Exemplo de honestidade aos médicos O Olho de Vidro · Capítulo 9 de 25
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Exemplo de honestidade aos médicos

Quer fosse sisudeza, quer hipocrisia, Brás Luís de Abreu, que então contava vinte e cinco anos, assim que o amor lhe abriu o peito com seus mágicos dedos, sacudiu a canga do artifício e mostrou-se homem genuíno. Deu ele tento de que os seus colegas todos eram familiares do santo ofício, e todavia amavam a rosto descoberto; e, nas casas onde entravam, contra a prescrição do soneto, não procediam exatamente

Como do Nilo o cão, que bebe e corre.

Ora, como ele, de espaço, fosse vendo que a inquisição vivia despreocupada daqueles cães do Tejo que bebiam muito devagar, bandeou-se com eles, e atirou o coração às tempestades dos vinte e cinco anos, ressalvadas as aparências.

A primeira dama que se quis senhorear da alma do seu médico, era uma fidalga quarentona, ainda vistosa, afeita a ser beijada na face por bons galãs que se ajoelharam diante dela até aos trinta anos, e se purificaram da idolatria, desde que as flores do rosto, desbotadas pelo caio, e os cabelos ressequidos pelo ferro se foram despegando daquela cabeça rica de formosas tradições. Estava literalmente calva.

D. Cláudia da Silveira, logo que se julgou encarada voluptuariamente pelo olho único do seu médico, levou a mão ao peito e sentiu-se arder. Desde essa hora os achaques eram tantos e tamanhos que Brás Luís escassamente se podia desobrigar de acudir-lhe três vezes por dia com água de Inglaterra, com pedra cordial de Gaspar Antônio, ou com água de língua de vaca, antídotos de sua predileção contra os histerismos e enxaquecas da senhora D. Cláudia da Silveira.

A dama, cada vez mais enfermiça, tornara-se a desesperação da medicina galênica. Dos linimentos à chaga interna que lhe cancerava as entranhas, um somente dera satisfatório resultado: era a presença do médico, o tatear dele no pulso arreado de manilhas, o apalpá-la nas costelas sobre e subjacentes ao coração. No coração nomeadamente é que ela dizia ter a morte, o morder e repuxar de dentes e garras do que quer que fosse. Resolveu o doutor que lhe dessem uma untura anodina sobre a parte magoada. Resistiu a dama, quando viu a aia arremangar-se para o ato, e exclamou, repelindo a criada:

--Não consinto mãos estranhas no meu corpo! Antes a morte!

Brás Luís de Abreu empenhou calorosas razões a persuadi-la, cuidando sinceramente que a dama sofria dolorosíssimas palpitações. Da austeridade de médico passou às branduras de amigo que muito lhe devia, porque a paga era mais que prodiga, e chegou a pedir-lhe consentimento para ser ele quem lhe friccionasse o seio.

Muito rogada e como incendida em pudor virginal, consentiu D. Cláudia, referindo a sua condescendência não tanto ao amor da vida, como ao horror de morte assim atribulada.

O leitor conhece decerto aquela passagem de um livro do padre Manuel Bernardes, em que se conta o caso de S. Éfrem estar com uma das mãos untando o peito de uma formosíssima mulher, que tinha parte de demônio tentador do santo, enquanto assentava a outra mão sobre um braseiro para ir assim com as dores quebrantando os ímpetos da matéria bruta, as fervenças da carne, como em outro caso diz o mesmo padre oratoriano.

D. Cláudia da Silveira verdadeiramente não tinha parte de demônio; porque o médico lhe deu a untura anodina com tanta serenidade e quietação de corpo e alma, que só isso lhe bastaria a ganhar o céu, se a mulher fosse documento para merecê-lo e argumento para pedi-lo.

Operou o linimento muito devagar, segundo o médico ia entendendo da brandura dos ais e alquebramento da enferma. Afinal, cessaram de todo os gemidos por um suspirar descansado que parecia descair em dormir restaurador das forças extenuadas.

Brás Luís de Abreu ficou vaidoso do seu triunfo, e despediu-se da dama, que lhe acenou de mão e cabeça tão levemente como quem a custo o fazia, vencida do torpor do sono.

