O QUARTO 814 Advogada do Ano · Capítulo 12 de 21
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O QUARTO 814

No quadragésimo sexto dia, Vicente embarcou para o Rio de Janeiro num voo das sete e quinze.

Dalva ocupava um assento na fileira dianteira. Cumprimentou-o no portão de embarque, informou que se encontrariam no banco às dez e seguiu para a fila prioritária. Durante o voo, não voltou a falar com ele.

Vicente usou o tempo para revisar os números operacionais solicitados pela instituição financeira. O conselho pretendia obter uma linha de crédito capaz de sustentar a companhia durante a suspensão da venda. Qualquer pergunta sobre a arbitragem seria respondida por Dalva.

No carro entre o aeroporto e o centro, recebeu uma mensagem de Íris.

Meu seminário ainda acha que eu existo no material impresso.

Vicente respondeu:

Isso é uma conquista institucional?

Ela demorou alguns minutos.

Minha palestra foi substituída por uma mesa técnica. Preferem evitar distrações.

Vicente leu a frase enquanto o carro parava diante do edifício do banco.

Jantamos?

Íris respondeu antes que ele entrasse.

Sim. Fora do seu hotel.

A reunião durou quatro horas. O banco enviou seis representantes. Dalva apresentou os limites da informação que poderia ser compartilhada e interrompeu duas perguntas dirigidas a Vicente.

Quando um executivo perguntou se a suspensão arbitral indicava probabilidade de fraude interna, Vicente começou a responder.

Dalva levantou a mão.

— A companhia reconhece indícios suficientes para investigação independente. Qualificações jurídicas adicionais ficam reservadas ao procedimento.

— Precisamos avaliar risco reputacional — disse o executivo.

— Receberão o relatório público e as garantias aprovadas pelo conselho. A exposição jurídica não será estimada por hipótese oral.

Vicente tomou água e ficou calado.

Ao final, o banco pediu documentos adicionais e manteve a análise aberta. Dalva recolheu a pasta e informou que permaneceria no Rio.

— Tenho uma entrevista às dezenove.

— Com quem?

— Um ex-funcionário da Pórtico.

— Posso participar?

— Não.

— Algum motivo além da sua regra geral?

— Ele aceitou falar com a equipe jurídica. Sua participação pode afetar a espontaneidade do relato.

— Você me informa se surgir alguma exigência operacional?

— Informo.

Dalva saiu com a associada. Vicente ficou no saguão, observando o movimento dos elevadores. O voo de volta estava marcado para a manhã seguinte. Pela primeira vez em semanas, ele tinha uma noite sem reunião do conselho, visita ao hospital ou chamada de emergência.

Íris enviou o endereço do hotel às dezessete e quarenta. Era um prédio antigo perto de Copacabana, sem vínculo com a família Alvarenga. Vicente reservou o quarto pelo próprio nome e chegou pouco depois das dezoito.

O quarto 814 tinha carpete gasto, uma mesa pequena junto à janela e vista parcial para o mar entre dois edifícios. O ar-condicionado produzia um estalo a cada vez que o compressor ligava. Vicente abriu o frigobar, ouviu o motor irregular e concluiu que dormiria mal.

Às vinte e uma e dez, Íris bateu à porta.

Ela carregava uma mala pequena e uma capa de tecido com o vestido do seminário. Vestia calça preta, camisa clara e sapatos de salto que pareciam exigir mais esforço do que ela admitiria.

Vicente recebeu a mala.

— Como foi?

Íris entrou e colocou a capa sobre a cama.

— Eles disseram que preferem evitar distrações.

— Você é a distração?

— A investigação é.

— Você queria falar?

Ela soltou o cabelo, preso durante o dia.

— Queria terminar o que preparei.

Vicente olhou para a capa do vestido.

— Você trouxe a palestra?

— Trouxe o vestido.

— A palestra está onde?

— No computador.

— Apresenta para mim.

Íris virou o rosto devagar.

— Você quer ouvir uma palestra de quarenta minutos sobre governança?

— Quero.

— Depois de quatro horas num banco?

