Catequese
Francisco Luís planeou mover o filho de Antônio de Sá Mourão a sair de Aveiro, sob pretexto de fazer entrar na carreira das letras ou das armas os dois moços, já habilitados para as começarem.
O padre passou a consultar os filhos sobre a escolha de seu futuro. Tinham-se os meninos habituado a pensar no destino para que o pai os encaminhara, desde que os entregou aos frades de Santo Antônio. Naqueles dias, as carreiras abertas aos espíritos mais arremessados em esperanças e cobiça de nomeada gloriosa, eram a milícia, já então decadente, e a companhia de Jesus, ou a ordem de S. Domingos, as duas mais poderosas e florentes hostes evangélicas nestes reinos, e as mais conjuradas em realizar o absolutismo teocrático.
Os filhos de Brás não entendiam nada destes intentos; mas entreviam a grandiosa estatura do jesuíta e do dominicano, em cujas frontes se estavam sempre cerzindo as mitras, e no interior dessas frontes se elaborava o pensamento dos reis, a palavra diretora dos governos, o enlace místico do céu com a absoluta soberania da terra.
Portanto, os dois netos do hebreu da Guarda, respondendo à consulta de seu pai, disseram que entrariam em conventos. Agostinho escolheu a companhia de Jesus, e Pedro a ordem de S. Domingos.
Francisco Luís encarou neles com desprezo: não podia ser de piedade, nem de ódio aquele sorriso que entre-abriu os beiços do velho judeu de Ourém.
Passados momentos, murmurou, sorrindo ainda:
--Este Pedro já não virá a tempo de me queimar... nem eu lhe deixo filhos ou netos, cujos ossos lhe sirvam de degraus para escalar a bem-aventurança dos carnífices... Se o avô deste menino se lembraria de que um seu neto seria frade dominicano!...
E, voltado ao padre Brás, continuou com mal fingida serenidade:
--Conjecturava eu, senhor Brás Luís, que um homem de sua índole e saber, vestido com as insignias de uma religião qualquer, e mormente da cristã, se empenharia em lavar-lhe com lágrimas as nodoas de sangue, e no amaciar-lhe as cruezas que ela trouxe das tradições pagãs. O homem de grande entendimento e muitas luzes devia ser lustre e honra de qualquer religião que ele assentasse de converter em policiamento e bem-fazer da humanidade. Não lhe perguntei ainda, meu amigo, se aplaudia o proceder da cristandade portuguesa contra os pais de Antônio de Sá, contra Maria Cabral, contra Heitor Dias da Paz. Pergunto-lho agora, na ocasião em que vossemecê manda um filho alistar-se nos aprendizes do santo ofício, e estudar as fisionomias das antigas rezes do açougue dominicano penduradas na galilé da igreja de S. Domingos. Bem pode ser que lá veja retratos de seus avós.
--Basta! que me está mortificando, senhor!--atalhou o padre.--Sou um desgraçado, à volta de quem se assanham todas as tentações! Quem vem contender em pontos de religião com um homem tão quebrado de espíritos? Oh! deixem-me como a um leproso, abandonado de Deus e dos homens...
--Abandonado de Deus! como assim?--acudiu o israelita.--Pois as três divindades cristãs, o Padre, o Filho e o Espírito Santo assim abandonam quem tanto lhes sacrifica! Onde está a compensação das suas aflições, meu amigo? Que bem aventuranças infinitas são bastantes a galardoar uma só das suas torturadas noites? Por minha fé! Consterna ver o desamparo em que o Moloch destas voluntarias hóstias deixa afogar-se em lágrimas e derreter-se ao fogo da desesperação um homem que tinha direito a receber consolações análogas à devoção com que se deixa esmagar na carne e no espírito!... Ah! eu cuidei que, na minha retirada de Portugal, o deixaria enlevado na beatifica visão e antegosto da eterna e perenal mão direita do Deus-Padre! E a minha consciência sabe que eu muitas vezes pensei em me converter ao cristianismo, se Brás Luís de Abreu estivesse, a esta hora, conformado e alegre sobre o peso da sua cruz!...
