A INVESTIGAÇÃO DE DALVA Advogada do Ano · Capítulo 11 de 21
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A INVESTIGAÇÃO DE DALVA

No trigésimo segundo dia, Íris acordou antes do despertador e encontrou o lado de Vicente vazio.

A porta do quarto estava aberta. Uma faixa de luz vinha da sala. Ela vestiu o robe e seguiu até lá.

Vicente falava ao telefone junto à janela, com a voz baixa.

— Envie para a diretoria financeira. Eu vejo quando chegar.

Ele percebeu Íris e apontou para a cozinha.

— Um minuto.

Ela entrou, preparou café e evitou escutar a conversa. O esforço exigia mais atenção do que gostaria de admitir. Cada palavra solta podia adquirir valor dentro de uma investigação da qual ela havia sido excluída por escolha e sanção.

Vicente encerrou a chamada e deixou o celular sobre a bancada.

— Desculpa.

— Você não precisa pedir desculpa por trabalhar.

— Acordei você.

— O despertador faria isso em quatro minutos.

Ele abriu a geladeira.

— Tem ovos?

— Tem.

— Posso?

— Você está oferecendo café da manhã ou iniciando uma busca?

— Café da manhã.

Íris apontou o armário correto.

— Frigideira na segunda porta.

Vicente começou a cozinhar. Ela levou o café à mesa e abriu o tablet pessoal para ler notícias. Havia uma nota sobre a arbitragem da Alvarenga, publicada na noite anterior. A matéria mencionava a troca da equipe jurídica e a existência de “questões de independência ainda não esclarecidas”.

Íris fechou a página antes do segundo parágrafo.

Vicente colocou o prato diante dela.

— Aconteceu alguma coisa?

— Notícias.

Ele reconheceu o limite e não perguntou qual.

Desde a noite no apartamento, os dois vinham se encontrando fora do horário de trabalho. Vicente chegava depois das dez, quase sempre com comida. Íris evitava os hotéis da rede e restaurantes frequentados pelo meio jurídico. Em duas ocasiões, entraram separados no prédio dela. Na terceira, Íris se irritou com a própria estratégia e esperou Vicente na calçada.

— Ou entramos juntos, ou você vai para casa — disse.

— Alguém pode ver.

— Alguém sempre pode ver.

— Isso te prejudica.

— Esconder também.

A partir daquela noite, pararam de ensaiar chegadas independentes. Continuaram escolhendo lugares discretos e recusaram qualquer hotel da família. A cautela protegia os limites profissionais, embora reduzisse a relação a apartamentos e trajetos noturnos.

Íris estabeleceu a regra central no segundo encontro.

— Eu não quero atualizações do caso.

— Nem quando houver uma decisão pública?

— Posso ler o que for público.

— E se afetar meu pai?

— Você pode falar sobre ele. Estratégia jurídica fica fora.

Vicente cumpria. Quando recebia chamadas corporativas, saía do cômodo. Íris ouvia fragmentos de tom, nunca conteúdo suficiente. Ela se recusava a interpretar tensão, demora ou mudança de voz. O hábito de construir hipóteses a partir de sinais incompletos tinha servido à carreira inteira. Dentro da relação, podia produzir outra infração.

A intimidade cresceu por aprendizado específico.

Vicente descobriu que Íris detestava ser tocada de surpresa ao acordar. Na primeira tentativa, ela abriu os olhos e afastou a mão dele com força.

— Desculpa — disse Vicente.

— Eu preciso estar acordada.

— Certo.

Na manhã seguinte, ele ficou deitado ao lado dela até que Íris abrisse os olhos. Perguntou antes de aproximar a boca do pescoço. Ela respondeu puxando-o pela cintura.

Íris percebeu que Vicente adormecia depressa depois do sexo e voltava ao estado de alerta ao primeiro ruído do telefone. O corpo dele parecia manter uma parte ligada à operação dos hotéis, mesmo durante a madrugada.

Numa noite, o aparelho vibrou três vezes sobre o criado-mudo. Vicente acordou na segunda. Antes que alcançasse a tela, Íris pegou o telefone, desligou e o colocou do outro lado do quarto.

Ele ergueu a cabeça.

— Íris.

— São três e dez.

— Pode ser importante.

— Você está fora da escala de emergência.

— Como sabe?

— Você explicou ontem.

Vicente olhou para o telefone distante. Depois voltou a deitar.

— Vou ligar de manhã.

— Ótimo.

Ele fechou os olhos. Íris permaneceu acordada por mais alguns minutos, consciente de que sua intervenção no aparelho pessoal dele poderia soar invasiva. Pela manhã, perguntou se havia ultrapassado algum limite.

— Você desligou meu celular — disse Vicente.

— Sim.

— Eu queria reclamar.

— E por que não reclamou?

— Dormi antes.

Ela riu.

Enquanto Íris aprendia a construir uma relação sem discutir o caso, Dalva refazia a investigação.

