Diante de Gil Vicente Ponta de Lança · Capítulo 14 de 20
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Diante de Gil Vicente

Diante de Gil Vicente

o s chato-boys estão de parabéns. Êles acharam o seu refúgio brilhante, a sua paixão vocacional talvez. É o teatro. Funcionários tristes da sociologia, quem havia de esperar dêsses parceiros dum cômodo sete-e-meio do documento, aquela jus- teza grandiosa que souberam imprimir ao Auto da Barca de Gil Vicente, levado à cena em nosso teatro principal? Honra aos que tiveram a audaciosa invenção de restaurar no palco um trecho do Shakespeare lusitano, com os elementos nativos que possuíam. Os Srs. Décio de Almeida Prado, Lourival Gomes Machado e Clóvis Graciano, secundados pela pequena troupe universitária, ficam credores de nossa admiração por terem rea- lizado diante do público um dos melhores espetáculos que São Paulo já viu. E São Paulo conhece grandes cousas. Viu o Êdipo de Gustavo Salvini como viu todo o modernismo de Bragaglia, viu Ibsen, as realizações telúricas do teatro popular

de Giovanni Grasso e as experiências da Lugné-Poe. Viu a Duse e viu Emma Grammatica. E chegou a levar nas mãos o carro vitorioso da judia Sarah Bernhardt. Em matéria de teatro nacional, não viu muito. Apenas as tentativas de Álvaro Moreyra e de Joraci Camargo inquietaram um pouco a nossa platéia. Mas caímos sempre na incapacidade de educar um certo número de espectadores para elevar o nível do nosso teatro às alturas que já alcançaram a poesia e o romance. Mesmo agora, no teatro universitário, o inexplicável de certas derrotas volta a preocupar os que se interessam pela melhor das artes, o teatro. O nome de um estreante, o Sr. Mário Neme, ficou indefensável junto ao de Martins Pena, este justificado apenas pela tradição, com seu cheiro de barata e seu velho armário mágico. Perguntei a alguém por que tinha sido dada ao Sr. Mário Neme a incumbência de fornecer uma peça ao teatro universi- tário. Responderam-me: — porque é um bom rapaz, vindo do interior e que escreve contos. As duas primeiras credenciais são inatacáveis. O Sr. Mário Neme é de fato a simpatia em pessoa e nosso dever é auxiliar todos os recém-chegados da lite- ratura que trazem a sua contribuição do interior. Mas, a terceira faz-me lembrar aquêle presidente da República Velha que, eleito e empossado, decidiu dar a um jornalista que pronunciara um brilhante discurso sôbre o café em Ribeirão Prêto, a pasta da Marinha. É o caso do Sr. Neme. É um modesto conteur e um pavoroso articulista que, pela amostra, nada tem de um homem de teatro. Aliás, o teatro exige ou uma paixão vocacional, caso do Sr. Joraci Camargo, ou uma cultura séria e especializada que enfrente e resolva seus altos problemas. Mas deixemos a dialogação frouxa que nos deu de chôro o Sr. Mário Neme, com aquela peninha pra atrapalhar de fazer saírem os atores da platéia, cousa que meu amigo Piolin faz melhor no circo — para voltar à glória da estréia do grupo universitário que montou Gil Vicente às alturas das intenções quinhentistas.

— Que Portugal! — dizia-me no intervalo um amigo que tem pela gente lusa uma paixão árabe, filha da grande mescla que amorenou o povo de Viriato. Veja você o valor peda-

gógico e persuasivo do teatro, quando o teatro é teatro, é criação e execução, é compostura e ação! Êstes meninos puseram-me diante dos olhos a presença silenciosa e mágica de Portugal. Que fartura de lições nos traz essa página clássica, onde não é só a pátria lusa que se restaura no seu vigor oceânico, mas onde o próprio cristianismo retoma a sua ética fundamental, dantesca e terrível! Fumamos um cigarro distraído e meu amigo prosseguiu: — Veja você como a perda do sentido político de um povo pode reduzi-lo ante o prestígio das armas automáticas! Portugal é maior que toda a Europa ocidental! Portugal é povo e foi sempre povo. A sua monarquia hamlética, macbética, levada dos diabos, regicida e valorosa, inconformada e desco- bridora foi povo. Portugal viveu sempre na célula livre do seu municipalismo. Foi isso que trouxe para o planalto paulista à sua inconformação conquistadora e o seu destino pioneiro. Somos portuguêses, graças a Deus! E portuguêses antigos, saídos dessa maravilhosa virilidade satírica e mística do Auto da Barcal — E o mulatismo de Martins Pena? — Martins Pena, creio que nunca foi mulato e mulato foi Machado de Assis.

