Epílogo — QUARTO ABERTO
No décimo quarto mês, a ala reformada do Hotel Alvarenga Atlântico reabriu numa sexta-feira de junho.
O projeto original fora reduzido, submetido a nova licitação e acompanhado por auditoria. As suítes receberam instalações elétricas atualizadas, portas corta-fogo certificadas e um sistema de aquecimento que Vicente considerava tecnicamente adequado, embora ainda reclamasse do tempo entre a abertura da torneira e a chegada da água quente.
Íris chegou no fim da tarde.
Pagou a própria diária no balcão, recebeu o comprovante e guardou-o na bolsa. A reserva estava em seu nome, sem tarifa corporativa. Leonor recebera a comunicação da viagem com antecedência e registrara a ausência de conflito profissional. Íris comparecia como convidada pessoal de Vicente. Não representava a companhia, não teria lugar na mesa institucional e não participaria das reuniões ligadas à obra.
A recepcionista entregou o cartão do quarto.
— A cerimônia começa às dezenove no salão do térreo.
— Obrigada.
Íris subiu sozinha.
O quarto ficava no quinto andar, de frente para o mar. A varanda estava aberta. O vento movia a cortina e trazia cheiro de sal, madeira úmida e produto de limpeza recente.
A mala pequena coube sobre o suporte junto ao armário. Íris separou o vestido, tomou banho e respondeu a uma mensagem de Leonor sobre a reunião de supervisão marcada para segunda-feira. Ainda faltavam três meses para o fim do monitoramento externo. Uma revisão contratual feita por ela havia voltado com duas observações naquela manhã. Nenhuma era grave. As duas precisavam ser corrigidas.
Às seis e cinquenta, desceu.
Vicente circulava pelo salão com um rádio preso ao cinto e uma chave de fenda escondida no bolso interno do terno. Íris identificou o formato pela deformação do tecido.
Ele falava com uma funcionária da manutenção diante de uma porta corta-fogo. Abriu, fechou e verificou o encaixe. Depois atravessou o corredor, parou sob uma luminária e pediu que ajustassem a altura em poucos centímetros.
Íris permaneceu perto do bar, fora do trajeto das autoridades e dos representantes da auditoria.
Vicente a viu. O rosto mudou antes que pudesse evitar.
Ele terminou a conversa, entregou o rádio a um gerente e se aproximou.
— Você chegou.
— Fiz check-in às cinco e vinte e seis. Paguei a diária.
— Eu não perguntei.
— Estou evitando que pergunte.
— O quarto está certo?
— Ainda não fiz inspeção técnica.
— Posso cuidar disso.
— Tenho certeza de que já cuidou.
Uma conselheira chamou Vicente perto do palco. Ele olhou na direção da voz e depois para Íris.
— Preciso ir.
— Eu sei.
— Você está linda.
Íris ajeitou a lapela do terno dele, mantendo os dedos longe do volume no bolso.
— Você trouxe ferramenta para a cerimônia.
— Precaução operacional.
— Vá antes que descubram.
Vicente seguiu para o palco.
Durante a apresentação, falou como diretor de operações. Explicou as mudanças da ala, agradeceu aos funcionários e citou a nova licitação e a auditoria. Não tratou o projeto como obra pessoal. Também não mencionou o processo de seleção para a presidência definitiva, que seguia em curso.
Íris assistiu de uma mesa lateral. Algumas pessoas a reconheceram. Um homem desviou os olhos quando ela percebeu. Uma mulher se aproximou durante o coquetel e disse apenas que admirava sua volta ao trabalho. Íris agradeceu sem transformar a frase numa oportunidade de defesa.
Vicente passou boa parte da noite entre funcionários, conselheiros e fornecedores. Quando um fotógrafo tentou colocá-los lado a lado diante do painel institucional, Íris recusou com educação e saiu do enquadramento. Vicente não a chamou de volta.
Depois das onze, os convidados começaram a deixar o salão.
Íris subiu ao bar do mezanino, pediu água e esperou junto à janela. O espaço esvaziou devagar. Funcionários recolheram taças, dobraram toalhas e levaram caixas para o elevador de serviço.
Vicente chegou perto da meia-noite. A gravata estava no bolso e o primeiro botão da camisa aberto.
Sentou-se ao lado dela.
— Você inspecionou o quarto? — perguntou Íris.
— Duas vezes.
— Então existe algum defeito.
— A água quente demora onze segundos além do previsto.
— Pretende cancelar a noite?
— Pretendo reclamar amanhã.
Ela terminou a água.
— Vamos subir.
No elevador, Vicente encostou a mão nas costas dela. Íris deixou. A porta abriu no quinto andar, e eles caminharam pelo corredor até o quarto.
A varanda continuava aberta. O som do mar entrava junto com o vento. Íris retirou os brincos e os colocou sobre a mesa. Vicente ficou atrás dela, perto o bastante para que ela sentisse o calor do corpo, sem tocá-la.
— Posso abrir o vestido?
— Pode.
Ele segurou o zíper e o moveu devagar. Os dedos acompanharam a linha da coluna. Antes que o tecido descesse por inteiro, Íris se virou e segurou seu rosto.
