A CONVERSA DIFÍCIL Advogada do Ano · Capítulo 19 de 21
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A CONVERSA DIFÍCIL

No primeiro dia de retorno, Leonor esperou Íris na recepção do escritório às oito e dez da manhã.

A suspensão terminara à meia-noite. O cartão de acesso anterior continuava cancelado. Íris precisou preencher um formulário, assinar o livro de visitantes e receber um crachá temporário que trazia, sob seu nome, a palavra SUPERVISIONADA.

Leonor viu quando ela leu.

— A identificação foi uma exigência minha.

— Eu imaginei.

— Prefere que eu peça uma versão sem a palavra?

— Não.

Íris prendeu o crachá no blazer. O plástico bateu contra o botão quando ela se virou para o corredor.

A sala que ocupara durante oito anos estava fechada. Outra sócia trabalhava ali agora. Para Íris, haviam preparado uma mesa menor, junto à biblioteca interna, com um computador bloqueado para transferências externas e uma gaveta que não tinha chave. Leonor mostrou os limites de acesso, o procedimento de revisão e a agenda da primeira semana.

Toda pesquisa seria registrada. Cada contrato teria dupla conferência. Ela participaria de reuniões somente com outro advogado responsável. Não poderia aprovar honorários, distribuir equipes, responder por estratégia final ou fazer qualquer contato direto com clientes fora dos canais supervisionados.

Íris escutou sem interromper. Já conhecia as regras. Havia lido o termo até decorar a numeração das cláusulas, porém precisava ouvir Leonor dizer cada uma delas dentro do escritório que antes obedecia a suas decisões.

— Dois clientes aceitaram continuar com você nesse regime — disse Leonor. — Os demais casos foram redistribuídos.

— Quantos recusaram expressamente?

— Cinco.

— E os outros?

— Preferiram não responder.

Leonor deixou uma pasta sobre a mesa.

— Sua primeira tarefa é revisar a cláusula de indenização deste contrato. O parecer será assinado por mim.

Íris abriu a pasta. O trabalho era simples para alguém que, onze meses antes, coordenava operações societárias capazes de ocupar quarenta profissionais. Ainda assim, leu cada página com atenção suficiente para perceber uma divergência entre a definição de dano indireto e a limitação de responsabilidade.

Às onze e vinte, entregou a análise a Leonor.

— Você encontrou o problema central — disse a supervisora.

— Há outro na cláusula de sobrevivência.

— Eu vi.

— Por que não marcou?

— Queria saber se você ainda tentaria resolver o contrato inteiro quando recebeu uma tarefa delimitada.

Íris sustentou o olhar dela.

— E tentei.

— Tentou. Corrija só a indenização.

Na semana seguinte, ela participou da primeira reunião acompanhada. O cliente olhou duas vezes para Leonor antes de dirigir qualquer pergunta a Íris. Em outra ocasião, um diretor jurídico pediu que ela saísse da sala antes de tratar de documentos sensíveis. Leonor não protestou. Íris recolheu o bloco, levantou-se e esperou no corredor até a porta abrir.

A renda caiu para pouco mais da metade. A perda financeira já estava prevista nos cálculos feitos durante a venda de parte das quotas, embora a previsão não reduzisse o efeito das transferências bancárias nem a estranheza de precisar consultar outra sócia antes de contratar um serviço externo de pesquisa.

O acordo relacionado ao Caso Lessa foi assinado no terceiro mês depois da suspensão.

A sucessora da Lessa Infraestrutura aceitou a mediação. Os escritórios envolvidos assumiram os custos de uma auditoria independente e reconheceram falhas de integridade na condução do caso. O documento evitava fórmulas de absolvição mútua. A contribuição de Íris saiu do valor obtido com a venda das quotas. Quando recebeu a confirmação do depósito, abriu o comprovante, conferiu os dados e o arquivou na pasta exigida pelo acordo.

César Lessa assinou uma declaração própria. Reconheceu o acesso ao memorando de preparação e a alteração de seu depoimento. O procedimento referente à conduta dele prosseguia em outra instância. Íris leu a declaração uma única vez. Não procurou César. Também não pediu que Leonor lhe contasse detalhes que ficariam fora dos relatórios formais.

Ao concluir a primeira etapa da revisão dos sete casos anteriores, Leonor chamou Íris à sala de reuniões.

Três pastas estavam sobre a mesa. Ao lado delas, havia um relatório com anexos numerados.

— Nenhum outro envolvimento afetivo oculto foi encontrado — disse Leonor. — Isso constará da conclusão parcial.

Íris apoiou as mãos sobre o colo.

— E as três pastas?

