Antes do Marco Zero
Antes do "Marco Zero"
S EGUNDO o Sr. Antônio Cândido eu seria o inventor do sarcasmo pelo sarcasmo. Meio século de sarcasmo! Contra quê? Contra o vento a quem a Prefeitura e o poeta Guilherme de Almeida entregam as folhas dos plátanos e as pernas das nor- malistas! A minha pena foi sempre dirigida contra os fracos. .. Olavo Bilac e Coelho Neto no pleno fastígio de sua glória. O próprio Graça Aranha quando quis se apossar do modernismo. Ataquei o verbalismo de Rui, a italianitá e a futilitá de Carlos Gomes, muito antes do incidente com Toscanini. Em pintura, abri o caminho de Tarsila. Bem antes, fôra eu o único a res- ponder, na hora, ao assalto desastrado com que Monteiro Lo- bato encerrou a carreira de Anita Malfatti. Fui quem escreveu contra o ambiente oficial e definitivo, o primeiro artigo sôbre Mário de Andrade e o primeiro sôbre Portinari. Soube tam- bém enfrentar o apogeu do verdismo e o Sr. Plínio Salgado.
Tudo isso não passou de sarcarmo e pilhéria! Porque a vigilante construção de minha crítica revisora nunca usou a maquilagem da sisudez nem o guarda-roupa da profundidade. O Sr. An- tônio Cândido e com êle muita gente simples confunde sério com cacête. Basta propedêuticamente chatear, alinhar coisas que ninguém suporta, utilizar uma terminologia de in-folio, para nesta terra, onde o bacharel de Cananéia é um símbolo fecundo, abrir-se em tôrao do nôvo Sumé a bocarra primitiva do homem da caverna e o caminho florido das posições. O caso do Sr. Antônio Cândido é típico. Estão aí, da sua idade, com valor tão ou mais autêntico do que o seu, o Sr. Luís Washington, o Sr. Rui Coelho, o Sr. Mário Schemberg, o Sr. Edmundo Rossi, o Sr. Almiro Rolmes, o Sr. Carlos Kopke e outros, mas o "crí- tico" ficou sendo êle. Fala já por delegação da posteridade e em nome dela decide. Para isso, de dentro do capote da "se- riedade" tira economicamente três sorrisos: um sorriso fino, um sorriso cético e um sorriso mineiro, neste último entrando algum latim e muita malandragem.
Foi com o sorriso fino que o Sr. Antônio Cândido encerrou o seu artigo de domingo. "Mas não será isso uma questão de gerações?"... Traduzindo, quer êle dizer que a geração de 22, que me deram de presente, "esquece freqüentemente no entu- siasmo do ataque, que o fundamento ético da crítica é a análise justificativa". Tomo com todo respeito êsse período que é uma jóia de fórum, e vou mostrar como a análise que acaba de fazer de minha obra o Sr. Antônio Cândido é, ao contrário, um modêlo de leviandade carrancuda. Vou apenas pôr à frente do seu pro- fessoral azedume a crítica serena e minuciosa, refletida e ilustre, de outro professor, o Sr. Roger Bastide, sobre o meu primeiro livro. A autoridade que invoco, não é a do catedrático de So- ciologia da Faculdade de Filosofia, de quem o Sr. Antônio Cân- dido é o assistente. É a do crítico mesmo, o crítico interessado, culto e constante que produziu entre todos, aquêle estudo ma- gistral sôbre a paisagem em Machado de Assis. Diz o Sr. An- tônio Cândido: "Feliz como solução técnica, Os Condenados são um romance falho como criação de personagens, como expressão dc humanidade." Afirma o Prof. Roger Bastide: "Nesse sen-
