O HOTEL QUE SOBRA Advogada do Ano · Capítulo 4 de 21
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O HOTEL QUE SOBRA

Vicente encontrou Íris na garagem da matriz às seis e quarenta da manhã do sexto dia. Ela estava ao lado de um sedã preto, conferindo uma pasta e falando ao telefone com a equipe que preparava a distribuição da medida urgente.

— O arquivo da licença precisa de validação local — disse, encerrando a ligação. — A técnica ambiental estará no hotel às nove.

— Se sairmos agora, chegamos antes.

— O gerente-geral recebeu o roteiro?

— Recebeu.

— Lavanderia, estação de tratamento, cobertura técnica e arquivo ambiental. Nessa ordem.

Vicente abriu a porta do carro.

— Você planeja vistoria do mesmo jeito que planeja interrogatório.

— O método reduz improviso.

— Hotel não respeita método por muito tempo.

Ela guardou a pasta no banco traseiro.

— Hoje respeitará.

Saíram de São Paulo antes do trânsito fechar os acessos. Vicente dirigia. Íris revisava os documentos no tablet e fazia anotações em um bloco. Durante a primeira hora, falaram apenas do caso. O Hotel Alvarenga Atlântico ocupava um terreno entre a rodovia e o mar, tinha cento e oitenta quartos e sustentava parte decisiva da receita de verão. O relatório adulterado indicava licença ambiental vencida, risco de interdição e obras de quarenta milhões.

— A licença vale até o próximo ano — Vicente disse. — A renovação já está protocolada.

— Quero o documento original, os comprovantes de inspeção e a cadeia de criação do PDF enviado aos bancos.

— A área de estratégia gerou o arquivo.

— Isso ainda precisa ser demonstrado.

Ele olhou de relance para ela.

— Você fala “ainda” de um jeito agressivo.

— É uma palavra temporal.

— Na sua voz, vira advertência.

Íris continuou escrevendo. Um minuto depois, a boca dela se moveu num sorriso curto.

O hotel surgiu depois de uma curva, um bloco claro diante do mar cinzento. A fachada tinha varandas contínuas, jardins castigados pela maresia e um letreiro que Vicente mandara restaurar dois anos antes. Na entrada de serviço, cumprimentou o chefe de manutenção e perguntou por uma caldeira antes de apresentar Íris ao gerente-geral.

Ela abriu a pasta.

— Começaremos pelo arquivo ambiental.

— A técnica ainda está chegando — Vicente disse. — Vamos à lavanderia.

— Esse não é o roteiro.

— O custo de reforma duplicado inclui equipamentos daqui. Você precisa ver o que já foi substituído.

— Eu preciso preservar a ordem da visita.

— E eu preciso mostrar o hotel que sobra depois da planilha.

Vicente caminhou pelo corredor de serviço. Íris ficou parada por um instante, depois o seguiu.

A lavanderia ocupava um galpão quente atrás da cozinha. Máquinas industriais giravam lençóis, funcionários empurravam carrinhos e o piso vibrava sob os pés. Vicente apresentou as calandras instaladas no ano anterior, mostrou as notas de manutenção e indicou duas máquinas antigas previstas para troca.

— A Atria registra substituição integral — disse. — Quatro milhões e oitocentos mil.

— Estimativa real?

— Um milhão e trezentos, com instalação.

Íris perguntou pelo fornecedor, pelo orçamento e pela aprovação interna. O gerente trouxe uma pasta. Ela fotografou as capas, registrou os números e pediu cópias certificadas pelo canal da investigação.

Da lavanderia, Vicente levou o grupo à estação de tratamento. A técnica ambiental, recém-chegada, encontrou-os no caminho e assumiu a explicação sobre licenças, parâmetros e inspeções. Íris fazia perguntas durante o percurso, muitas delas fora da especialidade de Vicente. Ele respondia quando sabia e chamava alguém quando não sabia.

Na área de reforma interrompida, mostrou paredes abertas e estruturas protegidas por lona.

— A planilha atribui quarenta milhões ao conjunto de obras — disse. — O orçamento aprovado é de onze.

— Onde estão os vinte e nove restantes?

— Em duplicações, contingências inventadas e serviços que pertencem a outras unidades.

— “Inventadas” exige origem.

— Você pode deixar essa palavra em quarentena. Os números continuam errados.

Íris percorreu a planilha impressa e comparou códigos. Um item de impermeabilização aparecia duas vezes. A troca de telhas incluía área maior do que toda a cobertura. Um sistema de climatização previsto para outro hotel fora lançado no Atlântico.

Ela ergueu os olhos.

— Quem consolidou isso?

— Atria, com material da Quórum e da área de estratégia.

— Responsável interno?

— O relatório veio do gabinete de Sabina.

Íris anotou sem comentar.

Vicente alterou o percurso outra vez e subiu com o grupo pela escada técnica. Na cobertura, o vento trazia água do mar e a chuva começava a engrossar. A superfície perto de uma casa de máquinas estava molhada.

— Cuidado aqui — ele disse.

