A SOLUÇÃO DE SABINA Advogada do Ano · Capítulo 5 de 21
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A SOLUÇÃO DE SABINA

No oitavo dia, Sabina marcou a reunião para as nove e colocou a proposta da Pórtico Capital no centro da mesa antes que os convidados terminassem de se acomodar.

O escritório da vice-presidente ocupava um dos cantos mais altos da matriz. A Avenida Paulista se estendia atrás dela, recortada pelas faixas escuras da persiana. Os vidros isolavam buzinas, ônibus e obras. Dentro da sala, o ar-condicionado mantinha a temperatura baixa demais para o vestido sem mangas de Íris.

Vicente sentou à esquerda, ao lado de um conselheiro independente que trouxera um caderno de capa preta. Íris ficou diante de Sabina. A posição permitia observar a porta, a tela da sala e as mãos de todos sobre a mesa.

Sabina empurrou uma pasta fina em sua direção.

— A Pórtico reviu os termos.

Íris abriu o documento. A primeira página anunciava o aumento do preço em oito por cento. A compradora também assumiria parte da dívida vinculada aos seis hotéis e se comprometia a manter os empregados durante doze meses.

A versão anterior não continha nenhuma das duas condições.

— Quando isso foi negociado? — perguntou Íris.

— Recebemos a revisão ontem à noite.

— Quem conduziu a conversa?

Sabina apoiou os antebraços na mesa.

— Ivo manteve o canal aberto.

Vicente ergueu o rosto.

— Ele estava proibido de negociar em nome da companhia.

— Estava proibido de formalizar compromissos — disse Sabina. — Conversas exploratórias continuam sendo conversas.

Íris procurou no rodapé o número de controle da proposta. Havia uma sequência nova, sem correspondência no repositório entregue ao comitê.

— O protocolo de crise suspendeu contato direto com interessados fora do comitê especial.

— A empresa precisava de movimento.

— A empresa precisa saber quem promete ativos em nome dela.

O conselheiro independente fechou a caneta. O clique foi pequeno, suficiente para interromper o ruído contínuo do ar-condicionado.

Sabina manteve a voz baixa.

— Podemos formalizar retroativamente. O comitê ratifica o contato de Ivo e recebe a proposta revisada. Evitamos uma discussão improdutiva sobre procedimento.

— A ratificação exige acesso integral ao que foi negociado.

— Você terá.

— Contratos originais, cartas de intenção, anexos de preço e comprovantes de origem dos recursos.

— Posso colocar você em contato direto com os executivos da Pórtico.

— Primeiro, os documentos.

Sabina levantou uma mão para uma funcionária que aguardava perto da porta. A mulher deixou um tablet sobre a mesa. Íris conectou o aparelho ao computador isolado que levara para a reunião. O pacote possuía vinte e sete arquivos.

— Tudo o que recebemos está aí — disse Sabina.

Íris conferiu a lista antes de abrir o primeiro documento. Havia assinaturas eletrônicas válidas, carimbos de tempo e certificados emitidos em nome de representantes reconhecidos da Pórtico. O encadeamento visual parecia limpo. Ela passou à aba de propriedades.

Uma carta datada de seis semanas antes fora criada três dias depois da data impressa. Um anexo supostamente assinado numa terça-feira havia sido exportado no domingo seguinte. Duas páginas possuíam versões anteriores vinculadas a um usuário identificado apenas pelas iniciais IM.

Íris tomou nota sem comentar.

Vicente acompanhava o movimento do cursor.

— Encontrou alguma coisa?

— Diferenças de data.

Sabina inclinou a cabeça.

— Documentos são atualizados.

— A atualização precisa ser identificada quando muda a versão apresentada ao conselho.

Íris abriu a minuta principal e pesquisou termos de remuneração. A expressão apareceu na página quarenta e dois: “remuneração de êxito vinculada ao fechamento, conforme instrumento apartado”.

O instrumento não constava no pacote.

— Onde está o anexo citado aqui?

Sabina olhou a tela.

— Deve ser a comissão de um intermediário.

— Qual intermediário?

— A negociação passou por mais de um canal.

— Nome e contrato.

— Posso providenciar.

— Hoje.

Vicente puxou a cópia impressa da proposta.

— A companhia pagaria essa comissão?

Sabina respondeu após reler o trecho.

— O texto não especifica a fonte do pagamento.

— Também não especifica o beneficiário — disse Íris.

— Por isso existe um instrumento separado.

— E por isso ele precisa estar no pacote.

Sabina fechou a pasta que permanecera diante dela.

— Temos uma crise de liquidez. Dois bancos já perguntaram se o conselho consegue tomar uma decisão sem transformar cada documento em perícia criminal.

— A perícia começou porque os dados financeiros entregues ao mercado foram alterados.

— Os bancos não renovam dívida com base em indignação.

— Renovam quando confiam nos números apresentados.