— Registros inadequados de documentos externos. Em dois casos, pareceres recebidos por e-mail foram inseridos no sistema depois do prazo interno. No terceiro, houve uma planilha usada numa reunião sem identificação correta da origem.

— Algum prejuízo?

— Nenhum identificado. As falhas foram corrigidas e comunicadas aos clientes.

— Quem era responsável?

— Em níveis diferentes, mais de uma pessoa. Você respondia pela gestão.

Íris assentiu.

Leonor empurrou o relatório para ela.

— Sua supervisão continua.

— Eu sei.

— Digo isso porque a ausência de outra relação oculta pode produzir alívio. Alívio costuma convidar conclusões antecipadas.

Íris abriu o documento.

— Não estou procurando uma conclusão antecipada.

— Ótimo. Leia e assine o recebimento até amanhã.

Naquela noite, ela permaneceu no apartamento, revisando as quarenta e seis páginas do relatório. Às dez e sete, o telefone exibiu a notificação de um e-mail enviado ao endereço pessoal.

O nome de Vicente apareceu na tela.

Íris deixou o aparelho sobre a mesa. Foi até a cozinha, encheu um copo e bebeu metade da água antes de voltar. A mensagem continuava fechada.

Durante onze meses, eles não haviam conversado.

Ela soubera do mandato provisório pelos jornais, dos poderes reduzidos pelos comunicados da companhia e da substituição de conselheiros pelas atas públicas. Vira uma fotografia dele durante a venda competitiva de duas unidades secundárias. O paletó parecia largo nos ombros. Em outra imagem, tirada no litoral, Vicente usava capacete de obra e segurava uma planta dobrada. Íris fechara a página antes de ler a matéria.

Abriu o e-mail.

Gostaria de conversar. Sem empresa, sem assunto jurídico e sem pedido escondido. Você pode recusar. Se aceitar, escolha o lugar.

Não havia saudação elaborada. A assinatura trazia somente o nome.

Íris leu de novo, verificou os dados do remetente e fechou a mensagem. Dormiu pouco. Na manhã seguinte, contou à terapeuta sobre o convite e passou boa parte da sessão tentando separar o que temia do que desejava obter.

— O que você considera um risco concreto? — perguntou a terapeuta.

— Retomar uma relação antes de saber se consigo sustentá-la sem ocultação.

— E o risco de encontrá-lo uma vez?

Íris levou alguns segundos.

— Confundir desejo com autorização.

— Você costuma fazer isso?

— Fiz.

— Então trate a conversa pelo que ela é. Uma conversa.

Íris não respondeu naquele dia.

No segundo, leu o relatório público mais recente da Alvarenga Hotéis. O mandato de Vicente seguia limitado. As decisões sobre venda de ativos relevantes exigiam aprovação do conselho independente. Contratações de assessoria jurídica precisavam passar pelo comitê de integridade. O processo de seleção para a presidência definitiva ainda não havia começado.

No terceiro dia, consultou os registros internos do escritório dentro das permissões que possuía. A Alvarenga Hotéis não fizera contato desde a retirada dela. Dalva continuava responsável pelas medidas decorrentes da fraude, fora do Sampaio Vilar.

No quarto, respondeu.

Café no térreo do Edifício Meridian, quinta-feira, às 16h. Uma hora.

Vicente confirmou em oito minutos.

Na quinta-feira, Íris chegou às três e quarenta e sete.

Escolheu uma mesa próxima à vidraça, distante do balcão. O movimento do térreo ajudava. Pessoas entravam e saíam dos elevadores, entregadores consultavam a recepção, executivos atravessavam o saguão olhando o telefone. Nada ali favorecia a ilusão de isolamento.

Ela pediu água com gás. O copo veio com uma rodela de limão que não solicitara. Íris a retirou e deixou sobre o pires.

Vicente apareceu às três e cinquenta e nove.

O cabelo estava mais curto. Havia marcas fundas junto aos olhos e uma rigidez nova na forma de carregar os ombros. Vestia camisa branca sem gravata, calça escura e sapatos que pareciam ter passado o dia inteiro em uso.

Íris reconheceu o corpo dele antes de organizar qualquer pensamento. A reação percorreu o estômago e desceu pelas pernas com uma rapidez ofensiva. Onze meses não haviam ensinado seu corpo a considerar relatórios, sanções ou cautela.

Vicente parou diante da mesa.

— Oi.

— Oi.

— Posso sentar?

— Foi para isso que escolhi uma mesa com duas cadeiras.

Um traço de humor apareceu no rosto dele. Durou pouco.

Vicente se sentou, pediu café preto e apoiou os antebraços na mesa. Não tentou tocar nela.

— Obrigado por ter vindo.

— Você pediu uma conversa. Pode começar.

