A RUPTURA
Vicente recebeu o dossiê no sexagésimo primeiro dia, dentro de uma sala fechada no décimo andar da matriz. O arquivo chegou por dois grupos de mensagens e por um conselheiro que escreveu apenas: “Você precisa ver isso”.
Ele abriu a primeira página no telefone.
Dalva tomou o aparelho da mão dele.
— Ninguém encaminha nada. Nem para advogado, nem para familiar, nem para quem disser que já recebeu.
— Isso está em todos os portais.
— E pode conter documento protegido, dado pessoal e adulteração. O pacote é arma e prova. Trate cada página pelas duas funções.
Vicente ficou de pé junto à janela. A cidade lá embaixo seguia em horário de escritório. Caminhões faziam entregas, funcionários atravessavam a rua com crachás no pescoço, um ônibus parava diante do hotel. A normalidade o irritou.
Dalva colocou o telefone sobre a mesa e chamou Miriam Coelho, a perita que coordenava a coleta dos arquivos da Pórtico.
— Quero uma cópia preservada, com registro de origem e horário. Sem abrir anexos em equipamento da rede.
Miriam assentiu e saiu.
— Foi Sabina?
— Ainda não posso afirmar.
— O material aparece horas depois de encontrarmos os contratos.
— A ligação temporal é forte. A prova precisa de caminho verificável.
Dalva abriu uma pasta com os documentos recuperados da nuvem contábil.
— Temos algo mais urgente. A versão original do contrato entre Pórtico e Quórum confirma a comissão de vinte e quatro milhões. Este anexo identifica a sociedade beneficiária ligada a Sabina. Aqui há uma cláusula de restituição caso o interesse econômico dela seja divulgado.
Vicente leu o trecho apontado. As iniciais de Sabina apareciam num quadro reservado aos beneficiários indiretos.
— Eles sabiam.
— Sabiam e prepararam uma saída financeira para o vazamento. Vou pedir ampliação da tutela ainda hoje.
Dalva continuou explicando os próximos atos, porém as palavras chegavam quebradas. Vicente voltou a olhar o telefone. Na tela bloqueada, notificações exibiam o nome de Íris ao lado de termos que ele conhecia bem demais: conflito de interesses, documentos copiados, depoimento alterado.
— Preciso ler.
— Precisa ler com controle de acesso. Miriam vai preparar uma estação isolada.
— Dalva.
— Você é diretor da companhia e alvo indireto de uma operação de coerção. Reagir mal ajuda quem enviou.
Ele puxou uma cadeira.
Quarenta minutos depois, recebeu acesso ao pacote preservado. Leu numa sala menor, sem telefone. O dossiê começava pelas fotografias. Íris e César saindo de restaurantes, entrando num prédio, dividindo um elevador. Em seguida vinham mensagens. Havia desejo, planejamento de encontros e queixas sobre horários. Íris dizia que não podia vê-lo antes de uma entrevista. César respondia que a investigação parecia acompanhá-los até a cama.
Vicente reconheceu o modo como ela delimitava frases quando queria manter uma área sob controle. Também reconheceu afeto. Não havia dúvida de que o relacionamento existira durante o Caso Lessa.
Os documentos copiados apareciam em miniaturas, com datas de transferência. Um texto narrativo afirmava que Íris orientara César a alterar o depoimento. A conclusão parecia maior que os registros disponíveis, mas o memorando aberto no notebook permanecia no centro do pacote.
Dalva entrou depois de uma hora.
— Conseguiu separar documento de narrativa?
— O suficiente para saber que ela escondeu isso.
— Provavelmente. Ainda precisamos ouvir Íris e revisar a autenticidade do conjunto.
— Ela me mandou uma mensagem hoje cedo. Disse que recebeu uma ameaça ligada a um caso antigo.
Dalva estendeu a mão.
— Posso ver?
Vicente escreveu a frase num papel, sem entregar o telefone.
— Foi antes da publicação?
— Quatro minutos antes do primeiro portal.
Dalva anotou o horário.
