O CLIENTE
Vicente chegou ao Sampaio Vilar Advogados às sete e cinquenta e três. A recepção ocupava metade do vigésimo segundo andar e tinha móveis claros, vidro fosco e uma vista que transformava o trânsito da Marginal em linhas ordenadas. Ele odiava lugares que faziam caos parecer decoração.
A recepcionista pediu um documento, confirmou o nome e ofereceu café. Vicente recusou. Trazia uma pasta física debaixo do braço, o celular no bolso e quatro horas de sono mal distribuídas. Passara o restante da madrugada revisando relatórios de ocupação enviados aos bancos. Três planilhas apresentavam números que a equipe de operações desconhecia.
Sabina já estava na sala de reunião. Sentava-se à direita da cabeceira, acompanhada de Ivo Marins, controlador da Quórum Consultoria e assessor apresentado ao conselho como independente. Ivo usava um terno cinza impecável e mantinha sobre a mesa um tablet com gráficos coloridos.
— Sete minutos antes — Sabina disse. — Isso é quase um pedido de desculpas pelo jantar.
— Pelo ar-condicionado ou pela conversa?
— Pela falta de discrição.
Vicente colocou a pasta diante da cadeira oposta.
— Você abordou a premiada no salão.
— O impedimento surgiu ontem. O vencimento bancário não espera etiqueta.
Ivo tocou a tela do tablet.
— A janela de mercado também pode fechar. Precisamos preservar liquidez e patrimônio antes que o custo de capital torne qualquer solução inviável.
Vicente puxou a cadeira.
— Você conseguiu usar quatro expressões sem dizer vender.
— Eu disse solução.
— Exatamente.
A porta abriu às oito em ponto. Íris entrou com Teodoro Vilar e Soraya Mendonça. Usava calça escura, camisa marfim e o cabelo preso de modo menos rígido do que na noite anterior. Não havia troféu, fotografia da premiação ou qualquer sinal de celebração. Trazia um bloco fino e uma cópia impressa da carta de renúncia.
Teodoro fez as apresentações formais. Soraya explicou que participava da análise de aceitação e integridade profissional. Íris tomou o lugar à frente da tela apagada e pousou a carta no centro da mesa.
— Quem deu aos antigos advogados acesso aos demonstrativos encaminhados aos bancos?
Sabina apoiou as mãos uma sobre a outra.
— O diretor financeiro coordenava esse fluxo.
— Nome.
— Celso Tavares — Vicente respondeu. — Pediu demissão três dias atrás e desapareceu das reuniões antes de assinar a transição.
Íris anotou.
— Causa formal da saída?
— Razões pessoais, segundo a carta — disse Sabina.
— Acesso revogado?
Vicente olhou para ela.
— Pedi a revogação no mesmo dia.
— Confirmação técnica?
— Ainda não recebi.
— Último acesso ao data room?
— O relatório que me entregaram termina vinte e quatro horas antes da demissão.
Íris ergueu os olhos.
— Então não existe confirmação de revogação nem relatório completo.
Ivo moveu o tablet.
— Podemos fornecer isso depois da contratação. A urgência principal envolve os termos da venda e a liquidez necessária para atravessar as próximas semanas.
Íris virou-se para ele.
— Qual é a emergência verificável?
Ivo começou a responder. Vicente falou antes.
— Um vencimento de cento e quarenta milhões em vinte e três dias.
— Qual é a segunda?
— Dois bancos receberam projeções de ocupação que nossa equipe não produziu.
— Qual é a terceira?
Vicente abriu a pasta e empurrou a minuta de venda pela mesa.
— Seis hotéis para a Pórtico Capital Participações. O preço está trinta e dois por cento abaixo da avaliação encomendada no ano passado.
Íris puxou a minuta. Passou os olhos pelas primeiras páginas, parou na descrição dos ativos e voltou à cláusula de preço. Teodoro pediu uma cópia digital. Soraya anotou o nome da compradora.
Sabina assumiu a explicação.
— A avaliação anterior ficou defasada. Houve queda de receita, reformas represadas e aumento do custo da dívida. A Atria Consultoria atualizou os números.
— Quem contratou a Atria? — Íris perguntou.
— O conselho aprovou — Ivo respondeu.
Vicente apoiou os braços na mesa.
— Quatro conselheiros aprovaram uma contratação emergencial por e-mail. Não houve reunião formal.
— O estatuto admite deliberação por escrito — Sabina disse.
— Com documentação completa. O material chegou duas horas antes do prazo.
Íris levantou uma mão, encerrando a troca.
— Quero a deliberação, os anexos enviados aos conselheiros e os registros de encaminhamento. Também quero saber quem definiu o escopo da Atria.
Ivo cruzou uma perna.
