Aqui Foi o Sul que Venceu
Aqui Foi o Sul que Venceu
AL RAPIDEZ com que vão se processando os fatos deste século fez do homem um ser onipresente e tumultuário. O desastre que vitima aqui um passageiro de avião pode ser, imedia- tamente, sentido por um amigo seu da América do Norte, como o atropelo em que se despedaçam as divisões panzer na Ucrânia, entusiasma diante de um placard de jornal ou à voz de um microfone, à mesma hora latitudinal, um chinês, um australiano, um canadense e um brasileiro de Brotas ou de Goiânia. Tudo se atropela e justapõe. E as proesas outrora herméticas do surrealismo e do cubismo, são hoje menos complexas e obscuras que a contínua fotomontagem processada na cabeça quente do homem cotidiano e normal. Foi isso decerto que fêz com que um jovem se reclamasse o prestígio de pertencer à geração de 12 de agôsto de 1939, pois que agora era assim: após a geração de 22 que sucedeu a de Machado de Assis, tinha aparecido peno-
samente a de 30, em seguida a de 35, depois a de 36, a do 19 semestre de 1937, a do 29, enfim, a dêle. E como eu lhe perguntasse que tinham feito essas gerações, respondeu-me: — Estudado problemas. Na cabeça problemática dêsse rapaz o que havia era uma doença nova de que só a fotomontagem, no campo da ótica, pode dar um aproximado paralelo. Por fotomontagem, um bígamo casou três vêzes com a mesma mulher, só porque ela tinha outra cara, e um business-man conseguiu descontar o mesmo cheque em dois bancos. Por fotomontagem um sujeito morre e continua vivo transferido no sucessor conjugai, o que provoca pavorosas mágoas sentimentais no morto. Tudo se mistura, se interpenetra, é metade de uma coisa, metade de outra, peixe e lanterna, prego, astral e telefone. E um rebanho disciplinado e temeroso luta pelas monstruosidades do fascismo pensando que luta pelo espaço vital de seu povo, indo acabar sem pão nem terra, com a singular agravante de ainda provocar a inesperada fome de outros sonhos de espaço que dormiam. Ladrão veste de polícia, guarda-noturno leva galinha e um padre, segundo contou o Prof. Berardinelli, apareceu com uma icterícia de recém-casado. Para essa barafunda espetacular, existe uma caixa onde débito e crédito são acarreados no fim da labuta trágica de cada dia mundial. Essa caixa se chama Wall Street, e sôbre ela se ergue sólido e intransigente o burguês americano. Se o burguês foi uma figura simpática, e até revolucionária na história dos direitos das cidades e objeto mesmo de uma obra-prima de Rodin, uma coisa êle perdeu quando, tornado megalômano na América, se despiu da pouca ética que trazia na sua sacola de imigrado para se tornar o rei do prego, o príncipe do cachorro- quente ou o caudilho da parafina. A América do Norte teve êsse condão de despojar das últimas amarras da velha sensibilidade humana o seu burguês nativo, fazendo dêle um titão coroado com tôda a camelote analfabeta que o nôvo-rico carrega em sua saudade.
Não serei eu quem vá acusar e lamentar que a industria- lização americana tivesse ido até à guerra fratricida para libertar os escravos negros do Sul. Mas que fêz ela depois? Não deixa o negro entrar em restaurante, nem andar de bonde, fecha-o no
campo de concentração de Harlem e inventa uma forma inédita de se exercerem os direitos do homem branco — a linchocracia. No desenvolvimento do atual conflito, o negro dificultosa- mente conseguiu formar batalhões para combater pela liberdade dos outros. Não me consta que tenha sido admitido nas elites aliadas que encabeça a águia americana. Nesse assunto, uma grande lição tem pregado ao mundo a viva Inglaterra do commoti- wealth, incorporando em seus exércitos vigorosos, tudo, até o próprio inglês. O inglês vindo de qualquer deserto, ilha ou iceberg se bate, bate-se o americano e vai bater-se o brasileiro. Agora, que a cozinha da vitória funciona perfeitamente atirando à mesma lata de resíduos o grande fundador do Impero italiano, o fuehrer da raça imaculada e tôdas as galinhas verdes da cancerosa repercussão totalitária, cumpre dar uma espiada na manhã que vem surgindo. Para que foi tanto sangue gasto? Para que tantas mães choraram seus filhos desaparecidos nas terras de ninguém? Para que tantas viúvas moças se amorta- lharam e tantas crianças de tantos países vieram a conhecer o desespêro e a orfandade? Para, entre outras brincadeiras, conti- nuar intacto o mundo dos negros apartados como animais pelo sólido burguês de Wall Street? Perguntar-me-ão que tenho eu com isso, e eu responderei que neste Brasil luso-afro-europeu, nós representamos a vitória da civilização do Sul, vencida lá em cima pelas indústrias do Norte, no ano decisivo de 1866. E por essa razão, aqui o negro labuta, ama e produz irmanado pelo suor que o branco de qualquer extremo da terra vem trazer à construção de uma pátria nova que sempre quis ser livre.
