O QUE FICA DOCUMENTADO Advogada do Ano · Capítulo 17 de 21
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O QUE FICA DOCUMENTADO

A sala de audiência tinha paredes claras, iluminação uniforme e uma mesa larga demais para cinco pessoas. Íris chegou vinte minutos antes, acompanhada por Rômulo, e recusou o café oferecido pela secretária. Mantinha no colo uma pasta fina. O volume principal do processo estava diante do relator, dividido em quatro pastas identificadas por etiquetas.

Caso Lessa.

Alvarenga Hotéis.

Autodenúncia.

Cooperação.

O nome dela aparecia em todas.

Rômulo abriu o notebook e confirmou pela última vez a ordem dos documentos que pretendia mencionar. Íris deixou a própria tela desligada. Durante anos, preparara depoentes para salas parecidas. Ensinava a escutar o fim da pergunta, separar fatos de suposições e responder somente o necessário. Naquela manhã, cada uma dessas orientações adquiria uma utilidade hostil.

— Quer revisar a cronologia?

— Já revisei.

— Uma vez a mais não prejudica.

— Para mim, prejudica.

Rômulo a observou por alguns segundos.

— Certo.

Ele fechou o arquivo.

Íris apoiou a pasta na mesa e alinhou a borda com o risco quase invisível da madeira. Dentro havia uma cópia do termo de entrega do SSD, o registro da comunicação feita a Soraya às 2h17 e a declaração em que admitia ter omitido, sete anos antes, a suspeita de que César Lessa acessara um memorando de preparação.

Nenhum daqueles documentos precisava ser levado por ela. Todos constavam dos autos. A pasta servia para impedir que suas mãos procurassem o telefone.

O relator entrou acompanhado por dois integrantes da comissão e uma servidora. Os cumprimentos foram formais. Íris levantou, disse o próprio nome e informou o número de inscrição. Ninguém mencionou o prêmio.

A sessão começou com a leitura resumida do objeto da apuração. O relator falava sem pressa e sem alterar o tom entre fatos antigos e recentes.

Relacionamento afetivo oculto com pessoa diretamente ligada à cliente.

Cópia de quarenta e três documentos para dispositivo particular, fora da cadeia autorizada.

Possível acesso a material preparatório por pessoa que seria ouvida sobre fatos relevantes.

Omissão da suspeita.

Manutenção do SSD por sete anos.

Beijo com executivo da companhia representada durante atuação profissional.

Comunicação imediata do episódio atual.

Retirada da representação antes de nova atuação.

Íris escutou até o fim. O nome de Vicente apareceu somente uma vez, vinculado ao cargo e ao horário. O registro dizia 2h13. A precisão, que ela própria exigira naquela madrugada, impedia qualquer tentativa de reduzir o fato a uma lembrança privada.

Rômulo apresentou a manifestação inicial. Falou da autodenúncia, da cooperação com Leonor e da entrega espontânea do SSD. Ressaltou que Íris não aguardara o término das revisões internas para admitir a extensão da infração do Caso Lessa. Também lembrou que, no episódio da Alvarenga Hotéis, ela comunicara Soraya em quatro minutos e pedira substituição imediata.

O relator fez uma anotação.

— Doutor Rômulo, a defesa sustenta ausência de reincidência?

— Sustenta diferença relevante entre as condutas. A profissional repetiu uma falha no gerenciamento de limites pessoais. A resposta posterior foi distinta.

— A diferença reduz a gravidade comparativa. Não elimina a repetição do problema.

— Concordamos.

Íris virou o rosto para Rômulo. Ele continuava olhando para o relator.

A concordância havia sido combinada. Ainda assim, ouvi-la exigiu esforço. Durante a preparação, Íris percebera quantas frases defensivas surgiam de forma automática. Contextualizar. Separar. Demonstrar evolução. Explicar que o Caso Lessa ocorrera no início da carreira, sob uma estrutura de supervisão falha. Explicar que César a manipulara. Explicar que Sabina adquirira o material e escolhera o momento da divulgação.

Cada explicação continha fatos verdadeiros. Nenhuma alterava o que ela fizera.

