Destino da Tecnica Ponta de Lança · Capítulo 5 de 20
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Destino da Tecnica

Destino da Técnica

P E N S E I que você tratasse de outra maneira o assunto que abordou intitulando o seu artigo "O Intelectual e a Técnica." Acreditei que você fizesse uma digressão mais profunda sôbre as transformações da intelectualidade contemporânea, trazidas pelo desenvolvimento e conseqüente apogeu da era da máqui- na. . . — É um assunto tão vasto e tão candente que requereria não um artigo mas um vasto volume, se fôsse tentado o seu tratamento com o rigor de uma análise completa. Eu quis apenas dar um quadro da mudança de posição do intelectual, trazida por êste século. Pouco a pouco, o capitalismo, por bem ou por mal, perdeu o seu aspecto primário e grosseiro, aspecto que conservou enquanto pensava ser definitiva a vitória do lucro sôbre a razão... E pouco a pouco vai-se entregando nas mãos

da técnica e portanto do intelectual de nossos dias... É a ci- ência que acaba derrubando a aventura. .. — Se você conduzir até o fim o seu pensamento, acabará reabilitando tudo que foi por muito tempo desprezado. Que- rerá você insinuar que vão vigorar as loucuras de Augusto Comte e sua previsão de um govêrno do mundo por uma ditadura de sábios? — De uma maneira inesperada e creio que transitória, é o que está acontecendo. Outro dia assisti Roger Caillois fazer diante de Samuel Ribeiro, a apologia entusiástica de um ponto de vista proposto por James Burnham. .. Você conhece o livro intitulado A Revolução dos Managers? — Não conheço, mas deve ser uma dessas construções fan- tasistas, ou se você quiser, dessas digressões originais e auda- ciosas pelo campo da erudição e da cultura, de que Sorokin parece ser o representante máximo nos Estados Unidos. Uma espécie de Wells mais sério e mais ao p a r . . . — Talvez. Traz, em todo caso, a marca da literatura de uma era ciclópica, onde tudo se anuncia em grandes linhas. A sociologia que hoje interessa é justamente essa, uma espécie de sociologia de estádio, para ser vista na tela mais do que exami- nada no recolhimento de um gabinete de estudo. Justamente diante de Samuel Ribeiro que não escondia suas simpatias pela bota-de-sete-léguas de Sorokin e seus esquemas idealistas, o jo- vem cético francês opôs ao autor da Crise de Nossa Época a construção e a crítica do mundo moderno vistas por Burnhams. Para êste novidadeiro, destinado a grandes êxitos, há um erro de têrmos que faz com que o mundo em revolução seja ainda julgado pela ótica social de Marx. No entanto, diz êle, o mar- xismo já foi superado e, em todos os setores, são os técnicos, isto é, os verdadeiros intelectuais da era da máquina, que to- mam o poder, escapado das mãos aduncas e toscas dos proprie- tários de valores. E pouco a pouco é o técnico que empolga a herança milenária dos latifundiários e a herança recente dos empreendedores industriais. É a ciência que governa. .. — Que saudade você me traz da época em que eu brigava na Faculdade de Direito por causa do progresso retilíneo da sociedade, era um partidário exaltado do velho Pedro Lessa e queria com Moacir Pisa dar uma surra no padre-deputado Va- lois de Castro, por causa talvez de Herbert Spencer!

— Bem, no que há êrro é no retilíneo... Se êle tivesse utilizado como Marx da arma hegeliana de dois gumes, acertava no seu prognóstico progressista. — Já vem você com a dialética! Isso é uma consagração do subterfúgio.. . É uma palavra que liquida qualquer discus- são .. . É como o outracoisismo que o Léo Vaz quer tirar de Cocteau! Olhe, em certo cenáculo intelectual de Paris, proibiu-se o uso da palavra dialética. Só assim... — De fato. Quando sôbre alguém converge uma ponta de lança do pensamento lógico e vai-se assistir a uma espetacular empalação, o adversário desaparece no mais inédito desvio de corpo e fica sôbre o vácuo desconcertante a ofensiva mais pro- missora. Mas você não pode negar que a reabilitação provável do pensamento de Spencer só pode ser feita dialèticamente. .. — Eu prefiro falar sôbre o precursor da sociologia de es- tádio que foi Augusto Comte. . . — Os modernos são mais interessantes. Fizeram-me há dias presente de um dos melhores livros de Edmund Wilson, intitulado To the Finland Station. Ê a sociologia de estádio com que a burguesia se despede nas mãos da técnica. Ou querendo continuar, se desvia no labirinto suspeito de Max Eastman.. . — O trotskismo. .. — A ficção social contra a ciência. É o caráter que tomam essas bíblias da atualidade. Desde que os passos dos Césares foram anunciados pela sociologia ficcionista de Spengler, essas construções um pouco proféticas e muito saudosistas cantam o seu canto de cisne diante da vitória política da máquina. — Aliás Spengler sentiu a catástrofe... — Êle sentiu a derrota do homem fáustico, tornado nietzs- chiano e enfiado numa camisa ideológica. A sua exaltação do bárbaro tecnizado traz em si um pessimismo profético. Êle vê a proximidade do desenlace, o fim de uma contradição não dialética, mas lógica. . . — Por quê? — Porque se trata de uma contradição não suscetível de desenvolvimento e de progresso. — Não entendo. .. — Escute, a era da máquina traz no seu bôjo mais que as quatro liberdades de Churchill e, as sete de Wallace, traz em si a única liberdade a que o homem sèriamente aspira, a de se

libertar da natureza pela técnica, a de se tornar o senhor e não o escravo da máquina. No entanto, que fizeram os pastores cegos do individualismo? Utilizaram a ciência e a técnica para blindar suas legiões antropofágicas... Para espezinhar o vizinho e o antípoda em nome de princípios nascidos em outras con- dições econômicas e sociais.. . — E hoje superados... — Para desmentir portanto tôda a finalidade da ciência e da técnica, que é a paz e a igualdade entre os homens.

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