— O conselho delegou a interlocução à Quórum.
— Sua empresa contratou a avaliadora?
— Coordenou o processo.
— Quem assinou o contrato?
— A companhia.
— Qual diretor?
Ivo olhou para Sabina. A hesitação durou pouco, embora Vicente a visse.
— Celso Tavares — Sabina respondeu.
Íris marcou o nome novamente. A caneta avançava em linhas curtas. Ela perguntava de um jeito que obrigava cada pessoa a ocupar a própria frase. Quando Ivo tentava ampliar uma resposta, ela pedia a fonte. Quando Sabina descrevia uma decisão coletiva, Íris queria ata, e-mail ou assinatura.
A estrutura societária apareceu aos poucos. Gilberto Alvarenga, fundador da rede, mantinha participação relevante e direito de voto. Depois do acidente vascular cerebral, concedera procuração a Sabina para representá-lo em reuniões do conselho e assembleias. Permanecia lúcido, com limitações de fala e fadiga intensa. Uma declaração médica e uma manifestação assistida poderiam revogar a delegação.
— Sabina controla dois votos — Vicente disse. — O próprio e o do meu pai.
Sabina virou o rosto para ele.
— Seu pai me confiou essa responsabilidade antes do AVC.
— Ele também disse que a venda não deve ocorrer.
— Em uma conversa doméstica, sem assessoria e depois de vinte minutos de esforço.
Íris fechou a minuta.
— A vontade do acionista e a validade da procuração serão examinadas em separado. Evitem transformar esta reunião em disputa sobre capacidade médica sem documentos.
Vicente conteve a resposta. Irritava-se ao receber limites na própria crise. Ainda assim, ela tinha razão sobre o risco de reduzir o pai à condição clínica que a família disputava.
Íris pediu o mapa dos quatorze hotéis. A planilha projetada mostrou localização, receita, custos e margem operacional. Os seis ativos incluídos na proposta concentravam mais da metade do lucro operacional. A venda cobriria o vencimento imediato e deixaria a companhia com unidades frágeis, arrendamentos longos e pouca capacidade de investimento.
Teodoro fez a primeira pergunta extensa da manhã.
— Qual é o plano para a rede remanescente?
Ivo abriu um gráfico.
— Redimensionamento, otimização de portfólio e futura capitalização.
— Em números — Íris disse.
Ele passou para outra tela.
Vicente observou o rosto dela durante a apresentação. Na noite anterior, o vestido preto e a luz do salão tinham criado uma figura pública muito bem acabada. Ali, Íris parecia mais perigosa. Interrompia antes que uma frase vazia ganhasse autoridade. Não tentava agradar Sabina. Também recusava o papel de aliada automática de Vicente.
Quando ele chamou a avaliação de fabricação, ela exigiu que apresentasse prova ou reformulasse.
— Os números não correspondem à operação — ele disse.
— Isso é verificável. “Fabricação” atribui conduta. Guarde a palavra para quando houver documento.
Vicente sentiu vontade de contrariá-la e, ao mesmo tempo, uma satisfação incômoda por ver a crise ganhar contornos utilizáveis.
Às nove e quarenta, Íris pediu intervalo de dez minutos. Vicente saiu para o corredor e encontrou a máquina de café perto de uma parede coberta por capas de revistas jurídicas. Ela chegou logo depois, colocou uma xícara sob o bico e escolheu a dose curta.
— Você sempre pergunta até a pessoa desejar ter trazido um advogado? — ele perguntou.
— Em geral, ela trouxe.
— Sabina trouxe Ivo.
— Ivo trouxe gráficos.
— Para ela, dá na mesma.
O café caiu em um fio escuro. Íris esperou o fim do ciclo.
— Seu problema com ele é técnico ou pessoal?
— Técnico. O pessoal cresce a cada reunião.
— Separe os dois quando falar comigo.
— Você fala com clientes desse jeito antes de serem clientes?
— Depois costuma piorar.
Ele riu, apesar do cansaço. Íris olhou para o rosto dele por um instante e voltou à xícara. Vicente percebeu a mudança mínima na atenção dela. O corredor ficou estreito demais, ideia absurda em um andar inteiro de vidro.
— Ontem você me chamou de senhor — ele disse.
— Ontem havia quatrocentas testemunhas.
— E hoje?
— Hoje há uma avaliação de conflito em andamento.
Teodoro apareceu na porta da sala.
— Encontramos a documentação societária. Voltem.
Íris levou o café consigo. Vicente ficou olhando a máquina por meio segundo além do necessário.
Na retomada, Soraya apresentou as condições para aceitação. Checagem integral de conflitos, acesso completo ao data room, protocolo de comunicações e autoridade definida para instruções. Nenhum membro da família poderia enviar ordens paralelas à equipe jurídica.