— Isso interessa à cadeia. Encaminhe somente a mensagem dela para Miriam, por meio do canal que vou indicar.
— Você sabia da ameaça?
— Não.
— Soraya sabia?
— Não posso responder pelo escritório antigo de Íris.
Vicente levantou.
— Eu vou falar com ela.
— Fale como homem que se relaciona com ela. Não tente investigar. Não peça documentos. Não leve informação dos contratos.
— Eu entendi.
— Entendeu agora. Quero que lembre quando estiver com raiva.
À noite, havia três carros de imprensa diante do prédio de Íris. Vicente entrou pela garagem depois que o porteiro confirmou sua autorização. No elevador, viu o próprio rosto refletido no aço e lembrou da fotografia dela com César. O enquadramento alto, o toque na cintura, a facilidade de um vínculo escondido dentro de uma investigação.
Íris abriu a porta antes que ele tocasse pela segunda vez. Estava sem maquiagem, vestida com camisa branca e calça escura. O cabelo preso deixava à mostra uma marca avermelhada na nuca, talvez causada pelo elástico.
— Entra.
A sala parecia maior. O troféu já não estava na estante.
Vicente deixou a chave do carro sobre a mesa.
— Eu li.
— Eu imaginei.
— Quero ouvir de você.
Íris indicou o sofá. Ele continuou em pé.
Ela começou pelo início. Contou que conhecera César durante a investigação interna, que ele era diretor de expansão e irmão da presidente do conselho. Explicou o relacionamento oculto. Falou do feriado, do notebook aberto, da ligação atendida na varanda e da versão alterada no depoimento seguinte.
Vicente interrompeu.
— Você sabia que ele tinha lido?
— Eu suspeitei.
— Essa palavra serve para quê aqui?
— Para separar o que eu vi do que concluí. Eu o encontrei diante da tela. Ele negou o acesso. Depois mudou a versão no ponto exato do memorando.
— E você ficou no caso.
— Fiquei.
— Copiou quarenta e três documentos.
— Sim.
— Guardou o SSD sete anos.
— Sim.
Cada resposta curta retirava uma possibilidade de erro no pacote. Vicente caminhou até a janela. Lá embaixo, uma câmera apontava para a entrada do prédio.
— Você recebeu a ameaça quando?
— Dois dias antes da divulgação.
Ele virou.
— Por que você não me contou no primeiro dia?
— Tive medo.
— De eu terminar?
— Também.
— O que mais?
Íris baixou os olhos para a mesa. O carregador dele estava ligado perto do sofá. Uma camisa azul, esquecida na semana anterior, aparecia dobrada sobre uma cadeira.
— Eu queria saber quanto Sabina tinha. Uma parte de mim pensou que continuar perto de você poderia me ajudar a entender.
Vicente deu um passo para trás.
— Você ficou comigo para chegar nela?
— Eu continuei com você porque queria você. O medo influenciou o atraso.
— Você sabia que ela podia usar isso dentro do caso.
— Eu já estava fora da representação.
— Você estava na minha cama enquanto decidia o que me contar sobre uma arma que Sabina apontava para nós dois.
Íris não corrigiu a palavra. Também não tentou aproximar-se.
— Sim.
Vicente sentiu o estômago contrair. A noite em que ela o impedira de falar da empresa voltou inteira. Íris havia criado uma fronteira rígida para proteger a separação entre caso e relação. Ele respeitara. Agora descobria que uma ameaça ligada ao caso entrara no apartamento com ela e permanecera ali durante dois dias.
— Você usou alguma informação minha para reagir?
— Não.
— Perguntou sobre os contratos, sobre Sabina ou sobre Dalva?
— Não.
— Falou com Dalva?
— Não. Entreguei a mensagem a Soraya e a Leonor. Elas preservaram o aparelho. Soraya autorizou que eu dissesse a você que havia uma ameaça ligada a material ético antigo. Eu pedi algumas horas e deixei virar dois dias.
— Por quê?
— Porque eu queria controlar a ordem em que você saberia.
Vicente riu uma vez, sem humor.
— Você me ensinou a separar alegação de documento.
— Continuo acreditando nisso.
