O MANDATO LIMITADO
Vicente descobriu que o título de presidente provisório vinha acompanhado por uma quantidade inédita de gente autorizada a dizer espere.
Na diretoria de operações, ele podia visitar uma unidade pela manhã, aprovar uma intervenção à tarde e cobrar o resultado na semana seguinte. Na presidência, cada decisão relevante exigia memorando, comparação de propostas e declaração de conflito.
Dalva participava das reuniões do comitê especial e lia os documentos até o fim.
No quarto mês do mandato, uma infiltração comprometeu parte do sistema elétrico de um hotel no interior. O gerente enviou fotografias, orçamento e indicação de um fornecedor capaz de iniciar o trabalho no dia seguinte.
Vicente aprovou a contratação às oito e vinte da manhã.
Às nove, a secretaria do conselho devolveu o pedido.
Faltava validação independente.
Vicente telefonou para Dalva.
— Temos quartos interditados.
— Eu li.
— O fornecedor consegue começar amanhã.
— Depois da validação.
— São quarenta e oito horas.
— É o prazo previsto.
— Eu conheço o prazo.
— Então sua ligação deve ter outro objetivo.
Vicente se levantou da cadeira.
— Meu objetivo é impedir que a água chegue ao quadro principal.
— A equipe local já isolou a área. A contratação definitiva pode esperar a análise.
— Você quer que eu alugue um barco para os hóspedes?
— Quero que cumpra a regra aprovada pelo conselho que você preside.
Vicente encerrou a ligação antes de responder algo que precisasse entrar em ata.
A validação ficou pronta no dia seguinte. O fornecedor indicado pelo gerente tinha participação indireta de um conselheiro afastado. A relação não constava da proposta.
Dalva levou o resultado à reunião do comitê.
— O atraso evitou outra contratação comprometida.
Vicente folheou o relatório.
— A obra ainda precisa começar.
— Outra empresa apresentou prazo equivalente.
— Com preço doze por cento maior.
— E sem vínculo oculto.
Ele assinou a autorização.
Depois da reunião, pediu à equipe de governança uma revisão do fluxo para casos emergenciais. O procedimento aprovado permitiu contratação provisória limitada a medidas de contenção, sujeita a conferência posterior. A solução ocupou seis páginas.
Vicente leu todas.
A sala de situação operacional surgiu de uma irritação parecida. Os relatórios das unidades chegavam filtrados por gerentes regionais, diretores e assessores. Quando alcançavam a presidência, os problemas já tinham linguagem suficiente para parecer administráveis.
Vicente reservou uma sala no andar do conselho, instalou painéis com dados de ocupação, manutenção e satisfação dos hóspedes. Convidou os gerentes das quatorze unidades a apresentar números diretamente aos conselheiros independentes.
Na primeira reunião, o gerente de um hotel no Nordeste informou que adiava a substituição de dois elevadores havia oito meses. O relatório regional tratava o problema como manutenção recorrente.
— Por que isso não apareceu no plano de capital? — perguntou Vicente.
O gerente olhou para o diretor regional.
— A orientação era tentar mais um ciclo de reparo.
— De quem?
O diretor regional mexeu no microfone.
— Foi uma decisão conjunta.
— Quem assinou?
Ninguém respondeu de imediato.
Dalva estava sentada perto da parede, com a pasta fechada diante dela. Vicente percebeu que todos aguardavam alguma indicação da presidência.
— Mandem os registros até o fim do dia — disse. — O gerente continua a apresentação.
Depois da reunião, o diretor regional entrou na sala de Vicente.
— Esse formato expõe a cadeia de comando.
— Essa é a finalidade.
— Os gerentes vão pular níveis.
— Eles apresentaram dados ao conselho numa reunião convocada pela presidência.
— Vai virar reclamação aberta.
— Então teremos reclamações documentadas.
O diretor saiu sem concordar.
A resistência diminuiu quando duas falhas operacionais foram corrigidas antes de gerar interdições. Os conselheiros passaram a fazer perguntas melhores. Os gerentes preparavam números próprios e deixaram de depender das apresentações produzidas pela sede.
