O DOSSIÊ LESSA Advogada do Ano · Capítulo 13 de 21
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O DOSSIÊ LESSA

No quinquagésimo terceiro dia, Soraya esperava por Íris na menor sala de reunião do Sampaio Vilar. A escolha do espaço parecia deliberada. Não havia vista para a avenida, mesa longa ou tela projetando números. Só quatro cadeiras, um telefone de conferência desligado e uma caixa de evidências lacrada no centro.

Íris reconheceu o SSD antes de sentar. A etiqueta branca, agora coberta por plástico transparente e duas assinaturas de custódia, tinha sido colada por ela sete anos antes. A tinta azul de sua caligrafia estava desbotada.

Soraya indicou a cadeira à frente.

— A empresa contratada concluiu a imagem forense. O dispositivo foi recebido, duplicado e preservado por equipe sem vínculo com o escritório. Leonor Bastos acompanhou a abertura remota.

Íris deixou a bolsa no chão. Manteve as mãos sobre a mesa.

— Quantos arquivos?

— Quarenta e três documentos copiados do sistema do antigo escritório. Há notas de entrevistas, planilhas de fornecedores e versões de trabalho de memorandos. Um deles trata de César Lessa.

Soraya abriu uma pasta impressa. Não empurrou o material para Íris.

— Preciso que você complete sua declaração hoje.

A luz fria da sala deixava as olheiras de Soraya mais fundas. Ela vinha conduzindo a crise interna desde a confissão do beijo com Vicente e já havia aprendido a desconfiar das frases excessivamente limpas de Íris.

— Eu conheci César durante a investigação da Lessa Infraestrutura. Ele era diretor de expansão, irmão da presidente do conselho. Havia pagamentos a intermediários em duas obras, e ele seria ouvido sobre a aprovação desses contratos.

Íris manteve a voz firme.

— Quando começou o relacionamento?

— Seis semanas depois da abertura do caso.

— Enquanto você integrava a equipe responsável pela investigação.

— Sim.

Soraya anotou a resposta. O risco não cabia em eufemismo, e Íris não tentou oferecer um.

— Quem tomou a iniciativa?

— Ele me convidou para jantar. Eu aceitei. Houve outros encontros. Mantivemos tudo oculto.

— Do escritório e da cliente?

— Dos dois.

A palavra saiu com firmeza. Só depois Íris percebeu que apertava o polegar contra a borda da unha.

Soraya virou uma página.

— Conte o episódio do memorando.

Íris conhecia aquela lembrança por fragmentos materiais. O ar-condicionado forte no apartamento de César. A mala aberta no quarto. O notebook apoiado numa bancada de granito escuro. O feriado tinha suspendido o expediente, e ela levara trabalho para revisar antes do depoimento marcado para a semana seguinte.

— Eu estava no apartamento dele. Levei o notebook profissional e o SSD. Abri um memorando de preparação para a entrevista de César. O documento organizava inconsistências entre a versão dele e os registros de pagamentos.

— O SSD já estava conectado?

— Estava.

— Registrado na cadeia autorizada?

— Nunca foi.

Soraya fez outra anotação.

— Continue.

— Recebi uma ligação da coordenadora da equipe. Fui para a varanda. Quando voltei, César estava diante da tela. Ele disse que uma janela tinha travado e que apenas fechara o programa.

Íris lembrava do modo casual com que ele afastara a cadeira, da taça de vinho ao lado do computador e da pergunta seguinte, feita antes que ela pudesse examinar o histórico do sistema.

Você vai trabalhar a noite inteira?

Ela respondera que faltava pouco. Guardara o notebook. Dormira ao lado dele.

— No depoimento da semana seguinte, César alterou a versão exatamente no ponto descrito no memorando.

— Você verificou o acesso?

— Eu consultei os arquivos recentes. O memorando aparecia no topo. Também poderia aparecer porque eu mesma o havia aberto.

— Você perguntou a ele?

— Perguntei. Ele negou.

— E você comunicou a suspeita?

— Não.

Soraya ergueu os olhos.

Íris sustentou o contato.

— Continuei no caso até o acordo final. Encerrei o relacionamento dois meses depois.

— Por causa do acesso?

— Em parte. Eu já não confiava nele. Também sabia que, se terminasse e revelasse o relacionamento, pareceria vingança. Usei isso para adiar a comunicação. Depois usei o acordo para me convencer de que o dano estava contido.

— Houve outras cópias depois do episódio?

— Três ocasiões. Eu transferi documentos para o SSD para trabalhar fora do escritório.

— Por quê?

— O acesso remoto era ruim. Eu tinha prazos curtos. Era uma violação do protocolo, e eu sabia.

Soraya fechou a pasta.

— Por que guardou o dispositivo?

A resposta já existia desde a primeira conversa, embora agora parecesse mais estreita diante da perícia.

