A SOLUÇÃO DE SABINA
No oitavo dia, Sabina marcou a reunião para as nove e colocou a proposta da Pórtico Capital no centro da mesa antes que os convidados terminassem de se acomodar.
O escritório da vice-presidente ocupava um dos cantos mais altos da matriz. A Avenida Paulista se estendia atrás dela, recortada pelas faixas escuras da persiana. Os vidros isolavam buzinas, ônibus e obras. Dentro da sala, o ar-condicionado mantinha a temperatura baixa demais para o vestido sem mangas de Íris.
Vicente sentou à esquerda, ao lado de um conselheiro independente que trouxera um caderno de capa preta. Íris ficou diante de Sabina. A posição permitia observar a porta, a tela da sala e as mãos de todos sobre a mesa.
Sabina empurrou uma pasta fina em sua direção.
— A Pórtico reviu os termos.
Íris abriu o documento. A primeira página anunciava o aumento do preço em oito por cento. A compradora também assumiria parte da dívida vinculada aos seis hotéis e se comprometia a manter os empregados durante doze meses.
A versão anterior não continha nenhuma das duas condições.
— Quando isso foi negociado? — perguntou Íris.
— Recebemos a revisão ontem à noite.
— Quem conduziu a conversa?
Sabina apoiou os antebraços na mesa.
— Ivo manteve o canal aberto.
Vicente ergueu o rosto.
— Ele estava proibido de negociar em nome da companhia.
— Estava proibido de formalizar compromissos — disse Sabina. — Conversas exploratórias continuam sendo conversas.
Íris procurou no rodapé o número de controle da proposta. Havia uma sequência nova, sem correspondência no repositório entregue ao comitê.
— O protocolo de crise suspendeu contato direto com interessados fora do comitê especial.
— A empresa precisava de movimento.
— A empresa precisa saber quem promete ativos em nome dela.
O conselheiro independente fechou a caneta. O clique foi pequeno, suficiente para interromper o ruído contínuo do ar-condicionado.
Sabina manteve a voz baixa.
— Podemos formalizar retroativamente. O comitê ratifica o contato de Ivo e recebe a proposta revisada. Evitamos uma discussão improdutiva sobre procedimento.
— A ratificação exige acesso integral ao que foi negociado.
— Você terá.
— Contratos originais, cartas de intenção, anexos de preço e comprovantes de origem dos recursos.
— Posso colocar você em contato direto com os executivos da Pórtico.
— Primeiro, os documentos.
Sabina levantou uma mão para uma funcionária que aguardava perto da porta. A mulher deixou um tablet sobre a mesa. Íris conectou o aparelho ao computador isolado que levara para a reunião. O pacote possuía vinte e sete arquivos.
— Tudo o que recebemos está aí — disse Sabina.
Íris conferiu a lista antes de abrir o primeiro documento. Havia assinaturas eletrônicas válidas, carimbos de tempo e certificados emitidos em nome de representantes reconhecidos da Pórtico. O encadeamento visual parecia limpo. Ela passou à aba de propriedades.
Uma carta datada de seis semanas antes fora criada três dias depois da data impressa. Um anexo supostamente assinado numa terça-feira havia sido exportado no domingo seguinte. Duas páginas possuíam versões anteriores vinculadas a um usuário identificado apenas pelas iniciais IM.
Íris tomou nota sem comentar.
Vicente acompanhava o movimento do cursor.
— Encontrou alguma coisa?
— Diferenças de data.
Sabina inclinou a cabeça.
— Documentos são atualizados.
— A atualização precisa ser identificada quando muda a versão apresentada ao conselho.
Íris abriu a minuta principal e pesquisou termos de remuneração. A expressão apareceu na página quarenta e dois: “remuneração de êxito vinculada ao fechamento, conforme instrumento apartado”.
O instrumento não constava no pacote.
— Onde está o anexo citado aqui?
Sabina olhou a tela.
— Deve ser a comissão de um intermediário.
— Qual intermediário?
— A negociação passou por mais de um canal.
— Nome e contrato.
— Posso providenciar.
— Hoje.
Vicente puxou a cópia impressa da proposta.
— A companhia pagaria essa comissão?
Sabina respondeu após reler o trecho.
— O texto não especifica a fonte do pagamento.
— Também não especifica o beneficiário — disse Íris.
— Por isso existe um instrumento separado.
— E por isso ele precisa estar no pacote.
Sabina fechou a pasta que permanecera diante dela.
— Temos uma crise de liquidez. Dois bancos já perguntaram se o conselho consegue tomar uma decisão sem transformar cada documento em perícia criminal.
— A perícia começou porque os dados financeiros entregues ao mercado foram alterados.
— Os bancos não renovam dívida com base em indignação.
— Renovam quando confiam nos números apresentados.
— Posso convencer dois conselheiros a adiar a votação por quarenta e oito horas — disse Sabina. — Em troca, o escritório limita a investigação ao material vazado. Arquivos internos, comunicações externas e distribuição à imprensa. O restante segue para avaliação comercial.
