Treze anos depois O Olho de Vidro · Capítulo 13 de 25
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Treze anos depois

Francisca de Oliveira morreu no ano de 1730 em Itália, para onde seu marido se transferira, por 1724, a procurar-lhe ares restauradores da saúde que ela a pouco e pouco perdera em Amsterdã.

O médico, perdido o arrimo da alma aos cinquenta e cinco anos de idade, sentiu gravame e tédio da vida. Os bens da fortuna eram muitos; mas o veneno da saudade e da solidão, por ser bebido em taça de ouro, não lhe era menos letal. Se ele fosse pobre, trabalharia, quebraria na canseira da lida suada para ganhar pão alguns espinhos da sua coroa de órfão de todos os afetos puros e sagrados, na idade, em que somente esposa e filhos podem adoçar o amargo da velhice. Não tinha ninguém lá fora. E em Portugal se tinha parentes nem os conhecia, nem amava, nem já esperava, nem queria ser estimado deles.

Vagamundeou de reino em reino, repartindo alguma parte dos muitos haveres por hebreus necessitados, e reservando para si a quantia que computou necessária para passadio abundante de quinze anos.

Passados dois, estanceava por Marselha, quando um navio mercante estava carregado com destino a um porto de Espanha. Quase sem consultar os perigos da sua temeridade, como quem nenhuns vínculos já tinha que desprender dolorosamente das coisas boas deste mundo, embarcou como holandês, com passaporte que o abonava mercador de Amsterdã, e desembarcou na Corunha. De aqui passou a Portugal, em navio espanhol, e viveu alguns dias em Lisboa, separado de toda a convivência e encontrando a miúdo pessoas de Holanda, que deviam conhecê-lo, se ele em três anos não tivesse encanecido, e oito anos antes se não retirasse de entre os portugueses para os pontos mais solitários e pitorescos da Itália.

Foi o doutor a Ourém, com ares de forasteiro que vê pelo miúdo as mais e menos notáveis terras dos países. A casa onde ele nascera havia sido vendida pela coroa, para a qual tinha sido confiscada, depois que o dono fora queimado em estátua. Estava sendo estalagem. Pernoitou nela; dormiu no quarto de sua mãe... não dormiu: chorou por todo o correr da noite vagarosa. Antes que a primeira luz do seguinte dia apontasse, saiu do quarto onde nascera e morrera sua mãe, viu de passagem o quarto que fora o seu, e de onde agora saía outro viageiro madrugador.

De aqui se foi caminho de Coimbra, abafando os soluços para que o arrieiro e outro viajante que cavalgava e o seguia silencioso lhos não ouvissem.

Andado um quarto de légua, perguntou-lhe o companheiro:

--Vai para Coimbra, camarada?

Francisco Luís, fingindo uma pronuncia de holandês que sabe algum pouco de espanhol, disse que sim, ia ver Coimbra, porque andava examinando os monumentos celebres de Portugal.

O colocutor era homem já de anos adiantados: orçaria também por perto dos sessenta.

--Aquilo já foi Coimbra! disse ele. Quando eu por ali andei estudando, grandes homens liam na universidade; hoje, nem já parece Coimbra, nem cidade das letras. A vossemecê, que é estrangeiro, posso-lho dizer: os jesuítas deram cabo dos bons estudos.

--Há quantos anos andou vossemecê estudando na universidade?

--Há bons quarenta. Matriculei-me no primeiro ano de medicina em 1693.

--Noventa e três?--perguntou Abreu com reparável interesse; mas o ar de espanto passou, na mente do outro, como pergunta admirativa do muito longe que já ia a vida estudiosa do interrogado.

--É verdade. Há que tempos isto vai!... Dos meus condiscípulos, que eu saiba, já não vive nenhum.

--Seria desse tempo--tornou Abreu--um português médico que eu conheci em Holanda?

--Como se chamava?

O doutor quedou-se a cismar largo tempo, e disse:

--Chamava-se Francisco... Francisco... Luís...

--De Abreu?--acudiu o interlocutor--Ora se conheci!... Não era meu condiscípulo; era mais novo do que eu na universidade um ano; mas havia de regular pela minha idade. Fui amicíssimo dele, e ele meu. Queimaram-no em estátua e mais a mulher, no auto da fé de Coimbra, em 1699, se bem me lembro. Ora se conheci! Ainda será vivo?

--Não lhe sei dizer. Há muitos anos que viajo, e não voltei ao meu país. Tem família em Portugal?