— Medo de apagar prova de uma infração.

— Você preservou a prova e ocultou a infração.

— Sim.

Não havia gesto que corrigisse sete anos. Íris manteve as mãos onde estavam.

Soraya informou que Leonor Bastos assumiria a revisão externa. A desembargadora aposentada teria acesso aos registros do Caso Lessa e autonomia para recomendar medidas internas, comunicações obrigatórias e ampliação da análise para outros trabalhos. Teodoro seguiria com todos os poderes de gestão. Íris permaneceria afastada e poderia ser suspensa de qualquer atividade de cliente antes do fim da revisão.

— Leonor quer falar com você amanhã às nove. Ela pediu os seus calendários antigos, dispositivos disponíveis, mensagens e a relação de profissionais que atuaram no caso.

— Vou entregar.

— Sua cooperação não altera o que ocorreu.

— Eu sei.

Soraya recolheu a pasta. O SSD ficou dentro da caixa lacrada.

— Você sabia que tinha de trazer isso sete anos atrás.

Íris demorou um instante.

— Sabia.

Ao sair da sala, encontrou Teodoro no corredor. Ele vinha de uma reunião com clientes, gravata frouxa e telefone preso entre o ombro e o ouvido. Interrompeu a ligação ao vê-la.

— Leonor confirmou?

Teodoro guardou o telefone no bolso.

— Amanhã às nove.

— Soraya explicou o alcance?

— Explicou.

Teodoro passou a mão pela testa. Havia raiva no modo como ele segurava o aparelho, porém a voz saiu baixa.

— Três clientes perguntaram hoje se há outros casos. Eu respondi que uma revisão independente está em curso.

— É a resposta correta.

— Eu sei qual é a resposta correta, Íris.

Ela aceitou o golpe sem recuar.

— Algum pediu transferência?

— Ainda não.

O elevador chegou. Íris entrou sozinha.

Na calçada, o trânsito da hora do almoço comprimira carros e ônibus em duas faixas. Ela atravessou até uma cafeteria onde costumava revisar sustentações antes de audiências. Escolheu uma mesa no fundo, pediu água e abriu o telefone para organizar a entrega a Leonor.

A mensagem chegou de um número desconhecido às 13h17.

Não havia saudação. O primeiro anexo mostrava Íris e César dentro de um elevador. A fotografia fora feita de cima, por uma câmera de segurança. César sorria para ela. A mão dele tocava a curva de suas costas. Íris reconheceu o vestido e a data provável: um jantar de aniversário da presidente do conselho, durante a investigação.

O segundo anexo era uma captura do memorando aberto no notebook.

Abaixo, quatro linhas:

“Dalva está perto dos contratos originais. Você conhece o custo de certas descobertas. Convença Vicente a encerrar a disputa.”

Íris leu duas vezes. Na terceira, já não buscava sentido. Examinava a construção.

A ameaça oferecia uma tarefa, um prazo implícito e a promessa de dano. Sabina fazia isso nas reuniões. Apresentava coerção com a aparência de solução disponível para pessoas razoáveis.

Íris não respondeu. Chamou Soraya e pediu que viesse até a cafeteria sem usar o nome de Vicente ou mencionar o caso pelo telefone.

Soraya chegou vinte minutos depois com um técnico de segurança da informação. O homem pediu que Íris não abrisse outros aplicativos. Fotografou a tela, ativou o modo avião e colocou o aparelho num envelope de proteção.

— Você reconhece o material?

— A fotografia é autêntica. A captura também pode ser.

— Quem tinha acesso?

— César. Alguém que recebeu dele. A equipe de segurança do prédio poderia ter a imagem do elevador.

Soraya leu o texto no registro fotográfico.

— Você associa a Sabina?

— Associo a linguagem e o interesse. Isso ainda não prova autoria.

— Leonor precisa receber agora. Eu também vou registrar internamente.

Íris olhou para o telefone dentro do envelope.

— Dalva pode usar a mensagem?

— Leonor decidirá o que pode ser compartilhado. Você não deve entrar em contato com Dalva sobre o conteúdo. E, antes que pergunte, pode informar Vicente de que recebeu uma ameaça relacionada a material ético antigo. Sem detalhes do caso atual.

— Hoje?

— Hoje.

Íris pediu algumas horas.

Soraya a observou.

— Algumas horas para quê?

— Para organizar o que preciso contar.

— Organize a verdade, não a defesa.

Íris ficou na cafeteria depois que Soraya saiu. O técnico levou o aparelho. Ela recebeu um telefone provisório do escritório, sem acesso às contas pessoais, e anotou de memória o número de Vicente numa folha de recibo.

Não ligou.

Naquela noite, encontrou Vicente no apartamento dela. Ele chegou depois das dez, cansado de uma reunião com os administradores dos hotéis. Tirou os sapatos perto da porta e abriu a geladeira.

