Sobre o Romance Ponta de Lança · Capítulo 8 de 20
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Sobre o Romance

Sôbre o Romance

— Q UANDO parecia que essa forma de explicar a vida e portanto de orientá-la, ia entrar numa crise semelhante à do papel tomou ela proporções qualitativas que, reunidas ao nú- mero de palavras tornadas necessárias ao cosmorama, deram o roman-fleuve. — A França já havia reunido em noventa enredos a Co- média Humana de Balzac. Ficaram sendo exceção as jóias como o Asno de Luciano de Samosata, a Princesa de Cléves ou o Werther. O romance é sempre um tratado de filosofia, sem cátedra, sem terminologia especial e sem a responsabilidade de um sistema. .. — Mas o que faz o romance é a criação. É a restituição da vida sofrida pelo romancista. O papel do inconsciente é enorme. Não há diferença entre essa restituição e a da poesia.

À Carta a um Jovem Poeta de Rilke fica de pé. Quando a emoção se torna gesto, palavra. .. Converse com qualquer ro- mancista de verdade e êle dirá a você que não tomou parte consciente na elaboração de suas figuras. .. São uterinas. So- freram uma laboriosa maturação interior onde a censura não interveio. .. — Claro! Mas a cultura que não passa de censura é que dispõe da trama. Veja o debate do romance moderno como se tornou um debate cultural, um debate ideológico... — Quando começa o romance moderno? Eu creio que começa com as Memórias de Casanova. .. — Não diga isso. Então remontaríamos a Rabelais.. . Falemos do romance cronològicamente moderno. Deixemos até Flaubert e o Casanova objetivo que foi Maupassant. .. Deixemos isso tudo. — Comecemos então com Apollinaire... — Não. Apollinaire foi uma proeza modernista. Mas eu quero o romance mesmo. — Então, quem é que começa o romance moderno? — Joyce. Guarde a data da publicação do Ulisses. — E Thomas Mann e Proust? — Você citou bem. Mas ambos terminam e não começam. Terminam uma civilização. É preciso, no entanto, não confun- dir Mann e Proust, seria confundir a Alemanha com a França. Nem a ginástica da dupla Hitler-Pétain conseguiu isso. Mann é o fim do rápido e fulgurante humanismo alemão, digo alemão porque o humanismo continua... Enquanto Proust é a deli- qüescência a que chegou o laboratório da auto-análise da bur- guesia. . . — Não se esqueça de que a burguesia saiu do humanismo. — Enterrou o humanismo. Olhe a Alemanha, vive de mi- tos, cai de mito em mito e por isso eu nunca acreditei na bur- guesia alemã. A burguesia é realista, é inglêsa. Não produz Rosembergs. A Alemanha prosseguiu o seu feudalismo até hoje e por isso eu vejo o individualismo burguês como uma cor- rupção do humanismo, falo do humanismo clássico, o de Ro- terdão que deu Erasmo, como o de Giordano Bruno. A França só teve um humanista Montaigne. Depois disso foi cortesã ou regicida...