Na sua valorização de Portugal, do Portugal de Gil Vicente e de Camões, meu amigo não esquecia de honrar a contribuição que nos trouxe a mescla negra. Um otimismo que me tomava de fé e me fazia crer nos destinos brasílicos. Caminhei para casa, esquecido já das chanchadas que tinham dado maior relêvo àquela grande nota do velho teatro luso. E um mundo de recor- dações portuguêsas me tomou. Portugal não existe apenas nos seus monumentos que ficaram sendo a história de pedra dêsse fim geográfico do Ocidente. Um fim que foi o comêço marí- timo do nôvo mundo e nos legou na América o seu mandato civilizador e a sua marca bandeirista. Revi, no meu culto, velhos conhecimentos. Aquela fabulosa abadia de Thomar, que visitei de nôvo, há quatro anos com Alves Redol, o mestre do romancei português de nossos dias. A grandiosidade camponesa de Alco- baça, a Batalha, a Pena, a Peninha e os Jerônimos. O gótico com a indicação marítima da corda e da cortiça. O gótico

dando nas beiradas atlânticas do Tejo. O gótico que não ousou descer a Itália mediterrânea, estacando em Milão, e viera trazido pelas mãos cancioneiras do medievo, lutar com o mosárabe e vencê-lo no fim do continente. Tudo isso é a história do sentimento português, fixada nas pedras do passado civil e religioso duma grande raça. E o povo? E a história contemporânea? Minhas recor- dações voltaram aos dias de ontem. Alves Redol, o autor dos Gaibeus e das Marés, levara-me a Vila Franca de Xira, para assis- tir à espera anual dos touros da estação. E eu vi na espera a ressurreição do povo sem temor, que todos os anos afronta nas ruas estreitas e apinhadas da pequena cidade de Estremadura, os touros ferozes, trazidos para as corridas. Touros soltos nas ruas, com os quais brinca o povo intemerato de Portugal. No dia seguinte foram as touradas. Desfilavam os capinhas e mata- dores, os cavaleiros e os moços de forcado, quando o povo que enchia o redondel percebeu que fôra iludido. O seu bandari- Iheiro favorito faltava. Carnicerito de México não estava na praça, à frente de seus companheiros. E assisti então a esta cousa inédita — o povo inteiro saltou das arquibancadas e das gerais e entupiu a arena, até aparecer carregado do hotel, o grande farpeador. Imagens a transpor diante da virilidade do auto de Gil Vicente, diante da virilidade do povo de Vila Franca de Xira. Porque não vi no Portugal do começo desta guerra, somente a coragem milenária e os monumentos de pedra. Vi, também, a miséria dos pescadores do Espinho, ante o mar raspado pelas companhias magnatas. Vi famílias tuberculosas habitando em promiscuidade as tocas do homem primitivo em Monsanto. E vi, em Lisboa, no foco do quintacolunismo de então, os diplo- matas inconscientes, os descrentes de Stalin, os torcedores de Munique, e instalado num hotel, à espera das legiões blindadas de Hitler, o Sr. Plínio Salgado.

Afinal, naqueles tempos fortes e decisivos do Auto da Barca, que significava morrer pelo Cristo senão morrer pela socie- dade? Morrem na peça, pelo Cristo místico da reconquista peninsular, os cavalheiros de Deus. E vão tomar assento na

barca da imortalidade, guardada por um anjo severo e incor- ruptível, Para os outros, para o juiz prevaricador e para c frade, para o usurário e a grande dama, abre-se a caravela danada de Caronte. Morrem hoje pela sociedade milhões de homens. Por trás do seu sacrifício, a usura acumula os seus últimos montes de dólares, a injustiça movimenta seus laços, a corrupção impera. E de nôvo o Auto da Barca arma, numa realidade mais que teatral, sua presença punitiva e solene. O anjo impassível espera, para conduzi-los à imortalidade, os defensores de Stalingrado, os cavaleiros blindados do deserto de El-Alamein, os operários e as operárias das retaguardas vigilantes, os que sabem dar vida, posição e futuro pela luta tutelar dos direitos do homem. Para os outros, para os últimos donos da acumulação, para os aproveitadores cínicos da vida, está armada a prancha, a prancha das condenações sem apêlo e sem glória.

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