--É que eu sou lodo... atalhou o padre.
--É que eu não vi ainda bem remunerada a renunciação dos direitos do homem, em hecatomba de uma equidade convencional, chamada a justiça das religiões. São todas muito artificiais para que alguma delas possa ser verdadeira. As menos sobre-humanas são as mais equitativas; e estas mesmas estão manchadas pela miséria do homem, que não compreende a virtude aconselhada pela razão; carece de a ouvir trovejada no Sinay, legislada pelo alfange maometano, ou introduzida no cérebro das nações selvagens com o gume da espada dos Cabraes e dos Pizarros. Pois está Deus nestas carniçarias? O criador das florestas e dos mares, do oução e do elefante, se quisesse revelar-se mais sensivelmente ao homem, careceria de morrer numa cruz ignominiosa, ou permitiria que aos pobres cegos, que o não sabem ver, lhes queimassem os olhos nas lavaredas do santo ofício?!
--Jesus, socorrei-me! exclamou o padre, tapando com as mãos a fronte, em que as palavras daquele homem coavam luz de infernal claridade.
Depois murmurou palavras inaudíveis que deviam ser orações eficazes contra a tentação da heresia, da filosofia, da razão indócil, do demônio, que é tudo um.
O hebreu era pertinaz, porque o estímulo, a razão nua, sem miníma compostura de fé, lhe espicaçava a consciência. O homem vinha dos focos da heresia. Compreendera a loucura do hebraísmo e a loucura dos heresiarcas. Reformara-se na filosofia de Spinosa, e facilmente derivara do panteísmo à completa abstinência de deuses, coisas desnecessárias para explicar a ordem do universo, e ininteligíveis para as fazer presidir à criação. A causa das causas parecia-lhe sempre efeito dos efeitos. O ateísmo, se o não consolava, também lhe não metia em trabalhos as molas da imaginação.
As expansivas demonstrações de sua incredulidade eram todavia ineficazes para apagarem a luz do calvário no coração do padre. O dique do terror de Deus represava as torrentes de sabedoria rebelde com que o hebreu pretendia levar de rojo o amigo, cuja Vitória estaria indecisa; se o cristão convicto aceitasse o cartel. Não. Brás Luís vencia com o silêncio. O argumento triunfal é o calar-se aquele, cujo coração bafejou o Senhor.
Não obstante, as asperezas da vida, os jejuns, as penitências, as orações mentais e exercícios fatigantes de piedade foram diminuindo de dia para dia. No fim de três meses, o padre falava ainda três horas à milagrosa imagem de S. Francisco, e conversava seis horas com Francisco Luís de Abreu.
Estava, pois, reduzido à piedade razoável. Não mortificava a carne para manter o espírito na energia que se lhe requer em meditação das coisas divinas. Tinha horas regulares de oração, de alimento, de visitar os seus enfermos, e de procurar no locutório de S. Bernardino as quatro freiras.
Foi para Lisboa com o hebreu e com os filhos. Renovou a consulta sobre o destino deles. Permaneciam constantes na sua resolução. Um entrou no noviciado da ordem dominicana em Benfica; e outro no colégio de Santo Antão.
O padre Brás foi beijar a mão de el-rei, que se compungiu da extemporânea velhice do célebre Olho de Vidro. Ouviu-lhe a história patética da morte de sóror Josefa e da filha, saudosa de sua mãe, e o definhar-se das quatro meninas para quem a vida claustral fora sempre incessante martírio e desesperação de que a misericórdia divina talvez pedisse contas a ele pai. Observou-lhe D. João V que levasse para sua companhia as quatro meninas.
--São freiras, são professas, real senhor!... murmurou o padre.
El-rei mandou-o voltar no dia seguinte, e ordenou que lhe entregassem provisão regia e breve do núncio para que as quatro freiras de S. Bernardino vivessem por tempo ilimitado na companhia de seu pai.
