O segredo horrível O Olho de Vidro · Capítulo 16 de 25
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O segredo horrível

Ao outro dia, Francisco Luís foi convidado a jantar com o seu médico. A condolência a que o movera a infelicidade do hebreu Sá Mourão atou mais na alma os liames de simpatia com que o Olho de Vidro o entranhara na intimidade dos seus.

O israelita de Ourém ia triste. Dir-se-ia que nunca ele, até à véspera daquele dia, deveras se convencera da morte do seu Antônio de Sá. Tantos anos idos, e ele ainda a querer-lhe e como que a esperá-lo! Já o seu contemporâneo Barreto lhe havia dito na suma o que Brás de Abreu lhe dissera, e todavia o convencimento da morte do marido de D. Maria não o tinha ainda penetrado, ao que parecia.

Durante o jantar, como nenhum estranho assistisse, a fora o espanhol--que nunca se esquecera de o ser na linguagem--praticaram largamente acerca dos atos do santo ofício na Península. O espanhol relatou a sorte dos judeus em diversas partes do mundo, para concluir que em Portugal e Castela eram eles mais perseguidos do que poderia sê-lo no inferno se, como piamente cria, Deus os tinha castigado com fogo infinito.

Brás de Abreu, posto que familiar do santo ofício, recebeu de boa sombra aquela um tanto irônica reflexão do comensal, atribuindo a gênio espanholado a comparação faceta.

Voltando à conversação da noite anterior, reflexionou Francisco Luís que, tendo estudado algum tanto os fatos da inquisição de Portugal, notara que a santa bandeira de S. Domingos de Gusmão era pouquíssimo misericordiosa com os hebreus médicos ou estudantes de medicina. E ajuntou:

--É sabido segundo me fizeram crer alguns foragidos de Portugal, que os estudantes de medicina apenas licenciados, ou se acreditavam como familiares do santo ofício, ou se expatriavam antes que a inquisição os desterrasse deste mundo. Dou como exemplo Henrique de Castro Sarmento...

--Foi meu condiscípulo--atalhou Brás de Abreu.

--Pois então sabe vossemecê que ele está em Londres, com o nome de Jacob de Castro Sarmento, em tanto crédito e dignidade que, pouco há, foi elevado à categoria de membro do colégio real dos médicos, e sócio da sociedade real de Londres? Este grande sábio, e co-reformador da ciência, que seria hoje em Portugal, se não se evadisse de aqui uns quatro anos depois de licenciado? Seria porção dessa vasa do Tejo por onde se misturam as cinzas de muitíssimos da sua raça e do seu alto entendimento. Outro médico houve aí em Coimbra, segundo me disseram, que chegou a pertencer ao corpo catedrático, e teve de fugir com sua mulher para a Índia holandesa.

--Quem era? perguntou o doutor.

--Se bem me lembro, tinha ele um nome assaz parecido com o de vossemecê. Chamava-se Francisco Luís de Abreu.

--É verdade!--acudiu D. Josefa--que nome tão semelhante!...

--E não sei--disse meditativo Brás Luís--como esse nome me desperta coisas da minha primeira mocidade!

--Pode ser--tornou o hóspede--que, no tempo em que vossemecê estudou, se falasse ainda no lente fugitivo.

--Creio que sim: há de ser desse tempo que me vem estas vagas memorias--redarguiu o Olho de Vidro.--Creio até que ele teria sido contemporâneo de meu sogro.

--Provavelmente seria--obtemperou Francisco Luís.

--E a mim me está parecendo--acrescentou D. Josefa--que alguma vez ouvi meu pai proferir esse nome.

--Ouviu?--perguntou o hóspede com o coração sobressaltado.

--Ouvi, sem dúvida... Francisco Luís de Abreu... Pois não ouvi? quantas e quantas vezes?... Que fim teria esse homem?

--Provavelmente morreu, senhora--respondeu o hebreu; e prosseguiu sem sensível mudança de rosto:--Pois aí tem, senhor doutor Brás, outro exemplo de perseguição à medicina. Ainda bem que vossemecê não teve de provar que o seu apelido nada tinha que ver com o do médico fugitivo.

--Nada--balbuciou Brás Luís, receando que, depois isto, disparasse a afrontosa pergunta de quem era filho.

Francisco Luís, neste lance, lembrou-se da resposta que o Olho de Vidro lhe mandara bastantes anos antes, e sorriu-se interiormente do dito daquele hebreu, que ao mesmo lhe escrevia presumindo que Brás Luís de Abreu era filho sacrílego de um frade, senão fosse filho de três frades ao mesmo tempo.

A prática ficou por aqui, visto que a fisionomia do dono da casa expressava nenhuma satisfação de que ela se prosseguisse.