Íris releu a frase em sua cabeça antes de responder. Sabina havia vinculado um dever de governança ao alcance de uma apuração contratada pelo próprio comitê.
— A senhora está condicionando o adiamento da votação à restrição da investigação?
— Estou oferecendo uma solução viável.
— Vou registrar os termos da oferta.
Pela primeira vez, Sabina desviou os olhos para o conselheiro independente.
— Registre também que a companhia pode perder uma proposta melhor enquanto seus advogados discutem metadados.
— Será registrado.
Íris desconectou o tablet.
A reunião terminou quatro minutos depois. No corredor, Vicente esperou que o conselheiro entrasse no elevador.
— Ela tentou comprar dois dias.
— Tentou definir o que poderíamos examinar em troca deles.
— Você vai colocar isso na ata?
— Com as palavras exatas.
— Sabina vai dizer que você interpretou errado.
Íris parou diante da porta da sala reservada ao comitê.
— Por isso havia quatro pessoas na reunião.
Vicente segurou a porta para ela.
— Você pensa assim até quando alguém oferece café?
— Pergunto quem paga.
Ele soltou uma risada curta. Íris entrou antes de permitir que a reação mudasse o ritmo do dia.
A notificação para Sabina saiu às onze e vinte. O documento exigia o contrato de êxito, as versões anteriores da proposta e a relação nominal de todos os intermediários. Íris anexou a decisão que instaurara o comitê e destacou a proibição de contatos fora do protocolo.
Às quinze horas, nenhuma resposta havia chegado.
Às dezoito e quarenta, Soraya entrou na sala de conferências acompanhada de Vicente e de um funcionário do arquivo. O homem empurrava um carrinho com uma caixa de papelão lacrada por duas fitas de segurança.
— Material guardado por Gilberto — explicou Soraya. — Vicente localizou a caixa num armário particular da antiga diretoria. A entrega foi autorizada pelo comitê. Vamos abrir com registro de vídeo.
Íris consultou o formulário de custódia. A caixa recebera um número de controle no momento da retirada. Vicente assinara como responsável pela localização, sem tocar nos documentos internos.
— Quem tinha acesso ao armário? — perguntou ela.
— Meu pai, a secretária dele e o responsável pelo arquivo — respondeu Vicente. — A chave ficou com a secretária depois da internação.
Soraya posicionou a câmera. O funcionário rompeu os lacres e retirou quatro pastas. Havia atas antigas, estudos de expansão, relatórios de ocupação e uma versão preliminar do contrato de venda dos seis hotéis.
Íris comparou a minuta ao documento apresentado por Sabina. O preço era superior. A diferença ultrapassava o aumento de oito por cento anunciado naquela manhã. A versão preliminar também excluía qualquer referência a remuneração de êxito.
— Data? — perguntou Vicente.
— Quatro meses atrás.
— Antes de anunciarem a crise.
— Antes da primeira redução formal do preço.
Soraya aproximou uma cadeira.
— Digitalizem tudo em estação isolada. Dois operadores, conferência cruzada. Os originais voltam para a caixa quando terminarmos.
A equipe trabalhou até depois das dez. Um associado levou as imagens para o ambiente forense. Soraya acompanhou o fechamento da custódia e saiu com o funcionário do arquivo.
Íris permaneceu na sala. Tirou os sapatos sob a mesa e flexionou o pé direito. O tornozelo ainda doía desde a vistoria no hotel do litoral. Durante o dia, o inchaço recuara. Horas de salto devolveram a pele avermelhada e a rigidez ao movimento.
Ela abriu outra planilha.
Vicente reapareceu com uma bolsa de gelo envolta num pano de cozinha do andar executivo. Colocou-a perto do computador.
— Isso é instrução operacional? — perguntou Íris.
— É conhecimento básico sobre articulações.
— O protocolo não cobre tornozelos.
— Seu protocolo tem falhas.
Ele afastou uma cadeira e se agachou.
Íris manteve as mãos no teclado. A posição colocava o rosto dele à altura dos joelhos dela. Vicente observou o tornozelo sem avançar.
— Posso?
A pergunta retirou dela o impulso de recusar por reflexo.
— Pode ajustar a bolsa.
Vicente segurou o calcanhar com uma mão e apoiou o gelo sobre a área inchada. Os dedos ficaram restritos à parte autorizada. A pele dele estava quente. Íris percebeu a aspereza na base do indicador, uma marca antiga que não combinava com a imagem organizada dos diretores que passavam o dia entre apresentações e reuniões.
— Você se machucou na cozinha do Atlântico? — perguntou.
— Corte de manutenção. Eu tinha vinte e quatro anos e achava que luva era um item facultativo.
— Continua entrando em áreas de manutenção sem equipamento adequado.
— Hoje eu uso sapato fechado.
— Uma evolução modesta.
Ele sorriu sem olhar para cima.