— Você tem água, mostarda e uma caixa com limões. Isso é uma cozinha montada por uma pessoa ou por uma comissão de riscos?

Íris teria respondido em outro dia. Sentou no banco junto à bancada.

— Pedi comida.

Vicente fechou a geladeira e olhou para ela.

— Aconteceu alguma coisa?

— A revisão avançou.

— Para pior?

— Para mais completa.

Ele se aproximou, apoiando as mãos na bancada, perto dela.

— Quer falar?

Íris poderia dizer naquele instante que recebera uma ameaça. Soraya autorizara essa comunicação. O restante exigiria uma conversa mais longa, e Vicente estava ali, disponível. Ainda assim, ela calculou a sequência provável de perguntas. Quem enviou? O que havia no material? Por que Sabina o possuía? Por que Íris nunca contara?

— Hoje não.

Vicente assentiu, sem insistir. Quando a comida chegou, ele distribuiu os recipientes sobre a mesa e contou que uma gerente do hotel de Santos ligara para discutir a troca de fornecedores de lavanderia. Íris ouviu. Fez perguntas pequenas. À meia-noite, ele dormiu ao lado dela.

Na manhã seguinte, Íris foi ao escritório de Leonor Bastos. Entregou o que conseguira reunir. Depois passou duas horas respondendo a perguntas preliminares. Ao sair, viu três chamadas de Vicente e uma mensagem perguntando se ela almoçaria com ele.

Almoçaram numa mesa externa próxima à matriz da Alvarenga Hotéis. Vicente falava sobre inconsistências na nuvem da Pórtico. Íris interrompeu antes que ele detalhasse.

— Eu continuo fora do caso.

— Eu sei. Estou falando do que já saiu em ata pública.

— Prefiro evitar.

Ele pousou o garfo.

— Você está esperando alguma coisa acontecer.

Íris sentiu a pergunta chegar ao ponto que vinha evitando.

— Estou lidando com a revisão.

— Eu consigo ouvir quando você escolhe a frase mais estreita.

Ela ergueu os olhos. Vicente não parecia irritado. Estava atento.

— Há algo que eu preciso explicar.

O telefone dele vibrou sobre a mesa. O nome de Dalva apareceu na tela.

Vicente atendeu. Ouviu por menos de um minuto, levantou-se e pediu a conta com um gesto.

— Encontraram os contratos originais numa nuvem contábil da Pórtico. Dalva convocou reunião agora.

Íris ficou imóvel.

— Vá.

— A gente conversa hoje à noite?

— Sim.

A conversa não aconteceu. Vicente saiu da matriz depois das duas da manhã e foi direto para casa. No dia seguinte, uma reunião com bancos ocupou a tarde. Eles trocaram mensagens breves. Íris escreveu duas versões de uma explicação e apagou ambas.

O atraso completou dois dias.

Na terceira noite, sozinha no apartamento, ela abriu no computador uma cópia da declaração entregue a Leonor. A fotografia do elevador não estava ali, porém Íris a via com precisão. A imagem registrava uma mulher que acreditara controlar o alcance de cada escolha porque controlava a linguagem usada para descrevê-la.

Às 7h42 da manhã seguinte, digitou para Vicente:

“Recebi uma ameaça relacionada a um caso antigo. Preciso explicar pessoalmente.”

Releu uma vez e enviou.

O indicador de entrega apareceu. Antes que surgisse uma resposta, o telefone provisório começou a receber notificações em sequência.

O primeiro portal jurídico publicara o dossiê às 7h46. Outro reproduziu partes às 7h51. Às oito, um colunista já usava a expressão “escândalo Lessa” no título.

O pacote circulava entre jornalistas, clientes do Sampaio Vilar, conselheiros da Alvarenga Hotéis e membros do Instituto responsável pelo prêmio. Havia fotografias, mensagens entre Íris e César, cópias de documentos transferidos e um texto que afirmava que ela usara informações privilegiadas para proteger o amante. Algumas mensagens tinham cortes. Duas páginas misturavam datas. O núcleo documental permanecia reconhecível.

Teodoro ligou.

— Não fale com a imprensa. Não responda a clientes. Leonor está reunida com Soraya.

— Entendido.

— O Instituto pediu esclarecimentos formais.

Íris abriu um dos portais. Sua fotografia na cerimônia ocupava o topo da página. A imagem mostrava o troféu erguido e Vicente ao fundo, perto da lateral do palco.

Às 8h23, o Instituto publicou uma nota anunciando a abertura de procedimento para revisar a homenagem de Advogada do Ano.

Íris fechou o computador. Na sala, o troféu ainda estava sobre a estante. Ela o retirou dali, envolveu em uma toalha e colocou no fundo de um armário.

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