O Coisa Ponta de Lança · Capítulo 15 de 20
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O Coisa

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Q UEM manda é o Coisa. Eu já te disse, é o Coisa. £ êle quem se eterniza e permanece. .. É o amorfo que sobe e domina! — Talvez você tenha razão. Enquanto os autênticos heróis se batem para transformar o mundo em algo de limpo e de melhor, de outro lado, no panorama da ocupação militar ou espiritual, os porcos prosperam. As verdadeiras capacidades se retiram do cenário confuso. Olhe, cada vez que deixo aquêle escritório silencioso, ali da Praça Ramos de Azevedo, que o Assis batizou de Ribeiro's Club, mais admiro e estimo o olímpico isolamento em que se situa o Samuel, longe das competições e das tricas, sorrindo na sua amável e estóica visão dos dias. — Êle não traduziu em vão o If de Kipling. E como o traduziu! Deve estar esfregando as mãos ante o espetáculo do fuça-fuça em que se tornou a complexa arena de nossos tempos.

Você já viu e notou como verdadeiros acessos de necrofilia agi- tam os homens de hoje? São capazes de tudo, de admitir o sacri- fício da família, da honra profissional, da dignidade e da ética por uma clavícula do poder e às vêzes simplesmente pela pro- messa duma tíbia do cadáver duma situação! É uma fome recalcada que não os deixa enxergar o dia seguinte. Os velhos politiqueiros que outrora sonhavam com cabos eleitorais vestidos de anjo, trazendo-lhes o cartuxo de procissão dos cargos, todos êsses intrépidos funâmbulos das urnas cegas de outrora, deram para se inscrever no concurso do pega-no-rabo-do-foguete. E fazem discursos com a mesma gaguejante emoção duma senhora de sessenta anos que festejasse o primeiro furtivo encontro. — Que diabo, você é injusto! Quer tirar êsse derradeiro regalo da vida a velhas raposas maltratadas por um bárbaro ostracismo? — Mas no mundo de hoje, êles não vão mandar nada. Quem manda no mundo de hoje? — O Coisa. — Ah! O Coisa manda. Ouça esta história que me contaram outro dia. Foi preciso apagar um incêndio. Mas o incêndio era na casa do adversário do Coisa. Então, os bom- beiros hesitaram em sair. Um dêles telefonou. E o Coisa res- pondeu: — "Eu não posso decidir nada. Não é comigo! Preciso ir consultar. Faça o fogo esperar!" — Já sei. A casa ardeu com o sujeito dentro. Os bom- beiros foram promovidos e felicitados. A ocupação tem o seu paraíso — a impunidade. — Mas acredita você que as ondas não sejam feitas de gôtas ínfimas de água, que os simuns devastadores não sejam construídos de grãos de areia? Acredita você que tudo que se processa à revelia da justiça, ficará docemente sem tribunais e sanções? Num mundo policiado e uno como é o de hoje? — Não entendo. Você afirma que quem manda é o Coisa. Logo a polícia é do Coisa. — De um lado é. Mas êsse é o tenebroso e efêmero avêsso da história contemporânea. Já vivemos dias piores. Houve tempo em que se ofereciam espadas aos ditadores pelo assassínio de milhões de inocentes. Hoje os velhos sonhos persas se concretizam, no cenário autêntico de Teerã, onde a espada

de Stalingrado foi entregue pela Terra da liberdade ao defensor dos direitos intangíveis do homem em sua ascensão... — Mas enquanto êles fazem isso, nos países ocupados... — Enquanto os gatos prosseguem a grande caçada, os camundongos sinistros se divertem no escuro da copa. Mas a ratazana está quase liquidada, a ratazana que virou o mundo de cabeça para baixo. O fim do monstro está próximo, bem próximo! — Quererá você afirmar, por exemplo, que os encontros decisivos dos chefes de hoje têm também por finalidade ditar ao mundo uma norma futura de bem viver... e resolver por- tanto que os camundongos divertidos de hoje serão por sua vez tratados a tiro de festim? — Ninguém impedirá que o processo histórico condene os que abusaram da escuridão para subverter todas as tradições da ética e da razão. Quererá você supor que o dia seguinte da guerra continue o panorama de apodrecimento a que assistimos? Quem viver verá! Olhe, já há sintomas curiosos de desadesão, de desconversa. Só mesmo os incautos e os caducos satisfazem a sua sêde nos festins de Baltazar. Só êles não enxergam as letras de fogo do Mane Tecei Fores que se inscreve nas farras do poder precário de hoje. — Você quer falar de Vichy? — Está claro... — Quem é o Coisa? — Nunca o vi mais gordo. — É uma adivinhação? — Pode ser o rei dos belgas, ou um esqueleto de farda ou um repolhudo que se dissimule nas côres mais vivas da ino- cência. Mas é sempre um burro, um burro chapado! —• Um burro! — Claro! Foi por acaso a lúcida inteligência francesa que se recusou a ir para a África do Norte e aí iniciar o que os americanos, inglêses e degaulistas organizaram? Foi o cérebro da França que ficou em Vichy? Eu tenho uma confiança abso- luta na inteligência. Há muito tempo — muitos anos antes de Stalingrado — que eu afirmo que Stalin é Júlio César, o homem da espada e do livro. Veja você como os intelectuais se impõem. Apesar de todos os Badoglios, a grande voz de Benedetto Croce

está sendo ouvida na Itália. A inteligência domina o mundo de hoje... — Então muita gente que realiza o presente sabujo e cínico pode ser salva? — Não confunda inteligência com malandragem, com trafi- cância, com habilidade. Acredita você que o povo não sabe o que se passa? — Ora o povo! Que pode fazer o povo diante dos carros blindados e das armas automáticas? — Com o seu sangue, o povo liquida situações e pode derrubar governos e sistemas. A história está cheia dêsses episó- dios. Ê o povo quem faz a história. Basta que cresça no povo a consciência da luta, a consciência dos seus deveres e, portanto, dos seus direitos! Era o que faltava no angustiante panorama do presente. Mas a indiferença está se acabando. Verifica-se isso em tôda parte... — Na França, na Dinamarca, na Noruega... — E o Coisa está ficando apavorado. É êle que ainda reage e manda matar, açoitado pelas obscuras forças que ainda tentam restabelecer o passado. Mas o dia seguinte não pode tardar. Então os Quislings de todos os feitios, tamanhos e idades hão de se alinhar diante dos tribunais inflexíveis do futuro. — Coitado do Coisa! Tão bom sujeito! — Olhe, o português da anedota já decidiu: — Quem não tem competência...

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