Angústias que existiram
Por volta das dez horas daquela noite Brás Luís de Abreu saiu de casa do vigário capitular, e recolheu-se ao convento de frades antoninos, próximo da igreja da ordem terceira de S. Francisco, na qual o familiar do santo ofício era irmão professo. Que noite aquela, que lágrimas choradas aos pés da cruz, e no seio do venerando prior da casa hospitaleira do maior infeliz que ali se albergara!
Ao aclarar-se a manhã, o prior e dois frades de Santo Antônio, varões de grandes anos e virtudes, chegaram à porta de D. Josefa de Abreu. Abriu-se-lhes a casa, em cujo recesso tinha ido um chorar soluçante, e passado horas infernadas, sem mais desafogo que o atirarem-se por terra aquela mulher e sete filhos, ignorantes da angústia de sua mãe, pedindo misericórdia, diante de um santuário.
De joelhos se quedaram, quando os três frades, sublimes de religioso terror, apareceram no limiar da casa da oração.
--Irmã, disse o prior, erguei-vos e mais as vossas cinco filhas, e vinde.
--Para onde, senhor?--murmurou ela com os olhos no pavimento e as mãos sobre o seio.
--Estão dadas ordens para serdes recebidas no conservatório de S. Bernardino, Recolhimento de Terceiras de S. Francisco.
--E eu não hei de ver mais...--exclamou ela, e retraiu-se como aterrada do delito de tal pergunta.
--Vinde, senhora e meninas. Enquanto a vós, moços, esperai que vos digam o vosso destino.
Era na madrugada de 25 de março de 1732.
Regorgeavam os festeiros da primavera, os passarinhos emboscados no arvoredo dos quintais. A geada branquejava as ruas, e do lado da rua assoprava frigidíssimo vento. As meninas aconchegavam das faces escarlates os capuzes das mantilhas. A mãe ia aquecida no banho ardente das lágrimas.
Os antoninos caminhavam mesuradamente à beira delas, com as mãos enfiadas nas mangas dos hábitos. O prior ia ciciando quaisquer palavras, que deviam de ser as suas orações da manhã, ou rogava ao Senhor dos aflitos que esteiasse o ânimo daquela mulher singularmente desgraçada.
Abriu-se a portaria do conservatório de S. Bernardino. Os frades ficaram aquém da porta, que rouquejara nos gonzos com o quer que fosse de muitos gemidos uníssonos de fundíssimos cárceres, soados por abobadas subterrâneas.
D. Josefa quando encarou no interior do recinto lôbrego da entrada, deixou-se rasgar desde o íntimo da alma por um grito, mais desesperado, mais blasfemo que invocativo da divina graça para tão acerbo cálix.
--Haja-se com paciência, senhora!--disse o prior--Olhe que desde este momento o Altíssimo a está vendo e sondando-lhe o coração. A ignorância não podia ser culpada até hoje; mas de hora em diante, a relutância com os deveres que lhe impõe a justiça do céu e a justiça da terra é crime mais que muitíssimo grande... Entendeu-me, senhora?
--Entendi, senhor padre-mestre prior--respondeu a confessada do prelado dos antoninos.
Fecharam-se as portas.
A diretora do Recolhimento, silenciosa como um fantasma, conduziu D. Josefa e as cinco meninas ao longo de um pequeno corredor, com cubículos laterais, e mal alumiados da luz do dia ainda froixa. No extremo do corredor abriu-se a portinha de uma cela espaçosa.
--Aqui está, senhora--disse a diretora, e ausentou-se.
As meninas romperam em grande chorou, assim que a livida diretora saiu; logo, porém, lhe assomou a mulher de macerado aspecto, no limiar da porta, e disse:
--Aqui nesta casa são permitidos os prantos da penitência, e só esses, senhoras!
Retrocedeu, a tempo que D. Josefa se abraçava de um amplexo em todas as cinco filhas, e lhes dizia:
--Choremos baixinho.
Meia hora depois deste lance, os dois meninos de Brás Luís de Abreu, um de dez, outro de nove anos, eram conduzidos ao convento de Santo Antônio, onde encontraram seu pai vestido com o hábito de irmão professo da ordem terceira. Estacaram defronte dele num glacial espasmo. O médico tomou-os ambos, com as faces aconchegadas um do outro, e disse-lhes:
--Não haveis de chorar, não, meninos? Ficareis aqui por algum tempo. Aqui vos deixo com amigos e mestres. Fazei muito por aproveitar o tempo, e trabalhai por ganhar o coração destes santos homens.
Nem uma lágrima exsudou aos olhos daquele pai! O fogo da divina graça secara-lhe as fontes da alma. Era já o ser humano mutilado dos órgãos da vida de relação. Era o homem sobrenatural, aquela coisa inexprimível de que se formam o anjo ou o demônio, as visões beatificas ou o revolutear escandecente da legião.
Os frades entraram a tomar conta dos meninos. O prior, ao pegar das mãos deles, disse:
--É tempo. Vá à sua vida, senhor Brás de Abreu.
--Adeus, filhos. Abençoe-me, reverendo padre!...--disse o irmão professo da ordem terceira de S. Francisco, e saiu.
