O BEIJO E O REGISTRO
A Pórtico antecipou a votação no vigésimo primeiro dia.
O comunicado chegou às oito e dez. A compradora exigia aprovação da proposta em cinco dias e informava que retiraria a oferta após o prazo. Duas horas depois, os bancos responsáveis pela dívida de curto prazo avisaram que não renovariam as linhas enquanto a disputa societária permanecesse aberta.
Vicente passou a manhã entre chamadas com diretores dos quatorze hotéis. Nenhuma unidade enfrentava risco imediato de interrupção. A concentração dos vencimentos no mês seguinte deixava a companhia vulnerável a qualquer notícia de inadimplência.
Sabina convocou uma reunião do conselho para o quinto dia do prazo.
O comitê respondeu transferindo a equipe de investigação para o Hotel Alvarenga Paulista, onde seria preparada uma medida arbitral. A convenção de acionistas autorizava tutela de urgência perante a Câmara Mercantil de São Paulo.
Íris ocupou uma sala de diretoria no mesmo hotel em que recebera o prêmio. A placa ainda estava em seu escritório, quatro quarteirões dali. No salão do evento, três andares abaixo, outra empresa montava um congresso médico.
Na sala, mesas foram cobertas por computadores, caixas de documentos e relatórios operacionais. Teodoro coordenava a redação jurídica. A equipe forense trabalhava numa área separada. Soraya revisava a declaração de conflito de interesses destinada à câmara arbitral.
Íris dividiu a tutela em três fundamentos. Havia risco concreto criado pelo prazo imposto pela Pórtico. O procedimento de aprovação fora contaminado pela ocultação de documentos e pela atuação fora do comitê. A venda dos seis hotéis produziria dano de difícil reversão, pois eles respondiam pela maior parte do lucro operacional da rede.
Ainda faltava demonstrar a distância entre o preço oferecido e o valor real dos ativos.
Vicente passou o dia fornecendo dados à consultoria contratada para a avaliação independente. Taxas de ocupação, receitas por categoria de quarto, contratos de alimentação e custos de manutenção entraram no modelo. Ele permaneceu diante dos analistas durante horas, respondendo a perguntas sobre reformas, sazonalidade e capacidade de expansão.
A conclusão preliminar chegou às vinte e duas horas.
Os seis hotéis valiam quarenta por cento acima da oferta revisada.
Vicente levou o relatório para Íris. Ela estava em pé diante de uma tela, comparando versões da petição.
— Quarenta por cento — disse ele.
Íris recebeu o documento.
— Premissas?
— Fluxo operacional auditado, imóveis e contratos ativos. Eles excluíram qualquer projeção de crescimento.
— A equipe validou os dados de entrada?
— Duas vezes.
Ela entregou o relatório a Teodoro.
— Insira no dano econômico e anexe a memória de cálculo.
Vicente aguardou que ela voltasse a olhar para ele.
— Isso suspende a venda?
— Fortalece o pedido.
— Você sempre responde um degrau abaixo da pergunta.
— Porque o degrau acima depende de outra pessoa.
Às vinte e três e dezoito, um funcionário do arquivo chegou ao hotel carregando uma caixa pequena. Ela fora encontrada no compartimento inferior de um armário usado por Gilberto. O lacre original estava rompido pelo tempo. A equipe aplicou uma fita de custódia antes do transporte.
Soraya autorizou a abertura diante da câmera.
Dentro havia correspondências antigas, cópias de procurações e uma pasta sem identificação. Na última divisória, encontraram uma carta de compromisso assinada pela Pórtico Capital e pela Quórum Consultoria.
Íris leu o título e pediu que ninguém movesse o documento até o registro fotográfico.
A carta previa o pagamento de vinte e quatro milhões de reais à Quórum após o fechamento da venda. A comissão seria paga pela compradora.
No fim da segunda página, uma cláusula manuscrita determinava que quarenta por cento do valor fosse transferido a uma sociedade identificada pelas iniciais S.A. Estratégia Patrimonial.
— Assinaturas? — perguntou Soraya.
— Representante da Pórtico e Ivo — respondeu o perito. — A anotação manuscrita tem rubrica dos dois.
Vicente se aproximou da mesa.
— S.A.
Íris já havia aberto a base societária.
— Pode ser uma denominação. Precisamos localizar a empresa.