Assim que ele voltou costas, D. Cláudia sentou-se na cama, bracejou enraivecida, e despregou a murros frenéticos uma cortina adamascada que lhe ondeava por sobre o espaldar do leito.

Acudiu a aia a querer continuar a untura. A fidalga quis atirar-lhe à cara com a taça do anódino, e sentiu-se sinceramente febril.

A aia avisou o fidalgo, cunhado de sua ama, daquelas fúrias em que estava a senhora. O fidalgo, avesado a tais manhas, respondeu com magnanimidade indicativa da probidade austera daquela família:

--Manda-lhe chamar o Olho de Vidro.

--Mas ele ainda agora saiu, senhor!

--Não importa: que torne a entrar, que torne a sair, que entre de novo, que faça o que ela quiser, contanto que eu não ature minha cunhada Cláudia.

Assim se fez.

Brás Luís acabava de entrar no seu gabinete, para escrever no caderno de observações a rápida cura das convulsões de coração de D. Cláudia com unturas de enxúndia de pato e óleo de açucenas, quando um lacaio dos Silveiras o chamou a toda a pressa para a fidalga.

O médico praguejou mentalmente contra a sua dadivosa doente; mas foi.

Encontrou-a convulsiva e escarlate, debatendo-se numa poltrona. Era ainda a dor do coração que lhe estava destroçando o peito. Falou o doutor em ventosas sarjadas. A dama expediu in continente (sem calemburgo) três gritos estrídulos contra as ventosas.

--Pois não, minha senhora!--acudiu o médico--não faremos uso das ventosas, até mesmo porque a convulsão se vai distendendo aos membros, e receio que se torne geral. Eu vou receitar; mas requer tempo o preparado do remédio. Senhora Anacleta--continuou o doutor voltando-se para a criada grave--mande procurar um pato gordo; ordene que o matem, depenem, e limpem das entranhas; e depois remeta-se o pato ao boticário com a receita que vou escrever[16].

RÉCIPE. Recheie o pato com salva, manjerona an. Manip. j. goma amoníaco

e Bedélio an unc j. Cálamo aromático, noz moscada, flor da mesma, e

cravinhos da Índia an. unc. sêmiss. o que tudo primeiro se pise em

almofariz, e se amasse com óleo de minhocas, e assim se introduza no

ventre do pato, que se coserá com linha, se ponha a assar, e o que

destilar se receba em um vaso meio de vinagre, com cujo pingo e gordura

se unte o coração.

ABREU.

Depois, sentando-se ao pé da doente algum tanto melhorada das convulsões, ajuntou:

--Se este admirável remédio não produzir o almejado efeito, asseguro a vossa senhoria que em casos análogos me tenho dado excelentemente com os banhos de azeite puro, e melhor será se antes se tiver cozido nele uma raposa[17].

--Uma raposa, doutor!--exclamou a dama engulhosa--uma raposa! Que imunda coisa!... Onde hei de eu ir buscar a raposa?

--Que desejará vossa senhoria que não apareça, minha senhora! Qualquer caseiro das suas terras do Alentejo ou Beira, com ordem de vossa senhoria, caçará raposas, que são mirificamente medicinais.

--Anjo bento! raposas medicinais!...--volveu D. Cláudia, e abriu um sorriso jovial, à volta com um gemido, como se o picar súbito da dor a não deixasse rir francamente.

--Parece-me que está mais aliviada...--disse o médico.

--Um poucachinho...

--Pois as virtudes da raposa são miraculosas, minha senhora--prosseguiu ele, confiado na eficácia da distração.--A língua da raposa trazida ao pescoço reforça a vista. As mãos dela trazidas ao pescoço preservam do quebranto.[18]

--Do quebranto!...--murmurou D. Cláudia da Silveira--Ai! doutor, há quebrantos sem cura! Há arejos que em pegando da gente o remédio é morrer.

--Feitiçarias, quer dizer vossa senhoria? Não é tanto assim. Contra esses temos os prodigiosos alexifármacos da santa igreja católica.

