Má sina de poetas O Olho de Vidro · Capítulo 10 de 25
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Má sina de poetas

Passados alguns dias, diferentes pessoas da intimidade do doutor lhe segredavam que D. Cláudia fazia correr que ele fora expulso da casa dos Silveiras, porque andava cortejando a aia grave da fidalga, sem respeito ao que devia à ilustre enferma, e ao que devia à sua dignidade de médico. Os amigos aconselhavam-no, se queria ser recebido em casas de primeira plana, abster-se de galantear criadas, principalmente se as amas, como D. Cláudia, queriam ser antepostas às suas servas.

A calúnia era tolerável, porque em verdade, a frescalhona Anacleta era uma das sete criadas graves, para as quais o doutor olhava com a fixidez de quem só tem um olho. Assanhou-o, porém, o susto de ver-se banido das casas, onde tinha os seus prezadíssimos, bem que fáceis amores, afora as doentes mais rendosas.

O ciúme de Cláudia mais o exasperou ainda; por que a história, em que ele figurava ridículo, era contada entre as famílias às gargalhadas. Enraivecido, cogitou na imprudência de fazer rir os amigos à custa da fidalga. Figurou-se-lhe que o mais contundente látego era a sátira em verso. Não teve amigo que lhe aconselhasse juízo e discrição, como convinha à gravidade do seu ofício, e ao melindre da poderosa parentela de D. Cláudia. Escreveu, e deu copias a diversos amigos das seguintes quadras:

A UMA PELADA

Mulher, nesse teu desgarro...

Convém saber, antes de ir avante, que D. Cláudia, como se quisesse atrair aos pés a atenção das pessoas, que lhe reparavam na cabeça, costumava estar sempre calçada de sapatos bordados a fio de ouro. As mais fidalgas chanceavam-na, na ausência, por causa dos sapatos, e propalavam que o Olho de Vidro se deixara algum tempo fascinar dos áureos chapins da escalvada dama. Sabido isto, não há já comentários que aditar à poesia.

Mulher, nesse teu desgarro,

Um Nabuco às vessas és;

Porque, tendo de ouro os pés,

Tens a cabeça de barro.

Se alguma pedra travessa

Te quisesse derrubar

Era preciso acertar

Mais que nos pés na cabeça

Por que, se pelo mais fraco

Estala a corda mais grossa,

Quem quiser que estales, moça,

Há de cascar-te no caco.

Mais flamantes do que um ouro,

Mais liza do que uma ostra,

A cabeça a coura mostra,

Os pés vão mostrando o couro.

Dize-me com que destino,

Mesclas nessa estátua van

Entre afetos de cristã

Heresias de Calvino?

Sem monho, e com cara alva

Sais a toda a ocasião;

E vejo que tens razão,

Porque a ocasião é calva.

Sendo mal encabelada,

Para que andas, dize, à pela,

Se ninguém por ti se pela

Por mais que venhas pelada?

Vai-te, e pede a Deus, ó louca,

Que te dê com toda a pressa,

Cabelos para a cabeça

Em vez de pão para a boca.

Ao padre nosso à porfia

Pede que te encabelize;

E em vez de pão nosso, dize:

Cabelos de cada dia[19].

Multiplicaram-se as copias e as gargalhadas; não tardou, porém, que sobreviessem os despeitos, por que muitas famílias, que tinham rido, estavam aparentadas com D. Cláudia. Chegou à notícia da dama a zombaria. Foi tanto mais funda a punhalada quanto ela amava ainda o doutor. Odiou-o de morte; não relevava, porém, a soberba da fidalga que ela se desse por ultrajada.

Conjuraram, de repente as famílias de melhor lote contra Brás Luís. Os amigos evitavam-no com subterfúgios. Os inimigos, colegas dele, deploravam que um seu consócio no sagrado mister da medicina os desdourasse. A tempo conheceu o doutor que tinha caído em descredito: e medo também de cair trespassado por algum fidalgo estoque não lhe faltou.

Fez logo conta de sair de Lisboa, cortando por fibras muito sensíveis do peito. Do plano à execução mediou algum pouco tempo, em que Brás Luís, recolhendo alta noite, esteve a pique de ser assassinado por uma arcabuzada, cujos pelouros lhe crestaram os bofes da camisa.

Desapareceu o Olho de Vidro de Lisboa, e estanceou alguma temporada por Coimbra, onde assistiu à impressão de um seu livro em castelhano, intitulado Aguilas hijas del sol, que buelan sobre la luna. Representacion cômica, trágica, triunfal de la inmorable Vitória gloriosamente alcançada por las aguilas impiriales contra las noturnas aves otomanas en el campo de Peter-Varadin, dia 5 de agosto año 1716.[20]

A mim contentou-me a leitura do título, e dispensei-me de ver o restante para ir jurar que deve ser sobre-excelente um livro que se chama Águias filhas do sol, que voam sobre a lua. E, como se isto não fosse já recomendação à obra, acresce-lhe o merecimento de ser representação cômica, trágica e triunfante. Um livro assim, e os aplausos com que a península provavelmente o vitoriou, deviam ser para o doutor larga compensação dos dissabores com que saíra de Lisboa. Não há aí chaga em peito de homem ilustrado que resista ao bálsamo do talento.

