DEPOIS DA RETIRADA
Vicente chegou ao restaurante quarenta minutos antes do horário combinado.
A escolha de Íris ocupava o térreo de um edifício antigo perto da Praça da República. As mesas tinham tampos pequenos, as luminárias pendiam baixas e o barulho da cozinha alcançava o salão sempre que a porta se abria. Nenhum funcionário o reconheceu.
Ele escolheu uma mesa lateral, de onde podia ver a entrada sem ficar exposto à rua. Pediu água e recusou o cardápio até que Íris chegasse.
Durante os primeiros quinze minutos, Vicente verificou o celular quatro vezes. Havia mensagens de Sabina no grupo do conselho, uma solicitação da equipe financeira e dois pedidos de entrevista. Ele leu somente o primeiro parágrafo de cada um e bloqueou a tela.
Dalva havia sido direta na reunião daquela manhã.
— Seu cargo não lhe dá acesso à estratégia jurídica.
— Eu preciso saber o que será exigido da operação.
— Você receberá pedidos específicos.
— E a tutela?
— Aguarde a decisão.
— Sabina está convocando conselheiros individualmente.
— Documente.
Vicente saíra do escritório de Dalva com a impressão de ter sido reduzido a uma fonte de informação operacional. Reconhecia a utilidade dessa redução. Ainda assim, passou a tarde inteira procurando tarefas concretas para ocupar as horas.
Às vinte e uma e sete, Íris entrou.
Ela estava com o cabelo solto. O casaco leve permanecia aberto, e não carregava pasta. Vicente nunca a tinha visto chegar a uma reunião sem um objeto que pudesse ser colocado entre ela e outra pessoa.
Íris o encontrou no salão, aproximou-se e sentou na cadeira oposta.
— Boa noite.
— Boa noite.
Ela tirou o casaco e o acomodou no encosto.
— Não falaremos da Alvarenga Hotéis.
— Certo.
— Nem de Dalva.
— Certo.
— Você não me pedirá opinião jurídica.
— Eu consigo jantar sem consulta.
— Isso ainda será verificado.
Vicente sorriu.
— Essa frase tem custo por hora?
— Hoje, não.
Um garçom trouxe o cardápio. Íris escolheu vinho apenas depois de perguntar a Vicente se ele precisaria dirigir. Ele disse que tinha vindo de carro por aplicativo.
A conversa começou por assuntos pequenos. O trânsito. A chuva prevista. Um restaurante que havia fechado perto do escritório. Vicente perguntou se ela conhecia o centro à noite. Íris respondeu que conhecia estacionamentos, salas de audiência e duas padarias abertas vinte e quatro horas.
— Isso não conta como conhecer um bairro — disse ele.
— É uma metodologia funcional.
— Você sabe onde comer e onde fugir.
— Duas necessidades urbanas.
Depois do pedido, Vicente apoiou os antebraços na mesa.
— Como está o afastamento?
Íris segurou a taça pela haste.
— Perdi a gestão por trinta dias. A revisão interna começou.
— Você pode trabalhar?
— Em outras matérias, sob supervisão.
— Quem ficou no seu lugar?
— Teodoro.
Vicente soltou o ar pelo nariz.
— Ele deve estar feliz.
— Teodoro fica feliz quando recebe autoridade e uma planilha nova. Hoje recebeu as duas.
O vinho chegou. Íris provou e aprovou. O garçom serviu Vicente.
— Eu posso fazer uma declaração — disse ele.
Ela olhou por cima da taça.
— Sobre o quê?
— Sobre o beijo. Minha participação. Posso afirmar que eu quis, que fiquei e que você não usou informação ou influência profissional.
— Não.
— Você nem ouviu o texto.
— A ideia já é ruim.
— Por quê?
— Porque transforma sua vontade em divisão da minha obrigação.
— Eu comecei a conversa naquela noite.
— Eu comecei o beijo.
— Eu fiquei.
— Você era cliente.
— Eu sou adulto.
— As duas coisas coexistem. A regra continuava comigo.
Vicente levou a taça à boca e tomou um gole curto.
— Certo.
Íris baixou os olhos para o guardanapo dobrado junto ao prato. Ele conhecia aquele movimento. Ela organizava a próxima frase antes de expô-la.
— Sua declaração também criaria a aparência de coordenação entre nós durante a revisão — continuou. — Eu precisaria informar o contato, explicar o contexto e responder por que aceitei sua intervenção.
— Entendi.
— Obrigada por oferecer.
— Você sempre agradece depois de desmontar a proposta?
— Quando a intenção merece.
