O Caminho Percorrido
O Caminho Percorrido (Conferência pronunciada em Belo Horizonte)
P E R G U N T O U - M E alguém se o título que dei a esta palestra O Caminho Percorrido indicava o trajeto ferroviário de São Paulo a Belo Horizonte. Não disse que não. E fiquei pensando nessa curiosa analogia em que a distância geográfica entre as duas capitais pode ilustrar uma etapa superada no tempo. O caminho percorrido de 22 a 44. São Paulo do Centenário, Belo Horizonte de Juscelino Kubitschek. Em 22, São Paulo come- çava. Hoje Belo Horizonte conclui. Porque enquanto Minas procura unificar o Brasil, São Paulo se dispersou em setenta panelas e foi preciso virmos a Belo Horizonte para dar o espe- táculo duma família solidária e respeitável. Indagar por que se processou na nossa capital a renovação literária é o mesmo que indagar por que se produziu em Minas Gerais a Inconfidência. Como houve as revoluções do ouro, houve a$ do café. Naquelas culminaram os intelectuais de Vila
Rica, nestas agiram como semáforos os modernistas de 22. Nunca se poderá desligar a Semana de Arte que se produziu em fevereiro, do levante do Forte de Copacabana que se veri- ficou em julho, no mesmo ano. Ambos os acontecimentos iriam marcar apenas a maioridade do Brasil. Essa maioridade fora prenunciada em Minas pelos inconfidentes. E que queriam os inconfidentes senão acertar o passo com o mundo, senão tirar o meridiano exato de nossa hora histórica? Hoje passou-se o tempo, os seus corpos voltaram ao solo da pátria. Um só não voltou. Porque daqui não saiu. Foi espalhado por tôda a terra brasileira. No entanto, que é feito da imagem do mártir de Vila Rica? Por que êle não estará nos nossos olhos como está nos nossos corações? É bem capaz de haver mais retratos de D. Maria I por êsse Brasil afora do que retratos de Tiradentes. Vamos dividir o movimento literário que deu essa messe de escritores, poetas e artistas de 22 para cá, ràpidamente estu- dar a Semana, suas condições internas e influências exteriores. Na Vila Rica do século XVIII havia os chefes rebeldes da tropa, prontos a sair, os heróicos padres carbonários, os homens que construiriam a lei nova, mas também havia os estudantes brasileiros na Europa. Em 22, o mesmo contato subversivo com a Europa se estabeleceu para dar fôrça e direção aos anseios subjetivos nacionais, autorizados agora pela primeira indústria, como o outro o fôra pela primeira mineração. E por que êsse anseio? Essa insatisfação era assim motivada em carta a Jefferson, por um dos nossos estudantes inconfidentes na Europa, José Joaquim da Maia:
"je suis brésilien et vous savez que ma malheureuse patrie gêmit dans un affreux esclavage que devient choque jour plus insupportable".
A insatisfação de 22 nos levara a Paris dentre duas guerras e no seu desdobramento foi mais longe. Levou brasileiros à Rússia e às terras que haviam inventado o fascismo. Graça Aranha vivia em Paris. Mais de um brasileiro pisou o país dos
sovietes. O Sr. Plínio Salgado preferiu a Alemanha e Portugal. O Sr. Tristão de Athayde fêz uma romaria à Palestina. Querer que a nossa evolução se processe sem a latitude dos países que avançam é a triste xenofobia que acabou numa macumba para turistas, particularmente tolerada pela Polícia Especial, e que nos quis infligir um dos grupos modernistas, o Verde-Amarelo, chefiado pelo Sr. Cassiano Ricardo. Para essa gente que se bipartiu depois na formação reacio- nária do Integralismo e da Bandeira, o desgraçado desembargador Tomás Antônio Gonzaga era um homem afastado dos proble- mas brasileiros porque cantava Marília e vestia de clâmide a sua poética lapidar. No entanto, Gonzaga e seus companheiros sentiram como ninguém a exaustão da terra escrava e apenas recobriram de pastores arcádicos o vulcão que trabalhavam nas entranhas políticas de Vila Rica. Foram os árcades que paga- ram com a vida o sonho siderúrgico de uma pátria liberta. Queriam decerto que Gonzaga fôsse um acadêmico de letras do século XVIII a serviço político do Visconde de Barba- cena, tecendo adulagens e blandícies a D. Maria I e ao regime colonial que nos conspurcava! Mas isso não se deu com os intelectuais mineiros do século XVIII. E felizmente não se deu com quase todos