O beijo tinha a familiaridade construída nos últimos meses. A urgência continuava ali. Já não precisava atravessar uma proibição para ganhar força.
Vicente apoiou as mãos na cintura dela e esperou. Íris aprofundou o beijo. A barba curta raspou seu queixo. Ela abriu a camisa dele até a metade e sentiu a respiração de Vicente mudar quando suas unhas tocaram o peito.
Ele a conduziu até a cama.
Íris segurou a camisa dele.
— Para um instante.
Vicente parou.
— O que foi?
— Quero ver você.
Ele ficou diante dela.
Íris examinou o rosto que conhecera primeiro sob a luz de uma cerimônia. Depois vieram as salas de crise, os corredores dos hotéis e as noites que deixaram marcas diferentes. As linhas junto aos olhos continuavam ali. O cabelo estava um pouco maior que no reencontro do café. Havia uma pequena mancha de graxa perto do punho da camisa.
— Estou aqui — disse Vicente.
— Eu sei.
Ela abriu outro botão.
A chave de fenda caiu do bolso interno e atingiu o carpete com um ruído seco.
Íris olhou para o objeto. Vicente olhou também.
Os dois começaram a rir.
— Você trouxe isso para o quarto — disse ela.
— Esqueci no bolso.
— Existe uma bancada de manutenção em algum lugar deste hotel.
— Está fechada.
— Uma tragédia.
Vicente recolheu a ferramenta e a deixou sobre a mesa, longe da cama.
Quando voltou, Íris puxou sua camisa.
A intimidade ocupou a madrugada sem pressa de provar coisa alguma. Eles falaram quando precisaram. Mudaram de posição, interromperam um beijo para beber água e retomaram depois. Em certo momento, Vicente perguntou se ela queria que fechasse a varanda. Íris pediu que deixasse aberta.
Mais tarde, ela manteve a testa junto ao ombro dele, sentindo a pele úmida esfriar sob o vento. Vicente passou a mão pela lateral de seu corpo e aguardou.
— Fica perto — pediu Íris.
Ele deitou ao lado dela e manteve a mão sobre seu quadril.
Dormiram por algumas horas.
Ao amanhecer, o telefone de Vicente vibrou sobre a mesa. Ele abriu os olhos, alcançou o aparelho e viu o remetente.
Comitê de Seleção da Presidência.
A prévia da mensagem informava que a decisão seria anunciada na semana seguinte.
Íris acordou com o movimento.
— Algum problema?
— E-mail do comitê.
Ela olhou para a tela, sem tentar ler.
— Quer abrir?
Vicente pousou o telefone com a tela voltada para baixo.
— Agora, não.
Íris verificou o horário. Tinha uma reunião de supervisão às nove, por videoconferência, e precisaria sair cedo para chegar a São Paulo.
— Vou tomar banho.
— Antes, café.
Vicente ligou para o serviço de quarto. Pediu duas bebidas, frutas e pão. Íris vestiu a camisa dele e foi até a varanda.
O hotel começava a acordar abaixo deles. Carrinhos de limpeza atravessavam o pátio. Um caminhão entregava caixas junto à cozinha. Na nova ala, uma funcionária abria e fechava as portas, verificando cada trava.
O café chegou quinze minutos depois.
Vicente recebeu a bandeja, conferiu a comanda e levantou dois envelopes de açúcar.
— Mandaram quatro.
— Pedimos dois.
— Falha operacional.
Íris pegou um dos envelopes extras e o colocou no bolso da camisa.
— Evidência sob custódia.
Vicente beijou a testa dela e serviu o café.
Às sete e vinte, Íris fechou a mala. Guardou os brincos, conferiu o carregador e deixou a camisa de Vicente dobrada sobre a cama. Ele entrou no banheiro e abriu a torneira.
Íris parou na porta.
— O que está fazendo?
Vicente contou os segundos olhando o relógio.
— Verificação final.
— E o resultado?
A água esquentou.
— Dez segundos.
— Então a reforma está salva.
Ele fechou a torneira, pegou o paletó e verificou se a chave de fenda continuava sobre a mesa.
Saíram juntos. Íris puxou a mala pelo corredor. Vicente carregou a própria bolsa e não tentou pegar a dela.
Na recepção, entregaram os cartões do quarto. A funcionária conferiu a conta e imprimiu o recibo de Íris.
— A senhora deseja uma cópia por e-mail?
— Sim, por favor.
Vicente aguardou ao lado, sem interferir.
Do lado de fora, o carro de Íris esperava para levá-la a São Paulo. Um veículo da companhia levaria Vicente até outra unidade, onde participaria de uma reunião operacional.
Ele abriu a porta para ela.
— Me avisa quando chegar?
— Aviso depois da reunião com Leonor.
— Certo.
Íris colocou a mala no banco e voltou para beijá-lo.
— Abra o e-mail quando decidir.
— Eu vou.
— E conserte a água quente.
— Já reduziu um segundo.
Ela entrou no carro. Vicente fechou a porta e se afastou.
Os veículos deixaram o hotel em direções diferentes.