Sol da Meia-Noite Ponta de Lança · Capítulo 13 de 20
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Sol da Meia-Noite

Sol da Meia-Noite

P A R A M O S no burburinho iluminado da Avenida diante de um placará de jornal. Minha mulher leu: "Fontes autorizadas declaram que os alemães estão abandonando a Noruega". Tínha- mos acabado de assistir num cinema a Noite Sem Lua de John Steinbeck. E aquela simples informação telegráfica parecia ali, de repente, como uma aurora boreal no meio do drama tene- broso, de que saímos. A cidadezinha norueguesa ocupada pelos nazistas ia respirar. E nós também. Guardo da infância uma experiência do alemão que me deu ao mesmo tempo a medida da tirania e a suspeição da autoridade. Foi o presente pedagógico que aos meus treze anos ofertou, no Ginásio de São Bento, a didática alemã. Ao lado de professores amáveis e frades gordos de grandes testas luzentes, apareceu ali ensinando todas as cousas, conhe- cendo tôdas as disciplinas do começo do século, com um olhar

azul e frio que não permitia réplicas ou explicações, aquêle mesmo professor da Alsácia ocupada, quando a escola era "risonha e franca", em 70 e tantos. Comigo ia se dar, em estilo humorístico, o episódio do aluno que não sabia bem onde ficava a França no mapa, mas a tinha dentro do coração. Uma luta desigual, onde um Davi de calças curtas que, num grito interior e orgânico de autodefesa, encontra uma inesperada saída para estarrecer o didata monstruoso que o procura esmagar. Naturalmente o homem duro chamava-se Germano. Dr. Carlos Augusto Germano Knipeln. E era doutor. Herr Doktorrl Eu hoje, há muito tempo, aliás, sou também doutor. Como todo brasileiro que se preza de pertencer a uma geração de bacharéis em Direito. Gilberto Freyre que está saindo do seu meticuloso estudo do patriarcado açucareiro, para dar um interêsse nôvo ao nosso primeiro período republicano, deveria fazer a curva clínica da palavra doutor entre nós. Acredito que a disseminação dêsse qualificativo honorífico é filha de uma compensação urgida pelo nosso analfabetismo. Primeiro, só os médicos eram dou- tores, depois os bacharéis se apossaram do distintivo, com deses- pero dos que colavam grau em borla e capelo. Qualquer pân- dego espirrava da Academia com dez anos de "simplesmente grau 1" e era doutor. Em seguida os farmacêuticos viraram doutores, os dentistas também, enfim os banqueiros, os ferragistas, os leiloeiros. E os médicos, para não se confundir, chamaram-se professores, o que antes só indicava a modesta função de mestre- escola. Eu nunca me importei de me chamarem doutor, porque o meu é diferente. Assim como doutor Fausto. Talvez por causa de Margarida. Mas o professor germânico do ginásio onde estudei, era o mais estranho produto que já vi da doutorança indígena. Era isso que o tornava intolerável. Como se Hitler viesse ocupar entre nós a cadeira de Filosofia do Direito! Admi- te-se Hitler no campo de batalha, o capote estratégico, traçando em ângulos retos a destruição da Rússia soviética em seis sema- nas, etc. Mas ver um cabo empertigado sentar-se na cátedra donde sai a nossa iniciação do mundo! Meus treze anos moles, caseiros e sonhadores foram logo descobertos, no fundo da classe, onde se faziam flechas de papel cortado e berimbaus de pena Malat, pela truculência do mestre. Eu usava uma pastinha terrível precursora da de Verônica Lake. E êle um topête de dois andares. E entre o topête e a pastinha travou-se num plano

