A SALA LIMPA Advogada do Ano · Capítulo 3 de 21
Obra Menu

A SALA LIMPA

A sala escolhida para a crise ficava no centro do andar administrativo da matriz, distante das janelas e dos elevadores. Tinha uma porta com controle eletrônico, uma mesa longa e iluminação branca demais. Íris aprovou o desconforto. Ninguém deveria esquecer onde estava trabalhando.

Na manhã do terceiro dia, ela reuniu a equipe jurídica, dois peritos digitais e o responsável por segurança da informação. Fixou as regras em um documento de uma página. Impressões proibidas. Pen drives fora da sala. Encaminhamentos para contas pessoais sujeitos a bloqueio imediato. Cada arquivo recebido ganharia código de custódia, origem, horário e responsável pela coleta.

Separou o trabalho em duas frentes. A primeira examinaria a validade da venda, incluindo deliberações, avaliações e conflito de interesses. A segunda rastrearia a origem dos vazamentos e das alterações nos dados financeiros.

Vicente entrou durante a explicação final. Parou diante da lista de acessos autorizados projetada na tela.

— Meus diretores precisam trabalhar.

— Seus diretores podem trabalhar com os arquivos necessários.

— Quem decide o necessário?

— Hoje, eu.

— Isso deve ser divertido no seu escritório.

— Lá eles aprenderam a fingir melhor.

Alguns membros da equipe esconderam o riso. Vicente olhou para eles e depois para Íris.

— Operações precisa dos contratos de manutenção, projeções de ocupação e cronogramas de reforma.

— Receberá cópias controladas dos documentos vigentes.

— Cópias controladas viram atraso quando um elevador para.

— Um elevador parado não autoriza circulação de arquivos adulterados.

— Eu não disse que autoriza.

— Então temos acordo.

O atrito revelou-se útil antes do almoço. Vicente conhecia cada unidade, fornecedor e obra adiada. Quando a equipe jurídica classificava um contrato como periférico, ele explicava qual cláusula podia fechar uma cozinha durante a alta temporada. Quando ele tratava uma ordem por telefone como rotina operacional, Íris exigia registro, autoridade e consequência.

Ela passou a testar orientações com ele antes de distribuí-las aos gestores. Vicente contestava sem cerimônia. Metade das vezes, a regra permanecia. Na outra metade, Íris ajustava a redação e eliminava um obstáculo real.

A análise do terminal avançou. A credencial de Celso Tavares fora reativada às 6h18 do segundo dia. O comando partira de um perfil administrativo vinculado a Pérsio Maia, gerente de infraestrutura digital.

Pérsio chegou à sala às quatorze horas com um advogado trabalhista indicado pela empresa. Tinha quarenta anos, óculos de armação fina e uma camisa que escurecia sob os braços. Íris informou que a entrevista seria gravada, explicou o escopo e pediu que ele descrevesse a reativação.

— Recebi uma ligação na noite em que o Celso saiu — Pérsio disse. — Disseram que a conta precisava ficar disponível durante a transição.

— Quem ligou?

— Uma assistente do gabinete da doutora Sabina.

— Nome.

— Luciana Prado.

— Ela disse que falava por ordem de quem?

Pérsio olhou para o advogado.

— Do gabinete da doutora Sabina.

— Essas foram as palavras?

— Ela falou: “A orientação da vice-presidência é manter o acesso por sete dias.”

— Você registrou chamado?

— Abri um. Depois pediram para encerrar e tratar como exceção executiva.

— Quem pediu?

— A mesma pessoa.

A equipe localizou o chamado enquanto ele ainda falava. Havia criação, encerramento e uma anotação curta: “Determinação superior. Sem ação adicional.”

Sabina foi ouvida naquela tarde. Entrou na sala com o advogado da companhia e pediu uma cópia do termo de confidencialidade de Pérsio.

— Eu não dei ordem para reativar credencial alguma — disse depois de ler a primeira página. — Meu gabinete recebe dezenas de solicitações. Pérsio pode estar tentando encobrir negligência.

Íris colocou o registro do chamado diante dela.

— A ligação será verificada.

— Ele violou o protocolo. Sugiro afastamento imediato, pagamento das verbas e um acordo de confidencialidade que limite exposição desnecessária.

— A companhia precisa do depoimento e dos registros. Um acordo agora destruiria a utilidade de ambos.