O atendente trouxe o café. Vicente esperou que ele se afastasse.

— Eu acusei você de ter ficado comigo para alcançar Sabina.

Íris manteve os olhos nele.

— Parte do meu atraso teve relação com ela.

— Teve. Eu transformei isso na explicação inteira porque era mais fácil que admitir que eu estava ferido e ainda queria você.

Ela esperara raiva, defesa ou uma preparação mais longa. A frase direta abriu um espaço que Íris não sabia preencher.

— Você tinha motivo para duvidar.

— Tinha. Usei a dúvida para apagar tudo o que você fez depois da retirada.

— Eu demorei dois dias para contar sobre a ameaça.

— Eu lembro.

— E escondi o Caso Lessa por sete anos.

— Também lembro.

Vicente passou o polegar pela borda da xícara, sem erguê-la.

— Não vim rever o julgamento da sua conduta.

— Essa palavra continua adequada.

— Eu sei.

— Então por que veio?

Ele tomou um gole antes de responder.

— Porque a forma como terminei tudo também foi uma decisão minha. Passei meses dizendo a mim mesmo que só existia uma resposta possível depois do que você contou. Isso evitava olhar para a parte em que eu queria ferir você de volta.

Íris ouviu o ruído da máquina de café atrás do balcão. Uma mulher discutia ao telefone perto da entrada. O elevador abriu e liberou cinco pessoas.

— Você conseguiu? — perguntou ela.

— Ferir você?

— Sim.

Vicente a encarou.

— Consegui.

— Então essa parte está esclarecida.

Ele aceitou a resposta com um movimento curto da cabeça.

— Como foi a suspensão?

Íris quase disse que ele poderia ter lido. Reviu a frase antes de falar.

— Cumpri os noventa dias. Voltei sob supervisão de Leonor. Faço pesquisa, revisão de contratos e participo de reuniões acompanhadas. Não tenho poder de gestão. Minha renda caiu. Dois clientes aceitaram continuar comigo. Outros recusaram.

— Eu conheço o que se tornou público.

— O acordo Lessa foi concluído. Os escritórios pagam a auditoria independente e reconhecem as falhas. Vendi parte das minhas quotas e contribuí para a reparação. César assinou uma declaração sobre o acesso ao memorando e o depoimento alterado. O procedimento dele continua.

Vicente deixou a xícara no pires.

— Dalva não me contou nada disso.

— Você perguntou?

— Não. Evitei pedir informações sobre você.

Íris observou o rosto dele, procurando alguma expectativa ligada ao relato. Não encontrou pedido de gratidão.

— Leonor concluiu a primeira etapa da revisão — continuou. — Nenhum outro caso apresentou envolvimento afetivo oculto. Três tinham falhas de registro de documentos externos. Foram corrigidas e comunicadas. Minha supervisão permanece por mais seis meses.

— Você achou que encontrariam outra coisa?

A pergunta a incomodou porque exigia uma resposta menos organizada.

— Eu sabia que não existia outra relação. Não sabia quantas decisões minhas poderiam parecer diferentes quando examinadas por pessoas que conheciam o que fiz no Caso Lessa.

— E pareceram?

— Algumas. A revisão não encontrou outro caso igual. Também não devolveu a confiança de ninguém por decreto.

Vicente olhou para a rua através da vidraça.

— Eu esperei porque precisava saber se conseguia aceitar limites sem tratar cada limite como ataque. Também queria chegar aqui sem ter nada para oferecer em troca.

— Você ainda é presidente.

— Até daqui a seis semanas. O conselho decide depois.

— Seu cargo continua tendo influência.

— Continua. Eu não vou pedir seu escritório, interferir na supervisão ou transformar a empresa num lugar para nós dois.

— A Alvarenga jamais procurou o Sampaio Vilar depois da minha retirada.

Ele voltou os olhos para ela.

— Isso foi uma pergunta?

— Foi uma constatação. Eu confirmei antes de aceitar o encontro.

— Certo.

— Você esperava que eu confirmasse?

— Esperava que você verificasse tudo que pudesse.

Íris pegou o copo. A água já perdera parte do gás.

— Sobre a ameaça de Sabina — disse ela. — Eu preservei a mensagem e entreguei à revisão. Fiz isso corretamente. Depois, demorei dois dias para contar a você.

Vicente não desviou.

— Por medo?

— Em parte. Eu tinha medo de perder você. Também quis entender quanto ela sabia, quem tinha o material e de que forma pretendia usá-lo. Chamei isso de cautela durante aqueles dois dias. Havia curiosidade defensiva ali. Eu queria medir o alcance antes de abrir tudo.

— Você achava que poderia controlar?