--Bem sei, bem sei--balbuciou a dama, com piedoso gesto.--Não é desses que eu tenho medo. O meu santo Antônio me defenderá... Há coisas piores do que isso neste mundo... coisas que fazem perder a cabeça à criatura mais ajuizada. Tenções e protestos não montam nada. Que me faz a mim dizer: não hei de pensar mais nisto ou naquilo? Apega-se a gente com todos os santos. Fazem-se rezas e promessas. Lembra-se tudo quanto há de mau... E, chegada a ocasião, tanto faz como nada! Ai!--suspirou ela, pondo as mãos ambas sobre o coração.--Ai!... pobres mulheres!... Só vós sois as fracas... as pecadoras... não é assim doutor?

Brás Luís de Abreu, que neste lanço estava espreitando de soslaio uns olhos que o espreitavam por entre o reposteiro--os olhos da engraçada e trigueira aia de D. Cláudia--por pouco não é surpreendido pelo relance da fidalga, que o fitou muito no rosto, com ar interrogador.

--É assim, minha senhora, é assim--balbuciou ele.

--É assim, é--tornou ela--E que remédio sabe vossemecê para estes quebrantos, doutor?

--É conforme...--tornou Brás Luís, sem atinar com a resposta conveniente, porque só naquele instante percebera, com despeito de sua vaidade de médico, a enfermidade da fidalga.

--É conforme, disse vossemecê doutor...--volveu ela, ansiosa de entender as reticencias.

--Sim, minha senhora... Há vários modos de possessão, além dos conhecidos nas demonografias...

--Mão entendo isso--atalhou a fidalga--Pois a paixão da alma também é feitiço?

--Se não é...--balbuciou o doutor.

--Leva as mesmas voltas--acudiu prestes D. Cláudia, e prosseguiu expondo com pouquíssimo resguardo de sua honestidade as diabruras que o amor tinha feito em senhoras de sua amizade, não poupando na relação das tais diabruras secretas as suas mais próximas consanguíneas, e algumas impudicícias muito recônditas da corte da primeira mulher de D. Pedro II, com a qual vivera nos primeiros anos de sua mocidade.

Ao correr desta narrativa, D. Cláudia reparou no abstraimento do médico, cujo olho, de instante a instante, punha fito ao reposteiro, e como que procurava pascer-se deleitosamente em qualquer coisa de fora.

Assim prevenida e desconfiada, esperou azo, voltou a cabeça ao lado oposto da porta, retorceu-a rapidamente de novo olhando ao local suspeito, e entreviu a cabeça da sua criada grave Anacleta, por quem doidejavam quantos fidalgos novos e encanecidos a visitavam.

--Olé!--exclamou ela, erguendo-se de salto--Agora entendo!--E, correndo ao reposteiro, afastou-o de repelão, e disse iracunda:

--Anacleta! já hoje não dormes nesta casa. Rua! Não quero testemunhas nem espiões do que se diz no meu quarto. Rua!

E, tornando com solene passo para junto de Brás Luís de Abreu, que assistia corrido àquele conflito, disse-lhe:

--E a hipocrisia de vossemecê, senhor doutor!... A feitiçaria da minha criada também se cura com os prodigiosos não sei que (o doutor tinha dito «alexifármacos») da santa igreja católica? Que hipócritas são estes médicos!...

E cacarejou uma risada seca.

--Pois que?!--tartamudeou o doutor, enleado até à irrisão.

--Eu logo vi!...--disse a fidalga, como em práticas de solilóquio consigo mesma.--A prontidão das visitas... está explicada... Assim devia ser. Lé com lé, não falha o ditado. Cuidei que as minhas criadas serviam somente aos meus criados. Bons tempos, em que os médicos se não sujavam com amores de servilhetas...

--Oh! senhora D. Cláudia!--atalhou o pundonoroso doutor--vossa senhoria está-me insultando... perdoe-me dizer-lho, porque nunca cuidei de dizer isto a pessoa de sangue tão ilustre... E, de mais, cavalheiro que tal diz a uma dama, não deve mais voltar à presença dela.

E, tomando o chapéu e bengala, fez uma arqueada cortesia.

--Faça o que quiser, doutor!--disse ela abespinhada, com o nó estérico nos gorgomilos--Faça o que quiser que vossemecê se arrependerá...

Brás Luís de Abreu saiu ofegante de despeito e tédio de D. Cláudia da Silveira.

--Que tal está a pelada!--dizia ele de si para consigo--A impudica!... E eu dar-lhe as unturas com a boa fé do mais soez enfermeiro! Chibata é que ela precisava nos lombos ociosos!...

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