Poesia e Artes de Guerra
Poesia e Artes de Guerra
O HOMEM de bigodes ruivos fitou-me: — Você rima com o pretérito perfeito! De fato eu havia, sem perceber, cometido mais êsse crime contra a carta poética do passado. Tinha dito alguns versos ao homem sério:
Quando a luta sangrava Nas feridas que sangrei C'o alfinête na cabeça te deixei Adormecida no bosque te embalei Agora te acordei
— Não sou eu que rimo. Ê a poesia que vem no infinito dos verbos, no gerúndio, no pronome. Minha sacola é pobre.
Tenho a ignorância dos cancioneiros e meus recursos não vão além do§ da Gaya §çiçnz,a, §pu um homem da aurora.
Comprarei O pincel do Douanier Pra te pintar Levo pro nosso lar O piano periquito E o Reaâefs Digest Pra não tremer Quando morrer E te deixar Eu quero nunca te deixar Quero ficar Prêso ao teu amanhecer.
Percebi que o homem grave tinha uma vontade decidida de me espancar. — Escute mais:
Te apresentarei Tomás Moras Frederico Garcia Lorca, A sombra dos enforcados O sangue dos fuzilados Na calçada Das cidades inacessíveis.
-— Mas o que é isso? — perguntou-me o homem severo, indignado. — É a poesia de transição, poesia de guerra, poesia carro de assalto. Veja:
Transcontinental ictiossauro Lambe o mar Voa e revoa
A môça enastra Enforca, empala À espera eterna Do Natal Pesventra p ventre donde nasceu A neutra equipe dos sem luar No fundo fundo Po fundo maj:
Da podridão As sereias Anunciarão as searas.
Outra noite, Abguar Bastos, o romancista de Safra, entre- vistando-me para a revista Diretrizes, me fêz dar um largo pas- seio pelo começo desta era que viu D'Annunzio e o embaixador Davies. O assunto era um velho assunto, Como é que começou a renovação literária do Brasil? Quem foi que inventou a Se- mana de Arte Moderna? Em 22, nós, da Semana, agimos como semáforos. Anun- ciamos o que se cumpriu depois, o que está se cumprindo a nossos olhos.
Já é frase feita dizer que nossa época é terrível. Nela cam- peiam, sem freio e sem censura, a brutalidade, a ignorância e a mentira. Mundo da usurpação, mundo da mistificação, mundo da sofisticação. As grandes influências do século? D'Annunzio para o amor, Dumas-pai para a política. Conan Doyle para a moral. Os grandes êxtases: O Gibi e o futebol. Hitler nunca leu Nietzsche. Leu Os Três Mosqueteiros. E o povo alemão vai atrás d'Os Três Mosqueteiros! Mas não há nada que se salve no meio disso? Há! Há o mundo nôvo que penetra pelas frestas abertas da guerra. A fogueira tomou conta dos sete mares, os cinco continentes, do equador e dos pólos. O acelerado é dado tanto pelas metralha- doras da Wehrmacht, como pelas bombardas liberais dos in-
glêses. Mas quem começou? Quando começou? Por que co- meçou? Quando começou o pandemônio? Em 1917, com a entrada de Lênin na velha capital dos czares? Em 14, quando um estu- dante em Serajevo, alvejou o herdeiro do império austro-hun- garo? Ou antes, na batalha naval de Suiushima? Ou na guerra dos Boçrs, quç foi a primeira nota do séçulo anti-imperialista?
Passe-se dêsse fremente quadro de acontecimentos para o campo das letras e das artes e ver-se-á como também aqui se pronunciou o caos do mundo nôvo. Quando CCÍUCÇOU? Com o manifesto futurista de Marinetti, que afirmava ser a guerra a única higiene do mundo? (Êle talvez tivesse acertado se dissesse "de um mundo", do seu mundo, isto é, do mundo de Mussolini). Teria começado com a geometri- zação dos primeiros cubistas, de Picasso e de Braque? Ou antes, no óvulo do impressionismo, quando Cèzanne fêz tremer a cer- teza das oleografias geniais de Dominique Ingres? Ou com o gesto ingênuo do povo que vinha nos cartões postais do doua- nier Rousseau? No Brasil, sabe-se quando começou. Foi com a Semana de Arte Moderna de 22, que precedeu de alguns meses o levante dos Dezoito do Forte de Copacabana.
De fato, o julgamento contemporâneo não pode favorecer os artistas que exprimiam os tumultos de nossa época. Justifi- ca-se a má vontade: — quem vê de perto não vê. É neces- sário horizonte, distância, perspectiva. E o público não possui êsses binóculos. A crítica também. .. Ficam as fugas individuais para a mística e as fugas cole- tivas para os espetáculos murais. Uma alucinação toma conta das massas, para quem um verso bom ou o bombardeio de Berlim tem menos importância que um gol de Teleco. Mas a poesia persiste, cumpre sua missão, dá a sua men- sagem. De libertária com Mário de Andrade, passou a madura e renovada com Sérgio Milliet. A pintura também. De Anita e Tarsila passou a Portinari, através de seu mestre Di Cavalcanti.
A música também. De Vila-Lôbos a Mignone. A música, lá fora, já produziu em plena guerra a sinfonia da defesa de Le- ningrado. Shastakovich.
Tudo isso me veio à cabeça quando deixei o homem ruivo e severo, profundamente chocado com os humildes versos que lhe disse. Poesia e artes de guerra não podem ser frutos das vinhas da paz.