História de Antônio de Sá O Olho de Vidro · Capítulo 14 de 25
Obra Menu

História de Antônio de Sá

Recebeu Brás Luís de Abreu aviso para ir ver um espanhol que pousara enfermo na estalagem.

Francisco Luís queixou-se de varias moléstias, ouviu o parecer do médico, pagou-lhe generosamente e pediu-lhe que o visitasse todos os dias.

Dos remédios receitados não se aproveitou, porque os achaques eram fantásticos, e bem sabia o doutor Abreu como era fácil enganar outro doutor Abreu.

No dia seguinte, o Olho de Vidro encontrou melhorado o seu doente, e sentiu-se ufano do acerto com que cortara pela raiz uma doença, com a qual se tinham enganado os principais médicos de Espanha, segundo a confissão do doente.

Já o doutor Brás queria espacejar as visitas: o espanhol, porém, instava, pagando-as a brio, que não lhe faltasse diariamente com elas.

Estava sendo celebrado em Aveiro este triunfo recente do Olho de Vidro.

Já o convalescente se julgava restaurado, e o doutor como tal o dera; o forasteiro, porém, afeiçoado à terra onde se recobrara, determinou passar nela a primavera de 1732, e voltar nutrido a Castela, de modo que os médicos madrilenses se comessem de inveja dos seus colegas portugueses.

O doutor Brás, como visse no seu enfermo D. José Aristizaval (assim era conhecido em Aveiro) excelentes qualidades, contando nestas a bizarria indicativa de riqueza, convidou-o a servir-se de sua casa e da convivência de sua esposa e filhos, os quais, dizia Brás Luís, são tantos que bastam a formar uma assembleia em Aveiro ou sarão de aldeia, que monta o mesmo.

Agradeceu e aceitou o convidado o oferecimento; e, logo à primeira visita, brindou a esposa do seu médico e as cinco meninas, formosuras muito de se verem, cada uma com sua joia de preço. Reparou logo e de relance em D. Josefa, e recordou uma por uma as feições de D. Maria Cabral.

Ficaram as meninas contentíssimas dos presentes, que eram braceletes de ouro, mandadas comprar ao Porto, com a desígnio já posto no destino que tiveram. Entretido nestas coisas, mistura de puerilidade e bons sentimentos, o espírito de Francisco Luís ía cobrando alento e certa energia. Grande parte nesta sua insólita atividade era por certo a esperança de saber pelo miúdo a vida trágica do seu amigo Antônio de Sá.

Seguiram-se as visitas e foi-se apertando a intimidade. As meninas e os rapazes folgavam muito de ouvir o velho D. José contar histórias curiosas das suas navegações. Um dia, veio ao ponto uma batalha de corsários com uma nau holandesa, em que ele viajava na costa de S. Domingos.

--De S. Domingos!?--exclamou D. Josefa.--Já esteve nesses sítios vossemecê?

--Avistei-os--disse o hóspede.

E inventou uma rija peleja entre holandeses e piratas, descrição temerosa que tinha os ouvintes espavorecidos.

Terminou o sarão daquela noite; e, na seguinte, Brás Luís de Abreu, cada vez mais entrado de afeto ao espanhol, lhe disse:

--D. José Aristizaval, hoje sou eu o narrador de desventuras de navegantes. A história que eu vou referir só a sabe em Portugal minha mulher e eu: de hoje avante ficam-na sabendo o meu honrado hóspede, que a não há de repetir a portugueses, e os meus filhos, que por interesse seu, hão de calá-la.

--Honrado sou eu por benevolência do doutor--se vossemecê me considera igual com seus filhos no merecimento de entrar no segredo de seus pais, respondeu Francisco Luís.

--É segredo de tanto porte--acrescentou o médico, abaixando a voz--que não sei de outro em minha vida com que possa mostrar-lhe a confiança que me merece, senhor D. José.

E, passados alguns segundos, Brás Luís de Abreu, silenciosos profundamente os ouvintes, principiou assim:

--Minha sogra era filha de um dos primeiros fidalgos de Trás-os-Montes. O solar dos Cabraes de Carrazedo é um dos mais antigos de Portugal. Meu sogro era hebreu, e chamava-se Antônio de Sá Mourão, natural da Guarda.

Fugiram de Portugal com admirável fortuna, e casaram-se segundo o ritual hebraico, presumo eu. Meu sogro, ao tempo da fuga, estudava medicina, e tomou grão em uma das universidades estrangeiras. Esteve alguns anos na Europa; e, como o dominava a paixão de ser rico, aceitou partido muito vantajoso que os franceses lhe ofereciam no Canadá, e embarcou em Marselha, quando minha mulher era criancinha.