Enquanto, nessa guerra de secessão entre o Norte industrial e Sul agrário, se decidiu por aquele o destino setentrional da América, o Brasil dormitava no interior dos currais, dos enge- nhos e das fazendas, mas no litoral andava numa estica que fazia inveja a Picadilly. Essa imagem do homem grave, de sobre- casaca e cartola, diante do mar, que vigora como símbolo da monarquia letrada entre nós, não tem somente o êxito de uma caricatura. Há nela qualquer coisa de comovente. Ela indica também, em meio da nossa confusa e retardada formação, a bússola que nos orientou na direção das conquistas ç vantagens
da independência. Percorram-se alguns livros indicativos da nossa progressão civilizada e veja-se como Nabuco e Eduardo Prado estão aí para acentuar a sólida repulsa que sempre nos ocasionou o homem de negócios insensível e frio, com olhos de dólar e unhas de coveiro, falando um slang de dar dor de ouvidos e incapaz de entender o nosso "homem ctírdiaT que muito bem identificou S&gfcí Fuarque de Holanda em suas Raízes do Brasil. No entanto, na própria América do Norte, temos uma faixa irmã — é a Luisiânia latina, católica e mestiça. Com essa podemos coincidir e nos entender. Não sem razão Gilberto Freyre volta para ela os seus amôres e preferências. Mas ela representa o Sul, vencido pelo industrialismo setentrional que dá o tom, o relógio e o câmbio ao mundo moderno. Se o Brasil é também o Sul, isto é, a mesma expressão de cultura agrária e sentimental, torrão de boa vontade e pátria do melting- pot, aqui não sofremos ainda a interferência deformadora dos grandes parvenus da era da máquina. Ao contrário, entre nós alastrou-se e criou raízes em coordenadas de superior inteli- gência humana, a característica civilização luso-tropical que nos ensinou a igualdade prática das raças e boa vontade como elo do trabalho, da cooperação e da vida. No continente americano, o Brasil é o Sul sensível e cordial que venceu.
Os puritanos do May-Flower não levavam sòmente a Bíblia para seu exílio fecundo, levavam também, além de espingardas, o livre exame, que havia de dar o gigantismo de Carlyle, a verti- calidade individual de Emerson e a Gestapo do super-homem nietzschiano. Evidentemente é Emerson quem melhor representa na América esta ascensão embriagada na direção dos cimos burgueses. Só a liberdade do lucro asseguraria para os seus pró-homens a vantagem mosaica da comunicação pessoal com Deus. Aos domingos. Pois, já se disse — na segunda-feira é com os advogados e demais exatores do capital que se entendem os varões de Wall Street, para mandar cristãmente esfolar a pele do próximo durante o resto da semana. Orgulhosos e distantes, montando guarda às suas prerrogativas que vão do racismo à usura, do tubaronismo à prepotência, são êles que agora se aproveitam do último ato da guerra para jogar no chão as
conquistas do New Deal e contrariar a orientação intervencio- nista e humanitária de Franklin Delano Roosevelt. E pior, querem fazer comparecer à mesa da paz, a fera insatisfeita dos seus apetites seculares. É a palavra autorizada do vice-presi- dente Wallace que adverte o mundo contra a ameaça dessa "nova tirania". Escutemo-la:
"Há poderosos grupos que esperam tirar partido da concentração de podêres no esfôrço de guerra para destruir tudo quanto Roosevelt tem feito nos últimos anos... Não era de desejar uma paz que nos livrasse do fascismo para cair sob o jugo dos governos de gangsters manobrados por trás dos bastidores, pelos imperialistas enlouquecidos pelo poder do dinheiro".
