossa santa fé católica, senão na lei de Moisés; o que assim visto, e disposição de direito em tal caso, condenam ao réu que com baraço e pregão pelas ruas públicas e costumadas seja levado à ribeira desta cidade, e aí seja levantado em um poste alto, e queimado vivo, e feito por fogo em pó, de maneira que nunca de seu corpo e sepultura possa haver memória; e o condenam outrossim em perdimento dos seus bens para o fisco e câmara real, posto que ascendentes ou descendentes tenha, os quais declaram por incapazes, inábeis, e infames na forma de direito e ordenação. E pague as custas destes autos. Lisboa, 12 de setembro de 1706.»
A procissão dos condenados saiu do pátio da santa casa, caminho da Ribeira. As duas judias relaxadas em carne, dizia-se que já iam mortas. Os dois hebreus, que tinham assistido às leituras de suas sentenças em ansiados gritos, iam desacordados nos braços dos quadrilheiros do santo ofício. Heitor caminhava sem amparo, placidamente, olhando a um lado e ao outro as damas que exornavam as janelas do trânsito.
Ao embocar o préstito à rua da Padaria, um ancião mal coberto de andrajos, com trejeitos de louco enfurecido, rompeu a mó compacta do povo, e os soldados que ladeavam os condenados.
Heitor Dias reparou naquele velho que os arcabuzeiros afastavam a repelões. Fitou-o com horrível estremecimento; ia a proferir uma palavra, e sufocou-a. Debalde. O grito do coração já tinha ecoado no seio do ancião, que exclamou:
--Adeus, meu filho! Adeus, meu filho, eu vou antes de ti avisar tua mãe que por instantes estarás conosco no seio de Abraão!
E, ao proferir a última palavra, sorveu de um vidro um trago de peçonha, ao qual se seguiram medonhas convulsões.
--Abençoada seja a sua coragem, meu pai!--exclamou Heitor--Até logo, até à eternidade!
As agonias do velho terminaram dentro em quinze minutos. As do filho principiavam pouco depois, e não foram mais longas. Antes de sentir o queimar das lavaredas nas entranhas, expirara afogado no fumo.
E o sol daquele dia era ainda formoso ao intardecer. As auras do mar bafejavam tépidas. El-rei passeava nas varandas do paço da Ribeira, aspirando o aroma dos laranjais; e os frades de S. Domingos rezavam vésperas.