Poeta e moralista
Casaram.
As delícias do noivado agoiravam santos prazeres de toda a vida.
O esposo entrou nos segredos daquela família, imperfeitamente referidos por sua mulher, que os não sabia bem contar. O essencial da história era ter ela sangue judaico, e ter nascido no desterro, onde se finou seu pai. Lances destes eram vulgaríssimos naquele tempo. Declarou ela que sua mãe não se chamava Antônia, nem o seu apelido era Castro. O mistério, a perseguição, a formosura, a índole meiga, tudo cooperou a robustecer o amor de Brás Luís, que, desde a hora de marido, começou a contar os seus dias de vida.
Tinha vinte e seis anos ele. Mais que nunca lhe inundaram alma enchentes de poesia. Os sonetos rompiam como lavas e aos pares. Um conservou ele no seu livro de medicina. E que engenhosa maneira de mandá-lo à posteridade! Como não era coisa bem cabida um soneto de amores conjugais entre duas receitas para conservar os cabelos, atribuiu como feito aos cabelos de Maria Santíssima o soneto com que eternizara as madeixas de sua mulher. Vejam como ele o diz, querendo encarecer a formosura de um opulento cabelo: «Temos um heroico exemplo na Magdalena, que ainda dos mesmos cabelos, que lhe cresciam, formou toalha para enxugar os pés de Cristo lavados com suas lágrimas... Veneremos a profunda humildade de Maria Santíssima misticamente figurada naquele cabelo admirável, em o humilde discurso deste
SONETO
«Teus cabelos, teus olhos basta vê-los,
Compondo o rosto teu, que ao sol prefere,
Ó minha esposa, porque a fé venere
A amorosa ambição de pretendê-los.
«Nem porque muitos são chego a querê-los,
Antes por qualquer um amor requere,
Um dos olhos o coração me fere,
Prende-me a alma um só desses cabelos.
«Num dos olhos por pura te compreendes,
Num cabelo a humildade sem refolhos,
Dás a entender em símbolos bem-quistos:
«Por isso humilde e pura tu me prendes;
Que se um dos olhos me entra pelos olhos
Um dos cabelos me ata a olhos vistos.»[23]
O soneto, para ser feito a Nossa Senhora, não é bom modelo para misticos; porém, como brinde à estremecida Josefa, é o melhor de que eu tenho notícia, e ela, a meu ver, devia lisonjear-se notavelmente.
O que ela lhe deu melhor ainda do que o soneto foi uma filhinha, que chamaram Ana Maria, e no ano seguinte outra filhinha, que chamaram Maria da Natividade, e depois outra que se chamou Teresa de Jesus, e depois Antônia Maria, e depois Sebastiana Ignácia, e depois Agostinho Luís, e depois Pedro José, e ultimamente Rafael, que morreu ao segundo mês de nascido. Ora aqui tem, leitor sensível, um quadro perfeito de felicidade terreal: cinco filhas e dois filhos, vivos e robustos, em nove anos. Dito isto, por mais que me eu aprimorasse em recamos do estilo e maviosidades de sentimento no descrever as venturas daquela família, tudo me sairia froixo e muito em sombra. As criancinhas são os anjos que pintam os quadros da vida intima com cores e instinto do céu. Quem quer dizer «suprema e indivisível felicidade» não tem mais que pôr: «eram dois pais amando-se muito com sete filhinhos entre eles a beijarem-nos, a beijarem-se, e a chilrearem como avezinhas implumes em volta do ninho que lhes dá o aconchego da plumagem e do cibo.»
Sem impedimento de sete filhos, fartos e asseados, o doutor ia enriquecendo, e repartia seu tempo, roubado às caricias da família, entre os trabalhos de gabinete e visitas às pessoas mais ilustres e pecuniosas da terra. A fama dos seus bons costumes e religiosidade falou por ele no tribunal da inquisição, quando lá chegou o requerimento documentado pedindo as honras de familiar do santo ofício. Concederam-lhas sem hesitação, porque os médicos, como senhores do arcano íntimo das famílias, eram os mais importantes sentinelas da pureza da fé. Não só os sãos costumes, que também um livro de suma piedade e vasta erudição, lhe ganharam as honras e privilégios de familiar. Este livro, publicado em 1725, e ainda hoje relido com devotos fervores por quem sabe gastar com acerto e bom juro o seu tempo, intitula-se «Sol nascido no ocidente e posto ao nascer do sol. Santo Antônio português. Epítome histórico e panegírico da sua admirável vida e prodigiosas ações.» Naquele tempo, não houve livro que ousasse medir-se com as elegâncias e pompas daquele in-fólio, para o qual devera inventar-se a eternidade, se ela não andasse já por aí à disposição das obras inúteis.
D. Josefa, posto que viesse de Paris quase nada disposta a crer nos milagres de Santo Antônio, depois que leu a obra de seu marido, reduziu-se à pureza da fé católica, e revalidou as cerimônias do batismo, para se limpar de escrúpulos. Não seria esta a razão eficiente; mas parecia ser.
