A ATA AUSENTE Advogada do Ano · Capítulo 7 de 21
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A ATA AUSENTE

Íris passou a incluir uma terceira pessoa em qualquer reunião com Vicente.

No décimo quinto dia, pediu que um associado acompanhasse a revisão dos relatórios operacionais. Na manhã seguinte, chamou uma integrante da equipe forense para a conversa sobre os computadores do gabinete de Sabina. Quando Vicente telefonava, ela registrava o assunto, a duração e os documentos mencionados.

Releu as mensagens anteriores entre os dois. Não havia conteúdo pessoal. A aproximação no elevador terminara antes do beijo. O contato no cabelo e a mão dela na lapela bastavam para demonstrar o risco.

Íris não precisava de uma infração consumada para reconhecer o comprometimento do julgamento.

O trabalho lhe oferecia medidas concretas. Distância, registro, testemunhas e horários restritos. Ela adotou todas.

A equipe encontrou a primeira referência à reunião desaparecida numa planilha de despesas do conselho. Cinco meses antes, a companhia pagara o serviço de videoconferência, a transcrição e o transporte de documentos para o hospital de reabilitação onde Gilberto permanecia internado.

A ata não estava no livro digital. Também não aparecia no arquivo físico.

Na pauta daquela data, Sabina apresentaria o primeiro estudo produzido pela Atria e pediria autorização para procurar compradores.

Íris convocou Vicente para uma reunião com a equipe.

— Seu pai participou?

— Por videoconferência. Falou por poucos minutos.

— Quem votou em nome dele depois?

— Sabina usou a procuração.

— Você viu o documento?

— Vi uma cópia parcial. A autorização permitia representá-lo durante o tratamento.

— Em qualquer matéria?

— A parte que recebi não dizia.

— Precisamos ouvir Gilberto.

Vicente fechou a pasta diante dele.

— Ele está em reabilitação. Fala pouco. Usa um tablet adaptado.

— A manifestação pode ser acompanhada por médico e registrada no equipamento. Soraya também estará presente.

— Ele se cansa rápido.

— Limitaremos as perguntas.

— Eu quero participar.

— Primeiro, precisamos colher a declaração sem familiares na sala.

A reação dele surgiu no maxilar.

— Você acha que eu induziria meu pai?

— A declaração terá mais força se nenhum interessado estiver ao lado dele.

— Sabina é filha do irmão dele. Toda a família está envolvida.

— Por isso o cuidado precisa ser maior.

Vicente se levantou.

— Marque a visita.

O hospital de reabilitação ficava numa rua arborizada, longe do fluxo da Paulista. Íris chegou acompanhada de Soraya. Um médico indicado pela família explicou que Gilberto conseguia compreender perguntas e selecionar palavras no tablet. A fadiga afetava a velocidade das respostas, sem impedir a comunicação.

O quarto possuía uma janela ampla e uma poltrona adaptada. Gilberto estava sentado, com uma manta sobre as pernas e o tablet preso a um suporte móvel.

Vicente aguardou do lado de fora.

Íris se apresentou e explicou o motivo da visita. Gilberto moveu a mão direita até a tela. O aparelho pronunciou a resposta numa voz eletrônica.

— Eu conheço você.

Ela se aproximou sem ultrapassar a marca indicada pelo médico no chão.

— Já nos encontramos no jantar do prêmio.

Gilberto selecionou outra frase.

— Você falou demais no discurso.

Soraya abaixou os olhos para esconder a reação.

Íris respondeu:

— A crítica é válida.

O médico confirmou que poderiam começar.

Íris fez perguntas curtas. Gilberto respondeu que autorizara Sabina a conversar com possíveis investidores. A autorização permitia sondagens e apresentação de propostas ao conselho.

— O senhor autorizou a venda dos seis hotéis?

Gilberto levou alguns segundos até localizar as palavras.

— Não.

