Carta a um Torcida Ponta de Lança · Capítulo 4 de 20
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Carta a um Torcida

Carta a um Torcida

M EU velho José Lins do Rego. Não tome o qualificativo como tratamento de intimidade, nem tampouco como nota de fichário. Velho vai aí no sentido de ancianidade perene e não no particular de desgaste. A gente nasce velho, dizia-me um dia em Paris o grande poeta e roman- cista Jules Suppervielle. E depois, todo o trabalho útil consiste no renovamento, na remoção do entulho de ancestralidade que cobre as adolescências suicidas, os mórbidos dezoito anos de cada um ou a crosta que caracteriza os vinte e cinco, os trinta e os quarenta — essa crosta feita de recalques e preconceitos, da qual somente as almas livres conseguem se desembaraçar. Have- ria juventude mais impertinente que a de Bernard Shaw, mais inquieta que a de Pirandello? E hoje onde está a mocidade dos pintores de vinte anos diante dos divinos jogos infantis em que

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se comprazem os sessenta de Picasso? Será preciso citar Winston Churchill? Você sabe pois que a idade não é cronológica. De modo que, quando lhe devolvo o epíteto de velho, não é porque você esteja quase me alcançando na casa dos cinqüenta ou dos setenta, nem me lembro mais... É porque, desde que teve bigode, você foi o maior ancião de nossas letras e o cacête mais tene- broso do Nordeste de livraria. Você quando escreve artigos, vira até velha, tal a insuportabilidade dos seus cacoetes vulgares, dos seus domésticos pontos de vista e dos seus rancorosos e insolúveis transes de idade-crítica. Não li a grosseira diatribe que você publicou contra mim, mas não me faltaram as boas almas que trazem sempre nos abraços o pêso do coice que recebemos à distância. Foram lhe dizer, consta, que eu envenenara aqui a brilhan- te polêmica que você manteve com um cronista esportivo sobre um beque do Corintians. Eu teria dito que, no calor da contro- vérsia, você ofendera São Paulo, o que deixava de ser plausível, pois você possui uma tal finura que quando abraça produz equimoses e quando quer valorizar o nome arrevesado do seu grande amigo, aquêle que foi secretário do primeiro ditador da Europa moderna, chama-o de Otto Rino Laringo Maria Car- peaux... Vou, antes de mais nada, lhe contar o que faz um homem educado, quando sabe que uma pessoa de suas boas relações de livraria, de rua e de mesa, poderia ter dito qualquer coisa de ofensivo ou maldoso a seu respeito. Pega no telefone, interpela pessoalmente num encontro, escreve uma carta ou verifica por terceiros se é ou não autêntico o aleive ou se se trata da simples manobra mentirosa de um caluniador. Será por acaso você um otário de pátio de estação que agarra o primeiro paco imagi- nário que lhe oferecem? Não. Você já chegou há muito tempo. Acredito mais numa segunda hipótese. Você inventou essa briga comigo para distrair a responsabilidade das pueris injú- rias que dirigiu a São Paulo por causa de um jogador de futebol. Senão vejamos! Verifiquei agora, por um jornal daqui que você escreveu isto: "São Paulo há de ficar com os campos despovoados, co- bertos de mato, quando vier a broca financeira"...

Era naturalmente uma bomba! Vista e examinada a bes- teira que fôra pesada pelo seu justo valor, teria você recorrido ao compatriota de Hitler que lhe serve de tony, o qual, depois de esgares, gestos e estalidos, sugeriria aquela gozada interpre- tação: campos? Você falara dos campos de futebol e a broca não era evidentemente a dos cafèzais!... A platéia paulista riria muito se não houvesse ficado por aqui um amargo gôsto de pedrada na bôca. Voltou você, em seguida, a perguntar ao seu diligente lago de picadeiro, como diminuir os efeitos da de- sastrada aventura e êle, depois de dois meses de telemorse, ter- se-ia feito compreender: — O-O-O-O-O-O-x-wold! — E passaria eu salvadora- mente, a ser o objeto de suas cafajestadas e o bode expiatório de suas ratas! Porque, primeiramente, tenho o natural descuido de um homem que trabalha, pelos seus arrazoados, mesmo quando versem sobre o ilustre zagueiro Domingos da Guia. Portanto, não seria eu quem fôsse azedar a morna coca-cola que você oferece pelas colunas dos jornais. Que tempo tenho para cons- tatar que você, como excelente torcida uniformizada, pulou a cêrca no jôgo de interesses Flamengo-Corintians? E que culpa tenho de você fazer do futebol uma espécie de nu-artístico, por cujas poses e quadros-vivos se desfalece na idade que caracteriza os seus entusiasmos? Você faz do futebol uma cantárida emocional para essa prematura velhice que cobre de teias de aranha a casa caída do seu talento de romancista. (Peço vênia aos amigos comuns para não dar a êste trecho uma interpretação escabrosa e a você que se certifique que seria idiota quem depreciar a fisiologia tempes- tuosa que sua truculência física autêntica.) Perfeito de funções, você, no entanto, nasceu velho de ca- beça e ficou campônio de destino, só conseguindo juvenilizar-se através de excitantes urbanos como foi, na sua primeira fase, o Integralismo e como é na atual, o futebol. A admiração que você, açodadamente vestindo a camisa-verde, descarregava sobre Plínio Salgado é a mesma que o faz urrar de braços erguidos na Avenida Rio Branco, diante de um feito espetacular do Flamengo. O que interessa sua alma tôsca e primária é o espetáculo, o mo- vimento e o aleguai, nunca o sentido e a essência.

