O velho da ermida O Olho de Vidro · Capítulo 21 de 25
Obra Menu

O velho da ermida

Em uma aldeia, chamada Verdimilho, a uma légua de Aveiro, vivia em 1738 um ancião, reputado justo porque à volta da sua casa, colmada e desguarnecida da mais trivial mediania, se ajuntavam os pobres da freguesia, em dias determinados, e recebiam esmolas que lhes bastavam à alimentação parca da semana. Chamavam ao incógnito o «velho da ermida» porque, ao lado da choupana dele, estava uma capela. Os pobres, favorecidos deste homem, paravam ao cair da tarde nas vizinhanças da ermida, para o verem sentado no teso de um oiteirinho, com os olhos enlevados no transmontar do sol; e, se o viam passar a mão por eles como quem enxuga lágrimas, diziam entre si:

«Um homem que dá tanto aos pobres, e chora!...»

Em 1739 saiu ele caminho de Aveiro, pela primeira vez. Os pobres seguiram-no, e disseram-lhe:

--Não voltais mais aqui, nosso benfeitor?

--Voltarei, filhos. À noite serei convosco.

E caminhava a pé, abordoado num cajado que lhe dera um dos seus pobres.

Chegado a Aveiro, entrou na igreja de S. Bernardino, acantoou-se no mais escuro dela, e assistiu aos responsórios da segunda filha de Brás Luís de Abreu, a qual estava sobre a eça.

Saiu, parou à porta do pai da defunta, subiu, entrou à saleta em que ele recebia os pêsames, apertou-o nos braços e disse-lhe:

--Dá-me a vida das três filhas que te restam, e vem tu com elas.

O padre derramou copiosas lágrimas, e não respondeu.

Voltou Francisco Luís à sua cabana da ermida, e os pobres, ao outro dia, confluíram das suas aldeias a dar-lhe as boas vindas.

Em 1740 fez o hebreu a mesma caminhada, entrou na mesma igreja onde se rezavam responsos, na mesma saleta onde chorava um velho, e disse-lhe:

--Dá-me a vida das duas filhas que te restam, e vem tu com elas. Rasga-lhe as mortalhas, antes que o coveiro as esconda, e o sino dobre por elas.

O padre chorou muito, inclinado ao peito do velho, e não respondeu.

Voltou o caminheiro à sua cabana, e os pobres olharam-no com muita amargura, porque a sombra dele era como de arejo vindo da região dos sepulcros.

Uma tarde, não longe daquele dia em que se finara a quarta professa de S. Bernardino, apareceu em Verdimilho o padre Brás Luís, atirou-se esbofado aos braços do hebreu, e disse-lhe:

--Dê-me as minhas filhas!

--Pede-mas a mim?! É a Deus que as deve pedir... ao seu Deus, que ressuscitou muitas...

--Não peço as mortas; quero as vivas.

--Que sei eu das vivas? Esperava que morresse uma para lhe ir pedir a última.

--Pois minhas filhas não estão aqui? exclamou Brás Luís de Abreu.

--Aqui?! não vê que toda a minha casa é esta cabana?

--Meu Deus! bradou o padre.

--Que é de suas filhas? acudiu o hebreu.

--Fugiram! perderam-se!...

--Salvar-se-iam? Encaminhá-las-ia qualquer providência que eu desconheço?...

--Roubaram-mas!

E o padre, guardando silêncio por alguns minutos, continuou com intermitentes de gemidos e ânsias ofegantes:

--Perdi-as... e perderam-se!... Pois que nome tem isto senão é prostituição?... A justiça lançará mão delas... e deles...

--Deles quem?--atalhou o israelita.

--De relance os vi: eram militares, vinham de Coimbra a Aveiro, hospedavam-se nas mais nobres casas, e minhas filhas sabiam da existência destes homens...

--E rasgaram as mortalhas--ajuntou o velho de Verdimilho--Pois deixá-las ir. A natureza as defenda, se os aguasis da religião as perseguirem. Deixá-las ir em paz. Faleceram-lhes forças para a continuação do martírio. Muitas das viúvas do Hindustão já hoje se não queimam. É necessário que os preconceitos sejam derrotados uma vez por outra, a ver se alguma hora surge aí deste atascadeiro melhor geração, que traga ao mundo a ideia de Deus com bondade. Coitadinhas! Possam elas chegar onde lhes digam: «Vivei, gozai sem remorsos. O que vos lá ensinaram a dizer na profissão caducou debaixo de outro céu. Pedi, meninas, o coração às estrelas da noite, ao sol do dia, às campinas que reflorecem, às aves que senhoreiam os ares e pousam a cantar nas mais formosas frondes das árvores. Perguntai às belezas e júbilos da natureza, se quem os fez lhes pautou intercadências de amargura. Vivei, cândidas pombas, aquecei-vos ao calor que desentranha o gomo da árvore congelada, e aquece no seio da virgem o sangue palpitante que lhe purpureja as faces. Ide, e escondei-vos no recôncavo das penedias, como as gazelas se escondem do pelouro do carniceiro.» E tu choras?--disse ele com veemência, repuxando para si o corpo inerte de Brás Luís--hei de falar-te assim com este ar de pai, porque estou a ver-te, criancinha, que, há quarenta e oito anos, eu tirava dos braços da ama para sentir o gozo de te embalar e ver adormecido nos meus. Chora por ti que és muitíssimo desgraçado: por elas não, que eu duvido que haja aí maior horror que o morrer das outras. Porque não iria eu com tuas filhas à fonte da saúde, do bem do corpo e da alma? Porque mas não deste? Davas dois anjos a este homem de setenta anos, que não tem ninguém que lhe feche os olhos. E, depois, extinta esta luzinha que vasqueja, as tuas filhas aprenderiam nas memorias da minha vida a viverem virtuosas sem religião revelada, a socorrerem indigentes sem lerem os preceitos da caridade de Confúcio ou de Jesus. Mas se mas não deste, nem por isso descreias da felicidade delas. O amor tem céus e resplendores, que banham de luz as mais tristes almas. O crime delas é coisa tão mal feita à superfície da razão degenerada, que lhes não há de durar mais na consciência do que a sentença delas escrita sobre areia. Verdadeiros crimes, diante do juiz incorruptível, são aqueles de que o senso interior nos condena.

Prolongou-se a prática do hebreu. O padre não o ouvia. O que ele parecia escutar era um cavo e muito íntimo desfibrar-se-lhe o coração, este envelhecer e morrer que o homem está sentindo a branquear-lhe os cabelos e a ressumar-lhe à face camarinhas de suor de agonia.

Depois despediu-se, e murmurou:

--E adeus! que está consumado tudo!

--Ainda não: viverás mais anos, porque se não é desgraçado como tu és senão em toda a plenitude. Eu é que vou sair de aqui. É noite fechada. Já não tenho neste mundo sol que me derreta os gelos de setenta anos.

1/1
Menu

Fazer anotação