de açúcar-cande, a mesma luta que ontem me revolveu os bofes diante da tela onde se desenrolava a noite da ocupação norue- guesa, visionada por Steinbeck. Revi naquelas caras despudo- radas de sargentões o longínquo doutor Carlos Augusto Germano Knipeln, que Mefistófeles torre eternamente! Era o exame de Corografia do Brasil. Uma besteira. Está- vamos então muito longe dos estudos regionais com que o Sr. Tavares de Almeida se impõe ao entusiasmo do Prof. Monbeig. O alemão exigia tudo decoradinho. Nunca recorrera ao mapa para ensinar. Saber era de cor ! Até hoje sei assim as cidades do Pará, por ordem alfabética: "Alenquer, Bragança, Breves, Cametá, Cintra, Gurupá". E caiu para mim ante a classe acor- rida pelo combate que se prenunciava, um ponto que eu sabia. "Portos de segunda ordem". Mas eu sabia de cor, como o professor da cadeira exigia, nunca numa disposição cartográfica racional. — Não quero de cor... — Mas... doutor! Eu aprendi assim... o senhor... — Cale-se! Quero que o senhor faça uma viagem, uma estranha viagem, num navio que não pode entrar em nenhum pôrto de primeira ordem. O senhor vai sair no seu navio do Rio Grande do Sul e basta que me chegue a Pernambuco. Se, na viagem, entrar em qualquer pôrto de primeira ordem, será automàticamente reprovado. Comecei em Pôrto Alegre. Era pôrto. Tôrres. Daí pulei para Florianópolis, resvalei por Paranaguá e bordejei a costa paulista... Cananéia, Iguape, ia ancorar em Santos... Disse a tempo São Vicente. Era o pôrto das caravelas de Martim Afonso que eu tinha visto num piquenique do ginásio. .. São Sebastião, Vila Bela, Ubatuba, Parati, Angra dos Reis. Não podia mais. Exclamei: — Rio de Janeiro!... — Ignorante! Cínico! A classe ria. .. O homem triunfava. — Rio de Janeiro, pôrto de segunda ordem! — Doutor... — A capital da República! — Doutor, perdão, eu desci para ir de barca a Niterói!... A explosão de risos e pulos na sala liquidou o exame. Olhei atônito. O homem rubro expulsava-me da cadeira com um

gesto incisivo. Daí a meia hora saía a minha aprovação obsti- nadamente exigida pelos dois outros componentes da banca. Senti-me levantado pelos colegas. Era a réplica da infância ao alemão.

O nazismo deu forma à matéria do alemão. Nunca teve tão oportuna pesagem política o modêlo aristotélico. O alemão já executava o passo de ganso no fundo das páginas de Tácito e, nessa marcha, veio trazendo os arreganhos homicidas da ca- verna até à civilização da técnica. Nela viu a couraça e a blindagem, o gás químico e o avião semeador da morte. E criou sua forma histórica: Adolfo Hitler. Perguntava-me a revista Diretrizes, ultimamente, em enquête, que se devia fazer da Alemanha depois da guerra? Esfolar inteira? Comunizar? Entregar todinha aos noruegueses, aos gregos e aos russos? Aos filhos dos fuzilados, dos enforcados e dos bombardeados do mundo inteiro? Dá-la aos judeus? — Não! Ê preciso alfabe- tizar êsse monstrengo. Há dentro dela um raio esquivo de luz. É o do seu Humanismo. É o que vem de Goethe e através de Heine produz Thomaz Mann. A Alemanha racista, purista e recordista precisa ser educada pelo nosso mulato, pelo chinês, pelo índio mais atrasado do Peru ou do México, pelo africano do Sudão. E precisa ser misturada de uma vez para sempre. Precisa ser desfeita no melting-pot do futuro. Precisa mula- tizar-se.

Ao lado da bestialidade perfeita que o filme americano deu à ocupação nazista, colocou admiràvelmente em relêvo essa amorosa civilização brotada do espírito público que a Noruega e os países socializados da Europa nórdica representavam quando se deu a catástrofe de 39. Não tinham feição diversa as perso- nagens de Henrick Ibsen. É o mesmo povo, limpo, ordeiro e pacífico, mas capaz de morrer inteiro pela liberdade, o que Steinbeck recompõe em sua história.