— Também pode limitar dano reputacional.

— O dano já existe. A prioridade é preservar a fonte.

Sabina tocou a borda do papel.

— Você trata todos os executivos como suspeitos?

— Trato cada decisão de acordo com o documento que a sustenta.

— Ivo pode coordenar uma revisão paralela. A Quórum tem equipe própria e conhece o histórico da transação.

— O contrato da Quórum não autoriza acesso aos dados brutos. Ele não entrará na sala forense.

— Isso atrasará o trabalho.

— Reduzirá interferência.

Sabina sustentou o olhar por alguns segundos. Depois recolheu a cópia do termo e se levantou.

— Espero que você preserve a companhia enquanto procura responsáveis.

— É o mandato que recebi.

Íris acompanhou a saída pela porta de vidro. Sabina nunca elevava a voz. Usava perguntas para testar até onde a outra pessoa aceitaria justificar a própria autoridade.

No quarto dia, os peritos reconstruíram o conjunto exportado pela conta de Celso. Havia projeções de ocupação, cronogramas de reforma e comunicações com bancos. Parte dos arquivos trazia alteração anterior ao envio. Custos de obras apareciam duplicados. Taxas de ocupação de unidades rentáveis tinham sido reduzidas. Um relatório sobre o Hotel Alvarenga Atlântico registrava perda de licença ambiental.

A licença permanecia válida no sistema público.

Íris pediu comparação de metadados, versões anteriores e estações de trabalho. Em seguida, chamou Vicente.

Ele chegou em menos de cinco minutos.

— O que houve?

Ela girou o monitor.

— Estas projeções foram encaminhadas à Atria. Sua equipe reconhece os números?

Vicente examinou a tela.

— A ocupação do Paulista está sete pontos abaixo da carteira atual. O Atlântico perdeu grupos que ainda aparecem no sistema de reservas. E essa reforma aqui custa metade disso.

— Mostre.

Ele a levou até a área de operações, um espaço aberto com telas de ocupação, alertas de manutenção e mapas das unidades. Cumprimentou funcionários pelo nome enquanto avançava. Parou diante de dois monitores, abriu o sistema de reservas em um e a projeção enviada aos bancos no outro.

Vicente trabalhava com o corpo inclinado sobre a mesa. Mudava de janela sem hesitar, lembrava códigos de hotel e datas de manutenção. A manga da camisa estava dobrada até os antebraços. Íris percebeu uma cicatriz pequena perto do pulso esquerdo e desviou a atenção para os números.

— Aqui — ele disse. — Três grupos corporativos para agosto. Duzentos e oitenta quartos-noite. Foram retirados da projeção.

— Estão confirmados?

— Dois em negociação final. Um com sinal pago.

— Quem definiu o critério de exclusão?

Vicente chamou a gerente de reservas. Ela aproximou uma cadeira e abriu o histórico de mensagens.

— Recebemos orientação para tirar tudo que ainda não estivesse faturado — disse. — Eu avisei que isso distorcia a previsão.

— Quem enviou a orientação? — Íris perguntou.

A gerente mostrou o e-mail. O remetente era Ivo Marins. Sabina aparecia em cópia.

— Houve resposta? — Íris perguntou.

— Minha. E depois uma ligação do consultor. Ele disse que a Atria queria cenário conservador.

— Registre a conversa em memorando hoje. Inclua horário aproximado e quem estava perto.

A gerente assentiu.

Vicente olhou para Íris.

— Fabricação.

Ela voltou ao e-mail.

— Agora temos um documento sobre exclusão de receita. A palavra ainda exige vínculo com a intenção.

— Você guarda todas as concessões para depois?

— Guardo até servirem.

O rosto dele ficou perto do dela sobre os monitores. Íris sentiu o calor do braço de Vicente junto ao seu e recuou meio passo. Ele percebeu. A mão que ia apontar outra linha parou no ar e mudou de direção.

— Há mais — disse.

A gerente trouxe mensagens relacionadas à reforma do hotel do litoral. O orçamento original era de onze milhões. A planilha enviada à Atria registrava quarenta milhões, distribuídos em itens duplicados e reservas técnicas sem justificativa.

Íris determinou preservação integral dos e-mails de Ivo, incluindo contas corporativas e dispositivos usados no contrato. Sabina questionou a medida por telefone.