Sobre-humana coragem! Entrar na casa, onde, vinte e quatro horas antes ainda almoçado com sua mulher e filhos! Entrou. Foi ao oratório de sua mulher. Se reparasse, poderia ainda ver sinais úmidos de lágrimas no genuflexório e na peanha do Cristo de marfim. Estava orando, quando ouviu passos na escada. Levantou-se para fechar a porta, e furtar-se a dar explicação daquele hábito, daquela soledade. Não foi a tempo. Era Francisco Luís de Abreu. Caminhou para ele com firmeza e risonho semblante:
--Meu benfeitor, disse ele, aqui me tem. Faço grande diferença do que era há quarenta anos. Então, viu-me nas faixas infantis, e teve-me junto do seu coração. Abrace-me agora vestido na mortalha.
O hebreu apertou-o com veemência. As palavras não podiam sair do peito ansiado e da garganta afogada por suspiros. Passado tempo, disse:
--E era preciso isto? A conformidade com a vontade de Deus exprime-se com vestir esta túnica, e apertar este cordão? Não é o homem tão grande na dor, sem a celebrar com a majestade fúnebre destes hábitos?
--O homem é um verme, e mais nada, murmurou Brás Luís.--Se a religião me não soldar os pedaços da vida, se me ela não tirar deste túmulo em que estou caído, que hei de eu fazer tão esmagado até à medula dos ossos?
--Pois os seus filhos? que é dos seus filhos, Brás Luís.
--As minhas filhas assistem, as inocentinhas, à penitência de sua mãe.
--Penitência de quais pecados?
--Oh! cale-se!... por Deus, cale-se, diante do filho de Antônio de Sá! Se não era crime o meu viver para que me avisou?...
--Diz bem... Perdoe-me.
--Não só lhe perdoo... que lhe agradeço... Agora é que eu me gelo de horror do meu passado!... Nunca tive um abalo que me dissesse: «porque lhe queres tu assim tanto, tanto, que em quinze anos teus olhos não viram outra mulher sobre a terra!» As irmãs não se amam assim... Ai!... e eu que assisti à morte de minha mãe, ainda lhe beijei as mãos... Ali sim, então senti convulsões de espírito extraordinárias, das quais não podiam ser motivo o amor que eu tinha à filha... Não; era Deus que me avisava... Quinze anos, quinze anos de felicidade sem sombra... os meus filhinhos, os meus sete anjos... aí me ficam...
--Onde vai?...
--Onde vou?!
E chorava com tamanho afogo que lhe vieram umas ânsias mortais.
--Deus me mate já, já!--vociferou por entre o repuxar dos gritos abafados.--Sou fraco, sou miserável lodo! Dê-me ânimo, salve o filho do seu desventurado amigo. Creia no Deus dos mártires, para que a sua voz me alente, e eu não seja confundido pelo escárnio da multidão.
--Creio no Deus de todos os mártires, senhor Abreu. Creio--atalhou Francisco Luís.--Sofra, chore, despedace-se sem amaldiçoar, e verá que está consigo o Deus de Sócrates, o Deus de Saulo, o Deus de Antônio de Sá, o Deus de Heitor Dias da Paz, o meu Deus, o criador de todos os mártires e algozes, de todas as cruzes e de todos os postes levantados sobre a lenha que vai abrasar um corpo. É Jesus de Nazaré o seu Deus? Sirva-o, tome-lhe dos lábios a esponja e sorva-lhe o fel, ame os inimigos, valha aos desvalidos, acolha os órfãos à alma que os aconselha, dê-lhes tecto que os cubra, e olhos que os chorem. Assim faziam os justos segundo Platão, os justos segundo Buda, os justos segundo Fílon, os justos segundo Jesus, os justos segundo Lutero. Ame, condoa-se, e ampare como eles, e será salvo para melhor mundo, e sentirá neste as supremas alegrias da consciência...
--Oh! não é isso--atalhou Brás Luís--há uma só religião, e uma só salvação.
--Pois bem: haja uma só; e seja a sua. Todas elas dão as suas melhores corôas aos seus mártires, corôas tecidas dos mesmos espinhos, e abençoados da mesma benção; mas é preciso sofrer, sofrer sem infligir tortura, sem retalhar o peito de outra fé para lhe ir lá dentro remoer com ponta de ferro em brasa a consciência. Brás Luís de Abreu, respeito grandemente a sua angústia, e dou graças ao Senhor do céu e terra que lhe está vertendo balsamos no roer do cancro que lá deve ir nessa pobre alma. Siga a sua religião, eu lhe seguirei os passos nela, e ajoelharei ao seu lado, sem receio de que estejamos cada um de nós orando a diferentes criadores. E seus filhos? E seus filhos?--prosseguiu Francisco Luís--quer que eu vele pelo seu futuro deles?
--Mercês, meu amigo. Meus filhos hão de ter pão e futuro. Trabalhei; tenho aí uns bens. Continuarei a trabalhar para aumentá-los. Minhas cinco filhas hão de ser freiras; meus filhos seguirão o sacerdócio.
--Qual é o seu destino, Brás?
--Tomar ordens clericais. Hoje mesmo vou caminho de Lisboa. E vossemecê deixa Portugal?
--Ainda não.
--Adeus, pois, até quando?... Até à eternidade?
--Ainda não. Ver-nos-hemos antes. Não se morre assim depressa... Os desgraçados são de bronze. Quer Deus que eles vivam muito para serem muito vistos como pompas do mal necessário.