— Eu sempre acho que posso controlar melhor depois de organizar os fatos.

— E podia?

— Não.

Íris girou o copo entre os dedos e o soltou.

— O relacionamento era real. Ao mesmo tempo, estava contaminado por fatos que eu retive. Não consigo entregar uma versão limpa.

Vicente demorou a responder.

— Eu parei de pedir isso.

A mão de Íris permaneceu perto do copo.

— Quando?

— Não sei o dia. Houve uma reunião em que um conselheiro perguntou por que eu tinha mantido determinado gerente depois de uma falha operacional. Eu comecei a responder contando tudo que ele havia feito certo antes. Dalva perguntou se eu estava avaliando a decisão ou tentando salvar uma imagem inteira da pessoa. Fiquei com raiva dela.

— Imagino que isso tenha ajudado muito.

— A raiva?

— Dalva perceber que ajudou.

Vicente soltou uma risada baixa.

— Ela não demonstrou satisfação. O que tornou pior.

A primeira hora estava quase no fim. Íris olhou o relógio, depois voltou a encará-lo.

— Você me convidou para assumir sua responsabilidade pelo rompimento?

— Convidei porque ainda penso em você. Queria saber se existe alguma possibilidade de reaproximação.

A palavra pareceu grande demais para a mesa pequena.

— Você ainda me deseja? — perguntou ele.

Íris sentiu a pergunta no corpo antes de responder.

— Sim. Isso não decide o resto.

— Concordo.

Vicente não sorriu. A ausência de celebração facilitou a próxima frase.

— Eu não volto para uma relação escondida.

— Nem eu.

— Amigos próximos precisam saber. Sem anúncio público.

— Certo.

— Não conversaremos sobre assuntos jurídicos da empresa. Se alguma coisa encostar no meu trabalho, eu comunico Leonor.

— Eu não vou usar você para chegar a Dalva.

— Nem eu vou usar você para chegar a ela.

— Apartamentos separados — disse Íris.

— Certo.

— E não vamos retomar de imediato a rotina sexual que tínhamos.

O maxilar dele se contraiu por um instante.

— Certo.

— Você está aceitando rápido.

— Quer que eu discorde de alguma condição só para parecer criterioso?

— Quero saber se vai suportá-las depois.

— Eu também quero.

Íris olhou o relógio outra vez.

— A hora terminou.

Vicente pousou as mãos abertas sobre a mesa.

— Posso tocar sua mão?

Ela percebeu a própria respiração mudar. Poderia negar. Ele esperava uma resposta sem avançar um centímetro.

— Pode.

Vicente estendeu a mão devagar. Os dedos dele cobriram os dela por poucos segundos. A pele na base dos dedos continuava áspera, marca do hábito de inspecionar cabos, dobradiças e equipamentos sem luva. O polegar percorreu a lateral da mão de Íris e parou.

Nenhum dos dois transformou o contato em promessa.

Ela retirou a mão primeiro.

Vicente pediu a conta. Íris pagou a própria água antes que ele pudesse incluir o valor. Saíram juntos e caminharam até a esquina. O ar da tarde trazia cheiro de escapamento e comida de um carrinho estacionado perto da faixa de pedestres.

— Posso pedir um segundo encontro? — disse ele.

— Sábado. Almoço.

— Onde?

Íris indicou um restaurante em Pinheiros que não tinha ligação com clientes, hotéis ou cerimônias.

— Uma da tarde.

— Eu estarei lá.

O carro de Vicente aguardava na rua lateral. Antes de abrir a porta, ele se virou.

— Posso beijar você?

A vontade de dizer sim veio inteira. Íris sentiu a memória da boca dele, a pressão da mão em sua cintura e a urgência que antes crescera dentro de salas onde qualquer contato aumentava um conflito já existente.

— Hoje, não.

Vicente assentiu.

— Sábado, então.

— Eu não prometi sábado.

— Certo. Sábado eu pergunto outra vez.

Ele entrou no carro e saiu sem olhar pelo retrovisor de forma que ela pudesse perceber.

Íris ficou na calçada até o veículo dobrar a esquina. Depois entrou no próprio carro, apoiou a bolsa no banco do passageiro e abriu o aplicativo do diário exigido pela supervisão.

O campo pedia data, horário, natureza do contato e avaliação de conflito.

Ela digitou:

Encontro pessoal com Vicente Alvarenga, das 16h às 17h06. Relação pessoal em possível retomada. Sem vínculo com cliente atual. Nenhum assunto jurídico da Alvarenga Hotéis discutido. Próximo encontro previsto em local público. Comunicação à supervisora será feita no início do próximo expediente.

Leu duas vezes.

Às cinco e vinte e três, enviou o registro.

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