A QUEDA DA VENDA Advogada do Ano · Capítulo 16 de 21
Obra Menu

A QUEDA DA VENDA

A audiência arbitral começou no septuagésimo sexto dia, às nove da manhã. Vicente chegou uma hora antes com a equipe financeira e ocupou a sala reservada à Alvarenga Hotéis. Dalva já estava lá. Organizara quatro conjuntos de prova em pastas digitais separadas, cada uma com índice de custódia, origem e responsável pela coleta.

Os contratos originais recuperados da nuvem da Pórtico formavam o primeiro conjunto. A trilha financeira da Quórum ocupava o segundo. O terceiro reunia os registros de adulteração dos relatórios de ocupação e dívida. O quarto continha a ameaça, a gravação feita por Vicente e o depoimento de César sobre a compra e preservação do dossiê.

Dalva projetou a linha do tempo.

— A defesa vai tentar fundir tudo. Vão dizer que a infração de Íris contamina a investigação corporativa desde o início. Nossa resposta depende de origem, data e coleta independente.

Vicente folheou o índice.

— O depoimento de César entra para provar o quê?

— Estratégia de coerção, relação entre Quórum e Sabina e tentativa de encerrar a disputa. Não será usado para reduzir a responsabilidade de Íris.

— E se perguntarem sobre o nosso relacionamento?

— Você responde ao que for perguntado. Data do beijo, comunicação imediata, retirada dela e revogação dos acessos. Sem discurso sobre caráter.

Vicente assentiu.

Dalva olhou para a equipe.

— O caso sobre a venda será decidido por documentos da Pórtico, registros bancários, metadados e coleta posterior à substituição. Mantenham essa separação em cada resposta.

A audiência ocorreu numa sala ampla do centro arbitral. Três árbitros ocupavam a mesa elevada. De um lado estavam Sabina, Ivo Marins e representantes da Pórtico. Do outro, Vicente, Dalva e o comitê especial da companhia.

Sabina vestia cinza-escuro. Não olhou para Vicente durante a abertura.

A defesa dela começou pela representação anterior. O advogado exibiu a data do beijo entre Íris e Vicente e afirmou que a investigação nascera sob conflito de interesses. Pediu exclusão de relatórios, depoimentos e medidas obtidas durante o período em que Íris atuara.

— A antiga advogada mantinha envolvimento oculto com o diretor que se beneficiaria da derrota da transação. A substituição posterior não limpa uma apuração orientada desde a origem.

Dalva aguardou a conclusão. Em seguida, pediu autorização para ouvir Miriam Coelho.

A perita prestou compromisso e confirmou sua contratação pelo comitê especial após a saída de Íris.

Dalva abriu o primeiro conjunto.

— Os arquivos originais foram encontrados onde?

— Na nuvem contábil da Pórtico.

— Íris possuía acesso?

— Nenhum.

— Quem coletou?

— Minha equipe, com ordem arbitral e acompanhamento das partes.

— Algum relatório produzido por Íris foi usado para localizar a pasta?

— Não. A pasta apareceu durante varredura determinada a partir dos registros de faturamento da Quórum.

Dalva exibiu o contrato bancário que identificava a sociedade beneficiária.

— O vínculo entre Sabina e a sociedade beneficiária depende de análise feita por Íris?

— Depende de registros públicos, contratos bancários e metadados coletados após a substituição.

O advogado de Sabina levantou-se.

— A pergunta induz conclusão jurídica.

O presidente do tribunal permitiu que a testemunha respondesse apenas sobre a fonte técnica. Miriam descreveu os documentos, as datas de obtenção e os controles de acesso.

Dalva passou aos relatórios adulterados. Os arquivos continham versões sucessivas, usuários responsáveis e horários de edição. A credencial de Celso Tavares fora reativada meses depois da saída dele. Pérsio Maia executara a reativação após receber ordem do gabinete de Sabina. Nádia Bastos distribuíra as versões alteradas a analistas e jornalistas.

A defesa tentou vincular a descoberta inicial dessas irregularidades ao trabalho de Íris. Miriam mostrou que a prova apresentada ao tribunal vinha de servidores, contas e cópias coletadas após a substituição.

O tribunal manteve o conjunto.

Na segunda parte da audiência, a Pórtico procurou afastar-se de Ivo e Sabina. Seu advogado afirmou que a compradora contratara a Quórum para consultoria legítima e desconhecia o destino final da comissão.

