O RETORNO
No sábado, Vicente chegou ao restaurante doze minutos antes.
Íris apareceu à uma em ponto, usando calça clara e camisa azul. Ele se levantou para recebê-la e conteve o impulso de beijar seu rosto. Ela percebeu.
— Pode me cumprimentar.
— Estou recalculando distâncias.
— Faça isso sem régua.
Ele tocou o braço dela de leve e esperou que se sentasse.
No almoço, falaram sobre os onze meses sem usar a conversa para preencher cada dia separado. Vicente contou que dormira no escritório durante a fase mais grave da crise, até o conselho determinar que ele reduzisse a jornada. Íris descreveu a primeira semana de suspensão, quando acordava antes das seis e levava alguns segundos para lembrar que não precisava se vestir para trabalhar.
— O que você fazia? — perguntou ele.
— Lia os jornais até encontrar meu nome.
— Isso ajudava?
— Não.
— Por que continuou?
— Porque havia versões do que aconteceu circulando sem que eu pudesse controlar nenhuma.
— Você ainda tenta controlar todas?
— Agora tento perceber quando começo.
Na saída, Vicente perguntou sobre o beijo.
Íris negou outra vez.
O terceiro encontro foi uma caminhada no parque no fim da tarde. Choveu antes que completassem metade do percurso. Abrigaram-se sob a cobertura de um quiosque e dividiram um café ruim servido em copos de papel.
— Você está avaliando cada encontro? — perguntou Vicente.
— Sim.
— Com nota?
— Critérios.
— Isso é pior.
— Pontualidade, respeito aos limites, incidência de linguagem manipuladora.
— Tenho receio de perguntar minha classificação.
— Você está dentro do esperado.
— Romance puro.
Ela sorriu e bebeu o café.
Naquela noite, Vicente recebeu uma mensagem curta.
Gostei de hoje.
Ele digitou três respostas, apagou todas e enviou:
Eu também.
O quarto encontro foi no teatro. Escolheram uma peça sem relação com direito, empresas familiares ou escândalos públicos. Durante o intervalo, uma mulher reconheceu Íris e a observou por tempo suficiente para que ela percebesse. Não houve abordagem. Ainda assim, Íris ficou mais rígida na cadeira quando voltaram ao auditório.
Vicente não perguntou se ela queria sair. Deixou o braço sobre o apoio entre os dois, com a mão aberta. Depois de alguns minutos, Íris colocou os dedos sobre os dele.
Na calçada, perto do carro dela, Vicente esperou enquanto o motorista de um aplicativo discutia com o porteiro do teatro.
— Posso beijar você?
Íris olhou ao redor. Havia pessoas na fila do estacionamento e um casal discutindo sob a marquise. Nenhum lugar seria neutro o bastante para protegê-los da história que carregavam. Ela voltou a atenção para Vicente.
— Pode.
Ele segurou a lateral do rosto dela. O beijo começou devagar, sem a urgência dos encontros anteriores, e ainda assim o corpo de Vicente respondeu com uma força que o obrigou a manter distância entre os quadris. Íris tocou sua nuca e encerrou o contato antes que ele esquecesse onde estavam.
Vicente recuou.
— Tudo bem?
Ela segurou a gola da camisa dele e o beijou de novo.
Dessa vez, a iniciativa dela eliminou a dúvida sem eliminar o cuidado. Vicente sentiu os dentes dela roçarem seu lábio, o ar curto quando ele aprofundou o beijo e a pressão dos dedos em sua nuca.
Íris se afastou.
— Agora terminou.
— O encontro ou o beijo?
— Ambos.
— Posso mandar mensagem quando chegar?
— Pode.
Nas semanas seguintes, almoçaram perto do escritório dela, caminharam aos domingos e jantaram no apartamento de Íris sem que Vicente passasse a noite. Ela comunicou a relação a Leonor e registrou os encontros relevantes. Vicente contou a dois amigos próximos. Nenhum deles fez perguntas sobre o processo da companhia.
Íris conheceu o novo apartamento dele apenas no fim do segundo mês de reaproximação.
Vicente escolhera o lugar durante a presidência interina, depois de deixar o imóvel em que morava perto da sede. O prédio ficava numa rua tranquila, longe dos hotéis. Ela já tinha visto fotografias enviadas durante uma conversa sobre a bancada que ele instalara na sala.
Ao entrar, encontrou um espaço menos organizado que o seu. Amostras de tecido ocupavam uma poltrona. Plantas de unidades da rede estavam enroladas junto à estante, sem anotações confidenciais visíveis. Sobre a bancada havia uma trena, duas chaves e uma dobradiça desmontada.