Ao fim do quinto mês, o comitê de remuneração propôs um bônus extraordinário para Vicente. A justificativa citava a suspensão da venda, a recuperação da confiança dos bancos e a preservação das unidades mais lucrativas.
Vicente leu a proposta durante uma viagem de carro entre dois hotéis.
Telefonou para a presidente do comitê.
— Retire o bônus da pauta.
— O valor foi aprovado pelo comitê.
— Ainda depende do conselho.
— É uma sinalização ao mercado.
— Sinalizem com os relatórios.
— Vicente, a companhia atravessou uma crise grave. Sua atuação teve efeito direto.
Ele olhou pela janela. O carro avançava devagar numa rodovia em obras.
— A dívida continua alta. Temos unidades com problemas de qualidade. Condicione qualquer remuneração adicional às metas e use avaliação externa.
— Você está recusando?
— Estou pedindo outra estrutura.
— Isso pode ser interpretado como gesto público.
— Não publiquem.
O bônus foi substituído por uma parcela condicionada ao cumprimento das metas de dívida e qualidade. A avaliação ficaria a cargo de uma empresa escolhida pelos conselheiros independentes.
Dalva encontrou Vicente no corredor após a votação.
— Você sabe que ainda pode receber.
— Se as metas forem cumpridas.
— Sabe também que a recusa integral seria mais simples.
— Eu trabalho aqui.
— Essa resposta cabe melhor num contrato.
Vicente entrou no elevador antes que a porta fechasse.
A investigação dos contratos ligados a Ivo avançava em paralelo. Dalva coordenava a revisão com equipe própria e enviava relatórios ao comitê especial. Vicente recebia acesso às conclusões, sem interferir nas entrevistas.
Os pagamentos a Nádia Bastos apareceram primeiro em notas fiscais genéricas da Quórum Consultoria. Os serviços descritos envolviam análise de mercado. Os arquivos recuperados mostravam outra atividade.
Nádia recebera planilhas adulteradas.
Preparara notas anônimas para jornalistas.
Encaminhara projeções falsas a um analista de crédito.
Quando foi confrontada com as mensagens e os pagamentos, negociou colaboração. Entregou conversas mantidas com Sabina e Ivo, além de registros de reuniões com representantes da Pórtico.
Dalva apresentou o material numa reunião fechada.
O plano ocupava um diagrama projetado na parede.
Sabina pretendia reduzir a confiança dos bancos. A queda de confiança poderia provocar vencimento antecipado de obrigações financeiras. A Pórtico surgiria como compradora disponível para uma companhia pressionada pelo tempo. A comissão de vinte e quatro milhões paga à Quórum financiaria a parcela de quarenta por cento destinada a Sabina.
O dossiê de Íris aparecia em uma sequência separada.
A ordem de divulgação deveria ser acionada quando os contratos originais começassem a surgir. A crise ética atingiria o escritório, comprometeria a defesa e enfraqueceria Vicente dentro do conselho.
Numa das mensagens, Sabina perguntava a Ivo se “a advogada premiada” continuava vulnerável. Em outra, Nádia confirmava que os jornalistas receberiam o material em horários diferentes para ampliar a repercussão.
Vicente leu a transcrição até o fim.
Dalva desligou o projetor.
— A colaboração de Nádia ainda depende de validação externa. Parte das mensagens já foi confirmada nos servidores entregues pela Pórtico.
Um conselheiro perguntou:
— Isso encerra a discussão sobre a origem das provas da venda?
— A origem das provas corporativas já estava demonstrada — respondeu Dalva. — As principais evidências foram obtidas depois da substituição de Íris, por fontes independentes.
— A divulgação do dossiê foi uma manobra.
— Foi.
— Então o dano à defesa decorreu de Sabina.
Dalva abriu uma pasta.
— O dano à defesa decorreu de várias condutas. A divulgação foi coordenada por Sabina. Os fatos divulgados existiam.
Vicente manteve os olhos sobre a transcrição.
Depois da reunião, guardou uma cópia lacrada no arquivo da presidência. Não levou o documento para casa.
A companhia moveu ação para anular todos os atos relacionados à venda e cobrar indenização. A Pórtico resistiu durante três semanas. Quando os registros internos começaram a ser confrontados com as mensagens de Nádia, seus representantes propuseram acordo.