Dalva exibiu mensagens internas recuperadas na nuvem. Um diretor da Pórtico discutia a necessidade de “preservar o incentivo de S.A.” e pedia que o pagamento ficasse fora do pacote enviado ao conselho da Alvarenga Hotéis.

— Quem é S.A.?

O executivo respondeu que não podia confirmar.

Dalva apresentou uma planilha de beneficiários indiretos. As iniciais apareciam ao lado da participação de quarenta por cento na comissão de vinte e quatro milhões. Em outra mensagem, Ivo informava que “Sabina aprovou a janela”.

Vicente observou a prima pela primeira vez. Ela lia as telas sem alterar a postura.

O quarto conjunto entrou no fim da tarde. Dalva explicou que o vazamento do Caso Lessa revelava método de coerção e destruição reputacional. Antes de reproduzir qualquer trecho, separou as responsabilidades.

— A conduta atribuída à antiga advogada está sob revisão própria e permanece sujeita a sanções. O fato de terceiros terem adquirido e usado esse material de modo ilícito não a inocenta. Aqui, o conjunto interessa à autoria da ameaça e à tentativa de interferir nesta arbitragem.

A gravação da garagem foi reproduzida. A voz de Sabina surgiu limpa na sala.

“Eu guardo informação que pode evitar decisões ruins.”

Depois, a indicação de César e a oferta de retirar a empresa da história caso Vicente encerrasse a oposição.

O advogado de Sabina alegou que a frase fora provocada e não confessava aquisição ou divulgação. Dalva concordou que a gravação, isoladamente, não bastava. Em seguida, apresentou a marca d’água da Quórum, o identificador do software de Ivo, o contrato fictício de cento e oitenta mil reais e o depoimento de César.

A audiência terminou depois das oito. O tribunal anunciou que decidiria as medidas urgentes na manhã seguinte.

Vicente dormiu pouco num quarto do próprio Hotel Alvarenga Paulista. Às 6h12, recebeu uma mensagem automática do centro arbitral informando que a decisão seria disponibilizada às sete.

Dalva chegou ao hotel antes do horário. Leram juntos na sala de reuniões onde Íris recebera o prêmio semanas antes. O palco havia sido desmontado. Restavam mesas dobráveis encostadas na parede.

O tribunal suspendeu a venda por prazo indeterminado. Reconheceu indícios fortes de autonegociação, determinou que Sabina se abstivesse de votar em temas ligados à transação e ordenou preservação de bens da Quórum até o limite da remuneração prevista. Também manteve as provas coletadas pela equipe de Dalva.

Vicente leu o dispositivo duas vezes.

— Acabou.

Dalva fechou o arquivo.

— A venda foi suspensa. A dívida vence em cinco dias.

A frase devolveu a sala à operação.

Às dez, Vicente estava na sede do banco coordenador. A Alvarenga Hotéis precisava de carência para evitar execução das garantias e bloqueio de caixa. Uma consultoria independente apresentou dados verdadeiros de ocupação, receitas e compromissos. A rede podia sustentar um plano de redução de custos e venda de dois ativos secundários, desde que recebesse nove meses de carência.

Os bancos ouviram a exposição e pediram intervalo. Quando voltaram, trouxeram exigências de governança.

Sabina deveria sair de todas as funções executivas. O conselho precisaria de maioria independente. Vicente poderia assumir a presidência provisória, porém com poderes reduzidos. Qualquer venda de ativo dependeria de aprovação independente. Contratos acima de determinado valor passariam por auditoria externa. Despesas estratégicas seriam submetidas a um comitê.

Vicente leu a minuta e empurrou o documento para Dalva.

— Eles querem que eu peça autorização para operar uma empresa que conheço desde o depósito de enxoval.

— Querem reduzir risco de decisão concentrada depois de uma fraude conduzida dentro da família.

— Eu não conduzi a fraude.

— Você representa a continuidade familiar aos olhos deles.

Vicente apontou a cláusula de despesas estratégicas.

— Isso trava reforma, tecnologia e renegociação de fornecedores.

— Qual é o seu objetivo? Controlar a empresa ou impedir a liquidação?

— Impedir a liquidação.

— Qual cláusula o impede de operar?