tido (do sentimento amoroso brasileiro) Os Condenados ocu- pariam no Brasil uma posição análoga à que ocupa na França Madame Bovary. Ê o fim de uma certa concepção do amor, é o ponto final de uma época que começou com Machado de Assis. Machado é a introdução do amor romântico no interior da família burguesa; Oswald é a decomposição dêsse roman- tismo amoroso." O Sr. Antônio Cândido, multiplicando tôda a sua argúcia cultivada no convívio universitário, não viu nada disso. A humanidade d' Os Condenados já fôra, no entanto, percebida há vinte anos pelo Sr. Carlos Drummond de Andrade que dizia: "Êsse romancista sabe torturar e sabe emocionar como os russos." E até pelo Sr. Afrânio Peixoto que situava meu romance de estréia entre Charles Louis Phillippe e Dos- toiévski. Monteiro Lobato afirmava: "A vida de Luquinhas res- salta vivida, primorosamente cinematografada." E o Sr. Astro- gildo Pereira, cuja importância é indiscutível, disse: Os Con- denados são o livro de uma geração," Mas vamos defrontar ainda. Afirma o Sr. Antônio Cândido: "São tentativas falhadas do romance revelando aliás um Oswald de Andrade diferente da lenda: profundamente sério, não raro comovido e roçando freqüentemente, por inabilidade, pelo ridículo de um patético fácil e gongórico". Esse patético, fácil e gongórico é visto assim pelo Sr. Rober Bastide: "A arte do Sr. Oswald de Andrade não é uma arte de análise, mas de síntese, de cons- trução e de condensação poética". "Ritmo geral, do comêço ao fim do livro, de uma fatalidade não externa, mas interna, interior a um mundo, e que o puxa de catástrofe em catástrofe, de tempestade em tempestade. . . " Bastaria para ilustrar a acusação que ficou no ar de que a geração do Sr. Antônio Cândido é séria e a de 22 leviana, a presença nesta do Sr. Sérgio Milliet. Evidentemente há um pe- queno equívoco no afirmar que a seriedade no Brasil teria come- çado com o Sr. Lourival Gomes Machado ou com o Sr. Ciro de Pádua, ou com o próprio Sr. Antônio Cândido. Aliás, o Sr. Antô- nio Cândido é mestre nessas descobertas: a poesia brasileira começou com o Sr. Rossini Camargo Guarnieri... Em 22 tínha- mos paralelamente a nós Gilberto Freyre. E a autoridade crítica do Sr. Prudente de Morais Neto garante que a brasilidade atual de nossa literatura decorreu de dois escritores — do Sr. Gilberto Freyre e de mim. O grave João Ribeiro já dissera: "O Sr. Os-
wald de Andrade, com o Pau-Brasil, marcou definitivamente uma época na poesia nacional". Sou obrigado a desatar êsse maço de cartas de namorado para confirmar o que insinuei: que o Sr. Antônio Cândido é que é trêfego, leviano e mineiro (mineiro no caso significa aluno do Caraça e sovina). Pelo menos êle o foi nesse artigo açodado de paixão partidária, mais feito a pedido de diversas famílias, para atirar um salva-vidas ao naufrágio modesto do Sr. Tito Batini, do que para me situar. Disponho-me a fazer chegar às mãos do jovem crítico as Memórias Sentimentais de João Mi- ramar. E aviso-o de que se trata do primeiro cadinho da nossa prosa nova. Prosa de que inütilmente os modernistas tentaram fazer moeda, pois veio logo o grupo — grupo e não geração do Sr. Antônio Cândido, voando pesado como Santa Rita Durão, normativo e gravibundo como se descendesse de Bulhão Pato. Eu costumo atirar a bola longe, não tenho culpa dela passar por cima da cabeça do Sr. Antônio Cândido e ir atingir sensibi- lidades mais vivas, mais altas ou mais jovens. Êle não deu nenhuma atenção, no seu balanço, à minha obra poética nem à profecia de meu Teatro. Outros darão. Para êle será falho Serafim Ponte Grande. Mas outros possuem os códigos úteis à exegese dêsse gran-finale do mundo burguês entre nós. Tam- bém para mim vai ser, entre outras delícias, uma experiência, a prova dos nove que espero com a próxima publicação do primeiro volume de Marco Zero. Quero ver como se portam o Sr, Antônio Cândido e seus chato-boys.