— Posso avaliar resistência de público.

— Sua principal contribuição será roncar na primeira fileira.

Vicente puxou a cadeira junto à mesa e se sentou. O bloco do hotel estava ao lado do telefone. Ele escreveu a data no alto da página.

— Comece.

Íris ficou de pé diante da janela.

— Isso é absurdo.

— Você se preparou?

— Durante três semanas.

— Então use.

Ela abriu o computador, conectou o carregador e localizou os slides. O quarto não tinha tela adequada. Íris apoiou o notebook sobre a cômoda, de modo que Vicente pudesse acompanhar.

— A apresentação foi feita para um auditório — disse.

— Posso sentar no banheiro para aumentar a distância.

— Fique aí.

Ela colocou o vestido do seminário por cima da camisa e da calça apenas para verificar o caimento. Vicente observou o tecido escuro e a postura que Íris assumiu ao conferir a própria imagem no espelho.

— Vou trocar.

Entrou no banheiro e fechou a porta. Alguns minutos depois, saiu usando o vestido. O cabelo continuava solto, e ela havia retirado os brincos do dia.

Vicente indicou o espaço livre diante da janela.

— Auditório lotado.

Íris apertou uma tecla.

— Boa noite.

Ele escreveu “boa noite” no bloco.

— Pare de anotar tudo.

— Sou um participante aplicado.

— Você administra quatorze hotéis. Deve ter desenvolvido algum mecanismo para esconder tédio.

— Desenvolvi. Chama-se reunião de conselho.

Íris respirou e começou de novo.

Falou sobre dever fiduciário, conflito de interesses e preservação da confiança institucional. Nos primeiros minutos, manteve o ritmo treinado. A voz ganhou firmeza quando explicou a obrigação de administradores declararem interesses capazes de afetar decisões.

Vicente prestava atenção de verdade. Anotou uma pergunta sobre beneficiários econômicos indiretos e outra sobre a responsabilidade do conselho diante de informações incompletas.

No décimo terceiro slide, Íris parou.

A tela exibia o título “Reconhecimento precoce do risco”. Abaixo, havia um fluxograma que começava na identificação do conflito e terminava na adoção de medidas formais.

Ela olhou para o computador. Depois para Vicente.

— Perdi o fio.

— Você estava falando do momento em que o administrador percebe o risco.

— Eu sei onde estava.

— Quer água?

— Não.

Íris voltou ao slide anterior, leu duas linhas e fechou a apresentação.

— Chega.

Vicente não levantou da cadeira.

— Qual parte você alteraria agora?

Ela permaneceu junto à cômoda.

— Acrescentaria uma seção.

— Sobre o quê?

— O intervalo entre reconhecer o risco e agir.

— Quanto maior o intervalo, pior?

Íris passou os dedos pela lateral do computador.

— Depende do que a pessoa faz durante ele.

— No conselho?

— Em qualquer estrutura de confiança.

Vicente percebeu o recuo. Havia algo atrás da formulação, algo que Íris mantinha fora de alcance.

Ele olhou para o bloco e escreveu a frase dela.

Íris se aproximou.

— O que você anotou?

Vicente mostrou a página. Havia observações sobre clareza, duas perguntas de governança e a frase referente ao intervalo.

— Você usou abreviações incompreensíveis.

— Linguagem operacional.

— Isso é vingança.

— Você pode cobrar a revisão.

Íris segurou o rosto dele e o beijou antes de responder. A boca dela trazia o gosto de café. Vicente colocou as mãos em sua cintura, sentindo o tecido frio do vestido.

Ela se afastou por poucos centímetros.

— Você ouviu tudo.

— Vinte minutos.

— Eram quarenta.

— A palestrante encerrou antes.

— Falha de organização.

— Posso apresentar uma reclamação.

Íris beijou-o de novo.

Vicente encontrou o fecho do vestido.

— Posso abrir?

— Pode. Sem puxar o tecido.

— Eu sei cuidar de roupa de evento.

— Isso não está demonstrado.