A busca pelo nome exato apresentou um único resultado ativo. S.A. Estratégia Patrimonial Ltda. possuía sede em São Paulo e uma sócia controladora.
Sabina Alvarenga.
Ninguém falou durante os segundos seguintes. O som dos teclados continuou nas outras mesas.
Vicente leu a ficha societária sobre o ombro de Íris.
— Quarenta por cento de vinte e quatro milhões.
— Nove milhões e seiscentos mil — disse Teodoro.
Íris abriu uma nova versão da petição.
— Inclua interesse econômico oculto da vice-presidente. Anexe a carta após a conclusão da perícia documental. Precisamos pedir bloqueio de provas da sociedade.
— E afastamento de Sabina da votação? — perguntou Teodoro.
— Na tutela arbitral. Fundamente pelo conflito de interesses e pela quebra do dever de informação.
Soraya já estava ao telefone com os representantes do comitê.
Vicente permaneceu junto à mesa. Durante semanas, vira suspeitas se acumularem em torno da prima. A carta retirava a última justificativa comercial que ela poderia oferecer. Sabina receberia uma parte da comissão paga por uma compradora interessada em adquirir os ativos abaixo do valor.
— Ela conduziu o conselho até uma venda que pagaria a empresa dela — disse ele.
Íris continuou digitando.
— É o que a carta indica.
— A sociedade está no nome dela.
— Precisamos fechar a cadeia. Autoria da anotação, vigência do compromisso e comunicações de execução.
— Quanto mais você precisa?
Íris ergueu o rosto.
— O suficiente para que ela não derrube a medida amanhã.
Vicente se afastou. A resposta o irritava porque estava correta. A descoberta havia mudado o caso, ainda que não autorizasse descuido.
A equipe trabalhou durante as duas horas seguintes. O pedido judicial de bloqueio de provas foi separado da tutela arbitral. A petição à câmara exigia a suspensão da votação e o impedimento de Sabina nas deliberações sobre a venda. O pedido judicial tratava da preservação dos registros empresariais da sociedade beneficiária, da Quórum e das comunicações com a Pórtico.
À uma e quarenta e cinco, Soraya levou Teodoro e dois associados para a sala de protocolo. Os peritos saíram com a carta lacrada para concluir o laudo. O restante da equipe foi dispensado ou transferido para o andar inferior.
Vicente ficou.
Íris ainda revisava o último anexo.
A sala parecia maior sem as pessoas. Havia copos de café, cabos sobre o carpete e cadeiras afastadas das mesas. A cidade continuava acesa atrás dos vidros.
Vicente fechou a porta sem trancar.
— O documento basta?
— Basta para pedir uma suspensão. O mérito exigirá a cadeia completa.
— Você encontrou.
— A equipe encontrou.
— Você sabia onde apertar.
Íris fechou o arquivo e abriu outra vez.
— Vá para casa.
— Você também.
— Eu preciso revisar o protocolo.
— Você já revisou três vezes.
— Duas.
Vicente apontou para a tela.
— A terceira está aberta.
Ela olhou o relógio no computador.
— Você tem uma reunião com os diretores às oito.
— Você sabe minha agenda?
— Está no cronograma de contingência.
— Claro.
Vicente contornou a mesa. Íris percebeu o movimento antes que ele chegasse perto. A lembrança do elevador voltou pelo corpo, acompanhada da certeza de que qualquer aproximação teria consequência.
— Mantenha distância.
A voz saiu baixa.
Vicente parou a menos de dois metros.
— Me diga para sair.
— Saia.
Ele permaneceu por um instante. O rosto não trazia desafio. Esperava a confirmação que ela deveria dar.
Íris poderia repetir a ordem. Poderia chamar um associado, recolher o computador ou abrir a porta. Em vez disso, levantou-se.
Cruzou o espaço entre os dois.
Segurou o rosto de Vicente e o beijou.
O primeiro contato foi curto, duro e impreciso. Ela se afastou apenas o necessário para respirar. Vicente não avançou até que Íris voltasse à boca dele.
O segundo beijo desacelerou. A mão dele alcançou a cintura por cima do vestido. Íris abriu a boca contra a dele e sentiu os dedos subirem pelas costas. Havia gosto de café, cansaço e a contenção acumulada desde o elevador.
