A ATA AUSENTE
Íris passou a incluir uma terceira pessoa em qualquer reunião com Vicente.
No décimo quinto dia, pediu que um associado acompanhasse a revisão dos relatórios operacionais. Na manhã seguinte, chamou uma integrante da equipe forense para a conversa sobre os computadores do gabinete de Sabina. Quando Vicente telefonava, ela registrava o assunto, a duração e os documentos mencionados.
Releu as mensagens anteriores entre os dois. Não havia conteúdo pessoal. A aproximação no elevador terminara antes do beijo. O contato no cabelo e a mão dela na lapela bastavam para demonstrar o risco.
Íris não precisava de uma infração consumada para reconhecer o comprometimento do julgamento.
O trabalho lhe oferecia medidas concretas. Distância, registro, testemunhas e horários restritos. Ela adotou todas.
A equipe encontrou a primeira referência à reunião desaparecida numa planilha de despesas do conselho. Cinco meses antes, a companhia pagara o serviço de videoconferência, a transcrição e o transporte de documentos para o hospital de reabilitação onde Gilberto permanecia internado.
A ata não estava no livro digital. Também não aparecia no arquivo físico.
Na pauta daquela data, Sabina apresentaria o primeiro estudo produzido pela Atria e pediria autorização para procurar compradores.
Íris convocou Vicente para uma reunião com a equipe.
— Seu pai participou?
— Por videoconferência. Falou por poucos minutos.
— Quem votou em nome dele depois?
— Sabina usou a procuração.
— Você viu o documento?
— Vi uma cópia parcial. A autorização permitia representá-lo durante o tratamento.
— Em qualquer matéria?
— A parte que recebi não dizia.
— Precisamos ouvir Gilberto.
Vicente fechou a pasta diante dele.
— Ele está em reabilitação. Fala pouco. Usa um tablet adaptado.
— A manifestação pode ser acompanhada por médico e registrada no equipamento. Soraya também estará presente.
— Ele se cansa rápido.
— Limitaremos as perguntas.
— Eu quero participar.
— Primeiro, precisamos colher a declaração sem familiares na sala.
A reação dele surgiu no maxilar.
— Você acha que eu induziria meu pai?
— A declaração terá mais força se nenhum interessado estiver ao lado dele.
— Sabina é filha do irmão dele. Toda a família está envolvida.
— Por isso o cuidado precisa ser maior.
Vicente se levantou.
— Marque a visita.
O hospital de reabilitação ficava numa rua arborizada, longe do fluxo da Paulista. Íris chegou acompanhada de Soraya. Um médico indicado pela família explicou que Gilberto conseguia compreender perguntas e selecionar palavras no tablet. A fadiga afetava a velocidade das respostas, sem impedir a comunicação.
O quarto possuía uma janela ampla e uma poltrona adaptada. Gilberto estava sentado, com uma manta sobre as pernas e o tablet preso a um suporte móvel.
Vicente aguardou do lado de fora.
Íris se apresentou e explicou o motivo da visita. Gilberto moveu a mão direita até a tela. O aparelho pronunciou a resposta numa voz eletrônica.
— Eu conheço você.
Ela se aproximou sem ultrapassar a marca indicada pelo médico no chão.
— Já nos encontramos no jantar do prêmio.
Gilberto selecionou outra frase.
— Você falou demais no discurso.
Soraya abaixou os olhos para esconder a reação.
Íris respondeu:
— A crítica é válida.
O médico confirmou que poderiam começar.
Íris fez perguntas curtas. Gilberto respondeu que autorizara Sabina a conversar com possíveis investidores. A autorização permitia sondagens e apresentação de propostas ao conselho.
— O senhor autorizou a venda dos seis hotéis?
Gilberto levou alguns segundos até localizar as palavras.
— Não.
— Autorizou exclusividade para a Pórtico Capital?
— Não.
— Autorizou comissão de êxito?
— Não.
Íris mostrou a descrição do primeiro estudo da Atria.
— O senhor recebeu uma avaliação financeira dos seis hotéis?
— Sim.
— Os valores eram iguais aos que aparecem neste pacote?
Gilberto leu a tela impressa. O dedo se moveu devagar.
— Eram maiores.
— O senhor se recorda de alguma condição específica discutida na reunião?
A resposta demorou. O médico perguntou se ele queria uma pausa. Gilberto recusou com um toque.
— Estudo completo.
— O senhor pediu acesso ao estudo completo?
— Sim.
— Pediu consulta aos acionistas minoritários?
— Sim.
Íris encerrou antes que o cansaço prejudicasse a segurança das respostas. Soraya confirmou o registro no tablet e salvou uma cópia sob custódia externa. O médico assinou o relatório de capacidade comunicativa durante a entrevista.
Gilberto escreveu mais uma frase antes que elas se afastassem.
— Vicente entra agora.
Íris abriu a porta.
— Ele pediu você.
Vicente passou por ela sem perguntar sobre a declaração. Íris e Soraya permaneceram no corredor. Pelo vidro, viram Vicente se ajoelhar ao lado da cadeira. Ele ajustou a manta sobre as pernas do pai e disse algo que não atravessou a divisória. Gilberto ergueu a mão com esforço e tocou o rosto do filho.
Vicente segurou o punho dele, mantendo a mão junto à própria face.
Íris desviou os olhos para o tablet que Soraya carregava. A imagem de Vicente no chão não combinava com o diretor que atravessava cozinhas em obras, discutia ocupação de quartos e enfrentava o conselho sem baixar a voz. A diferença a atingiu num lugar que ela vinha tentando manter ocupado por protocolos.
Quando ele saiu, o controle já havia retornado ao rosto.
— O que ele disse?
— Confirmou que autorizou contatos preliminares — respondeu Íris. — Negou autorização para venda, exclusividade e comissão.