Ele soltou o fecho devagar e retirou o vestido dos ombros dela. Em vez de deixá-lo sobre a cadeira, pegou um cabide no armário e pendurou a peça.

Íris observou.

— Anos de hotelaria — disse ele.

— Finalmente uma competência útil.

— Você está nua no meu quarto.

— O quarto não é seu.

— Melhor ainda. Ninguém pede relatório de ocupação.

Ela riu e sentou na beirada da cama. Havia marcas vermelhas sobre os pés, produzidas pelas tiras do salto.

Vicente se ajoelhou e retirou os sapatos.

— Doeu o dia inteiro?

— Desde o almoço.

— Por que continuou usando?

— O vestido foi ajustado com esse salto.

Ele segurou um dos pés dela e começou a massagear a região marcada. Íris apoiou as mãos atrás do corpo.

— Você aprendeu isso em qual setor?

— Eventos. Depois de casamentos, metade das pessoas pede gelo e chinelo.

— Sua experiência profissional está melhorando.

Vicente passou o polegar pelo arco do pé. Íris fechou os olhos e tocou o cabelo dele, ainda úmido do banho.

— Você cortou?

— Ontem.

— Ficou curto atrás.

— A avaliação é positiva?

— Preciso de mais dados.

Ela puxou-o para cima.

Os dois se tocaram sem pressa. A luz do teto continuou acesa a pedido de Íris. Vicente percebeu que ela acompanhava cada movimento, atenta ao rosto dele e às próprias reações. Quando perguntou se queria apagar o abajur, recebeu uma negativa imediata.

— Deixa tudo aceso.

— Certo.

Ele beijou os joelhos dela, subiu pelas coxas e esperou que Íris dissesse onde queria sua boca. Ela deu instruções curtas, sem o constrangimento das primeiras noites. Vicente seguiu cada uma.

Mais tarde, ficaram sobre os lençóis desarrumados. O ruído do frigobar atravessava o quarto em intervalos irregulares.

Íris moveu o pé.

— Você tinha razão.

— Sobre?

— O frigobar.

— Rolamento gasto.

— Você consegue diagnosticar pelo som?

— Esse modelo aparece em vários hotéis antigos. Quando o compressor para, ele vibra contra a grade traseira.

— Você nunca descansa num quarto.

— Eu descanso. Primeiro verifico o que está errado.

Íris virou de lado e apoiou a cabeça na mão.

— Eu nunca durmo bem em hotel.

— Travesseiro?

— Sons. Gente entrando no corredor. Elevador. Portas.

— Posso pedir um quarto mais distante.

— Aqui está bom.

Vicente ficou de costas, olhando o teto.

— Meu pai enviou outra declaração hoje.

Íris demorou um segundo.

— Sobre o quê?

— Revogou a procuração de Sabina.

Ela se apoiou no cotovelo.

— Isso é caso.

— É meu pai.

Íris avaliou a distinção.

— Fale da relação. Eu não comento a estratégia.

Vicente assentiu.

— Ele assinou no hospital. O conselho contesta a validade por causa da condição clínica.

Ela permaneceu quieta.

— Eu não sei se ele entendeu o documento inteiro — continuou. — Em alguns momentos, reconhece todo mundo. Em outros, mistura os hotéis e as datas. Ainda assim, quando fala de Sabina, fica claro.

— O que ele diz?

— Que entregou poder demais. Que deixou as decisões financeiras longe da operação porque confiava na família.

Íris puxou o lençol até a cintura.

— E você?

— Eu tenho medo de assumir a presidência por culpa.

— Culpa de quê?

— De não ter percebido antes. De ter deixado meu pai lidar sozinho com o conselho. De ter insistido em ficar na operação porque era o lugar em que eu sabia trabalhar.

— Você quer a presidência?

Vicente esfregou o rosto.

— Quero impedir que a empresa seja desmontada. Não sei se isso significa querer o cargo.

— São questões diferentes.

— O conselho pode me colocar lá para acalmar funcionários e bancos. Depois, qualquer corte vira decisão minha.

Íris não respondeu com solução. Ele agradeceu internamente.