No ano seguinte, Brás Luís saiu com outro volume de igual tamanho, bem que menos importante à salvação da alma. Todavia, choviam bênçãos sobre o sábio que primeiro curava almas achacadas de vícios, e depois dava à humanidade enferma, como coisa secundaria, um livro que olhava a minorar-lhe os flagelos corporais. Eis aqui o título deste padrão da medicina portuguesa: «Portugal médico, ou monarquia médico-lusitana. Histórica, prática, simbólica, ética e politica. Fundada e compreendida no dilatado âmbito dos dois mundos criados, macrocosmo e microcosmo.» Estes dizeres podem chamar-se o cabeçalho do título, que se continua em vinte linhas. Assim o declaro para que se não julgue da superficialidade da obra pela pequenez daquele rótulo. Brás Luís de Abreu dedica o seu livro ao príncipe do Brasil D. José Francisco, e assina-se médico portuense e familiar do santo ofício, assentando nestas qualidades dois títulos à consideração publica.
Este livro, a meu ver, é a mais pitoresca história dos costumes daquele século. Ninguém lê o Portugal Médico, e poucos sabem que desprezado tesouro ali está. Como autor de livros de medicina é vilipêndio nosso que Brás Luís seja contado na lista dos escritores médicos, de par com os Zacutos, com os Veigas, e com Jacob de Castro Sarmento; como relação das usanças do século XVIII, não há novela nem poema satírico em português que lhe chegue à barba.
Onde me dá o leitor a conhecer o que eram os médicos estrangeiros em Portugal? Quais gazetas do tempo ou quais poetas mordentes nos deixaram traços da chusma de charlatães, naturais e peregrinos, que se locupletaram entre nós, favorecidos pela crassa bruteza a que tinha descido a faculdade medica em Portugal! Nenhum livro de prosa ou verso, nenhuma publicação coeva no-lo diz, exceptuado o livro obscuro ou escarnecido do Olho de Vidro.
Para mim é de fé que o leitor, nem ainda peitado por estes encômios, vai folhear o Portugal Médico. Pois eu, mas que me alcunhem de impertinente, vou dar-lhe em traslado coisa pouca deste curioso livro, que é mais história que as crônicas dos Azuraras e Pinas, e mais comédia humana que as comedias de Gil Vicente e do Judeu.
Acerca dos médicos estrangeiros:
«Enfada-se de ser soldado na Itália um romano; passa a Portugal, e constitui-se um famoso espagírico florentino. Foge da sua religião feito apóstata um francês; aporta em Lisboa, e inculca-se por um insigne médico português. Quebra em Holanda um mercador; busca o nosso reino, e vende-se por um peritíssimo físico hamburguês. E até entre os nossos o que é alveitar no Minho passa a ser médico no Algarve; o que é cirurgião na Extremadura vai buscar o grão de doutor ao Alentejo; e de boticário da Beira, se converte em Galeno de Trás-os-Montes; e desta sorte espalhados e desconhecidos, morrendo por viver da sua necessidade, vivem de matar com a sua medicina, e atormentando a todos sem piedade, ferem sem pena e matam sem castigo...
«Desembarca em Lisboa, no Porto, ou em outra qualquer barra deste reino um médico estrangeiro, não disse bem, um estrangeiro metido a médico; antes que ponha o pé em terra, já o bom do homem tem mandado encher as esquinas de editais em que publica remédios infalíveis para todos os achaques... Entra-se um destes por casa de um ilustre, de um nobre, de um eclesiástico; mas nunca de um pobre; e se há achaque na casa, começa logo o parabolano a desenrolar prometimentos, e que foi fortuna chegar ele a tempo em que pudesse emendar o que os médicos tinham errado; porque a queixa só ele a conhecia, por ter já feito, semelhante cura na pessoa do delfim de França, e vencido o mesmo achaque no príncipe Eugênio, ou em outro qualquer personagem deste calibre; por que semelhantes físicos nunca se fazem médicos aí de qualquer tudesco de má morte; mas as suas experiencias sempre tem sido observadas, ou nos palácios dos príncipes, ou no serralho do grão turco.
«Começa um destes alquimistas a prometer e o pobre doente a pasmar. Se o achaque é uma ética marasmada, diz-lhe: senhor, eu faço uma água tão portentosa e de tão infalível virtude, para esta sua queixa, que não só é capaz de restauricar éticos, mas de ressuscitar mortos. O cardeal de Rouen em Paris estava já mais magro do que um pisco em janeiro; tomou a mesma água, e logo se pôs mais gordo que um taralhão por agosto... É verdade que lhe custou do seu porque este remédio para se compôr leva duzentas moedas de ingredientes. Se vossemecê quer que eu lho faça venham as moedas; e, se não se achar bom, não me dará nada pela cura. A isto responde o doente que é muito dinheiro--Bom remédio (torna o estrangeiro) faremos por ora só metade da cura, e não vem vossemecê a gastar mais do que cem moedas. Ainda é muito? Pois venham cinquenta. Assim vai duvidando um e outro, e abatendo, até que o alquimista para não ir de todo em todo sem dinheiro, para comprar as drogas se resolve a fazer a cura por duas moedas; mas pede segredo ao doente, porque não quer fazer o seu remédio mal reputado. Vai para casa; põe a ferver dois almudes de água da fonte com um selamin de cevada, deita-lhe umas poucas de flores de papoulas, para tomar outra cor, e um arrátel de assucar mascavado; compõe uma água adocicada cor de fogo; enche quatro garrafões bem tapados com cortiça e lacre, e pilha duas moedas.»