O relator pediu que Íris se levantasse para prestar esclarecimentos. A servidora confirmou seus dados e fez a advertência de praxe. Íris manteve os braços soltos ao lado do corpo.

— A senhora confirma que manteve relacionamento com César Lessa durante a condução do caso?

— Confirmo.

— A cliente tinha conhecimento?

— Não.

— O escritório tinha conhecimento?

— Não.

— César Lessa teria participação em entrevistas ou depoimentos relacionados à apuração?

— Sim.

— A senhora copiou documentos do caso para um SSD pessoal?

— Quarenta e três documentos.

— Com autorização?

— Sem autorização.

— Por que fez isso?

Íris sentiu a língua tocar a parte interna dos dentes antes da resposta.

— Eu pretendia trabalhar fora do ambiente do escritório e queria controlar o acesso aos arquivos. Usei uma justificativa de segurança para tomar uma decisão que violava o procedimento de segurança.

O relator ergueu os olhos.

— Quem teve acesso ao SSD?

— Eu o mantive comigo. César viu um memorando que estava entre os documentos. Na época, eu não presenciei o acesso. Encontrei o arquivo aberto e identifiquei mudanças posteriores no depoimento dele.

— A senhora perguntou se ele havia lido?

— Perguntei.

— O que ele respondeu?

— Negou.

— E a senhora informou a cliente ou o escritório?

— Não.

A palavra permaneceu entre eles pelo tempo necessário para a servidora registrá-la.

— Por que não informou?

Íris olhou para a borda da mesa.

— Porque a informação revelaria o relacionamento e a retirada irregular dos documentos. Eu protegi minha carreira.

— A senhora suspeitava que o depoimento tinha sido alterado devido ao memorando?

— Sim.

— Qual foi o efeito sobre o acordo firmado pela cliente?

— Eu não consigo afirmar o efeito financeiro exato. A revisão concluiu que o acesso pode ter influenciado o acordo final.

— Esse risco foi comunicado sete anos depois.

— Sim.

O integrante sentado à esquerda do relator consultou uma página da pasta.

— O SSD permaneceu guardado pela senhora durante todo esse período?

— Permaneceu.

— Por que não o destruiu?

Rômulo moveu a caneta, um gesto discreto que indicava atenção. Íris conhecia os riscos de qualquer resposta especulativa.

— Eu pensava em entregá-lo e informar o ocorrido. Adiei essa decisão repetidamente.

— A senhora o manteve como forma de proteção?

— Não.

— Pode garantir?

— Posso afirmar que não o usei para pressionar ninguém, obter vantagem ou preparar defesa. Guardei porque a entrega exigiria uma confissão que eu evitava.

O relator voltou ao processo recente.

— Sobre o executivo Vicente Alvarenga. A senhora iniciou o contato físico?

— Sim.

— Ainda representava a companhia?

— Sim.

— Houve discussão sobre o caso após o contato?

— Não.

— A senhora praticou algum ato profissional depois dele?

— Não. Telefonei para a sócia responsável às 2h17, informei o ocorrido e pedi afastamento. Meus acessos foram revogados.

— A comunicação rápida demonstra que a senhora conhecia o procedimento adequado.

— Sim.

— Também demonstra que a senhora conhecia o limite antes do beijo.

Íris respirou pelo nariz.

— Sim.

Rômulo interveio apenas quando o relator perguntou sobre o conteúdo das reuniões posteriores entre Íris e Vicente. Lembrou que os encontros pessoais ocorreram depois do encerramento formal da representação e da revogação dos acessos. O relator aceitou a correção e registrou que a relação posterior não integrava o núcleo disciplinar, salvo para compreensão da sequência dos fatos.

Ao final, Íris teve oportunidade de fazer uma declaração.

Levantou-se outra vez.

— Entreguei todos os documentos de que dispunha e respondi às entrevistas conduzidas pela revisão. Autorizo o compartilhamento dos meus registros profissionais relacionados aos dois casos dentro dos limites definidos no processo. Não apresento o prêmio ou os resultados anteriores da minha carreira como pedido de redução. Estou disponível para cumprir as medidas determinadas.

O relator perguntou:

— A senhora pretende contestar alguma conclusão factual?

