Conclusão O Olho de Vidro · Capítulo 24 de 25
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Conclusão

Que destino tiveram aquelas duas freiras que, no dizer do defunto hebreu, rasgaram as mortalhas?

Saibamos quem eram os raptores. Eram uns cadetes de cavalaria, filhos de um Heitor Teixeira de Macedo, capitão-mor de Coimbra, e fidalgo solarengo de Condeixa-a-Nova, muito aparentado com os Chamorros, Marreiros e Matosos, nobilíssimos apelidos de famílias aveirenses. Hospedados em casa destes Chamorros e Matosos é que os Cadetes puderam ver sóror Antônia Maria e sóror Sebastiana Ignácia. Fazerem-se amados devia ser coisa de pequeno prólogo, já porque as duas virgens não tinham das coisas deste mundo mais experiência que os anjos, já porque almejavam ser amadas, já porque os dois cadetes eram bizarros moços, galãs palacianos, formosíssimos demônios, que faziam tremer as calçadas e os corações das damas de Aveiro com a estrupiada dos seus alazões.

O namorarem-se, convencionarem-se e fugirem foi num pronto. A justiça, quando tal soube, quis gritar; mas os Chamorros, Matosos e Marreiros amordaçaram-na. Os rapazes já não tinham pai: tinham mãe, uma santa matrona, que era a imagem das virtudes cristãs. Apareceram-lhe os filhos, e ajoelharam pedindo recursos para fugirem de Portugal. A trêmula e espavorida senhora escutou a história do criminoso passo. Não amaldiçoou os filhos. Chorou muito; e os velhacos, nas costas dela, faziam esgares de grandes farcistas!

A fidalga perguntou onde estavam as freiras. Soube que as tinham escondidas numa quinta distante. Quis vê-las, porque sabia a tragédia singular da família do médico.

Por noite alta, entraram as duas meninas à recâmara da viúva do capitão-mor de Coimbra. Foram mui benignamente recebidas. Aquela senhora tinha facilidades incríveis! Receber assim duas libertinas esposas do Espírito Santo!

Receando que fossem presas, antes de irem onde a virtuosa senhora tencionava mandá-las, não as deixou mais sair da sua recâmara.

O capelão saiu para Lisboa; e, oito dias depois, estava de volta com muitas cartas para cardeais e ministros residentes em Roma.

--Podeis amanhã partir, filhos--lhes disse ela.--Ide a Roma com estas cartas, entregai-as, e tornai com um bom despacho. De volta, podereis ser esposos destas meninas, que ficam no quarto de vossa mãe até que volteis.

Os moços olharam-se entre si, e ficaram como aparvados. Olharam para as freirinhas, e viram-nas a chorar, fingindo que sorriam.

Não havia que replicar. Partiram para Roma.

Estavam em Lisboa ainda, negociando ordens de dinheiro sobre banqueiros romanos, quando foram chamados à pressa por ordem da mãe.

A fidalga adoecera com todos os sintomas de próxima morte.

--Chamei-vos, disse ela, para que me assistais ao enterro. Depois, ireis. Agora, jurai sobre estas Horas que cumprireis a minha vontade quanto a estas meninas. Depois de me haverdes sepultado, ireis para Roma, e, obtida a anulação dos votos delas, casareis.

Juraram e cumpriram. A anulação dos votos foi prolongada com inquéritos de testemunhas no convento de S. Bernardino. O padre Brás não favoreceu nem contraditou a anulação.

Ao cabo, porém, de três anos, Antônia e Sebastiana receberam as bênçãos nupciais em Roma.

Detiveram-se em Roma até 1750. Em 1751 já estavam em Portugal. Não procuraram o pai, porque lhes era odioso o homem, que as atirara com sua mãe e irmãs, vivas, novas e formosas, ao sepulcro de um convento, e lhes dera como flagelos a convivência de freiras que enfeitavam a sua estupidez com as lantejoulas da hipocrisia, ou da refinadíssima protérvia de intolerantes. Odiavam por isso o pai, e o luto, que vestiram por ele, não tinha nódoa de uma lágrima.

Morreram velhas, ignorando que motivo lançara um véu negro sobre o rosto de sua mãe, à hora em que o padre maldito lhe falara.

Fr. Pedro de Abreu, o frade dominicano, chegou a ser qualificador do santo ofício; mas, como quer que o marquês de Pombal apagasse a última lavareda do santo ofício com o corpo de Gabriel Malagrida, fr. Pedro acabou sem assistir a um auto de fé espetaculoso, como tinham sido os da triunfal igreja, quando os relaxados perfumavam a atmosfera com os aromas dos ossos torrados.

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