— Talvez a rede precise diminuir — disse Vicente. — Quatorze unidades exigem investimento que a família adiou durante anos. Seis hotéis sustentam a maior parte do resultado. Eu posso passar a vida defendendo uma estrutura que já devia ter sido revista.

— Você saberia fechar uma unidade?

— Saber fazer e conseguir fazer são coisas diferentes.

— O que te impede?

— As pessoas. Algumas trabalham nos hotéis desde antes de eu entrar na faculdade.

Íris tocou o braço dele.

— Você pode falar sobre isso comigo.

— Sem estratégia.

— Sem estratégia.

Vicente virou o rosto.

— E você? O que queria fazer depois do prêmio?

Ela recolheu o cabelo sobre um ombro.

— Abrir uma área de integridade no escritório.

— Você já trabalha com investigação.

— A área seria separada da gestão. Equipe própria, protocolos de independência, revisão de conflitos antes de aceitar cada caso.

— Você planejou?

— Tenho um projeto de cento e vinte páginas.

— Claro que tem.

— O prêmio ampliou a ambição.

— Isso é ruim?

Íris olhou para o vestido pendurado.

— Eu fingia que a controlava.

— E a revisão?

— Pode impedir o projeto.

— Você acha justo?

— Talvez deva impedir.

— Por quê?

Ela apertou o lençol entre os dedos.

— Porque integridade exige credibilidade.

— Você comunicou o beijo.

Íris voltou os olhos para ele.

— Depois de cruzar o limite.

— Ainda assim, comunicou.

— Vicente.

O tom encerrou a linha de defesa.

Ele levantou as mãos.

— Certo.

Íris se deitou de novo, mais próxima.

— Eu não quero que você me proteja da revisão.

— Eu sei.

— Nem em conversa particular.

— Estou tentando entender.

— Algumas respostas só virão quando os fatos estiverem completos.

Vicente percebeu outra abertura para perguntar sobre o procedimento antigo. Decidiu não usar.

Perto das duas, Íris adormeceu com a cabeça sobre o ombro dele. Vicente continuou acordado, escutando o frigobar e o elevador distante.

Às seis e vinte, o telefone vibrou sobre a mesa.

Dalva.

Vicente saiu da cama com cuidado e atendeu perto da janela.

— Bom dia.

— Preciso que você venha ao escritório temporário antes do voo.

— O que aconteceu?

— O ex-funcionário da Pórtico confirmou que recebeu planilhas alteradas de Ivo Marins.

Vicente olhou para Íris, ainda deitada.

— Ele sabia do objetivo?

— Sabia que os números seriam usados para reduzir a avaliação. Também recebeu orientação para tratar Sabina como “beneficiária estratégica” em comunicações fora do data room.

— Isso está documentado?

— Há mensagens e arquivos no dispositivo dele. Miriam começa a preservação agora.

— Que horas?

— Sete e meia.

— Eu chego.

Dalva encerrou.

Íris abriu os olhos.

— Trabalho?

— Sim.

Ela se sentou, segurando o lençol junto ao corpo.

— Você precisa ir?

— Preciso depor antes do voo.

— Dalva pediu?

— Pediu.

Vicente vestiu a calça e procurou a camisa. Íris levantou e pegou a peça no encosto da cadeira.

— Está amassada.

— O banco já viu ontem.

— Isso não melhora.

Ela entregou a camisa. Vicente vestiu, fechou os botões e calçou os sapatos.

— Você volta para São Paulo hoje? — perguntou.

— No fim da tarde.

— Eu chego à noite.

Ele se aproximou da cama.

— Posso te ligar?

— Pode. Sem empresa, documentos ou estratégia.

— Eu lembro.

Vicente beijou a testa dela, pegou o paletó e saiu antes do café.

Íris permaneceu no quarto. O vestido do seminário continuava pendurado no armário, intacto. Sobre a mesa, o bloco do hotel guardava as anotações de Vicente e a frase sobre o intervalo entre reconhecer o risco e agir.

Na mesma manhã, o sistema de revisão anexou ao processo interno o registro de cópia dos quarenta e três documentos do Caso Lessa.

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