Toda vez que vejo um enviado cultural americano, lembro- me de um jurista que encontrei nas ruas escaldantes de Dacar, quando êste pôrto da África Ocidental Francesa não era ainda o trampolim frustrado da aventura nazista. Eu ia só no difícil afã de identificar naquela África áspera e solar, alguma coisa de minha terra, a comida, os costumes imediatos, os pretos altos e hercúleos, quando vi o americano de cachimbo, chapéu tropical e bengala imperialista passeando também. Era tal a cara de nojo que destilavam os seus passos conquistadores, que senti pouco a pouco uma irmanação senti- mental chorar no fundo de minha alma brasileira, por aquêles Ibrains que serviam os brancos com a humildade animal her- dada dos afagos e ternuras da primeira conquista. E senti, mesmo antes de ser politizado na direção do meu socialismo consciente, que era viável a ligação de todos os explorados da terra, a fim de se acabar com essa condenação de trabalharmos nos sete mares e nos cinco continentes e de ser racionado o leite nas casas das populações ativas do mundo, para New York e Chicago exibirem afrontosamente os seus castelos de aço, ergui- dos pelo suor aflito e continuado do proletário internacional.
Sociólogo ariano é, entre nós, geralmente prêto. Não sei que curiosa abstinência de altos direitos usam os que só deviam
se orgulhar da mistura milionária que nos trouxe a África, com seus grandes nagôs, seus filões de cultura sudanesa e oriental e seus rijos e álacres trabalhadores do Benin e de Angola. Geralmente são êles os detratores da mestiçagem, os que caluniam o Haiti de Toussant Louverture e aplaudem o "sanea- mento" aí feito pelos Estados Unidos. Se amanhã fôssemos "saneados" pelos tubarões de Wall Street, com certeza nesses escribas é que se poderiam apoiar as metralhadoras imperialistas e as razões de Estado da superioridade branca. E o pior é que, com máquinas, aparelhos e empreendimentos, viria também a sociologia americana, que já tem aqui antenas e radio-escutas. A tese de Oliveira Viana de que soubemos manter, para felicidade nossa, uma muralha racista no caldeamento, só pode ter uma lateral confirmação, suspeita e anacrônica, numa época do planalto de Piratininga ou nos campos do Sul. Mas que representa por exemplo a característica zona germanizada de Santa Catarina, esta autenticamente ariana, em face do Brasil uno que nos deu a poesia de Gonçalves Dias, o romance de Machado de Assis e a sociologia de Euclides, altos rumos da nacionalidade indicados pela mestiçagem? Será que a industria- lização de São Paulo seria fenômeno branco? Até que ponto? Branco quando? Como? E por quê? Eis aí assuntos e pesquisas que, estou certo, já foram objeto dos carinhos de nossas escolas de sociologia. E se foi assim, São Paulo seria, no paralelo da guerra de secessão americana, o Norte industrial e o Brasil remanescente o Sul, que evidentemente é quem produz o diapasão da cultura nacional que todos esposamos. E começariam novas questões quentinhas para a faina dos minuciosos pesquisadores. Se a indústria fêz de São Paulo o Norte e êste foi vencido pelo Sul, o Sul representou o quê? A civilização agrária e feudal? Não, porque São Paulo antes de ser parque industrial foi o café e, portanto, a fazenda e a terra. Tenham a palavra os chato-boys!
Euclides da Cunha dizia em 1907: "Ninguém pode prever quanto se avantajará um povo que, sem perder a energia essen- cial e a coragem física, das raças que o constituem, aparelha a sua personalidade robusta, impetuosa e primitiva com os recursos
da vida contemporânea. E nenhum outro, certo, no atual mo- mento histórico talvez gravíssimo, porque devem esperar-se tôdas as surpresas dêste renascer do Oriente. .. é mais apto a garantir a marcha, o ritmo e a diretriz da própria civilização européia". Há uma maneira de beber de um trago que se chama à la russe. Os russos souberam industrializar-se à la russe. Por que, num momento em que a fotomontagem triunfa, não poderemos nós realizar, também de um trago, nossa independência técnica, auxiliados pela boa ala americana? E beberemos então à la russe, à saúde de Franklin Delano Roosevelt.