— Somente se houver erro material.

— E a responsabilidade?

— Não.

A audiência terminou perto do meio-dia. No corredor, Rômulo afrouxou o nó da gravata.

— Você respondeu bem.

— Não era uma prova oral.

Ele guardou o notebook.

— Eu sei.

— Então não precisa dar nota.

— Hábito profissional.

Íris quase sorriu. A reação parou antes de alcançar o rosto.

Desceram pelo elevador sem conversar. Na calçada, Rômulo perguntou se ela queria almoçar. Íris recusou e pediu um carro.

Seu novo escritório ficava três andares abaixo da área ocupada pelos sócios, em uma ala que antes abrigava duas equipes de apoio. A sala tinha uma mesa, duas cadeiras e um armário cinza. A janela dava para a lateral de outro edifício. Quando chegou, encontrou um envelope de Leonor sobre o teclado.

O relatório referente à antiga Lessa Infraestrutura havia sido concluído.

A empresa deixara de existir sob aquele nome depois de uma incorporação. A sucessora recebera a documentação e autorizara a análise de parte dos registros históricos. Leonor comparara a versão do memorando, o depoimento de César e as alterações feitas na estratégia de negociação.

O relatório evitava conclusões que os documentos não sustentavam. O acesso de César poderia ter influenciado o acordo final. A extensão financeira permanecia incerta. A cliente teria direito, ao menos, ao ressarcimento dos custos de uma nova auditoria e da revisão conduzida após a revelação.

Íris leu o trecho duas vezes.

O antigo Ferraz Teles e o Sampaio Vilar haviam aberto mediação com a sucessora. Ambos contribuiriam para uma reserva destinada a cobrir auditoria, despesas jurídicas e eventual reparação adicional.

Às três da tarde, Teodoro entrou sem bater. Trazia uma proposta impressa e duas canetas.

— O comitê aprovou a estrutura.

Íris indicou a cadeira.

Ele se sentou e colocou o documento diante dela. A venda de parte das quotas ocorreria a valor descontado. Teodoro assumiria a participação, e o valor ficaria vinculado à reserva da mediação. Íris perderia o direito de voto gerencial por dois anos. Continuaria sócia minoritária, sem poder decidir sobre abertura de clientes, promoções internas ou distribuição extraordinária.

— Você pode pedir uma avaliação independente — disse Teodoro.

— A avaliação já foi feita.

— Pode pedir outra.

— O desconto faz parte da contribuição.

— Faz. Ainda quero que você assine sabendo que tinha alternativa.

Íris leu cada cláusula. Teodoro esperou sem tocar no telefone.

— O pagamento entra direto na reserva?

— Sim.

— Sem transitar pela minha conta?

— Sem transitar.

Ela pegou a caneta.

— Você vai ficar com uma participação que sempre quis.

— Eu queria em circunstâncias melhores.

— Isso não muda o contrato.

— Não.

Íris assinou todas as vias. Teodoro recolheu duas e deixou uma sobre a mesa.

— O comunicado interno sai amanhã.

— Inclua o prazo exato da perda de voto.

— Já está incluído.

— E a causa?

— “Medidas decorrentes da revisão ética em curso.”

— Está vago.

— Leonor aprovou.

— Ainda está vago.

Teodoro abriu a pasta e retirou a minuta.

— Qual redação você sugere?

Íris pegou um lápis. Cortou a frase e escreveu no espaço lateral: “Medida de governança decorrente das infrações admitidas pela sócia nos casos Lessa e Alvarenga.”

Teodoro leu.

— Isso vai circular por todo o escritório.

— Deve circular correto.

Ele dobrou a minuta e guardou.

A mediação começou na semana seguinte. Íris participou somente da primeira reunião, convocada para confirmar fatos e responder a perguntas dos representantes da sucessora. O antigo cliente ocupava uma sala em um edifício novo na região da Berrini. O logotipo da companhia incorporadora aparecia onde antes existia a marca Lessa Infraestrutura.

Dois diretores, uma advogada interna e um mediador estavam presentes. Nenhum deles conhecera Íris durante o caso original.

A advogada interna abriu a reunião.

