DEPOIS DA RETIRADA Advogada do Ano · Capítulo 10 de 21
Obra Menu

DEPOIS DA RETIRADA

Vicente chegou ao restaurante quarenta minutos antes do horário combinado.

A escolha de Íris ocupava o térreo de um edifício antigo perto da Praça da República. As mesas tinham tampos pequenos, as luminárias pendiam baixas e o barulho da cozinha alcançava o salão sempre que a porta se abria. Nenhum funcionário o reconheceu.

Ele escolheu uma mesa lateral, de onde podia ver a entrada sem ficar exposto à rua. Pediu água e recusou o cardápio até que Íris chegasse.

Durante os primeiros quinze minutos, Vicente verificou o celular quatro vezes. Havia mensagens de Sabina no grupo do conselho, uma solicitação da equipe financeira e dois pedidos de entrevista. Ele leu somente o primeiro parágrafo de cada um e bloqueou a tela.

Dalva havia sido direta na reunião daquela manhã.

— Seu cargo não lhe dá acesso à estratégia jurídica.

— Eu preciso saber o que será exigido da operação.

— Você receberá pedidos específicos.

— E a tutela?

— Aguarde a decisão.

— Sabina está convocando conselheiros individualmente.

— Documente.

Vicente saíra do escritório de Dalva com a impressão de ter sido reduzido a uma fonte de informação operacional. Reconhecia a utilidade dessa redução. Ainda assim, passou a tarde inteira procurando tarefas concretas para ocupar as horas.

Às vinte e uma e sete, Íris entrou.

Ela estava com o cabelo solto. O casaco leve permanecia aberto, e não carregava pasta. Vicente nunca a tinha visto chegar a uma reunião sem um objeto que pudesse ser colocado entre ela e outra pessoa.

Íris o encontrou no salão, aproximou-se e sentou na cadeira oposta.

— Boa noite.

— Boa noite.

Ela tirou o casaco e o acomodou no encosto.

— Não falaremos da Alvarenga Hotéis.

— Certo.

— Nem de Dalva.

— Certo.

— Você não me pedirá opinião jurídica.

— Eu consigo jantar sem consulta.

— Isso ainda será verificado.

Vicente sorriu.

— Essa frase tem custo por hora?

— Hoje, não.

Um garçom trouxe o cardápio. Íris escolheu vinho apenas depois de perguntar a Vicente se ele precisaria dirigir. Ele disse que tinha vindo de carro por aplicativo.

A conversa começou por assuntos pequenos. O trânsito. A chuva prevista. Um restaurante que havia fechado perto do escritório. Vicente perguntou se ela conhecia o centro à noite. Íris respondeu que conhecia estacionamentos, salas de audiência e duas padarias abertas vinte e quatro horas.

— Isso não conta como conhecer um bairro — disse ele.

— É uma metodologia funcional.

— Você sabe onde comer e onde fugir.

— Duas necessidades urbanas.

Depois do pedido, Vicente apoiou os antebraços na mesa.

— Como está o afastamento?

Íris segurou a taça pela haste.

— Perdi a gestão por trinta dias. A revisão interna começou.

— Você pode trabalhar?

— Em outras matérias, sob supervisão.

— Quem ficou no seu lugar?

— Teodoro.

Vicente soltou o ar pelo nariz.

— Ele deve estar feliz.

— Teodoro fica feliz quando recebe autoridade e uma planilha nova. Hoje recebeu as duas.

O vinho chegou. Íris provou e aprovou. O garçom serviu Vicente.

— Eu posso fazer uma declaração — disse ele.

Ela olhou por cima da taça.

— Sobre o quê?

— Sobre o beijo. Minha participação. Posso afirmar que eu quis, que fiquei e que você não usou informação ou influência profissional.

— Não.

— Você nem ouviu o texto.

— A ideia já é ruim.

— Por quê?

— Porque transforma sua vontade em divisão da minha obrigação.

— Eu comecei a conversa naquela noite.

— Eu comecei o beijo.

— Eu fiquei.

— Você era cliente.

— Eu sou adulto.

— As duas coisas coexistem. A regra continuava comigo.

Vicente levou a taça à boca e tomou um gole curto.

— Certo.

Íris baixou os olhos para o guardanapo dobrado junto ao prato. Ele conhecia aquele movimento. Ela organizava a próxima frase antes de expô-la.

— Sua declaração também criaria a aparência de coordenação entre nós durante a revisão — continuou. — Eu precisaria informar o contato, explicar o contexto e responder por que aceitei sua intervenção.

— Entendi.

— Obrigada por oferecer.

— Você sempre agradece depois de desmontar a proposta?

— Quando a intenção merece.