A negociação ocorreu em duas salas separadas. Vicente participou somente das etapas autorizadas pelo comitê. Dalva conduziu a frente jurídica.
A Pórtico renunciaria à transação, pagaria parte dos custos periciais e entregaria os registros internos referentes à operação. A companhia manteria o direito de agir contra outros envolvidos.
No fim da sessão, um dos advogados da Pórtico pediu alguns minutos com Vicente.
Dalva respondeu antes dele.
— Toda comunicação passa pela mesa.
O advogado ajeitou os papéis.
— Seria uma conversa empresarial.
— Então pode ocorrer aqui.
Ele desistiu.
A Quórum entrou em liquidação judicial. Ivo deixou o país durante a investigação e retornou depois de uma ordem relacionada ao processo. Vicente recebeu a notícia entre duas reuniões operacionais. Leu o comunicado, encaminhou ao comitê e voltou à planilha de ocupação.
Sabina perdera as funções executivas e a cadeira no conselho. As ações civis avançavam. A apuração criminal continuava aberta.
Gilberto voltou para casa no início do sexto mês.
A fala melhorara, embora cada frase exigisse tempo. Ele preferia usar o tablet para perguntas longas. Aos domingos, Vicente levava relatórios resumidos, impressos em fonte grande.
Na primeira visita, encontrou o pai sentado perto da janela, com uma manta sobre as pernas e uma partida de futebol sem som na televisão.
Vicente colocou os relatórios na mesa.
— Trouxe o resumo do mês.
Gilberto apontou para a pasta.
— Venda?
— Duas unidades secundárias.
O pai franziu a testa.
— Ruim.
— As duas exigem capital que a empresa não tem. Uma precisa de reforma estrutural. A outra opera abaixo do ponto de equilíbrio há quatro anos.
Gilberto estendeu a mão.
Vicente entregou o relatório. O pai leu devagar, deslizando o dedo sob as linhas.
— Barato?
— Teremos avaliações independentes e processo competitivo.
— Você... venderia?
— Com as propostas certas.
Gilberto largou as folhas.
— Seu avô comprou.
— Meu avô também fechou três hotéis.
O pai ergueu os olhos, ofendido.
— Depois abriu cinco — acrescentou Vicente.
Gilberto fez um gesto impaciente e pegou o tablet.
Digitou por quase um minuto.
“Você quer diminuir a empresa?”
— Quero impedir que os hotéis bons financiem indefinidamente os que não conseguem se sustentar.
Gilberto releu a resposta na tela do aparelho, embora ela tivesse sido falada. Depois abriu uma nova caixa de texto.
“Íris?”
Vicente ficou olhando para o nome.
— O que tem ela?
O pai digitou:
“Você fala?”
— Não falo com ela há meses.
Gilberto apagou a frase anterior e escreveu:
“Você acredita nela?”
Vicente se recostou na cadeira.
— Acredito no que ela admitiu. O resto ainda dói.
O pai leu os lábios dele e voltou ao tablet.
“Ela pagou?”
— Essa pergunta é ruim.
Gilberto apertou o botão de apagar com força. Escreveu outra frase:
“Ela respondeu?”
Vicente olhou para os relatórios sobre a mesa.
— Está respondendo.
O pai assentiu e voltou a assistir ao jogo.
A pergunta acompanhou Vicente nas semanas seguintes.
Ele recebera informações sobre a suspensão de Íris pelos comunicados públicos. Soubera da revogação do prêmio. A perda de voto no escritório aparecera numa nota curta de mercado. A mediação Lessa corria sob confidencialidade, e ele não buscou detalhes fora dos registros permitidos.
Sua distância tinha uma razão que conseguia explicar em reuniões e outra que evitava formular.
Procurá-la durante as sanções poderia transformar qualquer gesto em intervenção. Ele era presidente da companhia envolvida no caso recente, integrante da família atingida e uma das pessoas citadas no processo disciplinar. Um contato seu ganharia interpretações que nenhum dos dois controlaria.
Também continuava desejando Íris.