Pela liberdade, nós também, os da América, somos capazes de dar a vida. Tôda a história do nosso continente, principal-

mente a história rica, dramática e colorida na América Latina, está coriscada de gestos libertários. E por isso estamos perfei- tamente dispostos a morrer pela liberdade da Noruega, ou da China, ou da Rússia. E por isso mesmo não nos devemos esque- cer que a essa luta pela liberdade que prende toda a terra num compromisso de destruição das três faces malditas do fascismo, está prêso um outro programa —o de fazermos nós mesmos a nossa liberdade econômica, a fim de se produzir, definitiva e segura, a nossa independência política. Se, de um lado, temos a palavra pública de Roosevelt, de Wallace, de Willkie, a fé jurada de Churchill e a presença ideológica de Stalin para nos assegurar que o mundo de amanhã não será um mundo de opres- são e de terror, de outro lado, sabemos que nossos povos têm sido secularmente jungidos a complots imperialistas que retardam o nosso progresso humano e entravam nossa marcha civilizada. Nós também temos nossa noite sem lua e dela precisamos sair. Nessa luta que terá que ser um complemento e o desfecho da outra, ao intelectual latino-americano está reservado um papel decisivo. Entre outras vantagens, a guerra nos trouxe esta — a de melhor nos conhecermos. Agora mesmo, acabo de levar à estação o casal argentino Oliverio Girondo. E nesse gaúcho perfeito, como em sua suave companheira Nora Lange, senti que os intelectuais conseguem nas horas de suspeição estender os braços por cima dos interêsses oportunistas. Outro seria o panorama americano, se conhecês- semos melhor as letras que produzimos, numa mesma expressão de virilidade nova e de terra acordada e num secular anseio de libertação. Oliverio Girondo é um mosqueteiro de 22. Enquanto nós aqui fazíamos a Semana turbulenta, apoiados por Paulo Prado, que agora, numa tarde bem sua, bem paulista, com o seu frio e sua côr de chuvisco, conduzimos à Consolação — Girondo e seus companheiros de Martin Fierro levavam a alma autêntica da Argentina para os mesmos rumos expressionais donde sairia a fala nova. Nada podemos esperar da Europa européia, para onde vivemos por tanto tempo voltados, com a luz de Paris em nossos espíritos. Foi uma época que terminou. Tínhamos pelo latino- americano um desprêzo que participava do conhecimento de nós mesmos, de nossos pobres recursos civilizados, perdidos no esma-

gamento de uma fiança torpe ligada à fome dos imperialismos. Mas hoje já sabemos que a América nossa deu dois grandes poetas: o chileno Neruda e o cubano Guillen. A língua hispano- americana já pode apresentar quatro romances notáveis: Don Segundo Sombra, Dona Bárbara, La Voragine e Los de Abajo. Um sem-número de moços trabalha a novela e o verso, o ensaio e a crítica na mesma labuta sincera e cultivada e na mesma desco- berta dos caminhos livres que o futuro indica. A presença de um escritor como o chileno Juan Uribe, que está entre nós, basta para nos dar uma idéia do que representa a cultura nova da América Latina. Conheçamo-nos melhor! Homens da auto- ridade e da ilustração de Girondo na Argentina, de Gilberto Freyre e Sérgio Milliet aqui, de Neruda no Chile, podiam iniciar uma campanha de aproximação dos intelectuais americanos capa- zes de superar a da busca de mercados que a guerra indicou para os produtos de nossas fazendas e de nossas fábricas. Se no meio da noite colonizadora que persiste nos horizontes nacionais de cada um de nossos povos, um sol se anuncia, é o que a inteligência autoriza. São os intelectuais que representam na América ainda bárbara e inculta, o meio-dia possível de amanhã. Aí estão Maria Rosa Oliver, Jorge Amado, tantos outros.

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