A comida chegou, e a conversa se deslocou para temas menos perigosos. Vicente contou sobre o primeiro hotel em que trabalhara sem usar o sobrenome da família. Tinha vinte e dois anos, supervisionava a manutenção e passava parte das noites carregando peças de ar-condicionado pelos corredores de serviço.

— Quanto tempo durou o disfarce? — perguntou Íris.

— Quatro dias. Um gerente viu minha foto num jornal.

— Você continuou?

— Por seis meses.

— Carregando peças?

— Também desentupi ralo.

— Essa informação melhora sua imagem de herdeiro operacional.

— Eu trouxe fotografias.

— Espero que estejam com cadeia de custódia.

Vicente percebeu que ela comia pouco. As olheiras permaneciam visíveis apesar da maquiagem. Quando o garçom retirou os pratos, Íris deixou as mãos no colo.

Ele perguntou:

— Você se arrepende?

Íris ergueu o rosto.

— Da retirada?

— Do que aconteceu antes dela.

Ela demorou.

— Eu me arrependo da hora.

— E do beijo?

— Essa resposta cria outra conversa.

— Foi para isso que eu vim.

A música ambiente mudou para uma gravação antiga de piano. Íris olhou para o salão, para a entrada e depois para Vicente.

— Eu quero repetir.

A frase saiu baixa e firme. Nenhum sorriso a acompanhou.

Vicente sentiu a tensão do dia se concentrar num lugar físico, abaixo das costelas.

— Hoje?

— Eu ainda não decidi a parte operacional.

— Posso apresentar alternativas.

— Você acabou de perder o direito de usar essa palavra.

Ele riu. Íris também, embora desviasse o rosto logo depois.

Pediram a conta. Vicente estendeu a mão para o cartão, e ela colocou o próprio cartão sobre a bandeja antes dele.

— Dividimos.

— Eu convidei.

— Você sugeriu café. Eu transformei em jantar.

— Isso configura uma contraproposta?

— Configura metade da conta.

Saíram pouco depois das onze. A chuva prevista havia começado, fina e constante. Caminharam sob a marquise, próximos o bastante para os braços se tocarem em alguns passos.

Vicente manteve as mãos nos bolsos. A vontade de encostar nela adquiria mais força pela necessidade de pedir.

— Seu carro? — perguntou Íris.

— Aplicativo. E o seu?

— Deixei no escritório.

— Quer que eu espere com você?

— Meu prédio fica a seis quadras.

— Na chuva.

— Você trabalha com hotéis. Não precisa dramatizar água.

— Trabalhei com infiltração. Tenho motivos.

Seguiram a pé. Íris recolheu o cabelo para um lado, protegendo-o dentro da gola do casaco. Vicente caminhou na borda da calçada, recebendo a água que escorria das coberturas.

Diante do prédio, ela parou sob o toldo. O porteiro cumprimentou Íris e observou Vicente por um segundo a mais.

— Quer que eu vá embora? — perguntou ele.

Ela procurou a resposta no rosto dele.

— Ainda não.

O elevador do prédio era pequeno. Íris apertou o botão do décimo segundo andar e ficou ao lado do painel. Vicente lembrou o outro elevador, a interrupção e o modo pelo qual ela saíra antes que as portas fechassem de novo.

Nenhum dos dois mencionou.

No apartamento, Íris acendeu a luz da entrada, tirou os sapatos e alinhou-os junto à parede. Colocou as chaves numa bandeja de metal sobre um aparador. A bolsa ficou pendurada numa cadeira.

Vicente entrou devagar.

A sala era clara, organizada em linhas retas. Os livros jurídicos ocupavam duas estantes e estavam divididos por tema. Havia poucos objetos decorativos. Uma fotografia de família mostrava Íris mais jovem entre uma mulher de cabelo curto e um homem de terno escuro. Perto do sofá, no chão, uma caixa grande trazia o nome do prêmio recebido no Hotel Alvarenga Paulista.

— Você não abriu? — perguntou.

— Abri no evento.

— O troféu continua dentro?

— Continua.

Íris foi até a cozinha.

— Água?

— Sim.

Ela serviu dois copos. Vicente observou as mãos firmes, o cuidado exagerado ao posicionar cada copo sobre a bancada.

Quando ela se voltou, ele permaneceu no mesmo lugar.

— Posso beijar você?

Íris levou alguns segundos para responder.

— Pode.

Vicente se aproximou e tocou primeiro o lado do rosto dela. O beijo começou com a boca fechada, breve. Íris segurou a nuca dele antes que se afastasse e conduziu o segundo contato.

Ele sentiu o gosto do vinho e a pele fria da chuva perto da orelha dela. Colocou uma mão nas costas de Íris. A outra permaneceu no rosto.

