Qual o Mussolini que Vamos Enforcar?
Qual o Mussolini que Vamos Enforcar?
A QUINTA-COLUNA para ser eficiente, tem que ser poli- morfa. Sua caveira utiliza uma dúzia de máscaras, a fim de que, dissimulada e garantida, possa atuar nos setores mais vários da vida civil ou da vida militar. Ora surge ameaçadora e direta, ora mansa e cândida, ora intelectualizada e distante. Ou hasteia um pavilhão filosófico ou se esconde por detrás de um credo religioso ou se enovela na estatística e na sociologia. Sua grande proeza é, porém, enrolar-se na bandeira nacional de cada povo. Segue a manha dos mestres. Foi para salvar a Itália do caos, que Mussolini criou o fáscio. Foi para arrancar a Alemanha da derrocada e da comuna, que Hitler inventou o nacional-so- cialismo. Hoje, depois da carnificina provocada pelos salva- dores — os exércitos eixistas, são destruídos a leste, pelas ban- deiras invictas de Stalin e perdem a Sicília para as forças da democracia.
Só a burrice pesada e a malandragem alígera não compre- endem que a estrutura íntima dos sistemas mais opostos foi posta à prova e que uma insanável desmoralização atinge os falsos regimes construtores, os falsos patriotismos e os cruéis nacionalismos de fachada. Essa chantagem de aliviar o mundo de dragões imaginários foi empregada até os últimos tempos pela bôca facinorosa da propaganda eixista. O fáscio, como o na- zismo, persistiam nos seus bons propósitos. Queriam salvar. Quando não para salvar o mundo ocidental do caos asiático que Lênin deu à Rússia, era para salvar os cordeirinhos enfeitados da terra, das garras do imperialismo anglo-americano. Evidentemente foi pôsto à prova o caos russo como a ordem italiana e a decadência da democracia. Bastou a bota invasora pisar a fronteira soviética e milhões de quislings pulularam. Não houve nem Moscou nem Stalingrado nem guerrilheiros ressus- citados dentre montões de cadáveres para estagnar a morte me- cânica dos tanks. E a Inglaterra continuou a brigar de guarda- chuva. Ao contrário, ante a invasão da Sicília, a camisa preta enfunou no peito atlético da Itália fascista. E da sacada do palácio Chigi, em Roma, o Duce (que podia ter recebido, para tranqüilidade do seu povo, aquela bala profética do general Ca- pielo) pôde afirmar ao mundo que o salvara das garras da desordem democrática e da incapacidade construtora do mar- xismo. Vejamos como Hitler e Mussolini puseram a serviço da humanidade os seus préstimos. A Abissínia inerme foi tomada pelas tropas blindadas e pelos gases químicos do marechal Ba- doglio. Evidentemente não se trata do mesmo que deu agora um chute no fascismo. Como há dois Mussolini, há dois Ba- doglio. Depois da Abissínia, foi a Albânia. Para demonstrar os sentimentos conservadores e apostólicos da camisa preta, a Al- bânia foi invadida numa sexta-feira maior. De outro lado, Hitler ocupava militarmente o Ruhr. E veio a Áustria. O re- gime legal e democrático de Dollfuss viu-se engolido por uma onda de assassínios. O bom banditismo — destinado a salvar o mundo — retalhou a Espanha e afogou-a em terror. Uma pa- lavra arcaica, trazendo o mofo trágico das arcas coloniais, foi criada depressa. Era com o caudilhismo que os salvadores iam ditar à sociedade normas de bem viver. Depois da Espanha, veio o martírio público da Tchecoslováquia. Consumou-se
aquela pavorosa operação de Munique, sem anestesia, sob o guar- da-chuva cumplicial de Chamberlain. E o mundo viu o resto.
Essa montanha de absurdos titânicos que as condições his- tóricas do progresso humano repeliam, tem agora, na bôca dos gatos-pingados do fascismo, uma justificativa — Mussolini foi um grande homem porque ensinou a Itália a tomar banho. De quê? De sangue! E pôs os trens nos horários? Para quê? Para chegar à hora certa nos encontros do Passo de Brener, onde iria conspirar contra milhões de vidas humanas e decretar a destruição implacável da Europa inteira! É preciso abrir roda em tôrno das carpideiras açodadas que fazem o velório do fascismo. Quanto mais o chôro fôr de grande estilo, mais êle merecerá cuidado. Não quero acreditar de modo nenhum nas más intenções dos que têm a calva verde à mostra. Há nos que ousam num momento dêstes arriscar uma lágrima política pela morte pouco espetacular do Duce, um certo desprendimento que não existe nos que pretendem a todo custo consertar irremediáveis situações ideológicas. O que me preocupa, não é a traição barata, feita a prestações de sor- risos, penitências e conselho. É a grande traição à marcha hu- mana, tentada por certos solitários que o saudosismo de eras idas prestigia e convoca.
Se o caos reacionário de hoje fôsse possível de pessoal- mente se apresentar, traria o nome do Sr. George Bernanos. A confusão que êle desprende torna-se oracular. É como se agora, nestes dias de agonia de Hitler, fôsse publicada em primeira edição, para intervir no debate do mundo nôvo, A Comédia Humana de Balzac. Não na sua sólida construção romântica, mas num minado e palavroso panfleto, onde todos os esgares e todos os arrasta-pés, curvaturas e continências cortesãs do passado quisessem se misturar aos brados da luta multiforme que se trava contra o capital. Apenas uma diversão —• o Sr. Bernanos assovia o capitalismo com a gravidade daquele bispo que salvou Jean Veljean n' Os Miseráveis. E quer transformar o mundo, deixando aos pobres a felicidade de não ter o que co-
mer, enquanto os ricos podem continuar a tubaronar à vontade, porque Belzebu é dono de suas almas e de seus desprevenidos destinos. De modo que em nada me espantou o gesto do autor do Curé de Campagrte, acendendo também sua vela fidalga ante o esquife político de Mussolini. O Sr. Bernanos conhece a eti- quêta. Para um intelectual que beija a mão de príncipes pa- lermas (não porque sejam palermas, o que constituiria um ato de humildade cristã, mas porque são de sangue azul, (olá!), não seria de bom tom deixar de pingar cêra no cortejo final do condottiere. O Sr. Bernanos é contra a idolatria do dinheiro. Hitler também era. Mussolini também. O socialismo do pintor de tabuletas e a revolução do inventor da Itália proletária deram a guerra. O Sr. Bernanos conservou-se historicamente mais mo- desto e reservado. Não teve nem sacadas nem estádios. Feliz- mente. Engoliria o mundo, em vez de galvanizá-lo. Porque a sua forma de anarquismo cristão mata à distância. Não é pes- simismo o que dêle emana, É tédio, o tédio dos avós que vivem demais e querem a tôda ocasião contar seus namoros frustros, suas desventuras banais, suas desilusões e seus mêdos.
Está provada a unidade do troglodita. Hitler-Mussolini, os produtos carnais da grande indústria burguesa, deram ao mundo a imagem do homem da caverna tecnizado. Contra êle ergueu- se o homem social, tecnizado também. Agora, quando o pri- mitivo estertora, aparece vestido de vigário o Sr. Bernanos. E que oferece o viático do Sr. Bernanos? A verdade, a unção, a Marselhesa, o Código Civil, a Restauração, enfim tudo que atra- palhe, retarde e distraia o saneamento do mundo.