— Você mora numa oficina.
— Tenho uma cozinha também.
— A cozinha possui ferramentas?
— Só uma chave inglesa.
Íris colocou a bolsa perto do sofá.
Vicente preparara o jantar. A massa ficou pronta antes do molho, e ele alegou que os tempos informados na embalagem estavam errados. Ela abriu um vinho, provou a comida e declarou que a inconsistência não justificava medida emergencial.
Depois do jantar, Vicente mostrou o quarto de hóspedes. Ao abrir o armário para pegar uma toalha, Íris viu uma sacola de papel na prateleira inferior.
Reconheceu a própria letra numa etiqueta.
Ela se agachou e puxou a sacola. Dentro estavam a escova de dentes, um carregador, uma camiseta e o pequeno frasco de hidratante que mantivera no hotel durante a primeira fase do relacionamento.
— Você guardou isso por onze meses?
Vicente permaneceu junto à porta.
— Eu não sabia onde colocar.
— Existe lixo.
— Eu trabalho com manutenção.
Íris olhou para ele. A seriedade no rosto durou menos de dois segundos. Ela começou a rir e precisou apoiar a mão na prateleira.
Vicente riu também.
A tensão que acompanhara toda a noite cedeu de forma abrupta. Íris se levantou com a sacola nas mãos.
— Você pretendia consertar minha escova?
— Avaliar a vida útil.
— Está lacrada.
— Conservação excelente.
Ela deixou a sacola sobre a cama.
Quando voltaram à sala, sentaram-se em lados diferentes do sofá. Vicente abriu uma garrafa de água e entregou a ela.
— Você quer ficar?
Íris segurou a garrafa sem beber.
— Quero passar a noite. Saio cedo. Tenho uma reunião supervisionada às nove.
A resposta atingiu Vicente no peito. Ele apoiou os pés no chão, evitando qualquer movimento que transformasse a decisão dela em algo irreversível.
— Precisamos conversar antes.
— Sim.
Falaram sobre exames de saúde. Ambos haviam feito testes recentes. Revisaram contracepção e combinaram o que usariam. Vicente perguntou quais contatos ela queria evitar, o que poderia ser retomado e o que exigiria nova autorização. Íris respondeu sem pressa.
— Se eu parar, você para — disse ela.
— Sim.
— Se eu me afastar, não tente concluir o que eu quero.
— Eu pergunto.
— E você também pode parar.
— Posso.
Íris colocou a garrafa sobre a mesa.
— Quero ir para o quarto.
Vicente se levantou. Ela segurou sua mão antes que ele desse o primeiro passo.
No quarto, a luz vinha de um abajur instalado baixo demais, segundo os próprios critérios de Vicente. Íris tirou os sapatos e ficou diante dele. A proximidade devolveu ao corpo dele lembranças que não pediam autorização à prudência. Ainda assim, Vicente perguntou antes de abrir os botões da camisa dela.
Íris respondeu com a boca junto à sua.
O sexo começou com familiaridade suficiente para assustá-lo. Ele conhecia o modo como ela inclinava a cabeça quando queria um beijo mais lento, o ponto em que sua respiração mudava e a firmeza com que o puxava quando decidia reduzir a distância. Ao mesmo tempo, havia hesitações novas. Vicente continha a força nos braços. Recuava cedo demais. Íris percebeu.
— Olha para mim.
Ele ergueu o rosto.
— Você está com medo de me tocar.
— Estou com medo de avançar além do que combinamos.
Íris pegou as mãos dele e as colocou em sua cintura.
— Aqui.
Vicente manteve as mãos onde ela indicou. Íris guiou uma delas pelas costas, corrigindo a pressão.
— Assim.
Ele a beijou, atento à menor mudança. A cautela não diminuiu o desejo. Tornou cada resposta mais clara.
Depois de algum tempo, Íris se afastou de repente.
Vicente interrompeu o movimento.
Ela sentou-se na beira da cama, de costas para ele. O ar-condicionado fazia um ruído baixo. No corredor, alguém fechou uma porta.
— Fica aqui — pediu Íris.
Vicente permaneceu perto, sem tocá-la.
A lembrança da noite em que o dossiê se tornara público tinha surgido durante o contato, precisa e indesejada. Íris vira novamente a tela do telefone cheia de mensagens, o rosto de Vicente diante da confissão e a sacola que preparara antes de sair. O quarto atual desaparecera por um instante sob aquela recordação.
Vicente aguardou.
Quando Íris estendeu a mão, ele a segurou.
— Quer parar? — perguntou.
— Quero ficar assim por um pouco.
