Epílogo — QUARTO ABERTO Advogada do Ano · Capítulo 21 de 21
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Epílogo — QUARTO ABERTO

No décimo quarto mês, a ala reformada do Hotel Alvarenga Atlântico reabriu numa sexta-feira de junho.

O projeto original fora reduzido, submetido a nova licitação e acompanhado por auditoria. As suítes receberam instalações elétricas atualizadas, portas corta-fogo certificadas e um sistema de aquecimento que Vicente considerava tecnicamente adequado, embora ainda reclamasse do tempo entre a abertura da torneira e a chegada da água quente.

Íris chegou no fim da tarde.

Pagou a própria diária no balcão, recebeu o comprovante e guardou-o na bolsa. A reserva estava em seu nome, sem tarifa corporativa. Leonor recebera a comunicação da viagem com antecedência e registrara a ausência de conflito profissional. Íris comparecia como convidada pessoal de Vicente. Não representava a companhia, não teria lugar na mesa institucional e não participaria das reuniões ligadas à obra.

A recepcionista entregou o cartão do quarto.

— A cerimônia começa às dezenove no salão do térreo.

— Obrigada.

Íris subiu sozinha.

O quarto ficava no quinto andar, de frente para o mar. A varanda estava aberta. O vento movia a cortina e trazia cheiro de sal, madeira úmida e produto de limpeza recente.

A mala pequena coube sobre o suporte junto ao armário. Íris separou o vestido, tomou banho e respondeu a uma mensagem de Leonor sobre a reunião de supervisão marcada para segunda-feira. Ainda faltavam três meses para o fim do monitoramento externo. Uma revisão contratual feita por ela havia voltado com duas observações naquela manhã. Nenhuma era grave. As duas precisavam ser corrigidas.

Às seis e cinquenta, desceu.

Vicente circulava pelo salão com um rádio preso ao cinto e uma chave de fenda escondida no bolso interno do terno. Íris identificou o formato pela deformação do tecido.

Ele falava com uma funcionária da manutenção diante de uma porta corta-fogo. Abriu, fechou e verificou o encaixe. Depois atravessou o corredor, parou sob uma luminária e pediu que ajustassem a altura em poucos centímetros.

Íris permaneceu perto do bar, fora do trajeto das autoridades e dos representantes da auditoria.

Vicente a viu. O rosto mudou antes que pudesse evitar.

Ele terminou a conversa, entregou o rádio a um gerente e se aproximou.

— Você chegou.

— Fiz check-in às cinco e vinte e seis. Paguei a diária.

— Eu não perguntei.

— Estou evitando que pergunte.

— O quarto está certo?

— Ainda não fiz inspeção técnica.

— Posso cuidar disso.

— Tenho certeza de que já cuidou.

Uma conselheira chamou Vicente perto do palco. Ele olhou na direção da voz e depois para Íris.

— Preciso ir.

— Eu sei.

— Você está linda.

Íris ajeitou a lapela do terno dele, mantendo os dedos longe do volume no bolso.

— Você trouxe ferramenta para a cerimônia.

— Precaução operacional.

— Vá antes que descubram.

Vicente seguiu para o palco.

Durante a apresentação, falou como diretor de operações. Explicou as mudanças da ala, agradeceu aos funcionários e citou a nova licitação e a auditoria. Não tratou o projeto como obra pessoal. Também não mencionou o processo de seleção para a presidência definitiva, que seguia em curso.

Íris assistiu de uma mesa lateral. Algumas pessoas a reconheceram. Um homem desviou os olhos quando ela percebeu. Uma mulher se aproximou durante o coquetel e disse apenas que admirava sua volta ao trabalho. Íris agradeceu sem transformar a frase numa oportunidade de defesa.

Vicente passou boa parte da noite entre funcionários, conselheiros e fornecedores. Quando um fotógrafo tentou colocá-los lado a lado diante do painel institucional, Íris recusou com educação e saiu do enquadramento. Vicente não a chamou de volta.

Depois das onze, os convidados começaram a deixar o salão.

Íris subiu ao bar do mezanino, pediu água e esperou junto à janela. O espaço esvaziou devagar. Funcionários recolheram taças, dobraram toalhas e levaram caixas para o elevador de serviço.

Vicente chegou perto da meia-noite. A gravata estava no bolso e o primeiro botão da camisa aberto.

Sentou-se ao lado dela.

— Você inspecionou o quarto? — perguntou Íris.

— Duas vezes.

— Então existe algum defeito.

— A água quente demora onze segundos além do previsto.

— Pretende cancelar a noite?

— Pretendo reclamar amanhã.

Ela terminou a água.

— Vamos subir.

No elevador, Vicente encostou a mão nas costas dela. Íris deixou. A porta abriu no quinto andar, e eles caminharam pelo corredor até o quarto.

A varanda continuava aberta. O som do mar entrava junto com o vento. Íris retirou os brincos e os colocou sobre a mesa. Vicente ficou atrás dela, perto o bastante para que ela sentisse o calor do corpo, sem tocá-la.

— Posso abrir o vestido?

— Pode.