--Não lhe posso dizer; mas a mim lembra-me que ele tinha um filhito natural, posto que outros diziam que o pequeno era filho de outro hebreu, que andava desterrado. Esse filho desapareceu; não sei se ele o levou, se morreu por cá em companhia de parentes.

--Também a mim me está lembrando que esse médico me falava muitas vezes em outro hebreu condiscípulo dele... ora que me não acode o nome!... Um hebreu que fugiu de Portugal com a filha de um fidalgo, cristão velho...

--Ah! já sei de quem vossemecê me quer falar... Há de ser Antônio de Sá Mourão.

--Parece-me que sim...

--Não podia ser outro. Conheci-o perfeitamente. Era o melhor estudante da faculdade medica. Sei a história desse desgraçado, perfeitamente...

--Então sabe que fim ele teve?--atalhou Francisco Luís.

--Morreu, o que eu sei é que o pobre homem morreu lá fora e por pouco lhe não matavam os pais cá dentro. A minha casa dista da casa dos Cabraes, senhores de Carrazedo, meia légua. Veja se eu não estarei lembrado de tudo isso, conhecendo a morgadinha como as minhas mãos. Imagine vossemecê qual seria o meu espanto, quando, faz agora quatorze anos, a vi.

--A viu?!--exclamou Abreu--viu? quem?!

--A morgada de Carrazedo...

E, como sofreando a expansão, o viajante disse:

--Conto estas coisas a vossemecê porque é estrangeiro, e por que ela já morreu, e não tem que temer da inquisição. Que ela andou em Portugal incógnita...

--Mas vossemecê viu D. Maria Cabral?--tornou Francisco Luís.

--Justamente, D. Maria era o nome dela. Vejo que sabe também algumas miudezas da tragédia!... Pois vi-a com estes olhos; e vossemecê poderia vê-la também, se ela não tivesse morrido em 1718.

--Conte-me o que souber dessa senhora, que tenho ardentíssima curiosidade de saber os sucessos da vida de tamanhos infelizes...

--Olhe, o modo como o marido lá morreu por fora, não mo disse ela... mas, o melhor é contar-lhe desde o princípio. Apareceu aquela senhora em Bragança, com uma menina de vinte e dois anos.

--Menina! filha dela?

--Sim, filha dela e do judeu Sá Mourão.

Francisco Luís de Abreu arquejava, e parecia temer que a vida se lhe acabasse antes de ouvir o remate da história. Mortificava-o, a vontade de engranzar perguntas em tropel; sustinha-o, porém, já o receio de se privar das miudezas que o pachorrento narrar do homem prometia, já também o receio de se fazer suspeito pela demasia do interesse, bem que o sujeito se lhe afigurasse bom homem, e incapaz de o denunciar.

--Então ela tinha uma filha?--insistiu Abreu.

--É verdade. Linda como a mais linda estrela; mas a mãe, daquilo que tinha sido, não lhe restava sombra nem vestígio. Era uma sexagenária, não podendo ter então mais de quarenta e quatro anos, cá pelas minhas contas, porque ela tinha dezesseis quando fugiu com o judeu da Guarda... Não me lembra o que eu ia dizendo...

--Que apareceu em Bragança D. Maria Cabral com uma menina...

--É verdade. Chegou a Bragança, e falava muito confusamente o português, e a filha pouco ou nada dizia. Tomou de renda uma casinha e para ali se meteu com duas criadas, que lhe chamavam D. Antônia da Piedade.

Depois de por lá estar alguns meses, dando muito que pensar à curiosidade da terra, começou a sair com um aspecto muito doentio, e a dar passeios a cavalo pelos arredores. Chegou à casa de Carrazedo, onde ela tinha nascido, e mandou pedir aos moradores dela licença para lá passar as horas da calma. Foi recebida por pessoas que ela nunca tinha visto; mas que eram seus primos e sobrinhos, que tinham ido de Chaves tomar conta da herança de Fernão Cabral. Este fidalgo deserdara a filha, porque as leis lho facultavam, e nomeara herdeiros os filhos de uma sua irmã, que ele odiava, por se ter casado com um capitão de cavalos menos fidalgo do que ela. Mas o ódio à filha avantajou-se tanto ao ódio da irmã, que, em artigos de morte, receando que os descendentes dele ainda viessem perturbar-lhe o sono eterno, deserdou-a e nomeou seus herdeiros os sobrinhos.[29] D. Maria sofreu voluntariamente algumas horas de martírio naquela casa, e ouviu com enxutos olhos contar a uma de suas primas a história da morgada de Carrazedo, mulher perdida por amor de um judeu da Guarda com quem casara. Soube como tinha sido deserdada e amaldiçoada pelo pai à hora última; agradeceu as sopas que lhe deram os possuidores do seu grande patrimônio, e seguiu seu caminho. Ao escurecer chegou ao portão da minha casa, e perguntou se ali morava ainda, ou se já tinha morrido o doutor José de Barredo.