O desejo surgia em horários inconvenientes. Depois de uma reunião difícil. Ao entrar num elevador vazio. Diante de uma frase excessivamente longa preparada pelo jurídico. Ele lembrava a forma exata com que ela interrompia uma resposta para substituir uma palavra, a concentração com que lia contratos e a mão encostada no peito dele antes do beijo.
A abstinência retirara aquilo de sua rotina. Não diminuíra a força.
Vicente apagava mensagens antes de terminar. Em algumas, perguntava se ela estava bem. Em outras, escrevia apenas o nome.
Nenhuma foi enviada.
No sétimo mês, a venda competitiva das duas unidades deficitárias entrou na fase de propostas. O hotel de Goiânia recebeu interesse de três grupos. A outra unidade atraiu duas ofertas abaixo das avaliações.
Gilberto criticou a decisão outra vez.
— Espera — disse, esforçando-se para articular.
— Esperar custa dinheiro.
— Ano.
— Um ano exige investimento que reduziria a reforma de quatro unidades rentáveis.
O pai apontou para o relatório.
— Banco.
— A dívida já precisa cair.
Gilberto usou o tablet.
“Você fala igual aos conselheiros.”
— Considero isso um avanço recente.
O pai soltou uma risada curta, seguida de tosse.
Vicente lhe deu água.
No oitavo mês, o conselho iniciou a preparação do relatório intermediário do mandato. Cada medida seria acompanhada de documentos. O texto registraria a suspensão da venda dos seis hotéis lucrativos, o acordo com a Pórtico e a revisão de contratos. Também traria as vendas competitivas em curso e a evolução da dívida.
A assessoria sugeriu incluir uma seção sobre liderança de crise.
Vicente cortou a seção.
— O relatório é da companhia — explicou.
— O mercado quer avaliar sua permanência — disse a assessora.
— Minha permanência será decidida no fim do mandato.
— A ausência de sinal pode gerar incerteza.
— Existe incerteza.
O conselho aprovou o relatório no início do nono mês. Vicente aceitou formalmente que o mandato terminasse na data prevista, sem compromisso de renovação.
Na mesma reunião, apresentou uma alteração nas regras de contratação de serviços jurídicos. A presidência deixaria de escolher sozinha os escritórios. Contratações relevantes exigiriam análise comparativa e aprovação do comitê independente. Escritórios ligados pessoalmente a executivos ou conselheiros ficariam sujeitos a impedimento expresso.
Dalva leu a proposta durante o intervalo.
— Você incluiu uma vedação específica a escritórios com relação pessoal com executivos.
— Incluí.
— A política geral de conflitos já cobria parte disso.
— Parte.
— Por que tornar expresso?
Vicente fechou a garrafa de água.
— Porque a regra precisava existir antes de eu precisar dela.
Dalva apoiou a folha na mesa.
— Agora sua resposta cabe numa ata.
A regra foi aprovada por unanimidade. Sua redação eliminava qualquer possibilidade de Vicente contratar Íris por decisão pessoal. O Sampaio Vilar também ficava impedido de atuar para a Alvarenga Hotéis enquanto existisse relação entre eles ou risco razoável de conflito.
Vicente assinou a resolução depois da reunião.
Alguns dias depois, encontrou o endereço profissional supervisionado de Íris em um registro público ligado ao monitoramento. O escritório ficava no mesmo edifício. A sala indicada era outra.
Ele abriu uma mensagem.
“Soube do seu retorno.”
Apagou.
Tentou outra.
“Meu pai perguntou por você.”
Apagou também.
O relatório final da revisão ainda não havia sido publicado. A mediação Lessa continuava em andamento. Vicente fechou o aplicativo e abriu o arquivo sobre a unidade de Goiânia.
No fim da tarde, recebeu a versão atualizada das propostas. Uma delas aumentara o valor, condicionando a compra à verificação das licenças e dos contratos de trabalho.
A reunião começaria em dez minutos.
Vicente criou uma pasta pessoal no computador. Nomeou-a “Rascunhos”. Salvou ali uma mensagem sem destinatário:
“Quando houver documentos suficientes para uma conversa, eu gostaria de ter essa conversa.”
Fechou a pasta, levou o relatório de Goiânia e voltou à sala do conselho.