— Autorizou exclusividade para a Pórtico Capital?

— Não.

— Autorizou comissão de êxito?

— Não.

Íris mostrou a descrição do primeiro estudo da Atria.

— O senhor recebeu uma avaliação financeira dos seis hotéis?

— Sim.

— Os valores eram iguais aos que aparecem neste pacote?

Gilberto leu a tela impressa. O dedo se moveu devagar.

— Eram maiores.

— O senhor se recorda de alguma condição específica discutida na reunião?

A resposta demorou. O médico perguntou se ele queria uma pausa. Gilberto recusou com um toque.

— Estudo completo.

— O senhor pediu acesso ao estudo completo?

— Sim.

— Pediu consulta aos acionistas minoritários?

— Sim.

Íris encerrou antes que o cansaço prejudicasse a segurança das respostas. Soraya confirmou o registro no tablet e salvou uma cópia sob custódia externa. O médico assinou o relatório de capacidade comunicativa durante a entrevista.

Gilberto escreveu mais uma frase antes que elas se afastassem.

— Vicente entra agora.

Íris abriu a porta.

— Ele pediu você.

Vicente passou por ela sem perguntar sobre a declaração. Íris e Soraya permaneceram no corredor. Pelo vidro, viram Vicente se ajoelhar ao lado da cadeira. Ele ajustou a manta sobre as pernas do pai e disse algo que não atravessou a divisória. Gilberto ergueu a mão com esforço e tocou o rosto do filho.

Vicente segurou o punho dele, mantendo a mão junto à própria face.

Íris desviou os olhos para o tablet que Soraya carregava. A imagem de Vicente no chão não combinava com o diretor que atravessava cozinhas em obras, discutia ocupação de quartos e enfrentava o conselho sem baixar a voz. A diferença a atingiu num lugar que ela vinha tentando manter ocupado por protocolos.

Quando ele saiu, o controle já havia retornado ao rosto.

— O que ele disse?

— Confirmou que autorizou contatos preliminares — respondeu Íris. — Negou autorização para venda, exclusividade e comissão.

— Ela usou a procuração dele.

— Precisamos provar o alcance.

Vicente olhou para a porta fechada.

— Meu pai disse o que autorizou.

— A declaração ajuda. Os documentos ainda precisam sustentar a versão.

— Você ouviu o esforço que ele fez para responder.

— Ouvi.

— Então pare de falar dele como documento.

A frase alcançou Íris antes que ela preparasse a defesa. Soraya ficou alguns passos atrás, junto ao médico.

Íris escolheu as palavras.

— Eu estava falando da decisão societária. Seu pai merece que a declaração sobreviva ao ataque jurídico que receberá.

Vicente continuou olhando para ela. A raiva perdeu parte da força.

— Eu sei o que você está fazendo.

— Ótimo.

— Isso não torna fácil ouvir.

— Eu não esperava que tornasse.

Ele respirou pelo nariz.

— Desculpe.

Íris assentiu.

— Vamos encontrar a procuração.

A busca recomeçou no arquivo corporativo. O funcionário responsável entregou os livros físicos, caixas de pautas e pastas de apoio das reuniões ocorridas durante o primeiro ano de tratamento de Gilberto.

A ata ausente não apareceu.

Perto das cinco da tarde, Íris encontrou uma cópia impressa da pauta entre relatórios de expansão. O papel havia sido dobrado ao meio. No verso, três anotações manuscritas ocupavam a margem:

“estudo completo”

“sem exclusividade”

“consultar minoritários”

Vicente reconheceu a letra.

— É dele.

— Precisamos de comparação.

— Há dezenas de notas no arquivo. Ele usava canetas iguais.

— A equipe documental verifica.

Íris colocou a folha num envelope transparente. O funcionário registrou a localização, o número da caixa e a posição do documento.

No escritório, Soraya convocou uma videoconferência com os representantes dos acionistas minoritários. Um fundo de pensão contratara Dalva Nobre para acompanhar a crise.