— Vamos parar! Você quer falar do romance ou não? Você nega que a França tenha dado os maiores romancistas do século passado? A Alemanha não cultiva êsse gênero. — A Alemanha deu só dois romancistas até hoje. Ambos do século XIX. Goethe e Mann. — Mann está vivo nos Estados Unidos. — Eu sei. Mas você não entende que, melhor do que ninguém, êle exprime o século passado? Mann é Goethe nos nossos dias, e não sai das fronteiras de Weimar. É incapaz de compreender o mundo atual. Estamos vendo isso na sua para- lisia ante os acontecimentos desta guerra. Talvez porque tivesse feito o levantamento de uma cultura, a cultura humanística bro- tada da Alfklarung. E ficasse marcado por êsse esforço. Há um romantismo que começa em Goethe e termina em Mann. É um ciclo. O romantismo que ficou clássico, porque justa- mente escapava ao que a burguesia tem de mais sincero e re- pugnante — a exaltação do lucro, frio. Ainda aí a Alemanha é diferente. Ela continua na Floresta Negra, devido, com cer- teza à derrota dos camponeses rebeldes que a Reforma sa- grou . . . — Você tem razão nesse ponto. Hitler quando conspi- rava contra o mundo e planejava os seus golpes espetaculares de Munique a Stalingrado, ia se inspirar, não nos mapas e grá- ficos dos seus estados maiores técnicos. Ia para a floresta... — Berchtesgaden. É Wagner. É Nietzsche, sua modesta contradição. É Bachofen. As tribos matriarcais... da velha Germânia. Mas não é Goethe nem Thomas Mann. Êsses for- mam um arco de cultura humanística diverso. .. — E o romance? — Estamos com êsses dois sucessores de Leibnitz, esta- mos no Romance. A Monada. Nem o jovem Werther nem os Buddenbrooks saem dessa linhagem da cultura antiburguesa. Há um drama célebre que nos dá a medida feudal de tôda a sen- sacionalização de que o alemão sofre, devido ao seu imenso atraso social.. . — A Honra... Sudermann. .. — Isso mesmo. A não ser n'A Montanha Mágica onde a Europa anterior a Lênin se defronta, analisa e exprime — que grande livro! — a não ser aí, todo Mann com seus ham- burgos encastelados no comércio, não está longe dos niebelun-

gen e, portanto, dos corredores fantasmais de outro enorme poeta — Rilke.. . — Mas o romance? — Há um só romance alemão que se distancia bem das trompas de Lohengrin. Ê Werther tornado Hans Castorp que vê um século inteiro — o século que há entre ambos — passar numa ilha cultural para onde foram conduzidos alguns náufra- gos da tuberculose e do mundo burguês. .. Não há solução em Mann... — Há! Não diga isso! Você não pode negar a importância daquele grito final d y A Montanha Mágica... — É o grito da cultura humanística contra a guerra.. . Mas o próprio Mann não soube achar o caminho para o dia seguinte da batalha do Marne. .. caminho que já fôra encon- trado a Leste. Meu caro, em matéria de romance nada há que marque o comêço de nossa era como um romance russo da última década. É a Energia de Gladkov, o seu grande livro, é o livro da humanidade que hoje os acontecimentos descorti- nam. É o romance da construção socialista. Então, já com êste nôvo marco, você pode ver claro na matéria que deba- temos. Há um marco final que é dado pela Montanha Mágica. Um marco inicial dado pela Energia, de Gladkov. E um grande marco antinormativo que é o Ulisses de Joyce. O resto é sub- literatura. — E Gide? E os inglêses. E Fontamara? — Um só inglês salvou a Inglaterra da Dunquerque inte- lectual, que voluptuosamente anunciava o gandismo de Huxley e êsse apodrecimento erótico-espiritual que representa Charles Morgan... Foi um deus que passou sem dinheiro pela terra. É D. H. Lawrence, o virilizador de todo um momento de va- cilação. E veja você que espetáculo nos ofereceu a burguesia mais avançada do mundo nessa época! Foi preciso uma mons- truosa operação escatológica para restabelecer a harmonia do homo-faber, perdido entre detetives e preconceitos, nos últimos labirintos do platonismo e da necrofilia... Morgan! — Ficam três então... Três romances. A Montanha Má- gica, o Ulisses e a Energia.

— E Lawrence, em função da decadência a que chegou a sua classe... Uma decadência que deu o clarão psicanalí- tico de Proust, as colegiadas de Gide e de Cocteau. — E a ala vanguardeira. .. Aragon e Malraux? — Uma espécie de comitê de libertação do mundo... com muita glória e poucas armas... — E a América? Você se esqueceu da América. .. — A América forneceu a mais bela ilustração para a Energia de Gladkov, A cidade de amanhã tem ainda uma re- taguarda agrária. É o caminhão que percorre as Vinhas da Ira. — Ora! Você só fala piada...

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