A DISTÂNCIA EXATA
A resposta de Ivo chegou às seis e cinquenta e dois da manhã do décimo primeiro dia.
Vicente leu a carta no telefone ainda dentro do carro. O consultor acusava o Sampaio Vilar de interferência indevida, afirmava possuir autorização histórica para buscar interessados e ameaçava responsabilizar a companhia por qualquer perda decorrente da suspensão dos contatos com a Pórtico.
O motorista aguardava a abertura da garagem da matriz. Vicente ampliou o último parágrafo. Ivo também pedia a revogação imediata do mandato de Íris.
Ele encaminhou a carta ao comitê e ligou para Sabina. A chamada caiu na caixa postal. Tentou outra vez antes de guardar o aparelho.
No elevador, recebeu a convocação para uma reunião às dez.
Íris chegou com oito minutos de antecedência. Trazia uma pasta estreita e o cabelo preso. O tornozelo parecia melhor. Vicente notou que os sapatos tinham salto mais baixo. Ela não comentou a carta de Ivo antes que todos ocupassem seus lugares.
Sabina entrou por último.
— Esta investigação ultrapassou a autorização concedida — disse ela após o presidente do comitê abrir a reunião. — Um consultor contratado pela companhia foi impedido de cumprir sua função sem decisão do conselho.
Íris distribuiu um quadro cronológico.
— O protocolo de crise veda negociação fora do comitê especial. O senhor Ivo Marins recebeu essa determinação por escrito. Depois disso, manteve contato com a compradora, participou da produção de uma proposta revisada e deixou de entregar o instrumento de remuneração citado no documento.
Sabina folheou as páginas.
— Ele tentou preservar o interesse econômico da companhia.
— A Quórum possui interesse financeiro no fechamento.
— Consultorias recebem por resultado.
— O contrato de resultado não foi apresentado.
Um conselheiro perguntou sobre as diferenças de data. Íris projetou na tela os metadados incompatíveis e explicou a distância entre as datas declaradas e a criação dos arquivos. Em seguida, mostrou a origem do identificador vinculado à página excluída.
— Essa informação prova apenas que a Quórum trabalhou no documento — disse Sabina.
— Prova a participação da Quórum num anexo omitido. A extensão depende da entrega do contrato.
— O bloqueio põe em risco uma proposta válida.
Íris mudou a tela. A minuta encontrada entre os documentos de Gilberto surgiu ao lado da versão atual.
— Quatro meses atrás, o preço era superior ao valor revisado. A cláusula de êxito ainda não aparecia. O comitê precisa saber por que houve redução e quem receberá pela operação.
Vicente observou Sabina. Ela continuava imóvel, exceto pela mão direita, que passava o polegar pela borda do papel.
— Você sabia dessa minuta? — ele perguntou.
— Conheço várias versões.
— Esta estava no arquivo do meu pai.
— Seu pai avaliou diferentes cenários.
O presidente do comitê chamou a votação. Três membros decidiram manter o mandato do escritório. Um se absteve. Sabina votou contra, embora não integrasse formalmente o comitê e tivesse participado apenas para apresentar a objeção.
A decisão exigia que Ivo entregasse todos os documentos no mesmo dia. A companhia também confirmava a proibição de novas negociações fora do protocolo.
Quando a reunião terminou, Sabina recolheu apenas a carta de Ivo. Deixou o quadro cronológico sobre a mesa.
Vicente alcançou Íris no corredor.
— Você fez Sabina perder uma votação.
— O comitê tomou uma decisão.
— Você fala assim até quando vence?
— Principalmente quando alguém pode pedir anulação.
— Existe alguma situação em que você só aceita o resultado?
— Depois do prazo de recurso.
Vicente caminhou ao lado dela até a sala de apoio.
— Jante comigo hoje.
Íris parou.
— Não.
A resposta saiu antes que ele explicasse. Vicente sentiu o corte e escolheu recuar do impulso que o levara até ali.
— Preciso explicar a relação entre Ivo, Sabina e o conselho. Os restaurantes do prédio estarão fechados quando terminarmos. Podemos comer num lugar a duas quadras e tratar disso.
Ela o observou por alguns segundos.
— Refeição de trabalho.
— Foi o que eu disse.
— Você disse depois.
— Corrigi a formulação.
Íris consultou o relógio.
— Às vinte e uma horas. Uma hora.
— Você cronometra jantares?
— Este.
Ivo entregou parte dos arquivos às dezessete e vinte. O contrato de êxito não estava entre eles. Sua resposta afirmava que o instrumento dependia de aprovação posterior e permanecia em negociação.