os intelec- tuais de 22. É preciso compreender o modernismo com suas causas materiais e fecundantes, hauridas no parque industrial de São Paulo, com seus compromissos de classe no período áureo- burguês do primeiro café valorizado, enfim com o seu lanci- nante divisor das águas que foi a Antropofagia nos prenúncios do abalo mundial de Wall-Síreet. O modernismo é um diagra- ma da alta do café, da quebra e da revolução brasileira. Quando o Sr. José Américo de Almeida mostrou a senda nova do romance social, se tinham já dividido em vendavais políticos os grupos literários saídos da Semana. A Semana dera a ganga expressional em que se envolveriam as bandeiras mais opostas. Dela sairia o Pau-Brasil, indicando uma poesia de exportação contra a velha poesia de importação que amarrava a nossa língua. E de Pau-Brasil sairia na direção do nosso primitivo, do "bom cani- bal" de Montaigne e Rousseau. Se me perguntarem o que é Pau-Brasil eu não vos indicarei o meu livro — paradigma de 1925, mas vos mostrarei os poetas que o superaram — Carlos
Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Ascenso Ferreira, Sérgio Milliet e Jorge de Lima. £ o Norte e o Sul. Se alguma coisa eu trouxe das minhas viagens à Europa dentre duas guerras, foi o Brasil mesmo. O primitivismo nativo era o nosso único achado de 22, o que acoroçoava então em nós, Blaise Cendrars êsse grande globe-trotter suíço já chamado "pirata do lago Le- mano", e que de fato veio se afogar, não numa praia nativa, mas num fundo de garrafa da política de Vichy. A Antropofagia foi na primeira década do modernismo, o ápice ideológico, o primeiro contato com nossa realidade política porque dividiu e orientou no sentido do futuro. Já se tinha destacado de nós o grupo verde-amarelo, sentado na tripeça perfeita dos Srs. Cassiano Ricardo, Plínio Salgado e Menotti Del Picchia. Tão perfeita de anseios para salvar o Brasil que deu o Integralismo de um lado, de outro a Bandeira. Na elucidação da questão da Antropofagia entra um ato de elegância do Sr. Tristão de Athayde que muito me como- veu. Antes de me referir a isso, quero fazer notar que o Sr. Tristão de Athayde está tingindo a cabeça de acaju. Esquece-se de que há pouco mais de um ano desejava em grandes artigos que a Rússia fôsse esmagada pela Alemanha nazista, pois seria logo em seguida posta nocaute pelos vencedores de Cassino. Agora já vê diferente e deseja retomar a posição contrita de crí- tico ao par. Nesse caminho, que aliás já vai trilhado por outros penitentes, teremos breve um viveiro de pavões vermelhos. Mas antes dessa remada para a esquerda, o leão da Academia que Agrippino Grieco chamou de "rei dos animais de farda" ou seja o inodoro e presidencial Sr. Múcio Leão deu à publicidade uma carta de Antônio de Alcântara Machado que lhe foi piedo- samente passada pelo crítico católico d* O Jornal, a fim de me xingar pela bôca de um morto. Quem havia de publicar essa carta senão a ratazana em môlho-pardo que é o Sr. Cassiano Ricardo? Nesse documento vem à tona o estado de sítio que proclamaram contra mim os amigos da véspera modernista de 22. Pretendia-se que eu fôsse esmagado pelo silêncio, talvez por ter lançado Mário de Andrade e prefaciado o primeiro livro de Antônio de Alcântara Machado. É êle mesmo quem depõe de além-túmulo. Tudo isso teria m vago interêsse ane- dótico se não viesse elucidar as atitudes políticas em que se bipartiu o grupo oriundo da Semana. Comigo ficaram Raul
Bopp, Osvaldo Costa, Jaime Adour da Câmara, Geraldo Ferraz e Clóvis de Gusmão. Abandonamos os salões e nos tornamos os vira-latas do modernismo. Veio 30. O outro grupo tomou os caminhos que levariam à revolução paulista de 32. Os vira- latas comeram cadeia, passaram fome, pularam muros, com exce- ção do poeta de Cobra Norato que estava no exílio de um con- sulado. É que a Antropofagia salvava o sentido do moder- nismo e pagava o tributo político de ter caminhado decidida- mente para o futuro. Mas aí já corriam os tempos novos, os do romance social, indicados pela publicação de Bagaceira e reivindicando outra fonte de interêsse nacional que, paralelamente com Pau-Brasil, segundo a crítica de Prudente de Morais Neto viera do Nor- deste. Começara a sociologia