Ele se sentou ao lado dela. Seus ombros se tocavam. Íris manteve a mão presa à dele até a respiração recuperar o ritmo.
— Ainda sinto vergonha quando entro numa sala e percebo que alguém leu as notícias — disse ela. — Algumas pessoas tentam fingir que não sabem. Outras fazem questão de mostrar que sabem.
— O que você faz?
— Trabalho. Depois chego em casa e lembro de cada olhar.
Vicente passou o polegar sobre os dedos dela.
— No conselho, eu tenho medo de que estejam me mantendo porque sou a alternativa familiar menos danosa.
Íris virou o rosto.
— Você acha que é isso?
— Em parte. Eu fui útil durante a crise. Conheço a operação e aceitei os limites. Também continuo sendo um Alvarenga numa companhia que passou anos deixando a família decidir demais.
— Você pode recusar a presidência definitiva.
— Posso. Ainda não sei se devo.
— Então não transforme a decisão numa prova para ninguém.
Vicente sorriu de lado.
— Isso foi conselho?
— Foi comentário pessoal. Sem cobrança.
— A precisão continua intacta.
— Infelizmente.
Ele beijou os dedos dela.
— Quer dormir?
Íris olhou para a cama desfeita.
— Ainda não.
Ela o puxou pela mão.
O reencontro físico seguiu sem tentar reproduzir as noites anteriores. Houve pausas para água, perguntas ditas junto à pele e momentos em que um deles diminuía o ritmo. Quando Íris decidiu apagar o abajur, Vicente confirmou. Quando mudou de ideia e acendeu outra vez, ele apenas ajustou a posição para que a luz não atingisse seus olhos.
Mais tarde, ela dormiu com a cabeça apoiada no ombro dele.
Às seis e vinte, o alarme tocou. Íris levantou antes de Vicente, tomou banho e vestiu a roupa que trouxera dobrada na bolsa. Na cozinha, ele preparou café enquanto ela lia a agenda da reunião.
— Você vai registrar a noite? — perguntou.
— O vínculo já foi comunicado. Registrarei que permaneci aqui, sem contato profissional.
— Parece invasivo.
— É invasivo.
— E você aceita?
— Aceito a supervisão. Isso não significa que eu goste de cada exigência.
Vicente entregou a caneca.
— Obrigado por ter ficado.
Íris bebeu um gole.
— Eu fiquei porque quis.
Três semanas depois, o conselho encerrou a investigação interna sobre a venda e o vazamento.
A reunião ocorreu numa sala reformada da sede. Vicente ocupou uma cadeira lateral, sem a posição central que pertencera aos presidentes anteriores. Dalva estava diante do conselho com duas pastas e um arquivo digital autenticado.
O relatório final responsabilizava Sabina pelos danos ligados à tentativa de venda e pela divulgação do dossiê de Íris. O acordo parcial bloqueava dividendos e bens suficientes para garantir futura indenização, sem encerrar a investigação criminal. A decisão arbitral reconhecia violação grave do acordo de acionistas e retirava de Sabina a cadeira no conselho.
Vicente leu a parte dispositiva sem satisfação. A medida protegia a companhia. Também formalizava que sua prima escolhera destruir pessoas e ativos para favorecer um negócio do qual receberia parte da comissão.
Dalva recolheu os documentos depois das assinaturas.
— A investigação criminal continua — disse ela. — Nenhuma declaração pública deve ultrapassar o conteúdo aprovado pelo comitê independente.
Um conselheiro perguntou se haveria nova ação contra a Pórtico. Dalva respondeu dentro dos limites do acordo parcial. Outro quis saber quando os ativos bloqueados poderiam ser executados. Ela explicou que a data dependeria das ações civis e do resultado das medidas ainda em curso.
Vicente não interferiu.
Na semana seguinte, apresentou o relatório dos doze meses de gestão.
A dívida havia caído. Duas unidades secundárias tinham sido vendidas por processo competitivo, com avaliações independentes e divulgação dos critérios aos acionistas. O plano de reformas fora reduzido para caber em fontes de financiamento verificáveis. Os seis hotéis antes incluídos na proposta da Pórtico permaneciam sob controle da companhia.
Vicente concluiu a exposição e passou para a recomendação final.
— A empresa precisa abrir seleção externa para a presidência definitiva.
Um dos conselheiros independentes apoiou os cotovelos na mesa.
— Você está recomendando que seu próprio mandato termine?
— Ele já termina conforme a deliberação original.
— Pergunto se considera inadequada sua permanência.
— Considero inadequada uma nomeação automática. A companhia precisa comparar candidatos pelos mesmos critérios.