— Posso convencer dois conselheiros a adiar a votação por quarenta e oito horas — disse Sabina. — Em troca, o escritório limita a investigação ao material vazado. Arquivos internos, comunicações externas e distribuição à imprensa. O restante segue para avaliação comercial.

Íris releu a frase em sua cabeça antes de responder. Sabina havia vinculado um dever de governança ao alcance de uma apuração contratada pelo próprio comitê.

— A senhora está condicionando o adiamento da votação à restrição da investigação?

— Estou oferecendo uma solução viável.

— Vou registrar os termos da oferta.

Pela primeira vez, Sabina desviou os olhos para o conselheiro independente.

— Registre também que a companhia pode perder uma proposta melhor enquanto seus advogados discutem metadados.

— Será registrado.

Íris desconectou o tablet.

A reunião terminou quatro minutos depois. No corredor, Vicente esperou que o conselheiro entrasse no elevador.

— Ela tentou comprar dois dias.

— Tentou definir o que poderíamos examinar em troca deles.

— Você vai colocar isso na ata?

— Com as palavras exatas.

— Sabina vai dizer que você interpretou errado.

Íris parou diante da porta da sala reservada ao comitê.

— Por isso havia quatro pessoas na reunião.

Vicente segurou a porta para ela.

— Você pensa assim até quando alguém oferece café?

— Pergunto quem paga.

Ele soltou uma risada curta. Íris entrou antes de permitir que a reação mudasse o ritmo do dia.

A notificação para Sabina saiu às onze e vinte. O documento exigia o contrato de êxito, as versões anteriores da proposta e a relação nominal de todos os intermediários. Íris anexou a decisão que instaurara o comitê e destacou a proibição de contatos fora do protocolo.

Às quinze horas, nenhuma resposta havia chegado.

Às dezoito e quarenta, Soraya entrou na sala de conferências acompanhada de Vicente e de um funcionário do arquivo. O homem empurrava um carrinho com uma caixa de papelão lacrada por duas fitas de segurança.

— Material guardado por Gilberto — explicou Soraya. — Vicente localizou a caixa num armário particular da antiga diretoria. A entrega foi autorizada pelo comitê. Vamos abrir com registro de vídeo.

Íris consultou o formulário de custódia. A caixa recebera um número de controle no momento da retirada. Vicente assinara como responsável pela localização, sem tocar nos documentos internos.

— Quem tinha acesso ao armário? — perguntou ela.

— Meu pai, a secretária dele e o responsável pelo arquivo — respondeu Vicente. — A chave ficou com a secretária depois da internação.

Soraya posicionou a câmera. O funcionário rompeu os lacres e retirou quatro pastas. Havia atas antigas, estudos de expansão, relatórios de ocupação e uma versão preliminar do contrato de venda dos seis hotéis.

Íris comparou a minuta ao documento apresentado por Sabina. O preço era superior. A diferença ultrapassava o aumento de oito por cento anunciado naquela manhã. A versão preliminar também excluía qualquer referência a remuneração de êxito.

— Data? — perguntou Vicente.

— Quatro meses atrás.

— Antes de anunciarem a crise.

— Antes da primeira redução formal do preço.

Soraya aproximou uma cadeira.

— Digitalizem tudo em estação isolada. Dois operadores, conferência cruzada. Os originais voltam para a caixa quando terminarmos.

A equipe trabalhou até depois das dez. Um associado levou as imagens para o ambiente forense. Soraya acompanhou o fechamento da custódia e saiu com o funcionário do arquivo.

Íris permaneceu na sala. Tirou os sapatos sob a mesa e flexionou o pé direito. O tornozelo ainda doía desde a vistoria no hotel do litoral. Durante o dia, o inchaço recuara. Horas de salto devolveram a pele avermelhada e a rigidez ao movimento.

Ela abriu outra planilha.

Vicente reapareceu com uma bolsa de gelo envolta num pano de cozinha do andar executivo. Colocou-a perto do computador.

— Isso é instrução operacional? — perguntou Íris.

— É conhecimento básico sobre articulações.

— O protocolo não cobre tornozelos.

— Seu protocolo tem falhas.

Ele afastou uma cadeira e se agachou.

Íris manteve as mãos no teclado. A posição colocava o rosto dele à altura dos joelhos dela. Vicente observou o tornozelo sem avançar.

— Posso?

A pergunta retirou dela o impulso de recusar por reflexo.

— Pode ajustar a bolsa.

Vicente segurou o calcanhar com uma mão e apoiou o gelo sobre a área inchada. Os dedos ficaram restritos à parte autorizada. A pele dele estava quente. Íris percebeu a aspereza na base do indicador, uma marca antiga que não combinava com a imagem organizada dos diretores que passavam o dia entre apresentações e reuniões.

— Você se machucou na cozinha do Atlântico? — perguntou.

— Corte de manutenção. Eu tinha vinte e quatro anos e achava que luva era um item facultativo.

— Continua entrando em áreas de manutenção sem equipamento adequado.

— Hoje eu uso sapato fechado.

— Uma evolução modesta.

Ele sorriu sem olhar para cima.

