A RUPTURA Advogada do Ano · Capítulo 14 de 21
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A RUPTURA

Vicente recebeu o dossiê no sexagésimo primeiro dia, dentro de uma sala fechada no décimo andar da matriz. O arquivo chegou por dois grupos de mensagens e por um conselheiro que escreveu apenas: “Você precisa ver isso”.

Ele abriu a primeira página no telefone.

Dalva tomou o aparelho da mão dele.

— Ninguém encaminha nada. Nem para advogado, nem para familiar, nem para quem disser que já recebeu.

— Isso está em todos os portais.

— E pode conter documento protegido, dado pessoal e adulteração. O pacote é arma e prova. Trate cada página pelas duas funções.

Vicente ficou de pé junto à janela. A cidade lá embaixo seguia em horário de escritório. Caminhões faziam entregas, funcionários atravessavam a rua com crachás no pescoço, um ônibus parava diante do hotel. A normalidade o irritou.

Dalva colocou o telefone sobre a mesa e chamou Miriam Coelho, a perita que coordenava a coleta dos arquivos da Pórtico.

— Quero uma cópia preservada, com registro de origem e horário. Sem abrir anexos em equipamento da rede.

Miriam assentiu e saiu.

— Foi Sabina?

— Ainda não posso afirmar.

— O material aparece horas depois de encontrarmos os contratos.

— A ligação temporal é forte. A prova precisa de caminho verificável.

Dalva abriu uma pasta com os documentos recuperados da nuvem contábil.

— Temos algo mais urgente. A versão original do contrato entre Pórtico e Quórum confirma a comissão de vinte e quatro milhões. Este anexo identifica a sociedade beneficiária ligada a Sabina. Aqui há uma cláusula de restituição caso o interesse econômico dela seja divulgado.

Vicente leu o trecho apontado. As iniciais de Sabina apareciam num quadro reservado aos beneficiários indiretos.

— Eles sabiam.

— Sabiam e prepararam uma saída financeira para o vazamento. Vou pedir ampliação da tutela ainda hoje.

Dalva continuou explicando os próximos atos, porém as palavras chegavam quebradas. Vicente voltou a olhar o telefone. Na tela bloqueada, notificações exibiam o nome de Íris ao lado de termos que ele conhecia bem demais: conflito de interesses, documentos copiados, depoimento alterado.

— Preciso ler.

— Precisa ler com controle de acesso. Miriam vai preparar uma estação isolada.

— Dalva.

— Você é diretor da companhia e alvo indireto de uma operação de coerção. Reagir mal ajuda quem enviou.

Ele puxou uma cadeira.

Quarenta minutos depois, recebeu acesso ao pacote preservado. Leu numa sala menor, sem telefone. O dossiê começava pelas fotografias. Íris e César saindo de restaurantes, entrando num prédio, dividindo um elevador. Em seguida vinham mensagens. Havia desejo, planejamento de encontros e queixas sobre horários. Íris dizia que não podia vê-lo antes de uma entrevista. César respondia que a investigação parecia acompanhá-los até a cama.

Vicente reconheceu o modo como ela delimitava frases quando queria manter uma área sob controle. Também reconheceu afeto. Não havia dúvida de que o relacionamento existira durante o Caso Lessa.

Os documentos copiados apareciam em miniaturas, com datas de transferência. Um texto narrativo afirmava que Íris orientara César a alterar o depoimento. A conclusão parecia maior que os registros disponíveis, mas o memorando aberto no notebook permanecia no centro do pacote.

Dalva entrou depois de uma hora.

— Conseguiu separar documento de narrativa?

— O suficiente para saber que ela escondeu isso.

— Provavelmente. Ainda precisamos ouvir Íris e revisar a autenticidade do conjunto.

— Ela me mandou uma mensagem hoje cedo. Disse que recebeu uma ameaça ligada a um caso antigo.

Dalva estendeu a mão.

— Posso ver?

Vicente escreveu a frase num papel, sem entregar o telefone.

— Foi antes da publicação?

— Quatro minutos antes do primeiro portal.

Dalva anotou o horário.