Voltou o padre a Aveiro, e Francisco Luís de Abreu acompanhou-o.
Neste homem andava encavalgado o Lúcifer da mais desenfreada filosofia que viu aquele século. O pensamento que o esporeava era generoso; mas no inferno iria um dia de festa se ele vingasse a ideia execrável. Venceram os anjos custódios, que faziam guarda ao espírito do padre e das quatro filhas, prometidas esposas de quatro serafins que as esperavam, posto que nem todas correspondessem ao convite amoroso dos serafins.
Queria Francisco Luís de Abreu restituir a felicidade àquelas meninas, a felicidade terreal, mentira em que o hebreu ainda acreditava. Preparava o ânimo do filho de Antônio de Sá, inoculando-lhe a peçonha da dúvida no dogma, e pelo conseguinte na moral. Discutia os chamados sacramentos da igreja. Dizia que o sacerdócio era a mais convencional e estupida das instituições humanas, com grave ultraje de Deus, chamado a sancioná-la, se Deus por acaso pudesse existir e ser ultrajado por afrontas do homem, chamado irrisoriamente o rei da criação, à míngua de besta-fera que se proclame com eguais direitos à mesma realeza. Dizia que esta bestial instituição cedia a primazia a outra, que era a da profissão da mulher; e que de estupida passava a ferocíssima quando a professa era violentada a jurar a perdição das suas alegrias de mocidade, e das suas esperanças de família nas tristezas da velhice.
Amarteladas por largo tempo estas e semelhantes ideias sobremodo impias, o hebreu pusera a pontaria em tirar de Portugal o padre e as freiras, levá-los onde rasgassem os hábitos, e se vissem de repente restituídos à simpleza de criaturas formadas à imagem e semelhança do Criador, o qual, a ter existido, formara certamente homens e não padres, mulheres e não freiras: gente, no dizer de Moisés, apta e escorreita para formar indivíduos, aldeias, cidades, reinos, mundos.
Ouviu o padre as teses do seu amigo, defendidas por longo tempo com erudição digna de melhor serventia. Prodigioso poder da fé, quanto eu te admiro e venero! O padre resistiu nervosamente à sedução, e por pouco, no calor da refesta, não apresentou uma ideia que destruísse os preconceitos do judeu luciferino. Prodigioso poder da fé! exclamava também Francisco Luís, quando, inventariando os argumentos do seu amigo, não topava um que merecesse redarguição grave. E perguntava ele a si mesmo como era que aquele homem tão embotado em agudezas de dialéctica pudera escrever as «Águias que voavam sobre a lua, e o sol nascido no ocidente e posto ao nascer do sol!»
Desistiu: mas já lhe foi grandíssimo contentamento ver à beira de seu pai as quatro meninas, quatro exumadas da lobrega cripta do convento, onde deixaram sem lágrimas as gramas que rastejavam na claustra sobre a campa de sua mãe.
Dizia ele, todavia, ao pai:
--Crê que as caras marmóreas destas meninas tornem a reflorir?
--Espero que sim.
--Nunca mais. Estão mortas. Se as quer vivas, rasgue-lhes a mortalha, Brás Luís!--exclamou ele abraçando-as todas contra o seio.--Dê-me estas meninas, deixe-me salvá-las, deixe-me fugir com elas para o ar abençoado da liberdade! Eu prometo aviventar-lhes o coração, e depois estão salvas. Dê-mas que eu ainda, sou bastante rico para deixá-las ricas. E, se eu fosse pobre, dar-lhe-ia a cada uma um amor para o coração ressuscitado, um esteio para a alma, um companheiro para toda a vida!
O padre ergueu-se de repelão, travou das filhas, arrancando-as aos braços do hebreu, e exclamou:
--Que maldição traz consigo este homem!... Quer perder-me as minhas filhas!... Há infernal predestinação na sua mensagem ao seio da minha família, homem da horrível fatalidade!