nativa e saudosista do Sr. Gilberto Freyre. E surgiu Jorge Amado, Graciliano Ramos, José Lins do Rêgo, Amando Fontes, Ciro dos Anjos e tantos outros. O importante dêsse crescimento de ciclo é o aparecimento de um novo personagem no romance nacional — o povo. É o povo que brota de Suor e de Jubiabá e que vem agora depor sôbre a vida do sul, na Fronteira Agreste do romancista Pedro Ivan de Martins. De 22 para cá, o escritor nacional não traiu o povo, antes o descobriu e o exaltou. Vêde o exemplo admirável de Jorge Amado. Ainda em 24, quando as primeiras bombardas da revolta paulista atroaram o céu da cidade ninguém compreendia nada. Os escritores estavam ausentes do movimento telúrico que se agitava. Estavam nos salões, Mas, em 24 nem o governo, nem os próprios revolucionários compreendiam nada. É assim mesmo que se processa a história, ela toma sentido nas reper- cussões e na soma dos fatos, nas suas decisões proféticas, no seu final balanço ideológico e político. Em 24, na hora zero de 5 de julho eu me achava com Blaise Cendrars na redação de O Correio Paulistano, quando no salão nobre penetrou o Presidente Carlos de Campos, alvo direto da revolta. Quem não conhecer êste episódio pensará que o Presidente fora ali tomar providências contra a rebelião, ou se ocultar! Não! Faltavam 15 minutos para a meia-noite. Mas ninguém sabia que aquêle 5 de julho ia inaugurar uma época na vida do Brasil. O Presidente paulista entrava como
sempre desprevenido, e sozinho, nessa noite em companhia de um amigo, no edifício do seu jornal, do jornal do govêrno, onde os redatores bocejavam de tédio ante os últimos telegramas e a calma da noite sem notícias. E que se passava lá fora nos quartéis? Soaram as doze pancadas e não estremeceu o relógio grande, nem a sala luxuosa, nem o edifício penumbroso. Con- versava-se calmamente sôbre a broca que assolava os cafèzais. Nas casernas agitadas matavam-se oficiais e praças e a tropa saía para os tumultos da cidade. Os quartéis já se tinham levan- tado. Quitaúna, a Luz, Sant'Anna. E o Presidente falava a mim e a Cendrars, com sua voz pausada: — Vou mandar os soldados da Força Pública atacarem a broca do café. Êles não fazem nada... De outro lado, os revolucionários não possuíam serviço secreto, ligação ou unidade de comando. Enquanto Miguel Costa, certo da derrota ante a teimosia da resistência presi- dencial nos Campos Elísios, mandava a Carlos de Campos uma carta oferecendo rendição honrosa, êste abandonava precipita- damente o Palácio pelo braço de um espião para receber no alvo combinado o tiro de misericórdia que daria desfecho à luta. Pela primeira vez na história militar, em vez da bala pro- curar o alvo, foi o alvo que procurou a bala. Tendo enguiçado um canhão que fazia tudo para mirar os Campos Elísios, e que só atingia o Centro, sugeriram ao Presidente que se dirigisse para a Secretaria da Segurança, onde seria massacrado. E êle foi! Os fatos se processaram assim, loucos, ilógicos, espantosos! No entanto como cresceu de sentido êsse episódio da nossa vida pública! Quem nos diz que da resistência civil de Carlos de Campos não sairia, pelo menos a tradição de uma resistência mais profunda na direção das conquistas liberais, dessas con- quistas que são seculares e indefectíveis em Minas? Quem nos diz que da sublevação de Miguel Costa não ia se marcar de esperança a insatisfação popular da gente do Brasil? Não havia muita coisa, no embornal dos revoltosos. Nem plano, nem ligação, nem caminhos. O então tenente João Alberto disse explicando o movimento: — "Não tínhamos dire- tivas, mas tínhamos vergonha." Havia qualquer cousa no ar que era a insubmissão contra os processos políticos que opri- miam a gente brasileira. E foi êsse sentimento ponderável de