E seria até muito salutar que você indicasse tão útil cami- nho de sublimações ao seu particular amigo Maria, cujo senti- mento de culpa deve ser maior e estar mais encurralado que o seu, pois, na história do fascismo, a figura sinistra do pseudo- mártir Dollfuss é muito mais importante que a do fracassado galinha-verde a quem você dedicou os seus primeiros arroubos políticos. Assim, iriam ambos nas efemérides, dentro dum táxi espantoso, para o campo do Vasco — êle gago de emoção, você aos berros e aos pinchos, nesse dionisíaco delírio que, dentro do mundo em fogo, ainda conseguem levantar para os eleitos, os pés de ferro de Domingos e o couro mágico de Leônidas. Apesar de indicar isso tudo que você cada vez mais se afas- ta da literatura e se atola no futebol, sei que não deixou de ter sido motivo das suas malcriações o fato de, num recente Tele- fonema para o Rio, haver eu colocado diante de suas suadas condecorações de violeiro, a figura de mestre do romance que vai sendo José Geraldo Vieira. Para êle, a maturidade serena e a velhice só podem ampliar a posição de humanista e firmar o clímax da criação. Para você, para os seus sessenta anos, sobra- rão os abraços dos craques, a carona na chopada dos clubes, a rouquidão e o espasmo dos estádios. Quem negará ao futebol êsse condão da catarse circense com que os velhos sabidos de Roma lambuzavam o pão triste das massas? Não podendo xingar o patrão que o rouba, o operário xinga os juizes da partida e pro- cura espancá-los, como se o bandeirinha mais próximo fosse o procurador da prepotência, do arbítrio e dos outros sinais do mundo injusto que o oprime. E você, o homem de esquerda, que deu, não nego, aquela série de romances úteis, os quais no fundo são a homeopatia gatafunhada de Casa Grande & Senzala, você que tem procurado ter nos últimos tempos diretivas progres- sistas, é quem pactua, na exaltação mórbida dêsse novo ópio, descoberto e enviado para cá pelos neo-romanos, amáveis civi- lizadores saídos do conúbio imperialista de Disraeli com a Rainha Vitória. É você quem defende, histérico e incisivo, a exploração de rapazes pobres, bruscamente retirados de seu meio laborioso, para o esplendor precário dos grandes cartazes e dos grossos cachês, a fim de despencarem depois de lá e ficarem como os potros quebrados nas corridas dos prados milionários. Que resta aos futebolers em declínio, senão o mesmo fu- turo de invalidez e de fome que faz, em Portugal, os toureiros

aposentados, pedincharem tostões, de muleta, no crepúsculo agi- tado dos redondéis? Não sei qual a solução social que se dá ao caso dos joga- dores inutilizados nos encontros e aos quais se nega qualquer renovação de contrato ou qualquer garantia que os socorra e indenize. Sei apenas que êles penosamente se mexem com água-no-joelho, canela furada, equimoses, tuberculoses e trau- mas, sem amparo e sem emprêgo, encostados muitas vêzes dra- maticamente à família pobre, donde os arrancaram. E você, com uma invejável alegria, é um dos mais alentados padrinhos dessa transferência nervosa que faz escoar para os gramados as energias do povo, narcotizado nas parcas horas que lhe sobra- riam para assuntar. Eis a orgulhosa fé de ofício com que você se apresenta, olhando com desaforo os que, como eu, nunca arranjaram assim, popularidade, êxito ou fixação nas prateleiras hierárquicas dêste fim de mundo. Nas letras, também está você definitivamente colocado. A posteridade já o julgou. Não há prefácio, concurso de Miss Literatura ou banquete que possa reacender o fogo-morto de sua obra de ficção. Você é o Coronel Lula do romance na- cional.

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