— O relatório indica que o senhor César Lessa recebeu acesso a um memorando de preparação. A senhora viu esse acesso?

— Não.

— Encontrou o documento aberto?

— Sim.

— Em qual equipamento?

— Meu notebook profissional.

— Ele sabia a senha?

— Eu havia deixado a sessão aberta.

— Em ambiente privado?

— No apartamento dele.

A advogada fez uma pausa para anotar.

— Os documentos estavam em um SSD pessoal conectado ao equipamento?

— Sim.

— O acordo final foi prejudicial à empresa?

Íris olhou para o mediador.

— Posso explicar os elementos conhecidos. Não tenho base para atribuir um valor de prejuízo.

— Explique.

Íris descreveu o memorando, os pontos frágeis identificados pela equipe e a mudança de depoimento de César. Informou que a estratégia da contraparte fora ajustada depois da oitiva. Também registrou que outros fatores financeiros influenciaram o acordo.

Um dos diretores perguntou:

— A senhora recebeu algum benefício do senhor César?

— Não.

— Viagens, presentes, pagamentos?

— Não.

— Ele teve acesso a outros documentos?

— Não identifiquei outros acessos. Não posso garantir que não ocorreram.

— Por que deveríamos confiar nessa resposta?

O mediador começou a falar. Íris ergueu a mão, pedindo alguns segundos.

— O senhor não precisa confiar na minha avaliação pessoal. A revisão examinou registros de acesso, versões dos arquivos e comunicações disponíveis. Minha resposta deve ser comparada com esses materiais.

A reunião durou duas horas. Ao sair, Íris permaneceu alguns minutos no saguão. Pela parede de vidro, via os carros avançando em blocos curtos pela avenida. Rômulo havia se oferecido para acompanhá-la. Ela preferira ir sozinha.

No carro de volta, recebeu a decisão disciplinar.

Suspensão do exercício profissional por noventa dias.

Retorno condicionado a monitoramento ético externo por dezoito meses.

Proibição temporária de liderar investigações internas.

Impedimento de aprovar abertura de clientes.

Obrigação de registro institucional para contato individual com pessoa diretamente ligada a cliente.

A decisão reconhecia a comunicação imediata do episódio recente e a retirada antes de nova atuação. Também registrava que a conduta confirmava a repetição de dificuldade grave na gestão de fronteiras pessoais.

Íris encaminhou o documento para Leonor e para a administração do escritório. Depois desligou o telefone profissional.

No primeiro dia da suspensão, entregou os processos ativos. Passou a trabalhar em políticas internas, matrizes de risco e revisão de procedimentos administrativos permitidos. Não participou de reuniões com clientes. Quando alguém telefonava pedindo para falar com ela, a recepção encaminhava a ligação a outro sócio.

O Instituto responsável pela premiação publicou o comunicado durante a segunda semana.

A nota tinha quatro parágrafos. Informava a revogação da homenagem concedida a Íris Sampaio, citava a incompatibilidade entre o reconhecimento e os fatos revelados e esclarecia que a decisão produziria efeito permanente. O site retirara a fotografia da cerimônia. O vídeo do discurso continuava disponível em páginas de terceiros.

Íris leu o texto em sua sala menor. O troféu permanecia dentro do armário desde que ela o retirara do apartamento.

Leonor telefonou.

— O Instituto perguntou se você pretende contestar.

— Não.

— Quer que eu responda?

— Diga que tomei ciência.

— Só isso?

— Peça a confirmação de que meu nome foi retirado das próximas peças de divulgação.

Leonor demorou um instante.

— Certo.

As reformas da Alvarenga Hotéis chegavam a Íris por jornais econômicos. A companhia começara a publicar relatórios mensais. Havia fechado contratos considerados ruinosos e aberto processo competitivo para a venda de duas unidades deficitárias. As avaliações seriam produzidas por empresas independentes.

Vicente aparecia em fotografias de reuniões, visitas operacionais e assembleias. Em uma delas, usava capacete numa obra. Em outra, estava sentado diante de conselheiros que Íris não conhecia. O texto mencionava que a presidência provisória possuía poderes reduzidos.

Ela fechava as matérias antes de chegar ao fim.