oposição que forjou a vitória. Esse sentimento que nenhum técnico da angústia coletiva poderia localizar, pois é feito de interjeições desligadas de seus motivos, de caras torcidas ante a normalidade dos dias e de explosões díspares pelas quais a loucura pode ser só superficialmente responsabilizada. De 24, sairia êsse raide de semiloucos, que foi a Coluna. A Coluna que levava nos dentes dos cavalos e nos braços dos peões a História do Brasil. E sairia a revolução de 30. E sairia o Tenentismo, as alianças populares, finalmente o estopim da revolução que se hoje sangra de fogos novos na Europa em escuta, também sangra aqui nos cárceres de Tiradentes que a América reabriu. Com a guerra, chegamos aos dias presentes. E os intelec- tuais respondem a um inquérito. Se a sua missão é participar dos acontecimentos. Como não? Que será de nós, que somos as vozes da sociedade em transformação, portanto os seus juizes e guias, se deixarmos que outras forças influam e embaracem a marcha humana que começa? O inimigo está vivo e ainda age. Nada mais oportuno que citar o desmascaramento provocado pela sinceridade de um político continental, o qual colocou como ideólogos do neofascismo americano, no mesmo balaio, o Sr. Plínio Salgado e o Sr. Tristão de Athayde. Um simples esbarrão desastrado fêz sair a tinta fresca com que o crítico penitente estava procurando encobrir as côres de seu pernicioso e longo proselitismo reacionário. A união nacional diante do inimigo é um primado. União! Sim! Mas que se abram todos os cár- ceres políticos do Brasil! De resto sejamos generosos. Façamos crédito mesmo às conversões posteriores à épica de Stalingrado ! União! Os nossos soldados vão dar o seu sangue pela liberdade do mundo. União e anistia! E não turbemos a nossa jovialidade hospitaleira, nem mesmo diante das missas negras do Sr. George Bernanos e das coletas internacionais do Sr. Otto Maria Carpeaux. Para mim o que perde o Sr. Bernanos é a sutileza. A sutileza e os príncipes. Numa só palavra a restauração. Cha- maram-no já de Jeanne D'Arc de Barbacena. Não compreende o mundo futuro sem o Duque de Guise. Gosta de beijar a mão. Quando ruiu Mussolini, arranjou para êle mais de um álibi sentimental. Não sabia qual o Mussolini que se devia enforcar. Sempre a sutileza. Hesitava entre Benoit, Benito e Bento. Um
podia ficar para semente. Receio muito que Bernanos tenha um pouco de Jeanne D'Are e muito do Visconde de Barbacena. O outro europeu também surgiu entre nós com a guerra. Tinha sido secretário de Dollfuss. Imagino a tragédia dêste civilizado que vinha de Viena, e portanto, mesmo com Dollfuss, trazendo na alma uns laivos do Danúbio Azul. Dizem que a primeira pessoa que encontrou nos nossos meios literários foi o romancista nordestino José Lins do Rêgo. Não guardo nenhum rancor do escritor de Bangüê. Sei que no fundo êle é um bom rapaz, que nada tem de canibalesco como indicam — a quem não o conhece — a cara, o grito, o prazer pelo fute- bol. Para um vienense que tivera a infância ninada pelo Sonho de Valsa, tinha que suceder o que sucedeu. Repetiu-se no século XX a tragédia do alemão Hans Staden perdido aqui no mato denso da descoberta. Os óculos de José Lins, o seu dina- mismo, seus tapas nas costas, tudo repetia a frase alviçareira do morubixaba de Bertioga: — Aí vem nossa comida pulando! Otto Maria Carpeaux perdeu a fala, entregou os pontos. Passou a ser o mais humilde e açodado admirador da tribo do José Olímpio. Só eu fui excluído, talvez porque morasse em São Paulo de Piratininga, em pagos diversos e supostamente hostis. Daí por diante êle escreve, escreve, elucida, plagia, ensina, mas sobretudo badala... É o Bôca Larga de porta de livraria, o sacristão dos convertidos à nova cultura, a de Dollfuss, o enfor- cador, a que corveja sôbre o túmulo aberto num campo de con- centração nazista, para o corpo de Romain Rolland. Como vêdes, os tempos são conturbados e estranhos. As barbas do vizinho ardem por causa das jaculatórias que neste lado do Prata, faz de mãos postas o Sr. Tristão de Athayde. Há compensações, porém. Há esperança nos céus de Roma. E a luz continua a vir do Oriente, nas bôeas dos canhões que souberam esmagar os inimigos da vida. Ê preciso, porém, que saibamos ocupar nosso lugar na história contemporânea. Num mundo que se dividiu num com- bate só, não há lugar para neutros ou anfíbios. Já se foi o tempo em que, sorrindo dos que lutavam sem tréguas e muitas vêzes sem esperança, os estetas se divertiam dizendo aos cató- licos que eram comunistas e a êstes que eram católicos. O papel do intelectual e do artista é tão importante hoje como o do guerreiro de primeira linha. Tomai lugar em vossos tanques.