Uma informação que tenho a dar à juvenilidade do crítico que me ataca é a seguinte: Gôngora foi reabilitado. Hoje não é nenhum desaforo chamar de gongorismo ao feito estilístico ou verbal de alguém. Há quem afirme que de Gôngora saiu Mal- larmé, que dêle brotou a trama expressional e luxuriante dos sur- realistas. Quanto ao "gongorismo psicológico" dos meus velhos personagens da Trilogia é um êrro a mais. Êles são român- ticos e filhos, portanto, de uma deformação de ângulo que em nada é gongórica. Seriam mais rolandescos. Aliás, Gôngora é o oposto do cinema. E o Sr. Antônio Cândido afirma ser eu o iniciador da técnica cinematográfica do romance, pelo menos
no Brasil. No que ficamos? Sou gongórico ou cinemático? A elucidação culta do Prof. Roger Bastide decide, pondo em desta- que a fotomontagem d' Os Condenados. "Não nego que o estilo seja o estilo poético, pela sua riqueza, pela côr de seu vocabulário, a música de suas frases. Mas a poesia está sobre- tudo nessa brusca irrupção no meio das imagens presentes, das imagens passadas, imagens herdadas, sejam conquistadores portu- gueses ou negros portadores de bandeiras, 'pedaços anacrônicos de meia-idade', em plena São Paulo trepidante, febril, para a conquista do futuro. Não conheço nada mais belo no livro que esses momentos de super-impressão onde através dos arranha- céus que se elevam, os andaimes de construção, as usinas gigan- tescas e os homens ocupados na rua, bruscamente o Amazonas, o Amazonas da infância, da infância de Alma e de Jorge, desem- boca rompendo todas as frágeis barreiras da civilização e rola na sua onda formidável, seus troncos de árvores por entre os automóveis, suas ilhas arrancadas da margem por entre os cordões do Carnaval e afoga sob as águas do fundo da memória o atelier do escultor..."
Quanto ao Sr. Tito Batini, êle me apareceu com a mais alta das credenciais. Era um ferroviário que queria escrever. Se todos os ferroviários, que garantem com os seus braços o movimento e a vida do país, houvessem tido os estudos e as folgas que a burguesia oferta aos seus rebentos, com certeza eu e os modernistas de 22, o Sr. Antônio Cândido como os homens da sociografia, teríamos pela frente uma vigorosa equipe que representaria sem dúvida, mais do que nós, o presente e o futuro. Essa consideração bastaria para me fazer receber com efusiva acolhida o seu esfôrço. Além disso, uma especial genti- leza fazia o Sr. Tito Batini levar à minha casa os seus originais, antes de dá-los ao editor. É, pois, uma inverdade do Sr. Antônio Cândido dizer que eu critiquei sem analisar. Analisei mesmo antes do Sr. Octales Ferreira. Mas analisei penosamente, por que aquilo não era livro nem aqui nem em Lourenço Marques. Que faria a honestidade do Sr. Antônio Cândido no caso? Eu disse ao estreante com franqueza o mais delicadamente que pude, o que pensava. Êle trazia consigo um bom material, mas
sua obra se ressentia do verdolengo e do tôsco. Era preciso esperar» amadurecer. Um romance não se faz sem um longo recolhimento ou sem uma vocação excepcional e irrevogável. Dêsse dia em diante perdi um admirador. E se fêz, fogueteiro, o lançamento do escriba. O seu volume foi apadrinhado pelo guerrilheiro Rubem Braga, premiado por Diretrizes, traduzido pelo Sr, Putnan... Se houvesse prêmio Nobel, êle não escapava! Ao lado disso começou a brotar no editado uma importância insopitável. Ficou um pequeno-burguês triunfal! Ofereceram-lhe um almôço. Deu filantròpicamente o almôço. Depois escreveu um artigo. Um artigo com prefácio. "Pequeno Romance de um Almôço." Começou assim: "Prefácio — O título veio depois, quando bondosos amigos resolveram publicar essas síla- bas reunidas." Sílabas reunidas... Quem é que disse que o inconsciente também não faz piada? Essa não é minha, saiba o Sr. Antônio Cândido. É do seu afilhado póstumo. Êste trecho de seleta que aí vai também não tirei do diário de Serafim Ponte Grande. Ê dêle: "Agora estou andando pelas ruas vendo o povo que vibra e me lembrando da homenagem. Vou escrever uma carta!"