Na altura da costa de S. Domingos, a nau em que ele se embarcara perdeu o rumo, e foi levada contra a costa, por não ter tempo de fazer-se ao mar quando a tormenta se levantou. Antes que o navio se despedaçasse, alguns passageiros aventuraram-se numa lancha a ganharem a praia por entre as fauces da morte. Com os aventureiros ia meu sogro, e a esposa com a filhinha nos braços, dispostos a descerem ao abismo abraçados.

Já perto de terra, onde levavam postos os olhos, avistaram dois navios de pequeno lote, e chusmas de tripulantes vestidos de trajos extravagantes. Um conhecedor daqueles mares reparou nos homens da pátria, que se moviam vertiginosamente, e exclamou:

--São os demônios do mar! São flibusteiros![30] Vejam lá o que querem: morrer no mar ou no cativeiro daquelas bestas-feras?

Ninguém optou por morrer no mar. Os passageiros da lancha, bebendo a morte a cada instante, conclamaram que antes queriam o cativeiro do que a morte horrível de afogados.

Antes de chegarmos a terra, ouviu-se uma grande celeuma do mar a dentro. Olhamos todos para a nau, e vimo-la soçobrar, e uma montanha de vagas abater-se sobre ela. Soltamos um grito uníssono de consternação! Alguns dos aventureiros gritavam por esposas, por pais e filhos!... Que situação, senhor D. José! De um lado, aquele naufrágio horroroso, do outro os flibusteiros, que esperavam ansiosos a presa, que se lhe ia entregar aos ferros. Assim que a lancha bateu em terra, os bandidos rodearam a presa, e mal ouviram não sei que palavras ditas por meu sogro a sua mulher, bradaram todos: «Cá temos um cão de espanhol!» E a um tempo se lançaram todos a ele, como se entre si disputassem com especial ódio a posse daquela vítima distinta das outras. Como se explicava o particular rancor que os flibusteiros tinham aos espanhóis?

--Se eu não receasse interromper a sua interessante história--disse Francisco Luís--lhe daria a razão desse ódio, se é que sua esposa não quer explicar-lho melhor do que eu sei, por mo haverem contado e não por experiência.

--Minha mulher, disse Abreu, ignora-o, porque muitos anos viveu longe do trato de tal gente, e não sabe explicar-mo.

--Em poucas palavras o farei--tornou o hóspede.--Os pontos essenciais da ilha e costa de S. Domingos pertenceram aos espanhóis. Um dia, chegaram à costa setentrional daquelas possessões algumas galeotas de aventureiros franceses, mesclados com malfeitores foragidos de todas as nações, homens sem pátria, escapados do cadafalso, feras tremendas, que precisavam embriagar-se de sangue para gozarem algum prazer neste mundo. A estas escorias sociais congregaram-se outras da mesma índole saídas de Guadalupe, de Granada e da Martinica. Naquelas vastas florestas acharam que farte sustento, na abundância de manadas de toiros bravos, de javalis, e vacas mansas, que os espanhóis por lá deixaram medrar e multiplicar. A riqueza de cada um destes bandidos compunha-se de uma boa matilha de rafeiros, de uma enorme espingarda, duas camisas, uma jaleca, um chapéu de feltro, um calção, e uma grossa correia à cinta com uma espada curta e três facas de mato pendentes. As casas deles, durante as sortidas à rapina, eram barracas de fina lona, com a qual se defendiam das ferroadas dos moscardos e das geadas homicidas. Viviam aos dois, antes que a França lhes mandasse mulheres, e, por morte de um, era herdeiro o outro. Raras vezes se desavinham, e quando se desafiavam matavam-se a tiro de espingarda. Se o morto não recebesse os pelouros pela frente, o assassino era logo degolado como traiçoeiro.

O principal comércio deles era carnes secas e peles, que iam vender às enseadas da costa, mediante uns assalariados, que tratavam entre eles e os compradores, na esperança de voltarem ricos da América, onde se lhes ia a vida em duríssimo cativeiro.

Quando os espanhóis da ilha de S. Domingos deram tento dos salteadores nas vizinhanças das ilhas, tiraram-se da letargia de suas riquezas, pediram tropas ao rei de Espanha e fizeram guerra implacável aos flibusteiros, matando-lhes muitos dos mais audazes. Deste começo de extermínio se gerou o ódio dos bandidos à Espanha, e mais ainda por causa do golpe mortal que sofreram, quando as tropas entraram às matas, e mataram os rebanhos mansos e bravos, que o mesmo foi secar as fontes de subsistência daquelas hordas. Eis aqui, a meu ver, a origem do inquebrantável rancor dos chamados demônios do mar. Agora, vamos à história do senhor Antônio de Sá, meu sogro.