— Ela usou a procuração dele.
— Precisamos provar o alcance.
Vicente olhou para a porta fechada.
— Meu pai disse o que autorizou.
— A declaração ajuda. Os documentos ainda precisam sustentar a versão.
— Você ouviu o esforço que ele fez para responder.
— Ouvi.
— Então pare de falar dele como documento.
A frase alcançou Íris antes que ela preparasse a defesa. Soraya ficou alguns passos atrás, junto ao médico.
Íris escolheu as palavras.
— Eu estava falando da decisão societária. Seu pai merece que a declaração sobreviva ao ataque jurídico que receberá.
Vicente continuou olhando para ela. A raiva perdeu parte da força.
— Eu sei o que você está fazendo.
— Ótimo.
— Isso não torna fácil ouvir.
— Eu não esperava que tornasse.
Ele respirou pelo nariz.
— Desculpe.
Íris assentiu.
— Vamos encontrar a procuração.
A busca recomeçou no arquivo corporativo. O funcionário responsável entregou os livros físicos, caixas de pautas e pastas de apoio das reuniões ocorridas durante o primeiro ano de tratamento de Gilberto.
A ata ausente não apareceu.
Perto das cinco da tarde, Íris encontrou uma cópia impressa da pauta entre relatórios de expansão. O papel havia sido dobrado ao meio. No verso, três anotações manuscritas ocupavam a margem:
“estudo completo”
“sem exclusividade”
“consultar minoritários”
Vicente reconheceu a letra.
— É dele.
— Precisamos de comparação.
— Há dezenas de notas no arquivo. Ele usava canetas iguais.
— A equipe documental verifica.
Íris colocou a folha num envelope transparente. O funcionário registrou a localização, o número da caixa e a posição do documento.
No escritório, Soraya convocou uma videoconferência com os representantes dos acionistas minoritários. Um fundo de pensão contratara Dalva Nobre para acompanhar a crise.
Dalva apareceu na tela de uma sala sem elementos pessoais. Usava óculos de armação escura e consultava o protocolo enviado pelo comitê. Aos quarenta e três anos, possuía reputação construída em disputas societárias e investigações de conselhos. Íris conhecia dois casos em que ela desmontara relatórios internos por falhas de custódia.
Após as apresentações, Dalva dispensou qualquer comentário sobre prestígio ou histórico profissional.
— Qual fato mudaria sua hipótese principal? — perguntou.
Íris respondeu sem consultar notas.
— Um contrato de êxito regular, aprovado pelo conselho e sem vínculo com a compradora enfraqueceria a suspeita de autonegociação.
— E qual fato a tornaria urgente?
— Um interesse econômico de Sabina na Pórtico ou na remuneração da Quórum.
Dalva avançou uma página do protocolo.
— Quem controla os servidores em que os arquivos estão sendo preservados?
— A diretoria de tecnologia, sob supervisão do comitê — respondeu Soraya.
— A diretoria responde a quem?
Vicente estava na outra ponta da mesa.
— Administrativamente, à vice-presidência do conselho.
— Sabina?
— Sim.
Dalva voltou o rosto para Íris.
— Então parte da prova continua sob controle de uma pessoa incluída na hipótese.
A pergunta abriu uma falha que a equipe tratara apenas por restrições internas de acesso. Os servidores permaneciam fisicamente dentro da companhia. Administradores ligados à estrutura de Sabina ainda possuíam capacidade técnica para alterar registros de manutenção ou interferir em cópias futuras.
— Precisamos de duplicação forense externa — disse Íris.
— E de custódia fora da companhia — acrescentou Dalva. — Qualquer medida contra a venda deve partir do comitê. A prova principal precisa sobreviver a uma troca de administradores.
Soraya fez uma anotação.
— Levaremos o pedido à votação hoje.
Dalva prosseguiu:
— Quero acesso aos registros de custódia e às decisões de escopo. Também quero saber quais arquivos foram obtidos antes de cada alteração de permissão.
— O protocolo será compartilhado — disse Íris.
— Com índice de versões.
— Sim.
Dalva encerrou a participação após solicitar que o fundo recebesse as futuras comunicações sobre a venda.
O comitê aprovou a cópia forense externa naquela noite. Dois peritos independentes iniciaram a duplicação dos servidores. Cada imagem recebeu verificação criptográfica e foi enviada a um ambiente contratado pelo comitê, fora da rede da Alvarenga Hotéis.
Íris acompanhou o início do procedimento até depois da meia-noite.
No vigésimo dia, às três e vinte e seis da manhã, um perito ligou.
— Encontramos um fragmento de calendário apagado.
Íris abriu o computador.
O registro pertencia a uma conta administrativa ligada ao gabinete de Sabina. O evento havia sido excluído, embora parte da informação continuasse recuperável na imagem do servidor.
Data: três semanas antes da primeira autorização do conselho.
Participantes: Sabina, Ivo Marins e dois executivos da Pórtico Capital.
Local: escritório externo da Quórum.
— Convite enviado por quem? — perguntou Íris.
— Conta de Ivo. A aceitação dos executivos está preservada.
— Algum anexo?
— O índice indica dois. O conteúdo ainda não apareceu.
Íris telefonou para Soraya e preparou a inclusão do evento no pedido de preservação judicial. O documento exigiria à Pórtico e à Quórum a manutenção de calendários, mensagens, anexos e registros de acesso ligados à reunião.
Antes das seis, o pedido estava pronto.
Íris também solicitou o depoimento dos dois executivos da compradora. Encaminhou as minutas ao comitê e incluiu Dalva na comunicação destinada aos representantes dos minoritários.
O sol começava a atingir as janelas do escritório quando ela recebeu a confirmação da distribuição.