— Você participaria do processo?
Vicente olhou para o documento diante de si. Durante semanas, oscilara entre sair da disputa e permanecer por obrigação. A conversa com Íris não lhe entregara resposta. Impedira apenas que ele transformasse o resultado em reparação de sua imagem.
— Participaria sob os mesmos critérios dos demais candidatos. Sem garantia de escolha.
O conselho aprovou a abertura da seleção. O mandato interino terminaria na data prevista. Vicente voltaria formalmente à diretoria de operações enquanto o processo avançasse.
Após a reunião, Dalva pediu que ele permanecesse.
A sala esvaziou. Ela fechou o computador e abriu a última pasta do comitê especial.
— Esta é nossa reunião operacional final — disse.
— Você continuará nas medidas contra Sabina, Pórtico e Quórum.
— Com mandato específico e honorários aprovados pelo conselho independente. A gestão cotidiana deixa de fazer parte da minha atuação.
Vicente assentiu.
Dalva consultou uma folha.
— Qual decisão sua criou maior risco?
Ele conhecia a pergunta. Fazia parte da avaliação de encerramento. Ainda assim, pensou antes de responder.
— Ter acreditado que conhecer os hotéis me autorizava a conhecer todas as respostas.
Dalva anotou.
— Qual decisão evitou maior dano?
— Aceitar que outra pessoa podia impedir minha pressa.
Ela fechou a pasta.
— Agora envie isso ao conselho sem melhorar a frase.
— Está ruim?
— Está precisa. Você costuma estragar quando tenta parecer mais preparado.
Vicente encostou-se na cadeira.
— Isso é uma despedida afetuosa?
— É uma instrução final.
— Entendi.
Dalva guardou a folha.
— A atuação de Íris permanece fora deste encerramento. O material corporativo principal foi obtido depois da substituição, por fontes independentes. Isso já está registrado.
— Eu sei.
— Ótimo. Continue sabendo sem me pedir atualização sobre a vida dela.
Vicente levantou as mãos.
— Nunca pedi.
— Uma das suas melhores decisões.
Ela saiu com a pasta sob o braço.
Nas semanas seguintes, Vicente preparou a transição para a diretoria de operações. Devolveu autorizações temporárias, encerrou reuniões criadas para a crise e transferiu ao conselho os relatórios da seleção.
Íris continuava fora da gestão do Sampaio Vilar. Ainda teria seis meses de supervisão. Eles mantinham apartamentos separados. Algumas roupas dela permaneciam no apartamento dele, agora fora da sacola. Uma camisa de Vicente ficava numa gaveta do quarto de Íris. Nenhum dos dois recebeu chave permanente do imóvel do outro.
A relação se tornou conhecida entre amigos próximos e familiares. Não houve comunicado público. Quando um jornalista perguntou a Vicente, na saída de uma assembleia, se mantinha contato com a antiga advogada da companhia, ele respondeu que não trataria de relações pessoais. Não confirmou detalhes nem usou a empresa para protegê-los de perguntas futuras.
No último dia do mandato interino, Vicente chegou cedo à sede.
Participou de uma reunião sobre ocupação, examinou o orçamento de manutenção e aprovou apenas as despesas permitidas à diretoria que voltaria a ocupar. Às cinco e quarenta, subiu ao andar da governança.
O crachá trazia sob o nome a identificação PRESIDENTE INTERINO.
A funcionária responsável pelo controle recebeu o cartão, conferiu o número e pediu que ele assinasse a devolução.
— Seu novo crachá de diretor estará disponível amanhã — disse ela.
Vicente assinou.
— Pode deixar na recepção. Eu pego cedo.
Ela guardou o cartão num envelope transparente. A identificação permaneceu visível por alguns segundos antes de desaparecer dentro de uma gaveta.
Vicente desceu pelo elevador social. Ao atravessar o saguão, sentiu a falta física do cartão no bolso, um objeto leve que se tornara hábito ao longo de doze meses.
Íris esperava na calçada.
Usava um vestido escuro sob o casaco e segurava o telefone junto à bolsa. Quando o viu, guardou o aparelho.
— Entregou?
— Assinei recibo.
— Alguma tentativa de levar o crachá para casa?
— A governança foi firme.
Íris se aproximou e beijou seu rosto.
— Onde vamos jantar?
— Reservei uma mesa.
— Em hotel?
— Não.
— Restaurante ligado a acionista?
— Também não.
— Estou impressionada.
Vicente ofereceu o braço. Ela o segurou.
O carro deles estava estacionado do outro lado da rua. Esperaram o sinal abrir e atravessaram junto com as pessoas que saíam dos edifícios.