A pressão da mão dele permanecia firme. O contato tinha uma justificativa simples, o que deixava mais difícil ignorar a alteração na respiração dela. Íris retirou o pé devagar.

— Já melhorou.

Vicente soltou o calcanhar.

Ela calçou o sapato e voltou à planilha. O movimento exigiu mais força do que deveria.

— Você sempre mora tão perto do escritório? — perguntou ele.

— Desde que virei sócia. Quatro quarteirões. Em horário ruim, seis minutos a pé.

— Você escolheu um apartamento para eliminar atrasos.

— Reduzir.

— Um apartamento inteiro.

— Você organizou a sua vida dentro de hotéis.

Vicente apoiou os braços nos joelhos antes de se levantar.

— Hotel fecha quarto. Escritório nunca fecha arquivo.

Íris alinhou a borda do documento com o canto do computador.

— Ainda tenho trabalho.

A mudança encerrou a conversa. Vicente reconheceu o limite e se afastou.

— Coloque o gelo de novo quando chegar em casa.

— Vou considerar.

— Em linguagem comum, isso significa que você não vai.

— Significa que a recomendação será avaliada.

Ele recolheu o pano, deixou a bolsa diante dela e saiu.

Íris permaneceu por mais meia hora. Quando fechou o computador, o andar estava vazio. Levou a bolsa de gelo, embora a água já tivesse começado a se acumular dentro do plástico.

O apartamento recebia pouco som da rua. A escolha fizera sentido quando ela o comprara. Paredes claras, móveis de linhas retas, uma cozinha que quase nunca retinha cheiro de comida. Íris deixou a bolsa de gelo na pia e encontrou uma mensagem do pai.

Ele havia enviado uma fotografia da televisão durante a transmissão do prêmio. A imagem mostrava Íris no palco, a placa nas mãos, o nome projetado atrás dela. No canto inferior, aparecia a data. A mensagem seguinte perguntava quando ela conseguiria visitá-lo.

Íris abriu a agenda. Havia três fins de semana marcados por compromissos que poderiam ser remanejados. Fazia três meses desde a última visita.

Escreveu que tentaria ir no domingo. Apagou. Escreveu que estava num caso urgente. Apagou também.

Ligou.

O pai atendeu no quarto toque.

— Pensei que você estivesse trabalhando.

— Estou em casa.

— Então o prêmio serviu para alguma coisa.

— Qual coisa?

— Fazer você lembrar que tem telefone.

Íris sentou à mesa de jantar.

— O senhor assistiu inteiro?

— Assisti duas vezes. Na segunda, consegui gravar.

— A transmissão está disponível na internet.

— Minha gravação tem você desde a entrevista.

Ao fundo, ouviu o barulho de uma gaveta.

— O que o senhor está procurando?

— Os recortes.

— Que recortes?

Ele respondeu com naturalidade. Guardara notícias dos casos públicos dela desde o início da carreira. Alguns vieram de jornais impressos. Outros tinham sido impressos na papelaria do bairro. O conjunto ocupava duas pastas.

— O senhor nunca me contou.

— Você nunca perguntou.

A conversa durou vinte e três minutos. Combinaram uma visita sem fechar o dia. Quando desligou, Íris permaneceu diante do telefone. A fotografia do prêmio continuava aberta na tela. O enquadramento mostrava o sorriso treinado, a iluminação do hotel e a placa que ela deixara numa estante do escritório.

Voltou ao computador para conferir a proposta da Pórtico.

Ampliou a página em que surgia a referência ao instrumento apartado. O sistema de extração preservara um identificador associado a um objeto excluído. Íris copiou o código e comparou com os arquivos entregues por Sabina.

O prefixo não pertencia à Pórtico.

Ela abriu o registro de propriedades da minuta preliminar encontrada na caixa de Gilberto. Um dos comentários removidos carregava a mesma sequência. Ao lado do código, o programa registrava o nome completo do produtor do documento: Quórum Consultoria Estratégica.

Íris acessou a base societária disponível ao escritório.

A Quórum possuía capital reduzido, sede num conjunto comercial e um único controlador registrado.

Ivo Marins.

Ela telefonou para Soraya.

— Encontrei a origem do anexo ausente.

— Documento?

— Identificador preservado numa página excluída. O arquivo foi produzido pela Quórum.

— Ivo é o controlador.

— Sim.

— Prepare a notificação. Inclua preservação de versões e dispositivos.

Íris começou a redigir antes que a ligação terminasse.

À uma e dez da manhã, o escritório notificou Ivo para apresentar o contrato de êxito, seus anexos e todas as comunicações relacionadas à Pórtico. A carta também informava que ele estava impedido de iniciar ou continuar qualquer negociação em nome da Alvarenga Hotéis.

Íris enviou uma cópia ao comitê, registrou a hora e fechou o computador.

A bolsa de gelo permanecia na pia. Ela a colocou sobre o tornozelo enquanto aguardava a confirmação eletrônica do recebimento.

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