Passou Brás Luís de Abreu ao Porto, fazendo tenção de estabelecer-se na segunda cidade do reino. Deteve-se em Aveiro alguns dias; e passeando cientificamente pelos arrabaldes da vila, descobriu a planta do chá, nascida em barda por aqueles maninhos. Consta-me que os aveirenses, de certo ignorantes do descobrimento do médico, ainda agora compram para seu uso o chá da China, como se não tivessem ali à mão a erva de que ele se faz. Aqui lhe transcrevo as palavras de Brás Luís, e muito faço em prova do meu desprendimento de bens de fortuna, se não iria eu propriamente colher a erva, comprar os maninhos, e senhorear-me de Aveiro em poucos anos. Aqui está a notícia: «Na vila de Aveiro, e em todas as suas vizinhanças nasce uma erva, a que os naturais chamam erva formigueira, porque pisada tem o cheiro como de formigas pisadas; e a há em tanta quantidade que podem carregar-se navios dela. Esta tal (ao meu entender) é o verdadeiro chá que vem da China e do Japão; não só porque a experiência descobre nela as mesmas virtudes do chá; mas também porque mandando-se da Índia a Gonçalo de Sousa de Menezes, morador na sua quinta de Salreo, a semente do legítimo chá, ele a mandou semear com todo o cuidado, e nasceu a mesma erva de que aqui se acham revestidos os campos e os cômaros.»[21]

Não há dúvida nenhuma: o chá da Índia é a erva formigueira de Aveiro. E dizem que nós, os portugueses, não somos gente para descobrimentos! O que nós somos é uns pródigos e despreciadores dos mananciais de riqueza que a Providência nos oferece como a filhos seus diletíssimos. Se alguma companhia entrasse em exploração daquela mina, quem sabe se, fechados os portos à erva indiática, poderíamos ainda com o nosso chá amortizar a dívida externa, e meter a Europa numa infusão de erva formigueira? Razão tinha o patriota doutor Olho de Vidro, quando em seguida à notícia, que os coevos menosprezaram, ajuntou: «Quem quiser indagar-lhe os préstimos, com facilidade o pode fazer, se acaso não for do gênio daqueles que fazem eterno capricho de preferir sempre as coisas estrangeiras às nacionais e domesticas.»

Transferiu-se Brás Luís para o Porto, ao começar o ano de 1718. Estreou-se auspiciosamente. Açambarcou a clinica dos mais acreditados, e manteve-se com recato e honra no tocante às venialidades do coração, tomando em conta o muito que lhe importava desmentir a má fama granjeada em Lisboa.

No fim de seis meses, ofereciam-se-lhe vantajosos enlaces com raparigas bonitas de sua pessoa, rubras e sadias daquele antigo sangue e pojante saúde do Porto, e demais a mais, ricas, das mais ricas das ruas dos Pellames, Congostas e Mercadores.

Não se atrigou com a felicidade das propostas. Sobrava-lhe dinheiro, estipêndio das suas curas estupendas com enxúndia de pata, olhos de minhocas, água benedicta de Rulando, olhos de caranguejo e esterco de rato fresco.[22] O coração cedia à freima com que ele trazia empunhada a cabeça em estudos médicos, estudos poéticos, toda a casta de ciência, como sujeito que tinha em vista a imortalidade, de que a sua memória, se está gozando e gozará, enquanto o seu Portugal Médico, e a sua Vida de Santo Antônio e este meu romance forem livros conspícuos.

Em outubro de 1718, chegou ao Porto uma senhora da Beira Alta, muito adoentada, trazendo em sua companhia uma filha. A enferma, desenganada pelos médicos na sua terra, ia procurar, como em última estância, a sua cura na milagrosa reputação de Brás Luís de Abreu.

Chamava-se a doente D. Antônia da Piedade, e a filha D. Josefa Maria de Castro. Aquela senhora tinha visto muito mundo, queria contar ao seu médico extraordinários lances da sua vida; mas as dores incessantes apenas lhe davam tempo para gemer, não obstante os esmerados desvelos do doutor. Os padecimentos recrudeciam, quando à pobre senhora lhe acudia a lembrança de que deixava neste mundo sua filha desamparada, sem parentes, bem que ela os tivesse ricos. Bem quisera Brás Luís, com a alma poética e afetuosa que tinha, entrar no segredo daquelas duas vidas; mas as reservas das senhoras impunham respeito e calavam-lhe de pronto as investigações indelicadas. D. Josefa Maria tinha vinte e três anos; era formosa, extraordinariamente instruída, falava a muito custo a língua portuguesa, e com sua mãe expressava-se sempre na língua francesa. Brás Luís de Abreu não se deteve a perguntar ao seu espírito se lhe convinha amá-la; amou-a impetuosamente, desde que a viu; amou-a perdidamente desde que a ouviu.

D. Antônia faleceu no princípio de novembro. As suas últimas palavras à filha foram estas: «Perdoa-me ter-te eu dado o nascimento, desgraçada menina. Agora, que vai morrer a mulher maldita dos seus, vai tu procurar os teus parentes, e diz-lhes que não és culpada dos delitos de tua mãe.» Brás ouvira estas palavras, e disse, ajoelhando ao pé da filha:

--Abençoai a nossa união.

--Eu vos abençoo, meus filhos--murmurou a moribunda.

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