Também acompanhava os processos contra Sabina. A companhia cobrava indenização civil. A investigação criminal examinava falsificação documental, violação de dever fiduciário e coação. Nenhuma decisão penal havia sido proferida.

No segundo mês da suspensão, Leonor entrou na sala de Íris com uma folha impressa.

— Dalva enviou isto pelo canal formal.

Íris leu.

A investigação da Alvarenga Hotéis confirmara que Sabina coordenara a divulgação do dossiê referente ao Caso Lessa. As mensagens obtidas demonstravam que o material fora preservado para uso estratégico. Dalva acrescentara uma frase objetiva: a conclusão sobre a origem da divulgação não alterava a avaliação ética das condutas de Íris.

— Preciso responder — disse Íris.

— Pode agradecer o encaminhamento.

— Quero que minha resposta entre no arquivo.

Leonor abriu o notebook.

Íris ditou:

— “Acuso o recebimento da comunicação. Agradeço a inclusão da conclusão investigativa. Reconheço que a identificação da responsável pela divulgação não modifica a responsabilidade admitida nos procedimentos de revisão.”

Leonor terminou de digitar.

— Mais alguma coisa?

— Peça que seja juntada ao arquivo.

A resposta foi enviada pelo canal da revisão. Íris não escreveu a Dalva diretamente.

Durante a suspensão, passou a visitar o pai a cada quinze dias. Ele morava no mesmo apartamento havia mais de vinte anos e mantinha os controles remotos organizados numa cesta ao lado do sofá. Na primeira visita, perguntou se ela ainda dava entrevistas.

— Não.

— Melhor.

— O senhor nunca gostou.

— Você falava diferente na televisão.

— Diferente de quê?

— De você.

Ele serviu café e mudou de assunto. Nas visitas seguintes, Íris o acompanhou ao mercado, verificou uma infiltração no banheiro e tentou convencê-lo a trocar uma cadeira quebrada. O pai recusou a cadeira nova e aceitou o conserto.

Íris também retomou a terapia. Marcou a primeira sessão por mensagem e chegou dez minutos antes. Havia interrompido o acompanhamento depois do Caso Lessa, alegando excesso de trabalho. Na consulta de retorno, a terapeuta perguntou o que a trouxera de volta.

— Perdi a possibilidade de sustentar a versão em que eu tinha resolvido aquilo.

— Qual versão?

Íris ficou alguns segundos olhando para a estante.

— A de que guardar um erro em lugar seguro o mantinha restrito ao passado.

As sessões continuaram semanalmente. Íris falava de César, do SSD e da noite em que beijara Vicente. Falava também da rapidez com que comunicara Soraya e da demora de dois dias para contar a Vicente sobre a ameaça de Sabina. A diferença entre esses intervalos aparecia nas perguntas da terapeuta. Quatro minutos. Dois dias. Sete anos.

No último dia da suspensão, Íris chegou cedo ao escritório. O corredor ainda estava vazio. Abriu o armário e retirou o troféu.

A peça era feita de metal escovado, com uma placa onde se lia seu nome e o ano da premiação. Usou uma chave de fenda pequena para soltar os parafusos. O primeiro saiu com facilidade. O segundo estava preso e exigiu várias tentativas.

A placa se desprendeu.

Íris colocou o metal em uma caixa destinada à coleta de materiais recicláveis do edifício. A funcionária da administração perguntou se deveria emitir recibo.

— Não precisa.

Íris levou a caixa vazia do troféu de volta à sala. Colocou dentro uma cópia do comunicado do Instituto e o comprovante da revogação. Na tampa, escreveu: “Arquivo da revisão”.

Na manhã seguinte, retornaria ao exercício sob supervisão.

Preparou a mesa antes de ir embora. Deixou o termo de monitoramento ao lado do computador, separou a pauta da reunião de equipe e conferiu os nomes das pessoas autorizadas a revisar suas comunicações profissionais.

O telefone pessoal vibrou dentro da bolsa.

Íris não olhou a tela.

Retirou o aparelho, desligou o som e o guardou na gaveta inferior da mesa. Fechou a gaveta com a chave e colocou a chave junto ao crachá que usaria no primeiro dia de retorno.

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