A DISTÂNCIA EXATA Advogada do Ano · Capítulo 6 de 21
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A DISTÂNCIA EXATA

A resposta de Ivo chegou às seis e cinquenta e dois da manhã do décimo primeiro dia.

Vicente leu a carta no telefone ainda dentro do carro. O consultor acusava o Sampaio Vilar de interferência indevida, afirmava possuir autorização histórica para buscar interessados e ameaçava responsabilizar a companhia por qualquer perda decorrente da suspensão dos contatos com a Pórtico.

O motorista aguardava a abertura da garagem da matriz. Vicente ampliou o último parágrafo. Ivo também pedia a revogação imediata do mandato de Íris.

Ele encaminhou a carta ao comitê e ligou para Sabina. A chamada caiu na caixa postal. Tentou outra vez antes de guardar o aparelho.

No elevador, recebeu a convocação para uma reunião às dez.

Íris chegou com oito minutos de antecedência. Trazia uma pasta estreita e o cabelo preso. O tornozelo parecia melhor. Vicente notou que os sapatos tinham salto mais baixo. Ela não comentou a carta de Ivo antes que todos ocupassem seus lugares.

Sabina entrou por último.

— Esta investigação ultrapassou a autorização concedida — disse ela após o presidente do comitê abrir a reunião. — Um consultor contratado pela companhia foi impedido de cumprir sua função sem decisão do conselho.

Íris distribuiu um quadro cronológico.

— O protocolo de crise veda negociação fora do comitê especial. O senhor Ivo Marins recebeu essa determinação por escrito. Depois disso, manteve contato com a compradora, participou da produção de uma proposta revisada e deixou de entregar o instrumento de remuneração citado no documento.

Sabina folheou as páginas.

— Ele tentou preservar o interesse econômico da companhia.

— A Quórum possui interesse financeiro no fechamento.

— Consultorias recebem por resultado.

— O contrato de resultado não foi apresentado.

Um conselheiro perguntou sobre as diferenças de data. Íris projetou na tela os metadados incompatíveis e explicou a distância entre as datas declaradas e a criação dos arquivos. Em seguida, mostrou a origem do identificador vinculado à página excluída.

— Essa informação prova apenas que a Quórum trabalhou no documento — disse Sabina.

— Prova a participação da Quórum num anexo omitido. A extensão depende da entrega do contrato.

— O bloqueio põe em risco uma proposta válida.

Íris mudou a tela. A minuta encontrada entre os documentos de Gilberto surgiu ao lado da versão atual.

— Quatro meses atrás, o preço era superior ao valor revisado. A cláusula de êxito ainda não aparecia. O comitê precisa saber por que houve redução e quem receberá pela operação.

Vicente observou Sabina. Ela continuava imóvel, exceto pela mão direita, que passava o polegar pela borda do papel.

— Você sabia dessa minuta? — ele perguntou.

— Conheço várias versões.

— Esta estava no arquivo do meu pai.

— Seu pai avaliou diferentes cenários.

O presidente do comitê chamou a votação. Três membros decidiram manter o mandato do escritório. Um se absteve. Sabina votou contra, embora não integrasse formalmente o comitê e tivesse participado apenas para apresentar a objeção.

A decisão exigia que Ivo entregasse todos os documentos no mesmo dia. A companhia também confirmava a proibição de novas negociações fora do protocolo.

Quando a reunião terminou, Sabina recolheu apenas a carta de Ivo. Deixou o quadro cronológico sobre a mesa.

Vicente alcançou Íris no corredor.

— Você fez Sabina perder uma votação.

— O comitê tomou uma decisão.

— Você fala assim até quando vence?

— Principalmente quando alguém pode pedir anulação.

— Existe alguma situação em que você só aceita o resultado?

— Depois do prazo de recurso.

Vicente caminhou ao lado dela até a sala de apoio.

— Jante comigo hoje.

Íris parou.

— Não.

A resposta saiu antes que ele explicasse. Vicente sentiu o corte e escolheu recuar do impulso que o levara até ali.

— Preciso explicar a relação entre Ivo, Sabina e o conselho. Os restaurantes do prédio estarão fechados quando terminarmos. Podemos comer num lugar a duas quadras e tratar disso.

Ela o observou por alguns segundos.

— Refeição de trabalho.

— Foi o que eu disse.

— Você disse depois.

— Corrigi a formulação.

Íris consultou o relógio.

— Às vinte e uma horas. Uma hora.

— Você cronometra jantares?

— Este.