A comida chegou, e a conversa se deslocou para temas menos perigosos. Vicente contou sobre o primeiro hotel em que trabalhara sem usar o sobrenome da família. Tinha vinte e dois anos, supervisionava a manutenção e passava parte das noites carregando peças de ar-condicionado pelos corredores de serviço.
— Quanto tempo durou o disfarce? — perguntou Íris.
— Quatro dias. Um gerente viu minha foto num jornal.
— Você continuou?
— Por seis meses.
— Carregando peças?
— Também desentupi ralo.
— Essa informação melhora sua imagem de herdeiro operacional.
— Eu trouxe fotografias.
— Espero que estejam com cadeia de custódia.
Vicente percebeu que ela comia pouco. As olheiras permaneciam visíveis apesar da maquiagem. Quando o garçom retirou os pratos, Íris deixou as mãos no colo.
Ele perguntou:
— Você se arrepende?
Íris ergueu o rosto.
— Da retirada?
— Do que aconteceu antes dela.
Ela demorou.
— Eu me arrependo da hora.
— E do beijo?
— Essa resposta cria outra conversa.
— Foi para isso que eu vim.
A música ambiente mudou para uma gravação antiga de piano. Íris olhou para o salão, para a entrada e depois para Vicente.
— Eu quero repetir.
A frase saiu baixa e firme. Nenhum sorriso a acompanhou.
Vicente sentiu a tensão do dia se concentrar num lugar físico, abaixo das costelas.
— Hoje?
— Eu ainda não decidi a parte operacional.
— Posso apresentar alternativas.
— Você acabou de perder o direito de usar essa palavra.
Ele riu. Íris também, embora desviasse o rosto logo depois.
Pediram a conta. Vicente estendeu a mão para o cartão, e ela colocou o próprio cartão sobre a bandeja antes dele.
— Dividimos.
— Eu convidei.
— Você sugeriu café. Eu transformei em jantar.
— Isso configura uma contraproposta?
— Configura metade da conta.
Saíram pouco depois das onze. A chuva prevista havia começado, fina e constante. Caminharam sob a marquise, próximos o bastante para os braços se tocarem em alguns passos.
Vicente manteve as mãos nos bolsos. A vontade de encostar nela adquiria mais força pela necessidade de pedir.
— Seu carro? — perguntou Íris.
— Aplicativo. E o seu?
— Deixei no escritório.
— Quer que eu espere com você?
— Meu prédio fica a seis quadras.
— Na chuva.
— Você trabalha com hotéis. Não precisa dramatizar água.
— Trabalhei com infiltração. Tenho motivos.
Seguiram a pé. Íris recolheu o cabelo para um lado, protegendo-o dentro da gola do casaco. Vicente caminhou na borda da calçada, recebendo a água que escorria das coberturas.
Diante do prédio, ela parou sob o toldo. O porteiro cumprimentou Íris e observou Vicente por um segundo a mais.
— Quer que eu vá embora? — perguntou ele.
Ela procurou a resposta no rosto dele.
— Ainda não.
O elevador do prédio era pequeno. Íris apertou o botão do décimo segundo andar e ficou ao lado do painel. Vicente lembrou o outro elevador, a interrupção e o modo pelo qual ela saíra antes que as portas fechassem de novo.
Nenhum dos dois mencionou.
No apartamento, Íris acendeu a luz da entrada, tirou os sapatos e alinhou-os junto à parede. Colocou as chaves numa bandeja de metal sobre um aparador. A bolsa ficou pendurada numa cadeira.
Vicente entrou devagar.
A sala era clara, organizada em linhas retas. Os livros jurídicos ocupavam duas estantes e estavam divididos por tema. Havia poucos objetos decorativos. Uma fotografia de família mostrava Íris mais jovem entre uma mulher de cabelo curto e um homem de terno escuro. Perto do sofá, no chão, uma caixa grande trazia o nome do prêmio recebido no Hotel Alvarenga Paulista.
— Você não abriu? — perguntou.
— Abri no evento.
— O troféu continua dentro?
— Continua.
Íris foi até a cozinha.
— Água?
— Sim.
Ela serviu dois copos. Vicente observou as mãos firmes, o cuidado exagerado ao posicionar cada copo sobre a bancada.
Quando ela se voltou, ele permaneceu no mesmo lugar.
— Posso beijar você?
Íris levou alguns segundos para responder.
— Pode.
Vicente se aproximou e tocou primeiro o lado do rosto dela. O beijo começou com a boca fechada, breve. Íris segurou a nuca dele antes que se afastasse e conduziu o segundo contato.
Ele sentiu o gosto do vinho e a pele fria da chuva perto da orelha dela. Colocou uma mão nas costas de Íris. A outra permaneceu no rosto.