— Isso inclui você — Íris disse a Vicente.
— Eu ouvi “membro da família”.
— Quero ter certeza de que ouviu “ordens paralelas”.
— E se eu encontrar um fato fora do protocolo?
— Encaminhe pelo canal institucional.
Sabina apoiou-se na cadeira.
— A companhia precisa de agilidade. Um comitê muito amplo pode paralisar decisões.
— O comitê será pequeno — Íris respondeu. — E você ficará fora dele durante a análise da venda.
A sala mudou de temperatura para Vicente, embora o ar permanecesse estável. Sabina não alterou a postura.
— Com qual fundamento?
— Você participou da negociação, controla dois votos e apresentou a contratação da Quórum. A exclusão protege a apuração e a validade das decisões.
— Vicente também declarou oposição absoluta à venda. A parcialidade dele é pública.
Íris concordou.
— Ele também ficará fora.
Vicente virou-se.
— Eu sou responsável pela operação dos hotéis que vocês pretendem vender.
— Você será ouvido e terá acesso ao necessário para trabalhar. Não terá poder de instrução sobre a investigação.
— Isso favorece quem já domina o conselho.
— O comitê terá dois conselheiros independentes e um representante do fundo de pensão minoritário. Sabina perde o controle direto. Você perde a possibilidade de transformar oposição em comando jurídico.
Ele sentiu irritação primeiro. Em seguida, reconheceu a estrutura. Íris retirava armas de ambos antes de aceitar a guerra.
Sabina foi a primeira a concordar.
— Considero adequado, desde que o cronograma respeite o vencimento.
Vicente olhou para a prima. A facilidade da aceitação lhe causou desconforto.
Às onze, a checagem inicial terminou. Nenhum impedimento aparente foi encontrado. Teodoro saiu para conversar com os conselheiros indicados. Soraya preparou o mapa de contatos autorizados. Íris pediu acesso provisório ao data room e recebeu as primeiras credenciais.
O contrato foi formalizado no início da tarde. A Alvarenga Hotéis seria a cliente. O comitê especial teria autoridade sobre a representação. Íris assumiu a coordenação jurídica da crise.
Vicente voltou à matriz com a impressão de que havia passado a manhã entregando partes da própria empresa a uma pessoa que conhecia havia poucas horas. A sensação deveria ser intolerável. Em vez disso, havia alívio misturado à vigilância.
Às dezessete horas, um supervisor de sistemas o chamou para ver um terminal na área financeira. A tela exibia um relatório de exportação. Uma conta vinculada a Celso Tavares acessara arquivos naquela manhã e transferira um conjunto de planilhas para uma pasta temporária.
Vicente fotografou a tela. O protocolo institucional exigia abertura de chamado, preservação de logs e mensagem pelo sistema seguro. Ele fez a primeira parte. Na segunda, escolheu o número de Íris no celular e enviou a imagem diretamente.
A resposta não veio pelo mesmo caminho.
Dois minutos depois, uma notificação surgiu no portal corporativo. Íris incluíra a equipe forense e escrevera apenas: “Preserve o terminal. Ninguém deve tocá-lo.”
Vicente leu a ordem duas vezes. Chamou o gerente de infraestrutura, bloqueou a sala e ficou diante da máquina. Um funcionário perguntou se podia desligar o monitor.
— Ninguém toca — ele disse.
— Nem para isolar a rede?
— A equipe forense decide.
Os técnicos chegaram quarenta minutos depois com maletas lacradas. Fotografaram a estação, registraram conexões e coletaram a memória volátil antes do bloqueio. Íris apareceu às dezoito e doze, acompanhada de uma perita e de Soraya. Olhou primeiro para o terminal, depois para Vicente.
— Você enviou fora do canal.
— Enviei rápido.
— E eu corrigi rápido.
— Funcionou.
— Desta vez.
Ela vestiu luvas e acompanhou o registro do número de patrimônio. Vicente ficou junto à porta. Queria perguntar se a descoberta mudava a hipótese sobre a venda. Queria saber se ela havia pensado no café do corredor. A segunda vontade o irritou mais do que a primeira.
Às dezenove e cinco, a conta de Celso foi bloqueada em todos os sistemas. Os logs mostraram que o acesso partira da rede interna do Hotel Alvarenga Paulista.
A perita indicou a linha na tela.
— Origem local. Equipamento ainda não identificado.
Íris pediu a preservação imediata das câmeras, dos registros de acesso físico e da lista de máquinas conectadas no intervalo.
Vicente observou a equipe obedecer. Pela primeira vez em seis semanas, alguém emitia ordens que reduziam o estrago em vez de renomeá-lo.