--José de Barredo! disse Abreu, sem ter mão da impetuosa reminiscência que lhe acudiu.

--Sou eu. Parece-me dar vossemecê a entender que já ouviu o meu nome?!

--Não me é novo... tartamudeou Francisco Luís.

--Pode ser que Francisco Luís de Abreu lhe falasse alguma vez em mim, quando lhe referiu a história de Antônio de Sá, porque eu, não sei porque fatal compaixão de D. Maria, alguma parte tive nos amores funestos deles, prestando-me a receber da Guarda as cartas que ele escrevia à morgada.

--Naturalmente é de Francisco Luís que eu conheço o nome de vossemecê, disse o doutor Abreu, olhando muito em fito as feições daquele velho, que tinha sido em Coimbra um dos seus mais afetos contemporâneos.--Deixe-me apertar a mão de um amigo de Francisco Luís--tornou Abreu, apertando-lha com estremecido entusiasmo.--Se ele o pudesse encontrar, senhor Barredo, estou que choraria, estreitando ao coração o homem talvez único neste mundo que lhe resta dos que na mocidade o prezaram...

--Certamente--disse José de Barredo enternecido a lágrimas.--Se ele vivesse, seria o meu mais velho amigo... que todos os outros morreram... A opinião que ele e Antônio de Sá tinham do meu natural, sendo eles judeus e eu cristão velho, bem se deixa ver no procedimento de D. Maria comigo; pois, escondendo ela o seu nome e nascimento de todos, procurou-me a mim com o propósito de se declarar. E assim o fez.

Logo que me avisaram de estarem ali duas damas, uma das quais tinha cara de doente, fui recebê-las ao pátio, cuidando que era consulta de médico. Conduzi-as à sala, e aí D. Maria, com os olhos desfeitos em lágrimas, e muito embaciados, entrou a olhar-me, e a tremer, até que, expedindo um grande ai, se lançou nos meus braços, clamando: «eu sou a sua amiga da infância, sou Maria Cabral, morgada de Carrazedo!»

Neste ponto da narrativa, pararam os arreeiros à porta da estalagem de Tomar. Os cavaleiros apearam, subiram ao sobrado da estalagem e pediram almoço.

José de Barredo prosseguiu, atando o fio com as palavras de D. Maria.

--Eu sou a sua amiga da infância!--clamou ela--Sou Maria Cabral, morgada de Carrazedo! Faça ideia, e continuou Barredo--faça ideia do meu assombro, senhor... senhor... pode dizer-me a sua graça?... Um amigo do meu amigo da mocidade, não deve hesitar em querer a amizade que lhe ofereço, e dizer-me o seu nome...

--Direi--balbuciou comovido o outro no mais correto português:--mas há de ser com o coração bem perto do teu, José; abraça-me, e ouve-me muito baixinho esta revelação feita à tua alma: Eu sou Francisco Luís de Abreu.

José de Barredo abriu a boca até onde lho permitiam as articulações das mandíbulas. A expressão daquele seu grandíssimo espanto foi um som rouco, semelhante a um brado de terror. Em seguida, rebentaram-lhe súbitas as lágrimas, e então somente pôde o velho atirar-se todo aos braços do amigo, e exclamar:

--Ó Francisco!... se a inquisição te conhece!

--Tu somente me conheces em Portugal--disse o doutor Abreu--E não temas por mim, que, se eu cair nas garras do santo ofício, pouco mais se doerá do fogo dele este corpo empedrenido do que há trinta e sete anos a minha estátua. Morto estou eu já, meu amigo. Que me faz a mim agonizar sobre as brasas da minha tristeza irremediável, ou expirar mais depressa nas torturas da polé ou nas do garrote? Como quiserem...

José de Barredo quis suspender a narrativa do tocante à viúva de Antônio de Sá Mourão para ouvir a dos sucessos de Francisco Luís. Não lho permitiu a ansiedade do amigo. Conformou-se o confidente de D. Maria, e continuou, ordenando aos arrieiros que fossem adiante e os esperassem no Arneiro, onde haviam de jantar, cinco léguas adiante na estrada de Coimbra. Continuou o doutor Barredo:

--O alvoroço que me fez o aparecimento daquela senhora alquebrada e de todo desfigurada, dizendo-me que era a formosa morgada de Carrazedo, só to posso comparar com aquele que, há pouco tu me causaste, Francisco. São dois lances da minha vida que já não podem repetir-se. Não tenho mais ninguém que esperar da minha mocidade. Era ela e tu; por que Antônio de Sá, esse não pode mais voltar...