Vicente a trouxe para perto. O corpo dele carregava a firmeza de quem passara o dia em pé, entrando e saindo de áreas técnicas, ainda preso ao paletó que havia perdido a forma nos cotovelos. Íris segurou a nuca dele. O desejo que tentara transformar em registro, distância e testemunha atravessou cada uma dessas medidas.
Ele a encostou na borda da mesa.
A madeira tocou a parte posterior das pernas dela. A mão de Vicente desceu pela lateral do quadril, sobre o tecido. Íris sentiu o próprio corpo avançar e interrompeu.
Afastou a boca.
Vicente manteve as mãos visíveis na cintura dela até que Íris recuasse.
Ela pegou o telefone sobre a mesa. A tela acendeu.
2h13.
— Isso aconteceu às duas e treze.
Vicente levou alguns segundos para compreender.
— Você vai registrar?
— Vou comunicar.
— Agora?
— Agora.
— Íris, foi um beijo.
— Durante uma representação em curso.
— Eu participei.
— A obrigação profissional é minha.
A respiração dela ainda estava alterada. Íris alisou o vestido apenas na região comprimida pela mesa, recolheu o telefone corporativo e saiu pela porta lateral.
O corredor de serviço estava iluminado por lâmpadas brancas. Um carrinho de roupas limpas permanecia junto à parede. Íris ligou para Soraya.
A sócia atendeu no segundo toque.
— Houve contato físico entre mim e Vicente Alvarenga — disse Íris. — Um beijo. Às duas e treze. Duração aproximada inferior a dois minutos. Eu iniciei.
Soraya demorou um instante.
— Onde você está?
— No corredor de serviço da sala de diretoria do Hotel Alvarenga Paulista.
— Há alguém com você?
— Vicente está dentro da sala.
Ele ouvira parte da conversa e parara junto à porta.
— Você discutiu o caso com ele durante ou depois do contato?
— Não.
— Algum documento foi entregue após o início do contato?
— Não.
— Encerre o trabalho agora. Bloqueie seu acesso ao data room. Não fale com Vicente sobre a matéria. Teodoro assume a coordenação provisória.
Íris apoiou o telefone junto ao ouvido com mais força.
— A tutela está pronta. Faltam a conferência final do índice e o protocolo.
— Teodoro fará isso.
— Soraya.
— Entregue o telefone corporativo a um associado e saia do hotel.
— Entendido.
A ligação terminou.
Vicente se aproximou apenas até a porta.
— O que acontece agora?
Íris guardou o aparelho pessoal.
— Eu serei afastada até a avaliação formal.
— Isso pode esperar até a medida ser protocolada.
— Não pode.
— O trabalho já está pronto.
— Por isso Teodoro consegue assumir.
— Você está transformando o que aconteceu numa ocorrência administrativa.
— É uma ocorrência profissional.
— Para mim, não foi só isso.
A frase atingiu uma parte dela que ainda sentia a boca dele. Íris não respondeu.
Chamou um associado pelo telefone interno. Quando o rapaz chegou, entregou o aparelho corporativo e informou que Teodoro assumiria a coordenação. Pediu confirmação escrita do bloqueio dos acessos.
Vicente observou tudo do corredor.
— Você vai embora sem falar comigo?
— Soraya determinou que não discutamos a matéria.
— Eu não perguntei sobre o caso.
Íris segurou a alça da bolsa.
— Agora eu não consigo separar.
Ela caminhou até o elevador de serviço. As portas se fecharam antes que Vicente avançasse.
Às duas e vinte e nove, o acesso de Íris ao data room foi revogado.
Teodoro retornou ao hotel e concluiu o protocolo com o material produzido pela equipe. A petição continha uma declaração integral sobre a ocorrência e informava a substituição da responsável antes do envio.
Às sete da manhã, o Sampaio Vilar comunicou o conflito ao comitê especial. O documento registrava o horário, a natureza do contato, a iniciativa de Íris e as medidas adotadas por Soraya.
Vicente recebeu a comunicação no apartamento, ainda com a roupa da noite anterior. Leu duas vezes.
Às sete e quarenta, chegou a confirmação de que a tutela arbitral fora protocolada em nome da companhia sob coordenação de Teodoro.
A reunião do comitê foi marcada para o meio-dia.
Vicente abriu a lista de participantes. Além dos conselheiros, de Soraya e de Teodoro, havia um nome incluído pelos acionistas minoritários:
Dalva Nobre.