— Enquanto escondia um fato que mudava a leitura que eu fazia de você.
Íris recebeu a frase sem defesa imediata.
— Mudava.
Ele se sentou na ponta de uma poltrona. O corpo pedia movimento, qualquer tarefa operacional que pudesse ser resolvida com horários, equipe ou manutenção. Ali não havia procedimento capaz de devolver a confiança ao estado anterior.
— Quando você contou do beijo para Soraya, eu achei que aquilo dizia quem você era agora.
— Dizia uma parte.
— E a outra estava guardada num SSD.
— Estava.
— Eu não sei onde termina o cuidado e começa a versão que você prepara para sobreviver.
Íris respirou devagar.
— Eu também não soube durante muito tempo.
— Eu preciso sair daqui.
Ela assentiu. Caminhou até o quarto e voltou com uma sacola de papel. Abriu uma gaveta do aparador, retirou a escova de dentes dele e colocou dentro. Acrescentou o carregador e a camisa azul.
Vicente observou cada objeto desaparecer.
— Você deseja terminar?
Ele procurou uma resposta que não fosse produzida pela raiva. Não encontrou uma que permitisse ficar.
— Hoje eu não sei o que existiu sem o caso em volta.
O rosto dela mudou pouco. A mão que segurava a alça da sacola endureceu.
— Certo.
Vicente pegou a sacola.
Íris abriu a porta.
— Eu vou cooperar com a revisão e com a OAB. Não estou pedindo que isso altere o que você decidiu agora.
— Eu nem sei ainda o que decidi.
— Você decidiu sair.
— Sim.
Ele entrou no elevador. Íris permaneceu no corredor até a porta fechar.
Na garagem, Vicente caminhou até o carro. Sabina estava ao lado da coluna mais próxima, usando um casaco claro sobre roupa de trabalho. Não havia motorista com ela.
— O que você está fazendo aqui?
— Vim oferecer proteção contra a imprensa. O conselho precisa de uma resposta coordenada.
— Você veio ao prédio de Íris para isso?
— Imaginei que você estaria aqui.
Vicente colocou a sacola no banco traseiro e fechou a porta.
— O que quer?
Sabina aproximou-se o suficiente para reduzir a voz.
— Dalva está usando a reputação de Íris para prolongar uma disputa perdida. Retire a oposição à venda e eu garanto que a empresa sairá da história.
O conhecimento dela sobre a função do vazamento era evidente. Ainda faltava o caminho que ligasse Sabina à distribuição.
Vicente enfiou a mão no bolso do paletó e ativou o gravador do telefone.
— Você guardou aquilo por sete anos?
Sabina sustentou a expressão.
— Eu guardo informação que pode evitar decisões ruins.
— Onde conseguiu?
Ela inclinou a cabeça. O olhar desceu por um instante até o bolso dele.
— Pergunte a César Lessa quanto custou a própria memória.
Sabina caminhou até o elevador. Antes de entrar, voltou-se.
— Ainda dá tempo de impedir que isso alcance a empresa inteira.
Vicente esperou a porta fechar. Retirou o telefone e encerrou a gravação.
Dalva o recebeu na matriz pouco antes da meia-noite. Ouviu o arquivo uma vez, com fones. Depois pediu que ele relatasse a conversa desde a chegada à garagem.
— Ela percebeu que eu estava gravando.
— Percebeu tarde o bastante para indicar César e cedo o bastante para evitar uma confissão.
Dalva salvou o arquivo no repositório de evidências e entregou a ele um recibo eletrônico de coleta.
— Você falou com Íris?
— Falei.
— Obteve algum documento?
— Não.
— Pediu informação sobre a revisão?
— Não.
Dalva aguardou.
Vicente olhou para a sacola ao lado da cadeira.
— Interrompi a relação.
Ela registrou a informação numa nota separada, vinculada às medidas de integridade do caso. Não ofereceu comentário pessoal.
— Amanhã, às oito, vamos preparar o pedido de ampliação da tutela. Tente dormir antes disso.
Vicente pegou a sacola e saiu da sala.