A comunicação formal do antigo cliente chegou ao Sampaio Vilar no trigésimo quinto dia. O documento informava que a nova equipe contratara Miriam Coelho para perícia digital, substituíra a consultoria responsável pela avaliação dos ativos e apresentara pedidos de preservação contra Pórtico, Quórum e Sabina.

Íris recebeu apenas a parte necessária para o registro de ratificação dos atos anteriores. Leu a carta na sala de Soraya.

— Ela vai refazer tudo — disse.

— Era uma das condições — respondeu Soraya.

— Miriam é boa.

— Você a conhece?

— Trabalhou numa disputa bancária há três anos. Não aceita imagem de sistema sem verificação do dispositivo original.

Soraya recolheu o documento depois da leitura.

— Essa avaliação pertence ao seu trabalho anterior?

— Conhecimento profissional geral.

— Mantenha assim.

A primeira audiência arbitral ocorreu no trigésimo oitavo dia. Íris não teve acesso à transmissão nem às peças reservadas. Durante a tarde, permaneceu numa sala menor do escritório, revisando um acordo de distribuição para outro cliente. A cada notificação que aparecia no computador, o corpo reagia antes que ela lesse o remetente.

Às dezessete e cinquenta, Teodoro entrou.

— O árbitro ratificou a petição inicial.

Íris parou de digitar.

— Você pode me contar isso?

— A comunicação foi dirigida ao escritório. A ratificação abrange o trabalho anterior e precisa entrar no relatório da revisão.

— Houve decisão sobre a venda?

Teodoro apertou os lábios.

— Esse ponto está fora do que preciso comunicar.

— Certo.

Ele permaneceu junto à porta.

— O pedido de Dalva foi parcialmente acolhido. A informação já consta do comunicado público do tribunal arbitral.

Íris abriu o site depois que ele saiu. O resumo da decisão tinha menos de uma página. A venda estava suspensa por quinze dias. Havia autorização para inspeção limitada dos dispositivos empresariais relacionados à transação.

Uma agência financeira publicou detalhes adicionais duas horas depois. Segundo a reportagem, Dalva sustentara que a proposta reunia urgência fabricada, avaliação defeituosa e remuneração oculta. A Pórtico alegara desconhecer a participação de Sabina na sociedade beneficiária.

A matéria reproduzia parte da audiência.

— Quem informou a conta para pagamento? — perguntara Dalva.

— A Quórum — respondera o representante da compradora.

— Quem aprovou o beneficiário final?

— O comitê financeiro.

— Onde está a ata?

O representante pedira prazo.

Íris leu o trecho duas vezes. A pergunta sobre a ata era simples. Ela havia passado dias analisando fluxos de aprovação sem exigir aquele documento específico durante a primeira rodada.

Sentiu alívio pela suspensão e vergonha por não ter chegado ao mesmo ponto. As duas reações coexistiam sem ordem útil.

Naquela noite, Vicente chegou ao apartamento às onze e meia. Trazia comida chinesa e estava com a camisa amassada nos cotovelos.

— Dia ruim? — perguntou Íris.

— Longo.

— Quer falar sobre o seu pai?

— Hoje, não.

Ela aceitou. Comeram no sofá e assistiram a metade de um filme. Vicente olhou o telefone várias vezes, sem abrir as mensagens.

Quando foram para o quarto, ele manteve o celular na sala.

No quadragésimo dia, Soraya convocou Íris às nove.

A sala de reuniões estava ocupada por duas caixas de documentos da admissão dela no Sampaio Vilar. Sobre a mesa, havia uma folha impressa com registros de transferência.

Íris reconheceu o identificador antes de ler o cabeçalho.

FT-LS-2019.

Caso Lessa.

Soraya indicou a cadeira.

— Encontramos isso na checagem realizada quando você entrou no escritório.

Íris sentou.

— Eu lembro do processo de admissão.

— Houve uma revisão de dispositivos e registros fornecidos pelo Ferraz Teles. Um analista identificou uma transferência fora do padrão. A ocorrência foi arquivada sem investigação aprofundada.

— Por quê?

— O responsável registrou que o volume podia corresponder a trabalho remoto autorizado. Ninguém confirmou.

Soraya empurrou a folha.

— Quarenta e três documentos copiados para um dispositivo externo. O identificador do dispositivo termina em 7C9A.

Íris leu o número inteiro. Sabia que o SSD terminava assim. Tinha visto a etiqueta muitas vezes antes de guardá-lo no cofre bancário.

— O que aconteceu? — perguntou Soraya.

A sala parecia menor. A mesa ocupava espaço suficiente para separar as duas, embora Íris percebesse detalhes do rosto da sócia, a linha mais funda junto à boca e a marca deixada pelos óculos no nariz.

— Eu estava no Caso Lessa. Houve uma urgência de preparação.

— Que urgência?