--Meu sogro, minha mulher e filho--continuou Brás de Abreu--foram remetidos à Martinica numa galé, que vogava com mais de cem homens. O capitão dos flibusteiros residia ali, como governador, e chamava-se Duparquet...

--Devia ser filho--atalhou Francisco Luís--de um francês também chamado Duparquet, levado às honras de governador em 1637 por Luís XIII de França, a quem convinha aliançar-se com tão honrados vassalos.

--Duparquet, sabendo que o espanhol cativo era médico, tratou-o com alguma afabilidade, e encarregou-o de lhe curar de câmeras uma filha. Meu sogro saiu felizmente do encargo, e foi considerado por isso médico da casa do governador. Naquele ano, que me parece seria o de 1697 ou 98, segundo as confusas lembranças de minha sogra, meu sogro foi mandado embarcar numa nau de quatro peças, da qual se arvorara almirante um francês chamado Legrand, o mais temível flibusteiro daqueles mares. Antônio de Sá curou muitos mutilados numa abordagem aos galeões de Espanha, e, pela perícia com que o fez num grave ferimento de Legrand, ficou desde logo nomeado escravo e médico do almirante. Meu sogro assistiu ao assalto de Maracaibo, riquíssima cidade e bem guarnecida, que se deixou entrar e saquear por quatrocentos salteadores.

Também assistiu à tomada de Cartagena pela esquadra francesa, auxiliada por flibusteiros, que lhe deram a Vitória.

No afogo desta peleja, Antônio de Sá, quando estava pensando as feridas de seu senhor, foi gravemente ferido de bala. A convalescença foi longa. Neste intervalo, em que ele se tornara inútil, pediu licença para ir ver à Martinica sua mulher e filha. Negaram-lha; mas concederam-lhe que a família o fosse visitar nos arraiais movediços de sobre as ondas.

Legrand tinha residência em S. Domingos, onde se desfadigava das batalhas navais, exercitando os seus leões do mar. Obrigou, portanto, o prezadíssimo escravo a viver com ele. D. Maria, minha sogra, passou à companhia do marido, e minha mulher que tinha então seis anos, ficou em casa do governador da Martinica, por que a filha predileta de Duparquet se habituara a considerá-la a sua escrava loura.

Por muitas vezes, Antônio de Sá Mourão suplicou a Legrand, que, em paga de seus serviços, o deixasse passar com sua família à Europa. O francês, importunado pela teimosia de tais rogos, ameaçou-o de o mandar matar, se ele tentasse fugir! É onde podia chegar a gratidão do flibusteiro almirante!

Minha sogra me disse que, decorridos cinco anos, o marido escrevera desde S. Domingos a um amigo muito querido, que tinha em Portugal. A carta, porém, foi devolvida passados dias a Antônio de Sá, com a seguinte reflexão do governador almirante: «Os escravos dos flibusteiros, se teimam em escrever cartas para Espanha, correm o perigo de não poderem já ler as respostas, quando elas voltarem.»

Nunca mais Antônio de Sá escreveu ou tentou escrever para Portugal.

O médico ia enriquecendo com as liberalidades dos flibusteiros; porém, um dia, achou-se roubado, não obstante ser pouquíssimo vulgar o latrocínio entre eles. Seria porque ao português ou espanhol o consideravam estranho à sua tribu, e como tal indigno de se gozar dos foros de lealdade, que uns com outros guardavam.

Minha mulher corria por este tempo nos seus dez anos. O pai consternava-se de a ver criar-se entre gente brutal, e rodeada de criaturas ignóbeis do seu sexo, recenseadas nos lupanares de Paris e de Marselha, enviadas como presas às colonias.

Antônio de Sá, aproveitando o lanço de ter cativo o ânimo do governador, depois da cura de doença grave, pediu-lhe licença para enviar a filha a educar-se numa casa de religiosas francesas. O governador condescendeu, e enviou duas netas ao mesmo colégio, na primeira nau que saiu para França.

Meus sogros presumiam que lhe seria menos embaraçada a fuga podendo passar a filha à Europa. Enganaram-se; por que Duparquet, arrependido da concessão, redobrou de vigilância sobre os menores passos do seu médico.

1/1
Menu

Fazer anotação