Ele marcou quatro. A primeira exigia aprovação prévia para despesas acima de um limite baixo demais. A segunda submetia toda contratação tecnológica ao comitê. A terceira tratava de venda de ativos. A quarta obrigava auditoria externa em contratos relevantes.

Dalva analisou cada uma.

— Posso negociar o limite das despesas e uma faixa de autonomia para tecnologia. A aprovação independente de ativos e a auditoria vão permanecer.

— A empresa perde velocidade.

— Perde liberdade concentrada. Ganha crédito suficiente para pagar funcionários.

Vicente olhou pela parede de vidro. Do outro lado, representantes dos bancos conversavam em torno de uma mesa com café e garrafas de água.

— Negocie as duas primeiras.

Dalva voltou à sala com a minuta marcada. Após duas horas, conseguiu elevar o limite de despesas e criar autorização anual para investimentos tecnológicos dentro do orçamento aprovado. As outras exigências permaneceram.

Vicente assinou a carta de condições.

A assembleia de acionistas foi convocada para o octogésimo sexto dia. Até lá, o conselho recebeu cópias da decisão arbitral, da proposta bancária e dos relatórios da consultoria independente. Dois conselheiros ligados a Sabina renunciaram antes da reunião.

No dia da assembleia, a segurança bloqueou acessos antigos e distribuiu credenciais temporárias. Vicente encontrou Sabina no corredor. Ela estava acompanhada por dois advogados.

— Os bancos escreveram sua posse.

— Escreveram limites para liberar dinheiro.

— Você aceitou todos.

— Aceitei os que mantêm os hotéis abertos.

Sabina entrou na sala sem responder.

A assembleia começou às onze. O primeiro item afastou Sabina da vice-presidência do conselho. Ela manteve as ações e o direito de defesa, porém perdeu acesso a sistemas e documentos reservados. A votação foi registrada nominalmente.

O segundo item recompôs o conselho com maioria independente. Otávio Meireles, antigo executivo do setor de turismo e sem vínculo familiar, foi escolhido presidente. Ele aceitou o mandato com a condição de criar comitê especial de investigação e publicar regras de conflito de interesses.

O terceiro item tratou da presidência interina. Vicente recebeu mandato de doze meses, sujeito a avaliação trimestral e sem garantia de efetivação. O estatuto provisório limitava contratação, venda de ativos e operações com partes relacionadas.

Dalva foi confirmada como assessora jurídica do comitê especial até o encerramento da investigação. Sua contratação não dependia da presidência de Vicente e só poderia ser encerrada por maioria dos conselheiros independentes.

Quando a votação terminou, Sabina recolheu os documentos. O advogado dela informou que contestaria medidas que excedesse o estatuto e preservaria todos os direitos de defesa.

Na saída, ela parou diante de Vicente.

— Você entregou a empresa aos bancos para impedir uma venda.

— Entreguei limites a quem exigiu limites.

— Você descobrirá a diferença quando precisar decidir rápido.

Sabina seguiu até o elevador. Um funcionário de segurança recebeu o crachá dela e assinou o protocolo de devolução.

Naquela noite, Vicente voltou à sede do banco para assinar o acordo definitivo. Dalva revisou a última versão ao lado dele. Nenhuma cláusula permitia ao presidente interino interferir na investigação de Íris, contratar o Sampaio Vilar para assuntos ligados ao caso ou oferecer qualquer benefício em razão da relação pessoal.

Vicente leu a seção duas vezes.

— Está correto.

Dalva fechou a pasta.

— O comitê independente responderá por qualquer demanda relacionada a ela.

— Eu não pretendo interferir.

— A cláusula existe para que sua intenção não seja o controle principal.

Ele assinou às 21h48.

A primeira parcela da linha emergencial foi liberada no nonagésimo dia. O diretor financeiro reuniu a equipe numa sala operacional e projetou a tela do banco. O valor entrou na conta central às 14h06.

Vicente autorizou a programação das folhas de pagamento dos quatorze hotéis. Cada unidade confirmou o recebimento da ordem. Uma das unidades respondeu primeiro. Depois vieram as demais propriedades.

Às 15h12, o último hotel enviou a confirmação.

Vicente salvou o relatório, encaminhou ao conselho independente e fechou o sistema. Na mesa, a placa provisória com o cargo de presidente interino ainda estava embalada em plástico.

1/1
Menu

Fazer anotação