— Isso interessa à cadeia. Encaminhe somente a mensagem dela para Miriam, por meio do canal que vou indicar.

— Você sabia da ameaça?

— Não.

— Soraya sabia?

— Não posso responder pelo escritório antigo de Íris.

Vicente levantou.

— Eu vou falar com ela.

— Fale como homem que se relaciona com ela. Não tente investigar. Não peça documentos. Não leve informação dos contratos.

— Eu entendi.

— Entendeu agora. Quero que lembre quando estiver com raiva.

À noite, havia três carros de imprensa diante do prédio de Íris. Vicente entrou pela garagem depois que o porteiro confirmou sua autorização. No elevador, viu o próprio rosto refletido no aço e lembrou da fotografia dela com César. O enquadramento alto, o toque na cintura, a facilidade de um vínculo escondido dentro de uma investigação.

Íris abriu a porta antes que ele tocasse pela segunda vez. Estava sem maquiagem, vestida com camisa branca e calça escura. O cabelo preso deixava à mostra uma marca avermelhada na nuca, talvez causada pelo elástico.

— Entra.

A sala parecia maior. O troféu já não estava na estante.

Vicente deixou a chave do carro sobre a mesa.

— Eu li.

— Eu imaginei.

— Quero ouvir de você.

Íris indicou o sofá. Ele continuou em pé.

Ela começou pelo início. Contou que conhecera César durante a investigação interna, que ele era diretor de expansão e irmão da presidente do conselho. Explicou o relacionamento oculto. Falou do feriado, do notebook aberto, da ligação atendida na varanda e da versão alterada no depoimento seguinte.

Vicente interrompeu.

— Você sabia que ele tinha lido?

— Eu suspeitei.

— Essa palavra serve para quê aqui?

— Para separar o que eu vi do que concluí. Eu o encontrei diante da tela. Ele negou o acesso. Depois mudou a versão no ponto exato do memorando.

— E você ficou no caso.

— Fiquei.

— Copiou quarenta e três documentos.

— Sim.

— Guardou o SSD sete anos.

— Sim.

Cada resposta curta retirava uma possibilidade de erro no pacote. Vicente caminhou até a janela. Lá embaixo, uma câmera apontava para a entrada do prédio.

— Você recebeu a ameaça quando?

— Dois dias antes da divulgação.

Ele virou.

— Por que você não me contou no primeiro dia?

— Tive medo.

— De eu terminar?

— Também.

— O que mais?

Íris baixou os olhos para a mesa. O carregador dele estava ligado perto do sofá. Uma camisa azul, esquecida na semana anterior, aparecia dobrada sobre uma cadeira.

— Eu queria saber quanto Sabina tinha. Uma parte de mim pensou que continuar perto de você poderia me ajudar a entender.

Vicente deu um passo para trás.

— Você ficou comigo para chegar nela?

— Eu continuei com você porque queria você. O medo influenciou o atraso.

— Você sabia que ela podia usar isso dentro do caso.

— Eu já estava fora da representação.

— Você estava na minha cama enquanto decidia o que me contar sobre uma arma que Sabina apontava para nós dois.

Íris não corrigiu a palavra. Também não tentou aproximar-se.

— Sim.

Vicente sentiu o estômago contrair. A noite em que ela o impedira de falar da empresa voltou inteira. Íris havia criado uma fronteira rígida para proteger a separação entre caso e relação. Ele respeitara. Agora descobria que uma ameaça ligada ao caso entrara no apartamento com ela e permanecera ali durante dois dias.

— Você usou alguma informação minha para reagir?

— Não.

— Perguntou sobre os contratos, sobre Sabina ou sobre Dalva?

— Não.

— Falou com Dalva?

— Não. Entreguei a mensagem a Soraya e a Leonor. Elas preservaram o aparelho. Soraya autorizou que eu dissesse a você que havia uma ameaça ligada a material ético antigo. Eu pedi algumas horas e deixei virar dois dias.

— Por quê?

— Porque eu queria controlar a ordem em que você saberia.

Vicente riu uma vez, sem humor.

— Você me ensinou a separar alegação de documento.

