Como se pode viver!
De causas de todo em todo inversas e entre si repugnantes aparecem efeitos semelhantíssimos.
O despejo, por exemplo, a coisa hedionda que por aí se chama cinismo, caleja e abroqueia tão rijamente o homem, que todas as setas da desgraça lhe resvalam do peito. Quando cuidamos vê-lo soçobrado, ei-lo se apruma a desafiar novas tempestades, e de tormenta em tormenta chega à derradeira idade, e acaba de cachexia, porque as cachexias não se curam com a valentia da alma.
Vejamos agora o justo em tribulações, o cristão de têmpera pacientíssima e refractaria ao desanimo que prostra e mata. As calamidades a choverem-lhe, as injustiças dos homens a porem-lhe em dúvida a justiça divina--por se dizer que o homem tem forma e semelhança de Deus; ele a abster-se, a amputar-se, a desagregar-se do bom da vida, e a temperar com fel alguma coisa melhor para oferecer ao céu o amargor dela e a relutação com que a toma, degenerando e estragando tudo que os outros saboreiam. Eis que umas pessoas queridas lhe morrem; e outras o deixam, quando ele a chorar lhes pedia amparo; fogem lhe e desonram-no; e o cristão atira-se aos pés da cruz, queixa-se, mostra as garrochas que o trespassam, os anjos como que baixam a descravar-lhas; fecham-se as feridas, outras logo se abrem, e ele a exclamar:
«Mais, mais, Senhor!» Amplius, amplius, domine! Este é o cristão, o penitente, o estoico setenta vezes santo. Ei-lo aí vai vida fora, caindo, erguendo-se, pondo peito ao baque da legião que o tenta, esgrimindo a um e outro lado com a cruz, com o hissope: ora majestoso, ora ridículo; mas vivendo, vivendo, até aos sessenta, e avante ainda, num viver que se nos figura a mais pavorosa das agonias!
Tal foi Brás Luís de Abreu.
Quantas vezes o leitor, no decurso desta biografia, terá dito: «o homem vai morrer agora!»
Morrer! quando será isso? Há de ainda viver, depois de tanto veneno que lhe emborcaram, há de viver dezesseis anos. Dezesseis anos! sozinho! ali em Aveiro, não sei em que rua daquelas, em qualquer casa das mais desaconchegadas, a rever na teia da fantasia o rosto da mulher agonizante, das três filhas mortas, das duas fugitivas, sem que mais aos seus ouvidos soasse o nome delas, nem dos sacrílegos raptores das divinas esposas! E, como ele pôde, em meio de isto, escrever ainda dois livros, dois grossos manuscritos, que não sei onde param, um chamado Fênix Lusa, referindo a vida e ações do sereníssimo infante o senhor D. Manuel, filho de D. Pedro II; e outro intitulado: Vida e ações do primeiro príncipe do Brasil para exemplar do nosso sereníssimo príncipe D. José.[32]
Querem revelação para maiores assombros?
Em 1755, foi aquele memorando terramoto de Lisboa. O padre Agostinho de Abreu, da companhia de Jesus, ia de Santo Antão para S. Roque, ao começar o tremor. Passava diante de uma casa que se estava derruindo, ouviu os clamores de dentro, entrou heroicamente para arrancar uma velha debaixo da couçoeira de uma porta, e ficou esmagado debaixo do tecto abatido. Já sabem que este jesuíta era filho do padre Brás. Pois, quando a nova deste desastre chegou ao pai, seis dias depois, o velho de sessenta e quatro anos ajoelhou, orou, levantou-se, limpou as lágrimas que lhe tolhiam a leitura do seu breviário, e leu o salmo Miserere mei Deus.
Que morte será pois a deste homem para que se não diga que houve aí angústia que pudesse com ele? Há de ser a morte designada pelos seus biógrafos, a morte que o senhor Inocêncio Francisco da Silva lhe assina: «apoplexia fulminante, a tempo que estava sentado, sobre uma cadeira.»
Eram corridos dez dias de agosto de 1756, quando no convento de franciscanos de S. Bernardino se fechou em sepultura rasa o cadáver de Brás Luís de Abreu. A memória de suas misteriosas desgraças será menos duradoura que o renome de médico abalizado que os contemporâneos lhe celebraram.