Brás Luís O Olho de Vidro · Capítulo 8 de 25
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Brás Luís

Neste tempo, Brás Luís, o colegial de S. Paulo, ia nos quatorze anos.

A notícia da desastrosa morte dos seus benfeitores, revelada pelos condiscípulos, pungiu-o, tirou-lhe da alma sinceras lágrimas; porém, naquelas idades a sensibilidade é para pouco; as saudades das pessoas queridas que morreram não se prendem à previsão angustiosa das desgraças porvindouras. O filho de Antônio de Sá Mourão estava de todo esquecido do doutor Abreu, e não longe de esquecer-se de Heitor Dias da Paz.

Os mestres do colégio, cuja dileção pelo engenho do moço se manifestava no afago com que o divertiam de pensar no hebreu queimado e no outro que se dera a si desesperada morte, receosos de que o santo ofício fosse ainda contender com o estudante por supor que ele fosse irmão de Heitor, zelosamente informaram os inquisidores dos piedosos sentimentos de Brás Luís, e da docilidade e devoção com que ele se entregava aos exercícios espirituais. O santo ofício, inteirado de isto, deixou em paz e por conta da religiosidade dos paulistas o menino.

Como ele se alimentava e educava a expensas do colégio, o parecer dos mestres era encaminhá-lo para frade paulistano. Este intento, quando o moço tinha quinze anos, foi contraditado pela companhia de Jesus, que enviara delegados a recensear nas universidades e colégios de Évora e Coimbra estudantes esperançosos, garfos de boa seiva, que se fossem enxertando nos troncos envelhecidos, para que alguma hora não sofresse quebra o predomínio intelectual dos filhos de Santo Ignácio.

Os paulistanos ofenderam-se do sequestro que os jesuítas arbitrariamente fizeram nos seus mais grados alunos; e, por vindicta, entraram a despersuadir o moço de aceitar a roupeta. Facilmente o moveram à repugnância da vida sacerdotal, e assim se privaram também de o conquistarem para si. A companhia de Jesus catequizava, mas não violentava. Tão somente as vocações libérrimas e muito espontâneas lhe serviam. Logo pois que Brás Luís manifestou indisposição para a vida sacerdotal, abriram mão dele os jesuítas, oferecendo-lhe, se necessários fossem, recursos com que pudesse seguir a carreira para onde pendessem os seus talentos. Quer generosidade, quer astúcia com que os padres ardilosamente granjeavam a estima quase universal, o certo é que Brás Luís teria a proteção deles, se não tivesse a dos paulistas.

Deram-lhe a opção de modo de vida. Brás escolheu a medicina.

Aos quinze anos matriculou-se no primeiro do curso depois de ter estudado artes, e logo deu de si tão lisonjeira conta, que se estremou entre os condiscípulos, ganhando as distinções das escolas, a estima dos mestres, e especialmente de D. Manuel dos Reis e Sousa, a quem o discípulo dos seus futuros escritos se mostrará agradecido.

Ao correr do terceiro ano, a índole do acadêmico passou por inesperada revolução. Sem faltar às obrigações escolares, deu-se à tunantaria dos estudantes malcomportados. Fez-se arruador noturno, bulhento, femeiro e pimpão. Os paulistas ameaçaram-no de o deixarem entregue aos seus desatinos. Brás Luís respondia às ameaças dando ótimas lições nas aulas, e ganhando os louvores dos lentes, sem desistir de tomar o primeiro posto nas algazarras e assuadas noturnas.

Em uma dessas escaramuças à cidade baixa, travou-se uma refesta ensanguentada entre a gente miúda de Coimbra e os estudantes. Brás, depois de muitas proezas, caiu ferido de uma choupada, que lhe vazou o olho direito. Alguns condiscípulos levaram-no em braços para sua casa, e lhe assistiram afetuosamente à cura. Salvaram-no da morte: mas não puderam salvar-lhe o olho.

Depois de dois meses de cama, o estudante recebeu a má nova de ter perdido o amparo dos frades. Acudiram logo os condiscípulos fintando-se para suprirem a esmola do colégio, Brás prosseguiu na formatura, e não mais foi visto nas sortidas belicosas, como quem já não tinha mais que um olho para sacrificar. Os paulistanos, contentes da reforma do seu protegido, voltaram a socorrê-lo; porém, o pundonoroso acadêmico, reunindo os seus condiscípulos favorecedores, expôs a relutância com que aceitaria a esmola dos frades, e a satisfação com que continuaria a recebê-la de estudantes. Aplaudiram-lhe o brio, e animaram-no a rejeitar o pão vilipendioso dos paulistas.