A equipe de Íris enviou nova exigência.
Às nove da noite, Vicente a encontrou no térreo. Foram a um restaurante com mesas pequenas e iluminação direta, frequentado por executivos que ainda traziam crachás presos à roupa. Íris escolheu uma mesa afastada do balcão. Colocou o telefone sobre a madeira, com a tela voltada para baixo.
— Ivo entrou na empresa há oito anos — disse Vicente depois que pediram os pratos. — Meu pai queria vender terrenos antigos. Áreas sem hotel, algumas abandonadas, outras presas em inventários locais.
— Qual era o contrato?
— Valor fixo baixo e comissão pelo fechamento. Ele conseguiu liberar duas áreas.
— Sabina o aproximou do conselho?
— Ela defendia que a rede precisava de alguém mais agressivo. Ivo começou a participar de reuniões sem cargo formal. Levava compradores, sugeria bancos e apresentava avaliações.
— Alguma operação envolveu empresas ligadas a ele?
— Tentei descobrir.
— Quando?
— Dois anos atrás. Uma venda de terreno no interior me pareceu barata. Pedi os documentos financeiros da consultoria.
— Recebeu?
— A Quórum é privada. Ivo alegou confidencialidade. Sabina convenceu o conselho de que eu estava tentando sabotar uma negociação concluída.
O garçom trouxe água. Íris esperou que ele se afastasse.
— Você formalizou a objeção?
— Registrei meu voto. Não tinha prova para ir além.
— E a relação financeira entre Sabina e Ivo?
— Nunca consegui acesso às contas dele. Também não havia motivo aprovado para examinar as empresas privadas de Sabina.
— Agora existe.
Vicente tomou um gole.
— Você fala isso com uma satisfação preocupante.
— Satisfação seria encontrar o contrato. No momento, temos uma justificativa para procurar.
Os pratos chegaram. Vicente havia pedido carne e legumes. Íris escolhera peixe e deixou metade do acompanhamento de lado para continuar fazendo perguntas.
Ele explicou que Sabina assumira mais poder depois do adoecimento de Gilberto. A procuração concedida pelo fundador permitia representação em matérias específicas. Vicente nunca vira o texto completo. Recebia atas prontas e, em algumas reuniões, encontrava decisões já organizadas antes de entrar.
— Por que você continuou? — perguntou Íris.
— Porque os hotéis precisavam funcionar. Se eu abandonasse a diretoria, Sabina controlaria o conselho e a operação.
— Você poderia ter criado um registro paralelo das objeções.
— Eu criei.
— Onde?
— E-mails, relatórios de ocupação, notas enviadas ao meu pai.
Íris apoiou os talheres.
— Precisamos disso.
— Vou liberar.
Ela fez uma anotação no telefone.
— Você transforma qualquer confissão num pedido de documentos.
— Foi uma confissão?
— Talvez.
Íris ergueu os olhos.
— Sobre o quê?
Vicente hesitou. A pergunta já avançava além de Ivo. Poderia voltar ao terreno profissional, deixar a hora terminar e acompanhá-la até o prédio. Em vez disso, respondeu:
— Sobre continuar em lugares que eu achava que conseguiria controlar.
Ela não desviou.
— Isso aconteceu fora da empresa?
— Com Ester.
O nome ficou entre os dois.
— Ester Vasques — acrescentou. — Arquiteta. Ficamos juntos por quatro anos.
Íris não perguntou por que ele falava dela. Esperou.
— Marcamos uma audiência para registrar a união estável. No mesmo dia, houve um incêndio numa cozinha industrial de um dos hotéis. Ninguém se feriu. O sistema conteve o fogo, só que a operação ficou comprometida. Fui para o hotel.
— E perdeu a audiência.
— Cheguei duas horas depois.
— Ela esperou?
— Esperou uma hora. Depois foi embora. Terminou comigo naquela noite.
— Você tentou remarcar?
— Tentei explicar.
— Isso não responde.
Vicente deixou o garfo no prato.
— Não remarquei a audiência.
— Por quê?
— Eu achei que conseguiria fazer os dois.
Íris tomou água.
— Essa frase deve aparecer em muitos dos seus problemas.
— Você faz perguntas duras para alguém que perdeu uma união estável por causa de uma fritadeira.
— O incêndio alcançou a fritadeira?
— A coifa.
— Então sua síntese também é imprecisa.
Ele riu. Íris conteve um sorriso e voltou ao peixe.
— E você? — perguntou Vicente.