Ivo entregou parte dos arquivos às dezessete e vinte. O contrato de êxito não estava entre eles. Sua resposta afirmava que o instrumento dependia de aprovação posterior e permanecia em negociação.

A equipe de Íris enviou nova exigência.

Às nove da noite, Vicente a encontrou no térreo. Foram a um restaurante com mesas pequenas e iluminação direta, frequentado por executivos que ainda traziam crachás presos à roupa. Íris escolheu uma mesa afastada do balcão. Colocou o telefone sobre a madeira, com a tela voltada para baixo.

— Ivo entrou na empresa há oito anos — disse Vicente depois que pediram os pratos. — Meu pai queria vender terrenos antigos. Áreas sem hotel, algumas abandonadas, outras presas em inventários locais.

— Qual era o contrato?

— Valor fixo baixo e comissão pelo fechamento. Ele conseguiu liberar duas áreas.

— Sabina o aproximou do conselho?

— Ela defendia que a rede precisava de alguém mais agressivo. Ivo começou a participar de reuniões sem cargo formal. Levava compradores, sugeria bancos e apresentava avaliações.

— Alguma operação envolveu empresas ligadas a ele?

— Tentei descobrir.

— Quando?

— Dois anos atrás. Uma venda de terreno no interior me pareceu barata. Pedi os documentos financeiros da consultoria.

— Recebeu?

— A Quórum é privada. Ivo alegou confidencialidade. Sabina convenceu o conselho de que eu estava tentando sabotar uma negociação concluída.

O garçom trouxe água. Íris esperou que ele se afastasse.

— Você formalizou a objeção?

— Registrei meu voto. Não tinha prova para ir além.

— E a relação financeira entre Sabina e Ivo?

— Nunca consegui acesso às contas dele. Também não havia motivo aprovado para examinar as empresas privadas de Sabina.

— Agora existe.

Vicente tomou um gole.

— Você fala isso com uma satisfação preocupante.

— Satisfação seria encontrar o contrato. No momento, temos uma justificativa para procurar.

Os pratos chegaram. Vicente havia pedido carne e legumes. Íris escolhera peixe e deixou metade do acompanhamento de lado para continuar fazendo perguntas.

Ele explicou que Sabina assumira mais poder depois do adoecimento de Gilberto. A procuração concedida pelo fundador permitia representação em matérias específicas. Vicente nunca vira o texto completo. Recebia atas prontas e, em algumas reuniões, encontrava decisões já organizadas antes de entrar.

— Por que você continuou? — perguntou Íris.

— Porque os hotéis precisavam funcionar. Se eu abandonasse a diretoria, Sabina controlaria o conselho e a operação.

— Você poderia ter criado um registro paralelo das objeções.

— Eu criei.

— Onde?

— E-mails, relatórios de ocupação, notas enviadas ao meu pai.

Íris apoiou os talheres.

— Precisamos disso.

— Vou liberar.

Ela fez uma anotação no telefone.

— Você transforma qualquer confissão num pedido de documentos.

— Foi uma confissão?

— Talvez.

Íris ergueu os olhos.

— Sobre o quê?

Vicente hesitou. A pergunta já avançava além de Ivo. Poderia voltar ao terreno profissional, deixar a hora terminar e acompanhá-la até o prédio. Em vez disso, respondeu:

— Sobre continuar em lugares que eu achava que conseguiria controlar.

Ela não desviou.

— Isso aconteceu fora da empresa?

— Com Ester.

O nome ficou entre os dois.

— Ester Vasques — acrescentou. — Arquiteta. Ficamos juntos por quatro anos.

Íris não perguntou por que ele falava dela. Esperou.

— Marcamos uma audiência para registrar a união estável. No mesmo dia, houve um incêndio numa cozinha industrial de um dos hotéis. Ninguém se feriu. O sistema conteve o fogo, só que a operação ficou comprometida. Fui para o hotel.

— E perdeu a audiência.

— Cheguei duas horas depois.

— Ela esperou?

— Esperou uma hora. Depois foi embora. Terminou comigo naquela noite.

— Você tentou remarcar?

— Tentei explicar.

— Isso não responde.

Vicente deixou o garfo no prato.

— Não remarquei a audiência.

— Por quê?

— Eu achei que conseguiria fazer os dois.

Íris tomou água.

— Essa frase deve aparecer em muitos dos seus problemas.

— Você faz perguntas duras para alguém que perdeu uma união estável por causa de uma fritadeira.

— O incêndio alcançou a fritadeira?

— A coifa.

— Então sua síntese também é imprecisa.

Ele riu. Íris conteve um sorriso e voltou ao peixe.