em vossos aviões, intelectuais de Minas! Trocai a serenata pela metralhadora! Parti em espírito com os soldados que vão deixar as suas vidas na carnificina que se trava por um mundo melhor. Defini vossa posição! Sois das mais fortes equipas de todos os tempos brasileiros. Mais que nunca, terra de poetas, terra de romancistas e narradores! Terra de sensibilidade inte- rior, terra de inteligência. Dois de vossos líderes, nos piores anos, nos anos da grande traição, permaneceram irredutíveis nas suas trincheiras de progresso e de democracia — Carlos Drummond de Andrade e Aníbal Monteiro Machado. Conser- vai como êles, o compromisso dos inconfidentes! Como nas vossas montanhas, introvertidas de ferro, tendes no vosso reco- lhimento o segredo das forjas de amanhã. Fabricai vossrs armas com o ouro de vossa vida interior ! E deixai para sempre os vossos complexos de isolamento mediterrâneo. Vinde com vossos irmãos de São Paulo, com vossos irmãos do Norte e do Sul, fazer com que se cumpram os destinos do Brasil! Tendes tudo, tendes a fôrça de vossa história, tendes a mulher de Minas, bela e sentimental, a que deu as sacrificadas do primeiro Brasil político — Bárbara Heliodora, Marília, Eugê- nia Maria de Jesus, a humilde anônima companheira do alferes Tiradentes. E tendes o sonho da terceira mineração. No pórtico de nossa literatura, se agigantam os dois guias de nosso destino intelectual — Euclides da Cunha e Machado de Assis. São as coordenadas mestras de nossa existência lite- rária. Fora de suas rotas, nada de legítimo sairá de nossa capa- cidade criadora. E que nos ensinam os mestres inegáveis? O pessimismo de Machado é um pessimismo de classe. Nêle, já existe fixado o germe de tôda uma sociedade condenada. Em Euclides, surge a esperança do povo, a mística do povo, a anunciação do povo brasileiro. Façamos da irmanação entre mineiros e paulistas, um fasto da fraternidade nacional. Façamos crédito à união que se anun- cia! Constatamos hoje que ficaram marcados aqui, vinte e dois anos de luta nesse trajeto. De São Paulo a Belo Horizonte. Aqui, neste ano da graça de 1944, viemos encontrar o marco da primeira etapa vencida. Belo Horizonte, a cidade perfeita, anuncia-se a Bayreuth brasileira, o refúgio criador da poesia e da arte que não dará com certeza, as centúrias hirsutas saídas da demagogia wagneriana, que hoje ajudamos a abater no
mundo em sangue. Mas êsse apaziguamento que reunirá um dia, sob o mesmo toldo de trabalho, e de fé, os homens de boa- vontade. Minas antiga nos dera as grandes lições da Inconfidência, as grandes lições do Aleijadinho. Das catedrais do silêncio e do minério vivo da liberdade, oculto nas montanhas que apa- recem amassadas pelas mãos de Deus, Minas moderna já nos havia prodigado o exemplo sem par da Penitenciária de Neves, que pelas mãos de José Maria d'Alkmin, está indicando à Amé- rica trágica de Sing-Sing e do Carandiru, que as portas abertas são os melhores caminhos da regeneração e de boa conduta. Agora, viemos encontrar na tarde opalina da Pampulha o cassino mágico. E do outro lado, a massa dos monges medievais com que o gênio arquitetônico de Oscar Niemeyer faria a única cate- dral capaz ainda de converter. Viemos encontrar um santo ensi- nando as artes da pintura como nos bons tempos do Renasci- mento ensinava Cimabué, ensinava o Perugino, Santo Alberto da Veiga Guignard. Viemos encontrar o teatro encantado, onde parece que já se movimentam, nos cenários do futuro, as florestas de Macbeth, as massas saídas de Górki e de Tolstói, e os meandros espessos onde Solveig canta esperando Peer Gynt. E viemos encontrar, mais do que isso, viemos espiar por uma fresta o mundo de amanhã. Foi aquêle almôço do restau- rante popular da cidade, onde as mães pobres, os garotinhos que seguram suas pobres calças remendadas em suspensórios que têm forma de cruz, onde velhos operários e moças de côr, sentam-se para comer a sua fome justa, numa fraternidade a que a música do rádio empresta um canto de vitória sôbre o mal, a desigualdade e a injustiça. E fomos ver os ambulatórios limpos do Hospital Municipal. O hospital de Odilon Behrens e o restaurante da cidade são, porém, manchas de sol vivo na escuridão dos dias torvos do presente. É preciso que a clareira seja inteiramente aberta! Porque estou convencido de que só seremos felizes sôbre a terra quando tôda a humanidade, num mundo redimido, comer à mesma mesa, com a mesma fome justa satisfeita, sob o mesmo tendal de fraternidade e de democracia.