Prossegue Brás Luís em muitas paginas em prosa e verso a critica zombeteira dos médicos mesinheiros, dos pseudo-médicos, dos barbeiros, das benzedeiras.
Concluo o extracto com uma amostra da prosa, e outra da poesia. Qualquer das coisas denota o entranhado fervor com que o médico portuense saía de frente contra os charlatães em favor da humanidade.
«Oh!--exclama ele--quantos e quantos médicos, lobos na condição, estou eu vendo espalhados pelos reicos da nossa monarquia, que não sabem mais que roubar e matar!... São estes ladrões e matadores públicos todos aqueles que sem o serem se fingem médicos. Oh! miserável e desgraçada medicina! Como vejo trocados hoje os teus predicados nobilíssimos! Já não és arte de curar, és atalho de morrer; já não emendas os vícios do corpo, extingues as virtudes da alma; já não és triunfo das queixas, és flagelo das vidas; já não és ciência, és ignorância; já não és arte preclaríssima, és claro e claríssimo latrocínio. Os teus métodos de curar são modos de viver; os teus aforismos são gírias; os teus textos são roubos; os teus remédios são mortes, e os teus brasões são sepulturas. Mas como não há de ser assim, se são homens ignorantes e perdidos os teus professores? Fingem-se médicos os idiotas, os vagabundos, os judeus, os barbeiros, os soldados, os feiticeiros, os benzedores...»
É cristãmente louvável o afoutamento e desprezo com que ele entala os judeus entre os vagabundos e barbeiros; faz, porém, tristeza ver nisto a ingratidão com que ele malsina a raça daquele Heitor Dias da Paz, que vinte anos antes lhe estabelecera a pensão no real colégio de S. Paulo. Entristece ainda mais que ele se não condoa do pai de sua mulher, do avô de seus sete filhos, o hebreu desterrado, que, no dizer de D. Josefa, expirara exclamando:
«Deem-me um pouquinho de ar da minha terra, que eu não morrerei ainda!»
Desculpe-se o ingrato aos israelitas, e lembre-se a gente do muito que ele devia à inquisição, que o fizera seu familiar, sem lhe averiguar a raça, até à quarta geração, condicional indispensável na investidura daquela honra, honra neste mundo, e segurança na conquista do outro, vista a soma de indulgências com que os papas alimpavam a consciência destes esbirros do santo ofício.
Desculpe-se-lhe ainda a feia culpa, em desconto da malquerença e ódio com que os seus colegas leram o seguinte soneto:
«Um, dois, três, vinte, trinta, oitenta, cem,
Mil, dez mil, vinte mil, seiscentos mil,
Milhares de milhares (São frei Gil!)
Quem poderá contar quantos cá vem?
«Tanta gente sem conhecer ninguém![24]
Más caras! ruins aspectos! forma vil!
Nunca eles são de gênio mais subtil,
Se a cara testemunha o que elas tem.
«Ah! sim; já sei; uns mata-sanos são
Daqueles asneirões que por hi há,
Que não sabem escolher o mal do bom.
«Ah! quantos burros há! (mais de um milhão?)
Que sem saberem ler o bê-á-bá,
Curam e matam por hi sem tom nem som?»
Agora, vamos, por algum tempo, deixar Brás Luís de Abreu com as suas prosas, com os seus poemas, e com o locupletar-se, por justo efeito da sua grande nomeada. Não cuidem que ele, à semelhança dos poetas, de seu natural perdulários e desinteresseiros, tem em conta de pouco a paga das suas visitas. No tocante a estipêndio de médicos, vejam como ele se declara: «Não faltam médicos na monarquia médico-lusitana, que por este modo vivam apostolicamente. Em muitas cidades, vilas notáveis e povoações grandes deste reino, é para os seus médicos muito pouco o sustento e imenso o trabalho. Na aritmética medicinal desta monarquia, multiplicam-se as visitas, mas nunca se acrescentam as pagas: poucas vezes os médicos cuidam em somar, porque nunca os doentes chegam a repartir. Trabalhar todos os dias, levantar-se a qualquer hora da noite, subir e descer escadas, ouvir queixas, sofrer impertinencias, examinar cloacas, receitar remédios, e revolver livros, isto sim; que para isso é burro: receber pagas, cobrar partidos, recolher avenças, e embolsar estipêndios, isso não, que por isso é asno.»
Engenhoso modo este de avisar os seus doentes remissos na paga, não por atenciosas cartas no fim do ano, mas por três paginas de um livro in fólio, das quais trasladei algumas linhas, em obséquio aos médicos do tempo de agora, e censura aos doentes que não pagam.