--Creio que seria o mais ditoso dos teus amigos...--balbuciou Francisco Luís.

--Oh! não!... pois tu desconheces a doçura destas nossas lágrimas? Dois velhos, que se amaram moços, e se encontram nos umbrais de outro mundo para se despedirem! Que é isto, senão o derradeiro calor da vida que ainda nos aquece os corações?... Demos graças ao nosso Deus, que é o mesmo Deus, ou ele se chame Jesus de Nazaré, ou Messias, ou simplesmente criador do céu e da terra. Supliquemos-lhe que nos deixe já agora acabar estes últimos dias um à beira do outro... Tu vais para minha casa, não é verdade, Francisco?

--Irei a tua casa, irei, José; mas... estou a recear que te esqueças da nossa pobre senhora...--disse Abreu, sorrindo, e enxugando as lágrimas.

--Tens razão; mas deixa-me ser feliz um poucachinho... Temos tanto tempo em que falar dos outros desgraçados...

--Oh! se tu pudesses dizer-me que ela ainda vive...

--Não posso, e pouco tenho que te contar antes da morte dela... Aí vai o mais que sei. D. Maria perguntou-me se devia considerar perdido o seu patrimônio; e eu respondi lhe que sim; e pedi-lhe que nem falasse em tal pretensão, se a trazia, porque os indivíduos possuidores dele seriam capazes de a denunciar ao santo ofício, e de lançarem rezina aos paus da fogueira com as próprias mãos. Então me relatou ela a desgraçada vida que tivera por espaço de quinze anos, cativa de corsários e mais o marido e filhinha: é uma história longa, que eu te hei de mostrar escrita, em minha casa. Não ta sei dizer de memória porque há quatorze anos que fechei e mais não vi os tais papeis, e já era minha tenção queimá-los para que por eles se não venha a descobrir quem é D. Josefa, a filha do judeu Antônio de Sá. Esteve D. Maria alguns poucos meses em minha casa, sofrendo, sem tréguas, moléstia incurável: estava ética. Lembrou-se de ir consultar médicos famosos: bem sabia eu a inutilidade do passo; mas deixei-a ir ao Porto, a consultar um famoso médico chamado o Olho de Vidro.

--Brás Luís de Abreu--atalhou Francisco Luís.

--Esse mesmo, cujo nome tantas vezes me fez lembrar o teu, que cheguei a perguntar se ele seria teu parente; mas logo me disseram que não, e, para prova de que não era, bastou-me saber que o Olho de Vidro era familiar do santo ofício.

Francisco Luís interrompeu a narração para referir a correspondência que tivera com o tal médico portuense, imaginando que ele, por um acaso maravilhoso, poderia ser o filho de Antônio de Sá, uma criança que...

--Muita gente--acudiu José de Barredo--e eu mesmo pensei que fosse teu filho...

--E admiro que não soubesses que era filho de Antônio de Sá!

--Não sabia; porque, desde a fuga da morgada, nunca mais tive novas de algum deles, e bem sei eu por que: fiz repugnância ao desvariado procedimento dela; cheguei a fazer-lhe ameaças de a denunciar ao pai, a ver se a dissuadia. Tu mesmo, se bem me lembro, ignoravas onde estivessem alapados, e cuidavas comigo que se tinham embarcado para a Índia. Depois desapareceste de Coimbra, e quando voltaste nada me disseste, nem eu to levo a mal, porque sei quão perigosa era a tua situação, e a dos pais de Antônio de Sá que o santo ofício prendera na Guarda. Sabia eu que uma mulher criava em Coimbra uma criancinha que tu algumas vezes visitavas. Supus, como quase toda a gente, que era teu filho... Morreu esse menino?

--Não sei. Presumo que sim. Ninguém me pôde informar, e bastas vezes pedi novas dele. Acaso te lembras da morte de Heitor Dias da Paz, de Vila Flor?

--Lembro, foi em 1707.

--Nunca ouviste dizer que em poder desse hebreu estivesse um moço, que então devia ter entre quatorze e quinze anos?

--Não ouvi dizer nada.