— Continuo acreditando nisso.

— Enquanto escondia um fato que mudava a leitura que eu fazia de você.

Íris recebeu a frase sem defesa imediata.

— Mudava.

Ele se sentou na ponta de uma poltrona. O corpo pedia movimento, qualquer tarefa operacional que pudesse ser resolvida com horários, equipe ou manutenção. Ali não havia procedimento capaz de devolver a confiança ao estado anterior.

— Quando você contou do beijo para Soraya, eu achei que aquilo dizia quem você era agora.

— Dizia uma parte.

— E a outra estava guardada num SSD.

— Estava.

— Eu não sei onde termina o cuidado e começa a versão que você prepara para sobreviver.

Íris respirou devagar.

— Eu também não soube durante muito tempo.

— Eu preciso sair daqui.

Ela assentiu. Caminhou até o quarto e voltou com uma sacola de papel. Abriu uma gaveta do aparador, retirou a escova de dentes dele e colocou dentro. Acrescentou o carregador e a camisa azul.

Vicente observou cada objeto desaparecer.

— Você deseja terminar?

Ele procurou uma resposta que não fosse produzida pela raiva. Não encontrou uma que permitisse ficar.

— Hoje eu não sei o que existiu sem o caso em volta.

O rosto dela mudou pouco. A mão que segurava a alça da sacola endureceu.

— Certo.

Vicente pegou a sacola.

Íris abriu a porta.

— Eu vou cooperar com a revisão e com a OAB. Não estou pedindo que isso altere o que você decidiu agora.

— Eu nem sei ainda o que decidi.

— Você decidiu sair.

— Sim.

Ele entrou no elevador. Íris permaneceu no corredor até a porta fechar.

Na garagem, Vicente caminhou até o carro. Sabina estava ao lado da coluna mais próxima, usando um casaco claro sobre roupa de trabalho. Não havia motorista com ela.

— O que você está fazendo aqui?

— Vim oferecer proteção contra a imprensa. O conselho precisa de uma resposta coordenada.

— Você veio ao prédio de Íris para isso?

— Imaginei que você estaria aqui.

Vicente colocou a sacola no banco traseiro e fechou a porta.

— O que quer?

Sabina aproximou-se o suficiente para reduzir a voz.

— Dalva está usando a reputação de Íris para prolongar uma disputa perdida. Retire a oposição à venda e eu garanto que a empresa sairá da história.

O conhecimento dela sobre a função do vazamento era evidente. Ainda faltava o caminho que ligasse Sabina à distribuição.

Vicente enfiou a mão no bolso do paletó e ativou o gravador do telefone.

— Você guardou aquilo por sete anos?

Sabina sustentou a expressão.

— Eu guardo informação que pode evitar decisões ruins.

— Onde conseguiu?

Ela inclinou a cabeça. O olhar desceu por um instante até o bolso dele.

— Pergunte a César Lessa quanto custou a própria memória.

Sabina caminhou até o elevador. Antes de entrar, voltou-se.

— Ainda dá tempo de impedir que isso alcance a empresa inteira.

Vicente esperou a porta fechar. Retirou o telefone e encerrou a gravação.

Dalva o recebeu na matriz pouco antes da meia-noite. Ouviu o arquivo uma vez, com fones. Depois pediu que ele relatasse a conversa desde a chegada à garagem.

— Ela percebeu que eu estava gravando.

— Percebeu tarde o bastante para indicar César e cedo o bastante para evitar uma confissão.

Dalva salvou o arquivo no repositório de evidências e entregou a ele um recibo eletrônico de coleta.

— Você falou com Íris?

— Falei.

— Obteve algum documento?

— Não.

— Pediu informação sobre a revisão?

— Não.

Dalva aguardou.

Vicente olhou para a sacola ao lado da cadeira.

— Interrompi a relação.

Ela registrou a informação numa nota separada, vinculada às medidas de integridade do caso. Não ofereceu comentário pessoal.

— Amanhã, às oito, vamos preparar o pedido de ampliação da tutela. Tente dormir antes disso.

Vicente pegou a sacola e saiu da sala.

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