A pressão da mão dele permanecia firme. O contato tinha uma justificativa simples, o que deixava mais difícil ignorar a alteração na respiração dela. Íris retirou o pé devagar.
— Já melhorou.
Vicente soltou o calcanhar.
Ela calçou o sapato e voltou à planilha. O movimento exigiu mais força do que deveria.
— Você sempre mora tão perto do escritório? — perguntou ele.
— Desde que virei sócia. Quatro quarteirões. Em horário ruim, seis minutos a pé.
— Você escolheu um apartamento para eliminar atrasos.
— Reduzir.
— Um apartamento inteiro.
— Você organizou a sua vida dentro de hotéis.
Vicente apoiou os braços nos joelhos antes de se levantar.
— Hotel fecha quarto. Escritório nunca fecha arquivo.
Íris alinhou a borda do documento com o canto do computador.
— Ainda tenho trabalho.
A mudança encerrou a conversa. Vicente reconheceu o limite e se afastou.
— Coloque o gelo de novo quando chegar em casa.
— Vou considerar.
— Em linguagem comum, isso significa que você não vai.
— Significa que a recomendação será avaliada.
Ele recolheu o pano, deixou a bolsa diante dela e saiu.
Íris permaneceu por mais meia hora. Quando fechou o computador, o andar estava vazio. Levou a bolsa de gelo, embora a água já tivesse começado a se acumular dentro do plástico.
O apartamento recebia pouco som da rua. A escolha fizera sentido quando ela o comprara. Paredes claras, móveis de linhas retas, uma cozinha que quase nunca retinha cheiro de comida. Íris deixou a bolsa de gelo na pia e encontrou uma mensagem do pai.
Ele havia enviado uma fotografia da televisão durante a transmissão do prêmio. A imagem mostrava Íris no palco, a placa nas mãos, o nome projetado atrás dela. No canto inferior, aparecia a data. A mensagem seguinte perguntava quando ela conseguiria visitá-lo.
Íris abriu a agenda. Havia três fins de semana marcados por compromissos que poderiam ser remanejados. Fazia três meses desde a última visita.
Escreveu que tentaria ir no domingo. Apagou. Escreveu que estava num caso urgente. Apagou também.
Ligou.
O pai atendeu no quarto toque.
— Pensei que você estivesse trabalhando.
— Estou em casa.
— Então o prêmio serviu para alguma coisa.
— Qual coisa?
— Fazer você lembrar que tem telefone.
Íris sentou à mesa de jantar.
— O senhor assistiu inteiro?
— Assisti duas vezes. Na segunda, consegui gravar.
— A transmissão está disponível na internet.
— Minha gravação tem você desde a entrevista.
Ao fundo, ouviu o barulho de uma gaveta.
— O que o senhor está procurando?
— Os recortes.
— Que recortes?
Ele respondeu com naturalidade. Guardara notícias dos casos públicos dela desde o início da carreira. Alguns vieram de jornais impressos. Outros tinham sido impressos na papelaria do bairro. O conjunto ocupava duas pastas.
— O senhor nunca me contou.
— Você nunca perguntou.
A conversa durou vinte e três minutos. Combinaram uma visita sem fechar o dia. Quando desligou, Íris permaneceu diante do telefone. A fotografia do prêmio continuava aberta na tela. O enquadramento mostrava o sorriso treinado, a iluminação do hotel e a placa que ela deixara numa estante do escritório.
Voltou ao computador para conferir a proposta da Pórtico.
Ampliou a página em que surgia a referência ao instrumento apartado. O sistema de extração preservara um identificador associado a um objeto excluído. Íris copiou o código e comparou com os arquivos entregues por Sabina.
O prefixo não pertencia à Pórtico.
Ela abriu o registro de propriedades da minuta preliminar encontrada na caixa de Gilberto. Um dos comentários removidos carregava a mesma sequência. Ao lado do código, o programa registrava o nome completo do produtor do documento: Quórum Consultoria Estratégica.
Íris acessou a base societária disponível ao escritório.
A Quórum possuía capital reduzido, sede num conjunto comercial e um único controlador registrado.
Ivo Marins.
Ela telefonou para Soraya.
— Encontrei a origem do anexo ausente.
— Documento?
— Identificador preservado numa página excluída. O arquivo foi produzido pela Quórum.
— Ivo é o controlador.
— Sim.
— Prepare a notificação. Inclua preservação de versões e dispositivos.
Íris começou a redigir antes que a ligação terminasse.
À uma e dez da manhã, o escritório notificou Ivo para apresentar o contrato de êxito, seus anexos e todas as comunicações relacionadas à Pórtico. A carta também informava que ele estava impedido de iniciar ou continuar qualquer negociação em nome da Alvarenga Hotéis.
Íris enviou uma cópia ao comitê, registrou a hora e fechou o computador.
A bolsa de gelo permanecia na pia. Ela a colocou sobre o tornozelo enquanto aguardava a confirmação eletrônica do recebimento.