--Pois era ele, se existisse. Vamos ao fim da história de D. Maria. Valeu-lhe alguma coisa a medicina do tal Olho de Vidro?

--Nada. Passados trinta e tantos dias, chegou a Bragança a nova de que ela tinha morrido, com o nome de D. Antônia da Piedade, e que sua filha D. Josefa tinha casado com o médico Brás Luís de Abreu. Aqui tens o que sei. Haverá cinco anos que eu fui ao Porto e procurei o Olho de Vidro, no intento de ver D. Josefa. Disseram-me que ele, em resultado de inimigos seus colegas, que assanhara com a publicação de um livro chamado Portugal Médico, tivera de afastar-se do Porto, e fora estabelecer-se em Aveiro, onde tinha comprado muitos bens de raiz e vivia abastadamente. As minhas ocupações não me deixaram ir a Aveiro, e já agora morrerei sem ver D. Josefa, que deve estar perto dos quarenta, ou quem sabe se já estará na eternidade!

--Irás agora a Aveiro comigo--disse Francisco Luís.--Quero vê-la, sem que ela saiba que eu fui o maior amigo de seu pai. É preciso temer-lhe o marido, visto que ele tanta familiaridade tem com o santo ofício. Tu a procurarás, e darás azo a que eu a veja e lhe fale como desconhecido. Uma boa lembrança... Irei consultar-lhe o marido, fingindo de doente estrangeiro, a quem chegou a nomeada de tão abalizado médico. Contar-lhe-hei muitíssimos padecimentos que ele há de classificar de muitíssimas maneiras, e assim estarei mais ao alcance de ouvir D. Josefa dizer-me alguma coisa de seu pai. Ora, dize-me tu: nunca, D. Maria te disse que deixara um filho em Portugal, quando fugiu para Espanha?

--Disse que esse menino o considerava morto: uma só vez me falou dele; mas as lágrimas eram tantas que eu me esquivei a pedir-lhe pormenores da criança, de modo que nem soube que o menino ficara em tua companhia, nem depois passara à dos Moraes de Vila Flor. Eu não te disse ainda que D. Maria, às temporadas, parecia cair em modorra e paralisia de entendimento. Esquecia-se e quedava-se numas cogitações taciturnas; e, se lhe tiravam muito pela fala, respondia disparates. De sorte que eu, a respeito do filho, que ela dizia ter deixado em Portugal, não cheguei a fazer perfeito juízo, nem a mesma filha estava convencida de que ele tivesse existido: a prova era que ela ouvia com certa estranheza as revelações confusas que a mãe me fazia sobre as desgraças do seu longo desterro e cativeiro. Pode ser que tu, Francisco, se te deres a conhecer a D. Josefa, venhas a obter muitos esclarecimentos, que eu mal posso dar-te porque sinto enfraquecida a memória, e preciso espertá-la com a leitura dos meus apontamentos. Quem melhor te poderá referir a vida de Antônio de Sá, a meu ver, é o marido da filha; mas quererá ele--o familiar do santo ofício e autor da vida de Santo Antônio--que tu saibas a procedência hebraica de sua mulher, embora possa ufanar-se de serem netos de Fernão Cabral os seus filhos? Não terá ele medo de que o santo ofício lhe saia ainda a pedir contas à mulher dos delitos do pai e da mãe?

--Isso é claro--observou Abreu.--Nem eu lho perguntaria, nem ele me contaria coisa alguma alusiva à filha de Antônio de Sá. De mais a mais, já eu te disse que resposta me ele deu para Amsterdã. Devemos ir prevenidos contra o gênio irritável do homem; é preciso muitíssimo cuidado, que não vamos indiscretamente perguntar-lhe de quem é filho.

No dia seguinte ao meio dia, os dois velhos chegaram a Coimbra, e andaram procurando as diferentes casas em que tinham morado.

Ao segundo dia de repouso, cuidaram em jornadear para Aveiro. Pouco antes da partida, chegou a Coimbra um próprio enviado da casa de José de Barredo; noticiando-lhe que sua mulher estava em perigo de vida. Desfez-se o plano de irem juntos a Aveiro, e foram juntos para Bragança; Francisco Luís de Abreu quis acompanhar o velho amigo, no propósito de lhe desacerbar as lágrimas da viuvez, se a desgraça fosse inevitável.

Era. Francisco Luís assistiu aos funerais da esposa de José de Barredo. E quando o velho parecia conformar e esquecer-se entre as caricias de muitos filhos, despediu-se por alguns dias, e saiu sozinho de Bragança em direitura a Aveiro.

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