— Uma audiência e entrevistas com pessoas ligadas à cliente.

— Você tinha autorização para copiar os arquivos?

— Não formalizada.

— O dispositivo era seu?

— Sim.

— O material permaneceu nele?

Íris escolheu cada palavra.

— Copiei os documentos para trabalhar fora do ambiente do escritório. Depois excluí os arquivos.

Soraya não desviou os olhos.

— Quando?

— Depois da audiência.

— Há registro da exclusão?

— Não tenho.

— Onde está o dispositivo?

Íris segurou a borda da folha.

— Num cofre bancário.

— Você guardou um SSD vazio por sete anos?

A pergunta não trazia acusação explícita. Ainda assim, Íris sentiu o alcance dela.

— Guardei o dispositivo junto com outros arquivos pessoais.

— Quais documentos foram copiados?

— Memorandos de preparação, relatórios internos e comunicações da cliente.

— Algum terceiro teve acesso?

César apareceu na lembrança junto à mesa da cozinha, lendo o memorando enquanto esperava Íris sair do banho. Ela recordava a tela aberta e a mudança pequena na postura dele quando entrou na sala. Dois dias depois, César alterara um trecho relevante do depoimento.

— Não que eu tenha identificado naquela época.

A resposta saiu estável. Era falsa pela metade mais importante.

Soraya aproximou a folha.

— Preciso de uma declaração escrita completa. Também quero o dispositivo.

— Posso retirar amanhã.

— Traga lacrado. Você não liga, não conecta e não tenta verificar o conteúdo.

— Certo.

— Havia alguma relação pessoal com alguém ligado ao caso?

Íris sentiu o ar parar no peito.

— Minha declaração vai tratar do contexto inteiro.

— Perguntei agora.

— Eu preciso revisar as datas.

Soraya se recostou.

— Datas não mudam a existência da relação.

Íris baixou os olhos para o registro.

— Vou entregar a declaração.

— Até amanhã, meio-dia.

A reunião terminou às dez e cinco. Íris voltou à sala e tentou escrever. Produziu três parágrafos sobre a cópia dos documentos. Apagou o segundo. Reescreveu a data da audiência. Abriu o calendário de sete anos antes e encontrou compromissos que ainda reconhecia.

César Lessa aparecia em três entradas. “Preparação C.L.”, “Entrevista C.L.”, “Reunião externa”.

Nenhuma mencionava o apartamento dele.

Às treze, Íris enviou uma mensagem ao gerente do banco e agendou a abertura do cofre para a manhã seguinte.

Vicente chegou ao apartamento depois das dez. Trazia duas embalagens de massa e uma garrafa de vinho. Encontrou Íris sentada à mesa, com folhas impressas espalhadas diante dela.

Ela recolheu os papéis antes que ele se aproximasse.

— Trabalho?

— Revisão.

Vicente colocou as embalagens na cozinha.

— Encontraram alguma coisa?

— Um procedimento antigo.

— Grave?

— Pode ser.

Ele retirou duas taças do armário.

— Quer me contar?

Íris olhou para a mão dele no gargalo da garrafa.

— Ainda não organizei os fatos.

Vicente assentiu.

— Certo.

Não houve pergunta seguinte. Ele abriu o vinho, serviu as taças e levou a comida para a mesa. Falou sobre um livro que havia começado no carro, entre um compromisso e outro. Íris tentou acompanhar, embora parte da mente permanecesse no SSD.

Depois do jantar, Vicente recolheu os pratos. Íris ficou apoiada na pia enquanto ele lavava.

— Você não precisa fazer isso.

— Eu cozinhei ontem. Hoje lavo.

— Comprou comida pronta.

— Coordenei fornecedores.

Ela encostou a testa entre as escápulas dele.

— Isso é linguagem jurídica de hotelaria.

Vicente secou as mãos e se virou.

— Você está bem?

Íris tocou o rosto dele.

— Quero ir para o quarto.

Durante a intimidade, Vicente percebeu que ela evitava qualquer contato que retirasse de seu campo de visão o rosto dele. Quando tentou conduzi-la para o lado, Íris segurou o ombro dele e voltou.

Vicente parou.

— Quer continuar?

— Quero.

— Assim?

— Mais perto.

Ele mudou de posição. Íris envolveu o corpo dele e manteve os olhos abertos. O desejo estava ali, atravessado por uma urgência que Vicente não compreendia.

Depois, ele deitou ao lado dela.

— Fico?

— Fica.

Íris esperou que Vicente adormecesse. À uma e vinte, levantou, foi até a sala e abriu o notebook pessoal.

O formulário da revisão interna permanecia incompleto. Ela escreveu o número do processo, a data da transferência e o modelo do SSD.

Parou diante do campo “acesso por terceiro”.

Amanhã, entregaria o dispositivo.

Às duas e quatro, confirmou no aplicativo do banco o horário de retirada do cofre.

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