Dalva apareceu na tela de uma sala sem elementos pessoais. Usava óculos de armação escura e consultava o protocolo enviado pelo comitê. Aos quarenta e três anos, possuía reputação construída em disputas societárias e investigações de conselhos. Íris conhecia dois casos em que ela desmontara relatórios internos por falhas de custódia.

Após as apresentações, Dalva dispensou qualquer comentário sobre prestígio ou histórico profissional.

— Qual fato mudaria sua hipótese principal? — perguntou.

Íris respondeu sem consultar notas.

— Um contrato de êxito regular, aprovado pelo conselho e sem vínculo com a compradora enfraqueceria a suspeita de autonegociação.

— E qual fato a tornaria urgente?

— Um interesse econômico de Sabina na Pórtico ou na remuneração da Quórum.

Dalva avançou uma página do protocolo.

— Quem controla os servidores em que os arquivos estão sendo preservados?

— A diretoria de tecnologia, sob supervisão do comitê — respondeu Soraya.

— A diretoria responde a quem?

Vicente estava na outra ponta da mesa.

— Administrativamente, à vice-presidência do conselho.

— Sabina?

— Sim.

Dalva voltou o rosto para Íris.

— Então parte da prova continua sob controle de uma pessoa incluída na hipótese.

A pergunta abriu uma falha que a equipe tratara apenas por restrições internas de acesso. Os servidores permaneciam fisicamente dentro da companhia. Administradores ligados à estrutura de Sabina ainda possuíam capacidade técnica para alterar registros de manutenção ou interferir em cópias futuras.

— Precisamos de duplicação forense externa — disse Íris.

— E de custódia fora da companhia — acrescentou Dalva. — Qualquer medida contra a venda deve partir do comitê. A prova principal precisa sobreviver a uma troca de administradores.

Soraya fez uma anotação.

— Levaremos o pedido à votação hoje.

Dalva prosseguiu:

— Quero acesso aos registros de custódia e às decisões de escopo. Também quero saber quais arquivos foram obtidos antes de cada alteração de permissão.

— O protocolo será compartilhado — disse Íris.

— Com índice de versões.

— Sim.

Dalva encerrou a participação após solicitar que o fundo recebesse as futuras comunicações sobre a venda.

O comitê aprovou a cópia forense externa naquela noite. Dois peritos independentes iniciaram a duplicação dos servidores. Cada imagem recebeu verificação criptográfica e foi enviada a um ambiente contratado pelo comitê, fora da rede da Alvarenga Hotéis.

Íris acompanhou o início do procedimento até depois da meia-noite.

No vigésimo dia, às três e vinte e seis da manhã, um perito ligou.

— Encontramos um fragmento de calendário apagado.

Íris abriu o computador.

O registro pertencia a uma conta administrativa ligada ao gabinete de Sabina. O evento havia sido excluído, embora parte da informação continuasse recuperável na imagem do servidor.

Data: três semanas antes da primeira autorização do conselho.

Participantes: Sabina, Ivo Marins e dois executivos da Pórtico Capital.

Local: escritório externo da Quórum.

— Convite enviado por quem? — perguntou Íris.

— Conta de Ivo. A aceitação dos executivos está preservada.

— Algum anexo?

— O índice indica dois. O conteúdo ainda não apareceu.

Íris telefonou para Soraya e preparou a inclusão do evento no pedido de preservação judicial. O documento exigiria à Pórtico e à Quórum a manutenção de calendários, mensagens, anexos e registros de acesso ligados à reunião.

Antes das seis, o pedido estava pronto.

Íris também solicitou o depoimento dos dois executivos da compradora. Encaminhou as minutas ao comitê e incluiu Dalva na comunicação destinada aos representantes dos minoritários.

O sol começava a atingir as janelas do escritório quando ela recebeu a confirmação da distribuição.

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