Todavia, D. Josefa, quando já estavam sentados à lareira, porque a tarde era de março, disse:

--Não me sai da lembrança o nome de Francisco Luís de Abreu!... A gente, quando entra a envelhecer, recorda-se de coisas da infância, esquecidas no correr de muitos anos...

--A envelhecer!--disse risonho o hóspede--vossemecê, minha senhora, está ainda muito no vigor da vida. Terá quando muito...

--Trinta e sete anos--concluiu D. Josefa.

--Pois aí tem: ainda não chegou a meio caminho. E quem há de dizer que já aqui tem esta senhorita, que representa dezoito, e apenas terá...

--Treze--disse a mãe, correndo a mão pelos cabelos negros da sua primogênita Ana Maria.

--E estes mocinhos, doutor? que destino tenciona dar-lhes?--perguntou o hóspede.

--Se o meu plano for avante, irá um para a companhia de Jesus, e outro para medicina.

--Cuidado com a medicina!--observou jovialmente Francisco Luís--Faço-os ambos jesuítas, que os fará ambos dois grandes homens.

--Pois D. José receia--dizia Brás Luís algum tanto acrimonioso--que um meu filho, se for médico, possa parecer judeu?

--Deus me livre de recear semelhante coisa! mas a mim quer-me parecer que a inquisição, quando não há judeus, encarrega-se de os fazer, talvez por ter lido as santas palavras de Jesus que rezam: é necessário que haja escândalos.

--Como amigo--acudiu Brás Luís--lhe peço que não fale assim diante de alguém. Lembre-se que está em Portugal, D. José!...

--Bem sei, meu amigo; e, se outra vez me esquecer, rogo-lhe que mo lembre. Agora me estava eu imaginando entre pessoas que muito me estimam, por isso me deixei levar de uma invencível propensão a estigmatizar as injustiças, ou elas partam dos reis, ou dos ministros, dos papas ou dos inquisidores. De isto, desta perigosa exempção e rudeza de espírito, procede não ter eu paragem certa sobre este solo cavado de abismos, e andar-me sempre peregrinando de solidão em solidão, para ser ouvido da minha consciência somente...

--Em nossa casa pode falar--retorquiu o doutor--como fala a sós com a sua consciência, D. José Aristizaval. A observação peço-lhe que ma receba de bom ânimo, porque entende com o seu sossego e deve servir-lhe num país que vossemecê conhece pouco.

--Mercês, meu amigo!--tornou Francisco Luís de Abreu.--O que eu sei de Portugal é verdadeiramente a história da sua inquisição, e pouco mais... Há pouco lembrou-me o nome de um condenado ao fogo... também médico ou estudante de medicina... mas... passou-me... Deixe estar... Deixe ver... Ah! recordo-me... Chamava-se ele Heitor Dias da Paz... Vossemecê havia de ouvir falar de Heitor Dias da Paz, que, segundo me afirmaram, andaria por Coimbra desde 1701 até 1704, uma coisa assim, pouco mais ou menos.

Brás Luís fitara os olhos num ponto da fogueira, como quem finge que se está recordando, e disse, corridos dois segundos, com profunda tristeza:

--Conheci-o.

--Pessoalmente?

--Pessoalmente.

Neste comenos, Brás Luís, fitando o ouvido, como se ouvisse voz no interior da casa a chamá-lo, ergueu-se.

--Ninguém te chamou, Brás--disse D. Josefa.

--Parece-me que sim... ouvi que me chamavam.

--Não serão familiares do santo ofício, que me requeiram para maior glória de Deus!...--observou o hebreu como cômico trejeito de quem se esconde.

--Venha comigo à sala, D. José, se não tem muito frio--disse o Olho de Vidro.

--Quem falou na inquisição que sentisse frio? Estas práticas são excelentes no inverno...--respondeu Francisco Luís, cuidando que o seu hospedeiro amigo lhe ia solenizar com toda a gravidade possível os sustos de o ver a braços com o santo ofício.

Brás Luís, entrado à sala, deu alguns passeios meditativo, examinou as portas receando a curiosidade da família, e disse a meia voz ao muito atento e como espantado hóspede:

--Conheci-o, e conheci-o muito.

--A quem?! perguntou como já esquecido Francisco Luís.

--A Heitor Dias da Paz.

--Ah... já me não lembrava que estávamos falando nesse infeliz mancebo, cujos parentes conheci em Amsterdã... Devo dizer-lhe, meu amigo, que Heitor e o pai de Heitor, que se chamava...

--Francisco de Moraes Taveira...