Íris pisou na faixa escura antes de concluir o movimento. O sapato perdeu aderência. Vicente segurou seu braço e puxou-a para perto. O contato estabilizou o corpo dela. A mão dele permaneceu um segundo além do necessário.

Íris sentiu os dedos firmes através do tecido da camisa e o calor do peito dele a poucos centímetros. Vicente olhou para a boca dela antes de voltar aos olhos. O vento empurrou uma mecha solta contra o rosto de Íris.

Ela se afastou e examinou o piso.

— A drenagem está obstruída?

Vicente soltou o braço.

— Você caiu por culpa do projeto de escoamento.

— Eu escorreguei porque o senhor mudou o percurso.

— O senhor saiu do contrato ontem.

— Não abuse da promoção.

A técnica ambiental fingiu interesse total em uma grelha. O gerente apontou para a tubulação e explicou que folhas trazidas pelo vento haviam bloqueado a saída durante a madrugada.

Vicente acompanhou Íris até a parte coberta. Gostava quando ela endurecia a linguagem. A constatação veio acompanhada de desconforto. Ela representava a companhia. Ele era diretor, fonte de informação e membro da família em conflito. A atração não mudava nenhuma dessas posições. Ainda assim, o corpo registrara a proximidade antes que a razão organizasse a lista.

No arquivo administrativo, a técnica ambiental apresentou a licença válida, os protocolos de renovação e os comprovantes de inspeção. O número coincidia com o documento enviado aos bancos. A data de validade fora alterada.

A perita conectada por vídeo orientou a coleta do PDF original. Os metadados indicavam criação em uma estação da área de estratégia na matriz. O arquivo tinha sido modificado dois dias depois de emitido pela técnica.

Íris pediu a apreensão lógica da estação, preservação dos acessos e identificação de todos os usuários daquele período.

— Isso já liga a alteração à empresa — Vicente disse.

— Liga a uma estação interna. Precisamos saber quem operou e quem recebeu.

— A Pórtico recebeu.

— Por meio de Nádia, segundo o caminho preliminar. A medida judicial precisa confirmar.

Ele encostou as mãos na mesa.

— Você sempre deixa uma porta aberta para a pior versão?

— Eu deixo espaço para o fato correto.

A chuva aumentou durante a coleta. Um alerta da concessionária informou interdição temporária do acesso à rodovia por alagamento e queda de árvore. O gerente calculou duas horas até a liberação.

Íris tentou organizar uma sala de trabalho. A internet oscilava. A equipe jurídica em São Paulo avisou que a medida urgente fora protocolada e aguardava decisão. Sem conexão estável, restava acompanhar por telefone.

Vicente levou Íris ao restaurante vazio, onde as janelas mostravam a água descendo em faixas. Pediu duas doses de café e um prato para dividir. Ela abriu o notebook.

— Você vai trabalhar até a rodovia abrir?

— Essa é a razão da mesa.

— Eu pensei que fosse o prato.

— Você pensa muito em comida durante investigação.

— Hotéis funcionam melhor quando as pessoas comem.

O café chegou. A conexão caiu no meio de uma chamada. Íris fechou o notebook com cuidado maior do que o necessário.

— O processo está protocolado — Vicente disse. — A equipe avisa quando houver decisão.

— Eu sei.

— Então você pode olhar para o mar por três minutos.

— Chuva sobre vidro não muda com observação.

— Advogados cobram para afirmar isso?

Ela olhou para ele.

— Por hora.

Vicente riu. O prato veio com peixe grelhado, arroz e legumes. Ele dividiu as porções. Íris aceitou sem discutir.

Por alguns minutos, falaram do hotel. Vicente contou que crescera entre corredores de serviço e salas de máquinas. Gilberto o levava a inspeções nas férias escolares e o obrigava a descobrir, pelo cheiro, quando uma câmara fria estava acima da temperatura.

— Isso parece seguro para uma criança — Íris disse.

— Meu pai chamava de formação.

— E você?

— Chamava de férias até entender a diferença.

Ele estudara engenharia de produção. Aos vinte e quatro anos, recusara um cargo corporativo oferecido pelo pai e escolhera uma unidade deficitária no interior. Passara sete anos alternando hotéis com problemas antes de entrar na diretoria de operações.

— Por quê? — Íris perguntou.

— Porque todo mundo no conselho falava de eficiência sem conhecer o tempo de troca de um quarto. Eu queria saber o que a palavra custava.

— E descobriu?

— Descobri que depende de quem faz a conta.

Íris levou a xícara à boca. O comentário tinha a secura que ela associava a fatos aprendidos cedo demais.

— E Sabina? — perguntou.

Vicente demorou um pouco para responder. Olhava a chuva no estacionamento.

— Ela é filha do Álvaro, irmão mais novo do meu pai. Ele morreu quando ela tinha vinte e dois anos. Meu pai trouxe Sabina para perto, pagou a formação e abriu espaço na empresa. Ela cresceu dentro do conselho. Eu cresci dentro das operações.

— Vocês disputam a interpretação da rede.