— Ele é consultor externo — disse.

— Essa condição não cria imunidade documental.

— O contrato contém dados de outros clientes.

— A coleta será filtrada com protocolo específico.

— Você está ampliando o escopo.

— Os arquivos alterados passaram pela empresa dele.

Sabina encerrou a ligação sem despedida.

No quinto dia, a equipe permaneceu na matriz depois das vinte e duas horas. Íris revisava a minuta de uma medida judicial urgente. Precisava preservar dispositivos de Pérsio, Ivo e Nádia Bastos, nome que surgira em um cabeçalho de encaminhamento. A técnica jurídica exigia demonstrar risco concreto de destruição de prova sem transformar suspeita em acusação definitiva.

Quando levantou os olhos, havia uma embalagem de comida ao lado do teclado. Vicente estava do outro lado da mesa.

— Isso tem nome — ele disse.

— Relatório de materialidade.

— O que está no prato.

— Eu reconheço uma embalagem.

— É arroz, peixe e o único legume que a cozinha conseguiu salvar depois das onze.

Íris olhou o relógio. Passava das onze e vinte.

— Você não está autorizado a ficar nesta área.

— Você me chamou para explicar o fluxo de reservas.

— A explicação terminou.

— Então coma.

— Isso também terminou?

Vicente abriu a boca, pensou melhor e pegou a própria embalagem.

— Vou ficar ali.

Sentou-se do outro lado da divisória de vidro, na área permitida. Abriu o celular e começou a responder mensagens. Íris retomou a minuta. O cheiro do peixe chegou até ela. O corpo cobrou o jantar que deixara esfriar horas antes.

Ela abriu a embalagem e comeu duas garfadas sem olhar para Vicente. A comida ainda estava morna.

Dez minutos depois, ele bateu uma vez no vidro e ergueu uma garrafa de água. Íris apontou para a mesa lateral, onde já havia uma. Vicente voltou ao celular.

A companhia dele reduzia a aspereza da madrugada. Isso era inconveniente. Ela preferia relações profissionais fáceis de classificar, e Vicente criava pequenos desvios: uma comida deixada sem pedido, uma pergunta que vinha cedo, a memória precisa de um hotel distante.

Íris terminou metade do prato e fechou a embalagem. Levou-a até a lixeira fora da área restrita.

— Obrigada — disse.

Vicente guardou o celular.

— Você esperou terminar para admitir que era comida.

— Eu admiti que foi útil.

— É o máximo da gratidão jurídica?

— Há precedentes melhores, com fatos diferentes.

Ele sorriu. O olhar permaneceu sobre ela por tempo suficiente para alterar a respiração dos dois. Íris puxou a porta de vidro e voltou à sala antes que a pausa adquirisse outro sentido.

Perto da meia-noite, uma perita chamou seu nome.

— Encontramos o destino inicial.

Na tela, o registro de exportação mostrava um endereço criptografado. A equipe cruzara certificados, domínios e uma conta de recuperação. O vínculo levava a Nádia Bastos, consultora de comunicação contratada pela Pórtico Capital Participações.

Íris pediu que repetissem a cadeia de verificação. A perita mostrou cada etapa. O arquivo saíra da rede interna, passara por um serviço intermediário e chegara a um endereço administrado por Nádia.

Vicente entrou na área permitida e ficou junto ao vidro.

— Compradora? — perguntou.

Íris assentiu.

— É o primeiro vínculo direto entre o vazamento interno e alguém contratado pela Pórtico.

— Isso suspende a venda?

— Ainda precisamos de medida judicial, preservação e confirmação independente.

— Você sempre responde com mais trabalho?

— Quando o fato exige.

Ela voltou à minuta. Acrescentou o vínculo de Nádia, descreveu o risco de apagamento e incluiu os dispositivos de Pérsio e Ivo no pedido. A medida seria distribuída na primeira hora útil.

À 00h26, Íris enviou a versão para Teodoro e Soraya, com instrução de revisão final. Depois registrou por escrito: preparar pedido urgente de preservação dos dispositivos de Pérsio Maia, Ivo Marins e Nádia Bastos antes de qualquer comunicação ampla sobre a descoberta.

Vicente leu a linha projetada na tela do lado de fora. Quando Íris ergueu os olhos, ele estava olhando para ela, não para o documento.

1/1
Menu

Fazer anotação