Em 1714, tomou Brás Luís de Abreu grão de licenciado em medicina. A razão que ele teve para assinar-se Abreu funda numa casualidade de que resultou enganar-se Barbosa na sua Biblioteca Lusitana, dando Brás Luís como filho de Francisco Luís de Abreu e Francisca Rodrigues de Oliveira. Foi o caso, que folheando ele o abecedário por onde começara a soletrar, muito na primeira puerícia, em companhia do seu primeiro protetor, encontrou o seu nome assim posto no alto da primeira página do alfabeto: Brás Luís de Abreu. Assim o escrevera a esposa do doutor, numa daquelas horas de ternura, em que ela encarava no menino como em filho propriamente seu.

Aí está onde ao médico se deparou um apelido, que ele não sabia de onde lhe havia de vir, por mais que discorresse sobre o modo de rastrear seu nascimento. Neste investigável mistério o que a si mais provável se figurava era que seu pai devia de ser um homem apelidado Abreu; mas como esquadrinhar-lhe a naturalidade, as aventuras da vida ou da morte? Em Coimbra não havia para que indagá-lo; porque ele não tinha sequer vaga lembrança de ter estado em Coimbra nos primeiros anos. Todas as suas lembranças esboçavam-se dos sete anos para aquém. Terra que não fosse Coimbra só escassamente se recordava de Vila Flor; e imagens de pessoas, duas somente lhe viviam meio delidas na lembrança: eram Francisco de Moraes e Heitor Dias da Paz.

Um condiscípulo de Mirandela encarregou-se de averiguar-lhe algumas noticias de seu nascimento em Vila Flor. As tradições encontradas ali eram que uma criança aparecera em casa do hebreu Moraes, ao tempo que seu filho voltou da Holanda. Parentes ainda vivos daqueles israelitas não sabiam dizer nada a tal respeito. O que o condiscípulo informador acrescentou foi que dos muitos haveres do hebreu suicidado não havia palmo de terra que a inquisição não confiscasse.

Habilitado para exercitar a medicina, conquanto lhe sobrassem créditos de grande estudante, faltavam-lhe doentes. À míngua de recursos, pensou em estabelecer-se em alguma terra desprovida de médicos. Um seu contemporâneo da faculdade jurídica convidou-o para Viseu, onde o encontramos curando com muita voga e felicidade em 1715 até 1718[10].

No fim deste ano, como a sua fama o atraia e a cobiça o impulsava para terras de mais glória e lucros, passou a residir em Lisboa. Aqui e neste mesmo ano começou ele a olhar tristemente para a deformidade que lhe deixara no rosto a choupada, e achou-se não só feio, se não repugnante a olhos de damas, que se engulhavam de lhe verem a órbita direita vazia e coberta pela pálpebra amortecida.

Cogitou o médico em arranjar um olho artificial, com que encher a órbita nauseenta e dar contratilidade aparente à pálpebra. Investigou a ciência e encontrou que os gregos e egípcios fabricavam olhos artificiais, formando-os de uma casquinha metálica, pintada ou esmaltada, semelhante a uma metade de ovo pequeno, dividido longitudinalmente. Este primitivo e pouco engenhoso olho não agradava ao nosso jovem médico. Indagou no estrangeiro, e de Holanda o informaram que estava em Amsterdam um hebreu inventor de olhos artificiais de esmalte, com a qual matéria substituíra vantajosamente os metálicos. Entendeu-se Brás Luís de Abreu com o inventor holandês, e ajustou na órbita um olho, menos mal imitado, mediante o qual a pálpebra voltou à sua elasticidade.

Este olho de esmalte era imóvel: bastava encarar na cara do médico para logo se conhecer que a órbita direita estava envidraçada. De aí seguiu-se chamarem-lhe o doutor Olho de Vidro, alcunha que lhe ficou até à morte, e longos anos depois serviu de celebrar-lhe a memória, a magnitude dos talentos médicos e os seus não menores infortúnios.