--Justamente... são considerados santos no martirológio ou catálogo dos mártires hebreus. Isto presenciei eu e li nas dípticas da sinagoga holandesa chamada a Casa de Jacob... Com que então conheceu vossemecê mui de perto...

--Conheci, como se conhece um irmão--acudiu Brás Luís.--Não lho disse diante de meus filhos, porque é meu dever de pai e de cristão esconder deles coisas tristes da minha mocidade, por isso que o mundo, se mas soubesse, faria delas espinhos, que me entrassem pela fronte dentro e me levassem a morte ao coração. Vou contar-lhe com igual sinceridade à da história de meu sogro, o que eu sei de Heitor Dias da Paz e... de mim. As mais antigas reminiscências da minha infância prendem-se a Heitor Dias da Paz.

Ditas estas palavras, Francisco Luís de Abreu ouviu o bate de uma forte pancada no coração. Brás devia ver-lhe a súbita alteração do aspecto, se tivesse mais claridade a sala, e eles não estivessem sentados no recanto mais escuro dela.

Brás Luís continuou:

--Lembro-me de algumas coisas dos meus seis anos. Vejo uma mulher que me aperta ao coração, e desaparece para nunca mais ser vista. Nem já sei que feições ela tinha, nem sei onde a vi. É a recordação de um sonho isto, e pouco mais. Perguntei depois quem era aquela mulher, e responderam-me que fora uma visão; e, se não era visão, mais tarde eu o saberia. Ora, as pessoas que podiam dizer-mo, porque assim mo tinham prometido, morreram. Uma era Francisco de Moraes, e outra era o filho, o supliciado Heitor.

Francisco Luís arfava ansioso: ia-lhe no íntimo coisa mais atribuladora que o susto da morte. Brás deu conta do que havia indissimulável em tamanha ansiedade; mas atribuiu tal inquietação ao natural condoimento do seu ouvinte.

E, prosseguindo, disse:

--Heitor Dias chamava-me irmão; e Francisco de Moraes abençoava-me como a filho.

--Vossemecê vivia em casa deles?

--Vivia, desde os seis anos, como já lhe contei. Passados alguns, Heitor foi para Coimbra, e levou-me consigo. Prestacionou-me para eu entrar no colégio de S. Paulo. No princípio do ano de 1704. Heitor Dias foi preso, e somente depois de 1707 alguns meses, soube que a inquisição o condenara a ser queimado vivo, e que o ancião--o desgraçado que não tinha outro filho, e chorava a mulher na sepultura ainda fresca--saindo ao encontro da procissão do auto da fé, se suicidara em presença de Heitor.

Francisco Luís de Abreu levantou-se hirto, de golpe, tremente e pálido.

Este movimento como que levantou o marido de D. Josefa pelos cabelos, sem que ele compreendesse a força misteriosa que o repuxava.

--Que tem, D. José?--perguntou o médico.

--Eu não compreendo o horror da sua situação!--murmurou Francisco de Abreu em legítima língua portuguesa, tapando os olhos com as mãos convulsivas.

--Não compreende o que?!--interpelou Brás estranhando grandemente a mutação de linguagem.

--Como se chamava seu pai?--perguntou com palavras intercortadas pela abafação o hóspede.

--Não sei...--tartamudeou o interrogado.

--Porque se chama Brás Luís de Abreu? Como ajuntou este sobrenome e apelido ao seu nome batismal?

--Porque assim o achei escrito num abecedário da minha infância.

--Que desgraça!--exclamou Francisco Luís, e começou passeando vertiginosamente na sala!--Que desgraça, Deus do céu!...

Brás encarava-o com terrível espasmo procurando nos olhos do seu hóspede algum sintoma de demência.

Nisto, Francisco Luís vai direito ao médico, como que o força a fazer pé atrás de espavorido, e diz-lhe:

--Vossemecê ama muito sua mulher?

--Se amo muito minha mulher? Como a Deus, mais do que a Deus! mais do que aos meus filhos!...

Fitou-o com os olhos cheios de lágrimas o hóspede, e disse-lhe:

--Não me fale por alguns minutos... não me fale... deixe-me pensar... mas o melhor é que eu me vá, e voltarei em outro dia.

--Não... há de explicar-me o que é isto... A sua linguagem é outra... Há terrível segredo aqui, ou o meu amigo enlouqueceu... Tire-me desta incerteza, por quem é...

Deteve-se silencioso largo espaço o hebreu. Estava aquele aflitíssimo homem perguntando à sua consciência, se não seria mais grato a Deus e à humanidade que um peregrino vindo de além mar não entrasse um dia aos paços de Manuel de Sousa Coutinho a dizer a D. Magdalena de Vilhena que não podia ser mulher do homem que lhe chamava esposa! Se não seria mais humano e santo que aquele peregrino passasse por diante da casa dos felizes, e dissesse: «Deixai-os viver e morrer ditosos na vossa ignorância! Não serei eu quem vá vestir-vos a mortalha, e dizer-vos: sepultai-vos!»