— E você? — perguntou Vicente.

— Eu o quê?

— Já organizou a vida para alguém além do escritório?

— Tive um relacionamento de dois anos com Tomás Falcão.

— O procurador da farmacêutica?

— Sim.

— Como terminou?

— Por mensagem.

— Ele mandou uma mensagem?

— Nós dois. O texto foi revisado antes do envio.

Vicente a encarou.

— Vocês revisaram a mensagem de término juntos?

— Houve uma primeira versão, comentários e um texto final.

— Isso é a coisa mais triste que ouvi hoje.

— Você faltou ao registro da própria união por causa de uma coifa.

— Ainda acho a revisão conjunta pior.

Íris bebeu o restante da água. O canto da boca se moveu. Vicente percebeu e não insistiu.

— Houve mais alguém? — perguntou ele.

A mudança nela foi mínima. Os dedos pararam sobre o talher. O rosto permaneceu composto, embora a resposta tenha demorado.

— Houve.

— Importante?

— Complicado.

— Quer falar?

— Não.

Vicente percebeu a área fechada. Poderia perguntar o nome, a época, o motivo. Escolheu encerrar ali.

— Certo.

Íris voltou a comer. O telefone dela permaneceu imóvel sobre a mesa.

Saíram do restaurante às vinte e duas e sete. A refeição ultrapassara o limite em sete minutos. Íris não comentou.

A garagem da matriz estava quase vazia. Entraram no elevador destinado aos subsolos. O painel marcou o segundo andar e apagou. A cabine deu um solavanco. A luz principal se extinguiu, substituída pela iluminação de emergência.

Íris apertou o botão de alarme.

— Central de manutenção — respondeu uma voz pelo interfone.

Ela informou o número da cabine, o andar provável e a quantidade de ocupantes. O funcionário disse que a equipe técnica estava a caminho.

— Tempo estimado?

— Entre cinco e dez minutos, senhora.

— O elevador está nivelado com algum andar?

— Ainda estamos verificando.

Íris cruzou os braços.

Vicente encostou a cabeça na parede metálica.

— Você pode parar de tratar o elevador como parte adversa.

— Ele descumpriu a função principal.

— Está sendo reparado.

— Isso reduz o dano futuro.

— Você vai pedir relatório técnico?

— Já pedi.

A cabine era pequena demais para duas pessoas que haviam passado o jantar falando de relações encerradas. O perfume de Íris se misturava ao cheiro frio do sistema de ventilação. Um fio de cabelo escapara do penteado e tocava a lateral do rosto dela.

Vicente ergueu a mão.

— O que você está fazendo?

— Tem um fio solto.

Ele tocou o cabelo perto da têmpora. Íris permaneceu imóvel no primeiro instante. O gesto deveria terminar ali. A mão dele demorou perto do rosto dela. Íris segurou a lapela do terno.

A distância se reduziu.

Vicente sentiu a respiração dela antes de aproximar a boca. Íris inclinou o rosto. O elevador parecia ter perdido qualquer medida além dos centímetros entre os dois.

Ela soltou a lapela e colocou a mão contra o peito dele.

— Eu sou advogada da sua empresa.

Vicente afastou o corpo.

— Eu sei.

— Saber depois de chegar até aqui não resolve.

— Eu parei.

— Porque eu pedi.

— Isso conta.

Íris respirou fundo. O rosto ainda estava perto.

— Conta. Ainda é insuficiente para repetirmos.

Um ruído percorreu a estrutura. A luz principal voltou. O painel acendeu entre o primeiro subsolo e a garagem.

Vicente deu mais um passo para trás.

— Entendido.

Quando as portas abriram, Íris saiu pela direita. Vicente seguiu pela esquerda e fez a volta ao redor da cabine. Caminhou com ela até o carro, mantendo espaço suficiente para que os braços não se tocassem.

— Boa noite, Íris.

— Boa noite.

Ela entrou e fechou a porta. Vicente esperou o carro sair antes de seguir para o próprio veículo.

Às vinte e três e quarenta, recebeu um e-mail da equipe forense. Um dos arquivos adulterados fora criado num computador atribuído ao gabinete de Sabina. Outro registrava edição pela conta corporativa de Ivo.

Vicente encaminhou o laudo ao comitê.

Depois abriu uma nova mensagem para Íris.

Escreveu que ela tinha razão sobre o elevador. Apagou.

Escreveu que não repetiria a aproximação. Apagou também.

No terceiro rascunho, perguntou se o tornozelo havia melhorado. Leu a frase e excluiu a mensagem inteira.

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