Ela avançou contra o corpo dele, depois endureceu por um instante.
Vicente parou.
— Quer parar?
— Quero tirar o casaco.
Íris se afastou e retirou a peça por conta própria. Dobrou-a sobre a cadeira. Ao voltar, colocou os dedos no primeiro botão da camisa dele.
Abriu um. Depois outro.
O terceiro demorou.
Vicente riu baixo.
— Algum problema contratual?
— Botões pequenos.
— Posso ajudar?
— Você pioraria.
Ela continuou até abrir a camisa. Empurrou o tecido para os lados e percorreu o peito dele com os olhos. Vicente teve a sensação estranha de estar sendo avaliado fora de qualquer competência que pudesse defender.
Íris passou a mão pela pele dele. O toque era cuidadoso e direto.
— Sua vez — disse ela.
Vicente segurou a alça do vestido.
— Posso?
— Pode.
Ele beijou o ombro exposto antes de buscar o fecho nas costas. A barba roçou a pele dela. Íris fechou os dedos em torno do braço dele.
— Repete.
Vicente repetiu, mais devagar. Ela inclinou o pescoço para oferecer espaço.
O desejo entre os dois perdeu a forma abstrata adquirida durante semanas. Íris dizia onde queria as mãos dele e corrigia a pressão com palavras simples. Vicente perguntava antes de avançar. Cada resposta aproximava os corpos sem apagar a atenção.
No quarto, a luz da rua atravessava as frestas da cortina. Íris acendeu um abajur e deixou o vestido cair no encosto de uma poltrona.
Ela observou Vicente retirar a camisa. Uma cicatriz atravessava a lateral do abdômen, irregular e mais clara que a pele.
Íris tocou a marca.
— O que aconteceu?
— Incêndio de cozinha. Eu tinha vinte e nove anos.
— Você entrou?
— Já estava dentro. Uma chapa soltou quando afastamos um equipamento.
— Levou pontos?
— Dezoito.
Ela se ajoelhou diante dele e beijou a cicatriz. Vicente apoiou a mão no cabelo dela, sem conduzir o movimento.
Quando a deitou, Íris segurou o pulso dele.
— Não fale da empresa.
— Eu não estava falando.
— Nem depois.
— Entendi.
Vicente esperou que ela soltasse o pulso. Íris manteve os dedos ali e puxou a mão dele para o próprio corpo.
A primeira noite teve pausas. Íris pediu mais lentidão e depois mudou de ideia. Vicente interrompeu para buscar água. No retorno, bateu o joelho na quina da cama e ficou parado, tentando ocultar a dor.
Íris começou a rir.
— Não foi nada — disse ele.
— Você perdeu a capacidade de andar.
— A cama está fora do padrão.
— Vou abrir uma investigação.
Ele riu, segurando o joelho. Íris se ergueu, encostou a boca na dele e o trouxe de volta.
Mais tarde, ela ficou deitada sobre o peito de Vicente. A respiração dela havia desacelerado. O cabelo cobria parte do rosto dele.
Vicente olhou para a caixa do troféu, visível pela porta aberta.
— Você ficou feliz quando ganhou?
Íris moveu a cabeça para enxergá-lo.
— Durante quinze minutos.
— Cronometrados?
— Aproximados.
— O que aconteceu depois?
Ela apoiou o queixo sobre o peito dele.
— Comecei a pensar na primeira falha pública depois da homenagem.
— Chegou rápido.
— Sua família trabalha com eficiência.
Vicente sorriu e beijou o cabelo dela. A piada tinha vindo acompanhada por um cansaço que ele não sabia aliviar.
— Quer que eu vá embora?
Íris olhou para o relógio no criado-mudo. Passava das duas.
— Fica até amanhecer.
— Certo.
Ela fechou os olhos. Vicente permaneceu acordado por alguns minutos, atento ao ritmo da respiração dela e ao ruído distante dos carros.
Acordou às seis e vinte. Íris dormia de lado, com uma mão debaixo do travesseiro. Ele saiu do quarto, vestiu a calça e procurou café na cozinha.
Encontrou pó num pote etiquetado e uma cafeteira pequena. Abriu dois armários antes de localizar uma panela guardada fora da sequência de tamanhos, encaixada sobre uma frigideira maior.
Vicente retirou a panela e a colocou no fogão.
Quando a água começou a aquecer, Íris apareceu à porta usando a camisa dele.
— Você achou a única panela fora de ordem — disse ela.
— Foi um instinto operacional.
— Isso explica muita coisa.
Ele se virou.
— Bom dia.
Íris aproximou-se, colocou os braços em torno da cintura dele e beijou suas costas.
— Bom dia.