Assim pensava Francisco Luís, e curava já de remediar o alvoroço em que pusera o seu amigo, quando este o abraçou com ímpeto, e lhe disse em tom violento:

--Quem é meu pai? Quem sois vós, homem! Respondei, que eu sinto o peito alanceado de mortais agonias!

--Fale baixo, senhor Brás Luís de Abreu--disse moderada e placidamente o hóspede--Fale baixo, que está ali dentro a mãe com sete filhos.

E desapertou-se dos braços dele para fugir.

--Não!--exclamou o médico--não irá de minha casa, sem me dizer o que sabe do meu nascimento. Que importa que me diga que sou filho de um hebreu? que meu pai morreu queimado? que Heitor Dias era meu irmão? que o meu apelido é o de algum facínora? Diga, diga tudo, que a mim basta-me a consciência da minha vida honrada para me acobertar dos insultos do mundo! Farto deles estou eu, por que me chamam enjeitado! Diga-me seja o que for, que eu lho peço com as mãos erguidas! Por Deus não minta, senhor! Conheceu meu pai? conheceu minha mãe?

--Conheci.

--Jura-mo pelos Santos Evangelhos?

--Eu não reconheço a santidade dos Evangelhos. Juro-lho pela honra deste homem, deste hebreu queimado em estátua, deste homem sem terra nem família, chamado Francisco Luís de Abreu. Jura-lho o homem que recebeu nos braços há quarenta anos uma criancinha, que depois se chamou Brás Luís de Abreu. Jura-lho o homem que depositou essa criancinha, quando os esbirros da inquisição o perseguiam, nos braços de Francisco de Moraes Taveira, de Vila Flor. Jura-lho o maior amigo de seu pai! Jura-lho o homem que enxugou no seu rosto as últimas lágrimas de sua mãe...

--Mas o nome de meu pai--atalhou Brás de joelhos, com as mãos erguidas e trementes.--O nome de meu pai, senhor Francisco Luís de Abreu.

--Dir-lho-ei ao ouvido--disse o hebreu, inclinando-se à orelha do médico.

Brás expediu um brado estridente, ergueu-se de salto, e clamou:

--E o nome de minha mãe?

--Pergunte a sua irmã, à mãe dos seus sete filhos, como se chamava a mãe dela.

--Como é, meu Deus?! como é?! por caridade, salve-me desta dúvida atroz... Minha irmã!... quem é minha irmã, senhor?

--É a filha de sua mãe.

Abriram-se os batentes de uma das portas da sala. A mulher que entrou, fechando a porta para que os sete filhos a não seguissem, impetuosa, como cega de fúria, ou impulsada de um grande terror, terror como de incêndio que ameaçava devorar-lhe as crianças, ia lançar-se nos braços do marido; e, como lhe faltasse o amparo deles, caiu de rosto no pavimento, e soltou do peito uma soada rouca, semelhante ao estalido de todas as fibras da vida.

O quadro era de mais pavor do que pode exprimir língua humana.

Francisco Luís pôs a mão na fronte glacial e disse entre si:

--Maldito eu seja, que trouxe a desgraça e a vergonha a esta família!

Brás Luís inclinou-se a levantar a mãe de seus filhos nos braços que a não podiam suster. Chamou as filhas mais velhas, e mandou-lhes que levassem sua mãe ao leito. Acercou-se de Francisco de Abreu que estava chorando com a face encostada ao alisar de uma porta, e disse-lhe brandamente:

--Senhor Abreu, não se arrependa; foi Deus que o enviou. Não chore, que as minhas lágrimas amanhã estão enxutas: há de secar-mas o fogo sagrado da minha religião. Tenho Jesus Cristo na minha alma. Agora compreendo que milagres se operam nas maiores angústias do homem. Os meus filhinhos serão sempre os bens que Deus nosso Senhor me confiou. Minha irmã está debaixo da mesma divina mão. Há de resignar-se, há de santificá-la a saudade, incenso de lágrimas que o Senhor lhe há de aceitar e retribuir em consolações...

Susteve-se nesta exclamação arrobada e ungida de santa resignação. Momentos passaram silenciosos... Depois, levando frenéticas as mãos à cabeça, exclamou:

--Mas eu hei de separar-me para sempre de minha esposa... do anjo bendito de toda a minha vida!...

E atirou-se ao peito soluçante do homem que, quarenta anos antes, o aquecera ao calor de suas faces, criança de vinte e cinco dias.

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