Como quer que fosse, a fisionomia do doutor Brás Luís, não obstante a pouca ilusão que embaía o falso olho, melhorou bastantemente.

O restante do carão, como diziam os coevos dele, era senão gentil, mui simetricamente ajeitado. Vestia com apontado primor, e cuidava com esmero das melenas negras e lustrosas, que não polvilhava. A razão deste proceder, tão inverso dos costumes do seu tempo, é ele quem propriamente a escreve deste modo: «... Enquanto aos polvilhos, tão longe estão de parecerem ornato na cabeça do médico, que antes são preságios letais da vida do doente. Porque se a igreja com pós na cabeça nos adverte da morte que vem, como o médico com pós no cabelo nos há de recuperar a vida que se vai? Eu, quanto a mim, antes creio que, os pós são significativos da morte, enquanto a igreja no-lo diz, do que hieroglíficos de saúde respeitando ao médico que os traz. Os verdadeiros ministros de Apolo só usam de polvilhos cefálicos na região animal; de polvilhos cordeais na região vital; e de polvilhos estomacais na região natural. Isto é uso modesto; o mais, estava para dizer que era abuso ridículo.»[11]

Não curemos de ponderar a justiça das razões que o doutor alega contra os polvilhos. Imaginando que os colegas de Brás Luís se riram muito delas, faço justiça aos contemporâneos do autor do Portugal médico.

Também desadorava os perfumes o nosso doutor, naquele tempo em que o peralta de bom cunho recendia como caçoula de camarim de odalisca. Outra razão eficientíssima do seu enojo de perfumes: «Sou de parecer que (o médico) evite os cheiros, e que se negue a todo gênero de perfumes, porque ainda que Hipócrates no seu tempo permitia os que não eram suspeitos aos achaques, contudo neste século mais escrupuloso por mais pervertido, nenhum gênero de perfumes cheira bem... Deixemos esses esmeros para os que vivem à moda, e não excedamos a moda, que nem porque um médico cheira bem, cura melhor.»[12]

Em adornos capilares aceitava o doutor meramente os naturais: usava simplesmente a sua opulenta grenha, nua de artifícios e empréstimos; porque dizia ele: «Seja também modesto o médico nos adornos da cabeça, tão introduzidos neste miserável século, que não há já encontrar solicitador sem cabeleira nem beleguim sem perruca.» E acrescentava: «Quantos desprezam e cortam hoje o honesto cabelo de cristãos e colocam sobre a cabeça as melenas de um herege!»[13]

O vivo desejo que Brás Luís de Abreu alimentava de reformar as demasias luxuosas e derisórias dos médicos, tornou-se em justa indignação, e a indignação porventura fê-lo poeta como ao satírico latino. Um dos mais inteligíveis sonetos que ele escreveu em tom apostólico salvou-se do olvido, graças ao acertado cabimento que lhe ele deu num seu livro de medicina. Reza desta sorte:

Oh, médico! se és médico com efeito

Procura mundo[14] ser, mas não mundano;

Que de Apolo o caráter soberano

Não anima nos vícios o respeito.

Bebe o cão, bebe tu; mas com tal jeito

Que o crocodilo do rumor profano

Quando vás a beber do Nilo humano

Não possa devorar teu bom conceito.

Em teu ornato a modéstia nunca falte,

Um pouco mais ao grave do que ao lindo;

Que assim obra quem douto assim discorre.

E porque a tua fama mais se exalte,

Visita a modo de quem vai fugindo,

Como do Nilo o cão, que bebe e corre.[15]

O desgracioso da musa do Olho de Vidro está delatando que o poeta, se não era menos de pedestre, poetava violentando sua índole. O natural dele era outro. A meu juízo, tanta prudência e bom conselho no mais verde da mocidade, argue um aliás louvável cuidado de se fazer bem-quisto aos homens graves do seu tempo. É, de mais de isso, muito provável que o médico se temesse de que os rafeiros do santo ofício lhe andassem farejando o sangue; e ele, a contas com a consciência própria, duvidava da pureza de seus incógnitos pais, ao lembrar-se do rito hebraico dos benfeitores de Vila Flor. Se os ele não conhecia, quem lhe asseverava que a inquisição os não conhecesse? Se lhe pedissem a certidão do batismo, onde iria ele esquadrinhá-la?

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