Ele segurou o zíper e o moveu devagar. Os dedos acompanharam a linha da coluna. Antes que o tecido descesse por inteiro, Íris se virou e segurou seu rosto.

O beijo tinha a familiaridade construída nos últimos meses. A urgência continuava ali. Já não precisava atravessar uma proibição para ganhar força.

Vicente apoiou as mãos na cintura dela e esperou. Íris aprofundou o beijo. A barba curta raspou seu queixo. Ela abriu a camisa dele até a metade e sentiu a respiração de Vicente mudar quando suas unhas tocaram o peito.

Ele a conduziu até a cama.

Íris segurou a camisa dele.

— Para um instante.

Vicente parou.

— O que foi?

— Quero ver você.

Ele ficou diante dela.

Íris examinou o rosto que conhecera primeiro sob a luz de uma cerimônia. Depois vieram as salas de crise, os corredores dos hotéis e as noites que deixaram marcas diferentes. As linhas junto aos olhos continuavam ali. O cabelo estava um pouco maior que no reencontro do café. Havia uma pequena mancha de graxa perto do punho da camisa.

— Estou aqui — disse Vicente.

— Eu sei.

Ela abriu outro botão.

A chave de fenda caiu do bolso interno e atingiu o carpete com um ruído seco.

Íris olhou para o objeto. Vicente olhou também.

Os dois começaram a rir.

— Você trouxe isso para o quarto — disse ela.

— Esqueci no bolso.

— Existe uma bancada de manutenção em algum lugar deste hotel.

— Está fechada.

— Uma tragédia.

Vicente recolheu a ferramenta e a deixou sobre a mesa, longe da cama.

Quando voltou, Íris puxou sua camisa.

A intimidade ocupou a madrugada sem pressa de provar coisa alguma. Eles falaram quando precisaram. Mudaram de posição, interromperam um beijo para beber água e retomaram depois. Em certo momento, Vicente perguntou se ela queria que fechasse a varanda. Íris pediu que deixasse aberta.

Mais tarde, ela manteve a testa junto ao ombro dele, sentindo a pele úmida esfriar sob o vento. Vicente passou a mão pela lateral de seu corpo e aguardou.

— Fica perto — pediu Íris.

Ele deitou ao lado dela e manteve a mão sobre seu quadril.

Dormiram por algumas horas.

Ao amanhecer, o telefone de Vicente vibrou sobre a mesa. Ele abriu os olhos, alcançou o aparelho e viu o remetente.

Comitê de Seleção da Presidência.

A prévia da mensagem informava que a decisão seria anunciada na semana seguinte.

Íris acordou com o movimento.

— Algum problema?

— E-mail do comitê.

Ela olhou para a tela, sem tentar ler.

— Quer abrir?

Vicente pousou o telefone com a tela voltada para baixo.

— Agora, não.

Íris verificou o horário. Tinha uma reunião de supervisão às nove, por videoconferência, e precisaria sair cedo para chegar a São Paulo.

— Vou tomar banho.

— Antes, café.

Vicente ligou para o serviço de quarto. Pediu duas bebidas, frutas e pão. Íris vestiu a camisa dele e foi até a varanda.

O hotel começava a acordar abaixo deles. Carrinhos de limpeza atravessavam o pátio. Um caminhão entregava caixas junto à cozinha. Na nova ala, uma funcionária abria e fechava as portas, verificando cada trava.

O café chegou quinze minutos depois.

Vicente recebeu a bandeja, conferiu a comanda e levantou dois envelopes de açúcar.

— Mandaram quatro.

— Pedimos dois.

— Falha operacional.

Íris pegou um dos envelopes extras e o colocou no bolso da camisa.

— Evidência sob custódia.

Vicente beijou a testa dela e serviu o café.

Às sete e vinte, Íris fechou a mala. Guardou os brincos, conferiu o carregador e deixou a camisa de Vicente dobrada sobre a cama. Ele entrou no banheiro e abriu a torneira.

Íris parou na porta.

— O que está fazendo?

Vicente contou os segundos olhando o relógio.

— Verificação final.

— E o resultado?

A água esquentou.

— Dez segundos.

— Então a reforma está salva.

Ele fechou a torneira, pegou o paletó e verificou se a chave de fenda continuava sobre a mesa.

Saíram juntos. Íris puxou a mala pelo corredor. Vicente carregou a própria bolsa e não tentou pegar a dela.

Na recepção, entregaram os cartões do quarto. A funcionária conferiu a conta e imprimiu o recibo de Íris.

— A senhora deseja uma cópia por e-mail?

— Sim, por favor.

Vicente aguardou ao lado, sem interferir.

Do lado de fora, o carro de Íris esperava para levá-la a São Paulo. Um veículo da companhia levaria Vicente até outra unidade, onde participaria de uma reunião operacional.

Ele abriu a porta para ela.

— Me avisa quando chegar?

— Aviso depois da reunião com Leonor.

— Certo.

Íris colocou a mala no banco e voltou para beijá-lo.

— Abra o e-mail quando decidir.

— Eu vou.

— E conserte a água quente.

— Já reduziu um segundo.

Ela entrou no carro. Vicente fechou a porta e se afastou.

Os veículos deixaram o hotel em direções diferentes.

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