Correspondencia
Correspondência
M EU caro Prof. Léo Vaz. Enviando-lhe o volume aparecido de meu romance Marco Zero, quero também tornar-me seu missivista. E com razão. O seu amável correspondente, citado na crônica de domingo, leva- me a explicações. Êle não compreendeu que quando eu, citando Portinari, falava da "terra roxa de Brodowski", não me referia senão às suas telas sôbre o café. Era o café, seus processos de colheita, suas paisagens, seus pobres ou hercúleos trabalhadores, que eu exprimia, sem ter o menor intuito de analisar a própria terra das ruas de Brodowski, o que evidentemente não estava em meu assunto. Eu ligava apenas o lugar de origem do pintor, geralmente englobado pelos leigos como eu, nas zonas de terra roxa de Ribeirão Prêto, às suas telas que tinham por motivo o café, produto dessa zona e dessas terras. O meu pensamento exato seria êste: "Portinari não dá mais, senão raramente, os
frutos da 'paisagem do café'...". Evidentemente a expressão terra roxa substitui a outra com vantagem, dando-lhe um colo- rido que valoriza a frase e vai bem ao assunto... Não é a primeira vez que uso essa expressão falando de Portinari. Quando escrevi, dez anos atrás, o primeiro artigo entusiástico que teve o pintor paulista, falava na "terra roxa de Brodowski", e êle que vinha de lá, estava a meu lado, era meu íntimo amigo, compreendeu. Pelo menos nada opôs. Aproveitou-se você, Léo, do lombo do missivista para insinuar que eu nunca pus os meus "mimosos pèzinhos" no sertão. Leia êste volume de Marco Zero e verá que andei alguns anos entre grileiros, derrubadores de mata, xerifes, etc., e não foi por diletantismo e sim para ganhar a minha vida. Isso, Léo, não é nenhuma glória. Apenas vocês que fazem uma guerra infernal à arte moderna aproveitam-se de tudo para se darem um grande ar de entendidos, jogando para cima de nós o estulto rótulo de improvisadores e palpiteiros. Vocês é que são uns imperdoáveis preguiçosos mentais, soli- dários com o ancilóstomo no retardo bucólico dêstes intelectuais Brasis. Que culpa tenho eu, Léo, de um ou outro escriba se contentar com a rodinha de missivistas que provincianamente se regozijam ante uma anatolice blindada ou apaixonadamente defendem a sociologia de catálogo e suas proezas? Extasiam-se enquanto o gênio esquecido se põe a fazer tais piadas que são como bombas-relógios que funcionassem adiantadas. Pois antes das mesmas se formularem, já a turma tôda se contorce, con- trafaz e ri, gozando o nosso definitivo desastre. A cada liqui- dação de nossos esforços feita pela igrejinha, ressurgimos, no entanto, mais fortes e sadios. Enquanto os que podiam, como diria o padre Vieira, "acender uma candeia no entendimento", perdem uma porção de prazeres como êsse modesto de ter a liberdade intelectual de dar a Brodowski a característica da zona cafeeira em que se engloba, sem ter o cuidado prestimoso de mandar antes a um laboratório de análises um punhadinho de terra do seu largo da Matriz, a fim de falar "exato". Terra roxa, pode significar São Paulo, quanto mais a Alta Mogiana! Se em vez de massapé, fôsse salmourão, lá vinha a frase: "O pintor não dá mais os frutos do salmourão". Era assim que vocês queriam que eu escrevesse? Muito obrigado. Isso com certeza me traria, dentro de uma sólida reputação de província, mais lazeres e incensos que a posição de pesquisa e de debate
público a que minha consciência de escritor obriga. Perco, é verdade, uma porção de admirações preciosas como a do Sr. Zampeta, mas prefiro continuar e continuarei. Não pense, no entanto, meu caro professor, que teimo em fazer hoje Semana de Arte Moderna. Deixo isso a alguns com- panheiros ilustres de jornada (o Sr. Mário de Andrade, o Sr. Portinari). Marco Zero é um livro que vai surpreender os que esperam os modismos e os cacoetes que tão gostosa e justamente empregamos na fase polêmica da renovação literária. Nesse tempo eu escrevia:
"Losangos tênues de ouro bandeiranacionalizavam o verde dos montes interiores. No outro lado azul da baía a serra dos órgãos serrava". (Memórias Sentimentais de João Miramar — 1923).
Hoje eu escrevo assim:
"O céu por cima das árvores estava copado de estré- ias. Elas ligavam-se à alta folhagem dos jequitibás. Silhuê- tas de palmeiras suspendiam fachos tropicais na noite. Uma canjarana estorcegava-se para o alto. Jango escutou ge- midos surdos, um e outro grito teimoso e o assovio do Sem-Fim. Acendeu outro cigarro". (Marco Zero — A Revolução Melancólica — 1943.)
Confesso, meu prezado companheiro de garçonnière de 19, que a revolução modernista eu a fiz mais contra mim mesmo que contra você ou o prezado leitor Sr. Zampeta. Pois eu temia era escrever bonito demais. Temia fazer a carreira literária de Paulo Setúbal. Se eu não destroçasse todo o velho material lingüístico que utilizava, amassasse-o de nôvo nas formas agres- tes do modernismo, minha literatura aguava e eu ficava pare- cido com D'Annunzio ou com você. Não quero depreciar nenhu- ma dessas altas expressões da mundial literatura. Mas sempre enfezei em ser eu mesmo. Mau mas eu.
Essa necessidade de modernizar é de todos os tempos. Distraia-se um pouco, meu bom Léo, das suas pescarias lendo Giorgio Vasari. Perderá você um ou dois mandis, mas ganhará em troca certas úteis informações. E verá, meu caro Jeremias dos tempos revoltos de hoje, que Giorgio Vasari, o grande crítico do Renascimento, fala sempre e insistindo em exaltar, na ma- niera moderna de Leonardo da Vinci e de Rafaelo Sanzio de Urbino, esses que são hoje os clarins supremos do classicismo. E o são justamente porque foram "modernistas". Se não o fossem, aguavam repetindo Giotto e Cimabué, em vez de pro- duzir a língua nova da Renascença. Em São Paulo, no meio dos esqueletos gigantescos dos arranha-céus, permanecem certas ilhas quietas onde ainda se pesca à linha. Ê nessa sombra vadia que se açoita o espírito dos que acham que a estética atual reside na cachumba de certos tarados que o modernismo retrata e define. São os mesmos que, por exemplo, só vão enxergar escabrosidade no grande filme que é A Mulher do Padeiro. Foi a opinião até de certa crítica nossa, enquanto que um jornalista americano, citado oportuna- mente pelo Sr. Décio de Almeida Prado, vê os horizontes dessa monumental criação da França estenderem-se a Debussy e à mitologia helênica. Deve ser porque em New York não se pega mais traíra. Nem há mandis. É o que tinha a dizer seu ex-corde que paciente espera que você e seus aficionados encontrem vasto campo para cor- reções abelhudas e sábias no presente livro que lhe oferece.
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