— Sabina acha que isto é um ativo familiar mal explorado. Eu acho que hotel vendido em bloco vira planilha para alguém que nunca viu a cozinha.

— Ela diria que você confunde memória afetiva com gestão.

Vicente voltou os olhos para Íris.

— Ela já disse exatamente isso.

— Era previsível.

— Você está tomando o lado dela?

— Estou descrevendo a divergência.

— Você descreve de um jeito irritante.

— Isso mantém as partes reconhecíveis.

Ele passou o polegar pela borda da xícara.

— Meu pai não quer vender. Fala pouco desde o AVC e cansa rápido, porém entende tudo. Sabina usa a procuração porque ele deu antes. Revogar exige médico, manifestação assistida e uma briga que pode acabar com o pouco de energia que ele tem.

— Ele já recebeu aconselhamento independente?

— Um advogado indicado por Sabina.

Íris apoiou os talheres.

— Providenciaremos outro, sem contato com o comitê e sem vínculo com a família. A vontade dele precisa ser registrada de forma válida.

— Você consegue fazer isso rápido?

— Consigo organizar. A capacidade física dele define o ritmo.

Vicente assentiu. Pela primeira vez desde o início da crise, a frase sobre o pai não vinha acompanhada de estratégia para usar seu voto.

Ele perguntou por que Íris escolhera direito empresarial.

Ela olhou para a tela fechada do notebook.

— Porque contratos deixam marcas identificáveis.

— Pessoas também.

— Pessoas revisam a própria versão.

— Contratos são escritos por pessoas.

Íris fechou por completo a capa do computador, embora ela já estivesse quase encostada.

— Por isso existe litígio.

Vicente observou as mãos dela sobre a mesa. Os dedos estavam sem anéis. Uma linha avermelhada ainda aparecia na palma direita, no ponto em que segurara o prêmio.

— A marca ficou — ele disse.

Íris virou a mão para baixo.

— Temporariamente.

— Você queria ganhar?

A pergunta tirou dela uma hesitação que nenhum documento conseguira produzir.

— Eu trabalhei para merecer.

— Não foi isso que perguntei.

Ela ergueu os olhos. A chuva isolava o restaurante do restante do hotel. Funcionários passavam ao fundo, ocupados com goteiras e hóspedes retidos. Vicente esperou sem aliviar a pergunta.

— Queria — Íris disse. — E queria que isso não importasse tanto.

Ele recebeu a resposta com uma inclinação leve da cabeça.

— Melhor do que fingir que o troféu caiu na sua mesa.

— Eu não finjo.

— Você revisa.

Íris soltou uma respiração curta que quase virou riso.

O celular dela vibrou. A equipe informou que o juiz deferira parcialmente a preservação dos dispositivos e autorizara coleta forense sem acesso irrestrito a dados de terceiros. Íris levantou-se no mesmo instante, retomou a ligação e começou a distribuir instruções. O intervalo pessoal terminou onde começara: diante de um fato verificável.

A chuva diminuiu quarenta minutos depois. A concessionária liberou uma faixa da rodovia. No estacionamento, Vicente abriu um guarda-chuva pequeno demais para os dois.

— Este hotel tem cento e oitenta quartos e esse é o guarda-chuva disponível? — Íris perguntou.

— É o que estava no meu carro.

— Gestão de risco insuficiente.

— Cabe todo mundo que precisa.

Caminharam juntos até o sedã. O ombro dele encostou no dela em quase todo o trajeto. Íris manteve o corpo rígido, embora a proximidade impedisse parte da chuva de atingir seu rosto. Vicente abriu a porta do passageiro. Ela entrou sem prolongar a despedida com o gerente e passou o cinto antes que ele alcançasse o outro lado.

Na volta a São Paulo, falaram apenas sobre a execução da medida. A atração permanecia entre frases técnicas, alterando o tempo dos olhares e a atenção dedicada a detalhes irrelevantes. Vicente percebeu que sabia o modo exato pelo qual Íris apertava os lábios antes de discordar. Ela notou que ele dirigia com uma mão durante trechos retos e voltava a usar as duas quando recebia informação ruim.

Perto da serra, o celular de Vicente vibrou no console. Uma mensagem de Sabina apareceu na tela.

“Podemos encerrar a crise antes do vencimento. Preciso falar com você sem o comitê. Hoje à noite.”

Ele leu e entregou o aparelho a Íris.

— Reunião reservada — disse.

Ela examinou a mensagem.

— Encaminhe pelo canal oficial.

— E respondo o quê?

— Aceite somente com gravação autorizada e testemunha.

— Ela vai desistir.

— A desistência também informa.

Vicente abriu o portal corporativo no celular, anexou a captura e escreveu a resposta conforme a instrução. Antes de enviar, olhou para Íris.

— Você confia em mim para entrar nessa reunião?

Ela sustentou o olhar.

— Confio na sua competência operacional. Para esta conversa, confio no protocolo.

Era menos do que ele desejava ouvir e mais do que recebera de qualquer pessoa desde o início da crise.

Vicente enviou a mensagem.

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