— Eu o quê?
— Já organizou a vida para alguém além do escritório?
— Tive um relacionamento de dois anos com Tomás Falcão.
— O procurador da farmacêutica?
— Sim.
— Como terminou?
— Por mensagem.
— Ele mandou uma mensagem?
— Nós dois. O texto foi revisado antes do envio.
Vicente a encarou.
— Vocês revisaram a mensagem de término juntos?
— Houve uma primeira versão, comentários e um texto final.
— Isso é a coisa mais triste que ouvi hoje.
— Você faltou ao registro da própria união por causa de uma coifa.
— Ainda acho a revisão conjunta pior.
Íris bebeu o restante da água. O canto da boca se moveu. Vicente percebeu e não insistiu.
— Houve mais alguém? — perguntou ele.
A mudança nela foi mínima. Os dedos pararam sobre o talher. O rosto permaneceu composto, embora a resposta tenha demorado.
— Houve.
— Importante?
— Complicado.
— Quer falar?
— Não.
Vicente percebeu a área fechada. Poderia perguntar o nome, a época, o motivo. Escolheu encerrar ali.
— Certo.
Íris voltou a comer. O telefone dela permaneceu imóvel sobre a mesa.
Saíram do restaurante às vinte e duas e sete. A refeição ultrapassara o limite em sete minutos. Íris não comentou.
A garagem da matriz estava quase vazia. Entraram no elevador destinado aos subsolos. O painel marcou o segundo andar e apagou. A cabine deu um solavanco. A luz principal se extinguiu, substituída pela iluminação de emergência.
Íris apertou o botão de alarme.
— Central de manutenção — respondeu uma voz pelo interfone.
Ela informou o número da cabine, o andar provável e a quantidade de ocupantes. O funcionário disse que a equipe técnica estava a caminho.
— Tempo estimado?
— Entre cinco e dez minutos, senhora.
— O elevador está nivelado com algum andar?
— Ainda estamos verificando.
Íris cruzou os braços.
Vicente encostou a cabeça na parede metálica.
— Você pode parar de tratar o elevador como parte adversa.
— Ele descumpriu a função principal.
— Está sendo reparado.
— Isso reduz o dano futuro.
— Você vai pedir relatório técnico?
— Já pedi.
A cabine era pequena demais para duas pessoas que haviam passado o jantar falando de relações encerradas. O perfume de Íris se misturava ao cheiro frio do sistema de ventilação. Um fio de cabelo escapara do penteado e tocava a lateral do rosto dela.
Vicente ergueu a mão.
— O que você está fazendo?
— Tem um fio solto.
Ele tocou o cabelo perto da têmpora. Íris permaneceu imóvel no primeiro instante. O gesto deveria terminar ali. A mão dele demorou perto do rosto dela. Íris segurou a lapela do terno.
A distância se reduziu.
Vicente sentiu a respiração dela antes de aproximar a boca. Íris inclinou o rosto. O elevador parecia ter perdido qualquer medida além dos centímetros entre os dois.
Ela soltou a lapela e colocou a mão contra o peito dele.
— Eu sou advogada da sua empresa.
Vicente afastou o corpo.
— Eu sei.
— Saber depois de chegar até aqui não resolve.
— Eu parei.
— Porque eu pedi.
— Isso conta.
Íris respirou fundo. O rosto ainda estava perto.
— Conta. Ainda é insuficiente para repetirmos.
Um ruído percorreu a estrutura. A luz principal voltou. O painel acendeu entre o primeiro subsolo e a garagem.
Vicente deu mais um passo para trás.
— Entendido.
Quando as portas abriram, Íris saiu pela direita. Vicente seguiu pela esquerda e fez a volta ao redor da cabine. Caminhou com ela até o carro, mantendo espaço suficiente para que os braços não se tocassem.
— Boa noite, Íris.
— Boa noite.
Ela entrou e fechou a porta. Vicente esperou o carro sair antes de seguir para o próprio veículo.
Às vinte e três e quarenta, recebeu um e-mail da equipe forense. Um dos arquivos adulterados fora criado num computador atribuído ao gabinete de Sabina. Outro registrava edição pela conta corporativa de Ivo.
Vicente encaminhou o laudo ao comitê.
Depois abriu uma nova mensagem para Íris.
Escreveu que ela tinha razão sobre o elevador. Apagou.
Escreveu que não repetiria a aproximação. Apagou também.
No terceiro rascunho, perguntou se o tornozelo havia melhorado. Leu a frase e excluiu a mensagem inteira.