Ela avançou contra o corpo dele, depois endureceu por um instante.

Vicente parou.

— Quer parar?

— Quero tirar o casaco.

Íris se afastou e retirou a peça por conta própria. Dobrou-a sobre a cadeira. Ao voltar, colocou os dedos no primeiro botão da camisa dele.

Abriu um. Depois outro.

O terceiro demorou.

Vicente riu baixo.

— Algum problema contratual?

— Botões pequenos.

— Posso ajudar?

— Você pioraria.

Ela continuou até abrir a camisa. Empurrou o tecido para os lados e percorreu o peito dele com os olhos. Vicente teve a sensação estranha de estar sendo avaliado fora de qualquer competência que pudesse defender.

Íris passou a mão pela pele dele. O toque era cuidadoso e direto.

— Sua vez — disse ela.

Vicente segurou a alça do vestido.

— Posso?

— Pode.

Ele beijou o ombro exposto antes de buscar o fecho nas costas. A barba roçou a pele dela. Íris fechou os dedos em torno do braço dele.

— Repete.

Vicente repetiu, mais devagar. Ela inclinou o pescoço para oferecer espaço.

O desejo entre os dois perdeu a forma abstrata adquirida durante semanas. Íris dizia onde queria as mãos dele e corrigia a pressão com palavras simples. Vicente perguntava antes de avançar. Cada resposta aproximava os corpos sem apagar a atenção.

No quarto, a luz da rua atravessava as frestas da cortina. Íris acendeu um abajur e deixou o vestido cair no encosto de uma poltrona.

Ela observou Vicente retirar a camisa. Uma cicatriz atravessava a lateral do abdômen, irregular e mais clara que a pele.

Íris tocou a marca.

— O que aconteceu?

— Incêndio de cozinha. Eu tinha vinte e nove anos.

— Você entrou?

— Já estava dentro. Uma chapa soltou quando afastamos um equipamento.

— Levou pontos?

— Dezoito.

Ela se ajoelhou diante dele e beijou a cicatriz. Vicente apoiou a mão no cabelo dela, sem conduzir o movimento.

Quando a deitou, Íris segurou o pulso dele.

— Não fale da empresa.

— Eu não estava falando.

— Nem depois.

— Entendi.

Vicente esperou que ela soltasse o pulso. Íris manteve os dedos ali e puxou a mão dele para o próprio corpo.

A primeira noite teve pausas. Íris pediu mais lentidão e depois mudou de ideia. Vicente interrompeu para buscar água. No retorno, bateu o joelho na quina da cama e ficou parado, tentando ocultar a dor.

Íris começou a rir.

— Não foi nada — disse ele.

— Você perdeu a capacidade de andar.

— A cama está fora do padrão.

— Vou abrir uma investigação.

Ele riu, segurando o joelho. Íris se ergueu, encostou a boca na dele e o trouxe de volta.

Mais tarde, ela ficou deitada sobre o peito de Vicente. A respiração dela havia desacelerado. O cabelo cobria parte do rosto dele.

Vicente olhou para a caixa do troféu, visível pela porta aberta.

— Você ficou feliz quando ganhou?

Íris moveu a cabeça para enxergá-lo.

— Durante quinze minutos.

— Cronometrados?

— Aproximados.

— O que aconteceu depois?

Ela apoiou o queixo sobre o peito dele.

— Comecei a pensar na primeira falha pública depois da homenagem.

— Chegou rápido.

— Sua família trabalha com eficiência.

Vicente sorriu e beijou o cabelo dela. A piada tinha vindo acompanhada por um cansaço que ele não sabia aliviar.

— Quer que eu vá embora?

Íris olhou para o relógio no criado-mudo. Passava das duas.

— Fica até amanhecer.

— Certo.

Ela fechou os olhos. Vicente permaneceu acordado por alguns minutos, atento ao ritmo da respiração dela e ao ruído distante dos carros.

Acordou às seis e vinte. Íris dormia de lado, com uma mão debaixo do travesseiro. Ele saiu do quarto, vestiu a calça e procurou café na cozinha.

Encontrou pó num pote etiquetado e uma cafeteira pequena. Abriu dois armários antes de localizar uma panela guardada fora da sequência de tamanhos, encaixada sobre uma frigideira maior.

Vicente retirou a panela e a colocou no fogão.

Quando a água começou a aquecer, Íris apareceu à porta usando a camisa dele.

— Você achou a única panela fora de ordem — disse ela.

— Foi um instinto operacional.

— Isso explica muita coisa.

Ele se virou.

— Bom dia.

Íris aproximou-se, colocou os braços em torno da cintura dele e beijou suas costas.

— Bom dia.

1/1
Menu

Fazer anotação